bazett fredericia
5.1 Node voltages and reconstruction of leads
“Você não acredita que a ame?” Frase que ele repete depois de uma pausa na qual faz referência a uma moça, “... em seu vestido de operária trabalhadora...”, “muito frágil”, “sem um gesto”, “com um olhar vago”, que viu na rua. Muito diferente do tipo físico e dos hábitos de Léa, “aquela muito linda que eu amava”. E a comparação é inevitável: a moça da rua “... pobre, pobre alma, alma tão dolorosa!”... Como saber da dor do outro? Como saber se a moça que ele encontrou na rua tinha dor na alma? Não seria ele o dono da dor de não ser correspondido no amor?
“... amo mais a você...”
O sexto, é o capítulo mais curto do livro: apenas quatro páginas, mas é nele que aparece uma situação original: a transcrição, sob forma de partitura, de uma música que Prince escuta numa ruela a caminho da casa de Léa.
A solidão é sentida nele e na rua:
“... um homem desce a rua; um operário; ei-lo; que solidão, que triste solidão, longe dos movimentos e da vida!”
“ O zelador dessa casa; ele está fumando cachimbo, olhando os passantes; ninguém passa, só eu; esse velho zelador gordo, o que faz ele olhando a solidão?”(p.72).
“ o bulevar; vou atravessar este espaço, ir ali; estarei no meio dessa gente; estão estarei lá longe, eu o mesmo, o mesmo ainda, lá e não mais aqui, e eu sempre; no alto e na frente, a Colina;” (p. 72).
“... se eu encontrasse algum amigo; é melhor, certamente, estar sozinho, andar uma bela noite livremente, sem finalidade, ao longo das ruas;” (p.72).
Ele se incomoda em não ser reconhecido: “Não conheço nenhuma dessas pessoas; será que me veem? Quem acreditam que eu seja?” O que faz lembrar as primeiras frases do capítulo I: “um entre outros, um como outros, distinto dos outros, semelhante aos outros, um mesmo e um a mais...” (p.15).
“... a calçada sonora, branca sob a brancura do céu claro e da lua; ao fundo, a lua no céu; o quarto alongado da lua branca, branco;” (p.71)
‘ ... um grupo de operários; a buzina do trem carregado de gente, dois cachorros atrás;” (p.72)
“claridades sob o céu claro”
Duas citações de Gomes são pertinentes quando se fala em aproximação, “quase natural”, entre poesia e música: “Esta tentativa de erguer a poesia à condição de música justifica-se pelo fato de a música ser fundamentalmente subjetiva e, em consequência, a mais sugestiva das artes” (GOMES, 1984).E ainda:“Em vista do desejo de alcançar o máximo de sugestão com a palavra e, recusando reproduzir os objetos, não é estranho que os simbolistas buscassem aproximar a poesia da música” (GOMES, 1984).
A introdução da partitura67 dentro do texto foi um recurso utilizado por Dujardin, que estudou música, e que chamou a atenção no final do século, causando incômodo em alguns, pois a “partitura” faz parte de um outro gênero. Como fazer saber o que estava “escrito” com as notas musicais para quem não sabia lê-las? Schuller salienta a “versatilidade” de James Joyce, em Ulisses:
“Joyce, concentrando a ação em algumas horas decorridas em uma única cidade, Dublin, foge, pela alusão, a todos os limites e, em transformações estilísticas que vão do catecismo ao monólogo interior, adapta-se às mais diversas situações: jornal, biblioteca, hospital, bordel, bar, alcova, indicando múltiplas direções para os romancistas da primeira metade do século”. (SCHULLER, 1989, p. 8).
“ um canto de realejo, uma ária dançante. Uma espécie de valsa, o ritmo de uma valsa lenta...”
Como queria Wagner, com a adequação arquitetônica para que os músicos não fossem vistos, não é preciso ver o instrumento para ouvir a sua música68. O que toca. O que faz sentir:
“ ... onde está o realejo?”
Prince ouve o instrumento numa rua próxima: “ ... onde está o realejo?”
67 “Dujardin, ao contrário do estilo precioso de alguns de seus contemporâneos, utiliza um estilo muito simples, “objectal”: ele chega a transcrever os sons de notas sobre a página. Nisso também ele foi precursor” (BANCQUART, 2010)
Fizemos um experimento com as partituras que Dujardin colocou no seu livro: nos valemos de um músico69para “decifrar” as notas musicais. São dois trechos que chamamos de primeira figura e segunda figura, para identificá-las melhor:
Primeira figura: si si / ré dó si lá mi
Segunda figura: sol/sol sol sol sol fá#mi/sol
Depois de identificar as notas, o músico explicou que com a o aporte da tecnologia seria possível submeter os dois trechos de partitura num programa que lê a partitura e transforma em som. E ainda com a possibilidade de escolher um instrumento para executá-lo. O instrumento escolhido foi um bem próximo ao som do realejo. Com esse recurso podemos “escutar” a mesma música que Prince ouviu numa rua de Paris:
Arquivos de som:
Figura 1: http://dl.dropbox.com/u/2317716/dujardin-fig1.mid
Figura 2: http://dl.dropbox.com/u/2317716/dujardin-fig2.mid
“a calma de uma voz que nasce, sob a paisagem calma, numa calma amorosa, e o desejo muito contido de uma voz nascente; e a voz respondente, equivalente e mais alta, ascendente, calma e contida, ascendente no desejo...
“O desejo muito contido”, ainda nascente e a “calma” da espera. Os movimentos do desejo combinando com os movimentos “ascendentes” da música. O capítulo termina com essa frase: “oh! Bela noite, assim tão livre, sem pensamento, assim tão só.” A ausência de pensamento causa efeito de alegria; podemos fazer uma analogia com um dos preceitos
budistas que prega o “nirvana” como sendo a ausência de pensamento. O estar só consigo mesmo. Pleno de vazio.