2 Distribuert kraftsystem
2.2 Node
Pode-se perceber que, socialmente, tem-se a ideia de que os LGBT, em especial as Travestis, não possuem uma boa relação familiar, e que as famílias são responsáveis pelos primeiros processos de exclusão social. Como pode ser visto na literatura cientifica, nas noticias de jornais, nos filmes, esta é uma realidade que atinge grande parte das pessoas LGBT (GURGEL, 2013; KULINCK, 2008; BENTO, 2012; ORTNAT, 2012). Diante desta questão, retornamos aos escritos de Joël Candau (2014) e sua crítica às ideias de memória coletiva, quando faz uso das Retóricas Holistas, ou seja, as proposições que generalizam determinada realidade social.
As imagens da família são diversas, desde as mais tradicionais, que têm seus postulados numa ideia religiosa e de núcleo de manutenção da sociedade, até as novas configurações familiares, tais como as famílias formadas por pessoas do mesmo sexo, ou por amigos e amigas escolhidos através do cotidiano. Como aponta Patrícia Helena Carvalho
Holanda (2012, p. 448), a família enquanto instituição social, vem passando por diversas transformações ao longo do tempo, por isso, quando se pensa nesta instituição, é preciso situá-la no tempo e no espaço. Assim, diante de uma perspectiva genealógica, “[...] a instituição familiar passou do formato patriarcal para o modelo burguês de família, até chegar os dias atuais, em que são múltiplas as suas configurações e arranjos.”.
Nessa perspectiva, diante destas diversas possibilidades de família e de relações familiares, e partindo de uma desconfiança sobre os discursos generalizados sobre família e travestilidades, pedimos licença ao leitor para apresentarmos, de forma mais densa, as histórias de vida das entrevistadas em relação à família, já que, como será visualizado no final, a análise será feita com conjunto, já que há experiências que cruzam a histórias das participantes.
Laura
Laura: A minha história de vida começa em Juazeiro do Norte-Ceará no bairro Limoeiro, onde eu nasci e me criei, até hoje. Passei um pouco de tempo no Estado da Bahia. Não tive nada que me abalasse psicologicamente, pelo fato de eu ser homossexual, sempre foi aquela infância boa, ótima, sem nenhum obstáculo com a família, sociedade entre aspas ...
Antoniel: Como assim, entre aspas?
Laura: Entre aspas assim, vamos se dizer, sempre você é barrada, você é apedrejada, vamos se dizer, sempre colocam uma pedra no seu caminho. Antoniel: Mesmo você sendo um homossexual?
Laura: É, mesmo que você seja gay, sempre colocam uma pedra, sempre, sempre. Colocam um obstáculo pra você não querer, e pra mim também não foi. Acho que eu procurei um caminho assim totalmente diferente, assim, sempre procurei mostrar para minha mãe que eu ia ser capaz de fazer alguma coisa pra mostrar pra ela, que ela não vai se arrepender, nunca ia se arrepender, assim, pelo fato de ela ter criado um filho homossexual e com 19 anos, pra 20, virar travesti.
Antoniel: Como é sua família? Você tem irmãos?
Laura: Somos 7, no caso, é 2 mulheres, comigo 3, e 4 homens, ai no caso é 7, 3 mulheres e 4 homens.
Antoniel: Como foi falar da sua homossexualidade para sua família?
Laura: Com 15 anos, eu não tava mais pra se fechar, tava muito, com minha cabeça muito doida, eu queria dizer, eu queria abrir pra todo mundo, ai eu cheguei pra minha mãe, 15 anos e disse: ~Mãe eu tenho que dizer um negócio a senhora, eu sou gay, gosto de homem. – A não, não acredito! To
mentindo, to mentindo, ela não disse isso. – Pois se for né, vamos ajeitar, vamos fazer alguma coisa, vamos estudar isso, vamos esclarecer, vamos aconselhar, não vou jogar você pra fora de casa, simplesmente eu vou educar, simplesmente eu vou acolher, até hoje ela faz. 15, 16, 17 anos comecei a trabalhar como cabelereiro.
Antoniel: E como foi na sua família quando você começou o processo de mudança?
Laura: eu fui me modificando vestindo roupa de mulher, quando eu não aguentei mais fui para uma festa, porrei, porrei mesmo, tomei tantas, e quando eu cheguei em casa: ~Eu vou lá pra casa da minha mãe desse jeito. Eu quero lá saber, eu não vou mais esconder pra ela não. Eu num cheguei pra ela e disse que era gay... Isso eu sozinha viu, matutando no meio do caminho, beba varrida, perturbada do juízo [nesse momento começamos a sorrir] ela sabe que eu sou gay ela vai saber que eu sou travesti. Até hoje sou travesti, e na casa dela. Oxi, de repente ela se acorda muito cedo, cheguei lá: ~ Mãe? ... Eu pensava que eu ia entrar direto para o quarto, tirar a roupa. Não, ela me pegou logo de cara, disse: - Oxi, que diabo é isso? ... Eu sem saber me maquiar, aquelas sobrinhas bestas, cílios, aquele negócio todo, batom, blush, que eu nem sabia botar o blush naquela época, era só tapa, ela disse: - Oxi, que diabo é isso? ~Mãe vou dizer a verdade, vou ser travesti a partir de hoje. – Não acredito não! ~Vou. Ela disse: - Não acredito não João que você vai fazer uma coisa dessa não. Eu disse: ~Mãe é eu, eu não to me gostando desse jeito assim, antes, eu to me gostando assim, eu quero ser assim. – Não, não pode não. Sim, ela disse assim: - Você vai mesmo querer ser assim? Eu disse: ~Vou. ... – Você vai morar na minha casa? ~Com certeza eu vou morar na sua casa, se a senhora quiser que eu vá pra fora de casa eu arranjo minhas roupas e vou agora. ... – Não João, você não precisa fazer isso que sou eu sou sua mãe e você é meu filho. Não, vou lhe aconselhar, você vai morar aqui dentro de casa, mas você vai ter regras. Não vou dizer, regras que vai abalar você, vai ser regras, se comportar. Como é se comportar [?] perante a família, perante os meus outros filhos, aquele negócio todo, perante a sociedade. ... Por que ela é bem cabeça, minha mãe, até hoje ela ama meus amigos, ama minhas amigas que é travesti igual a mim. Ave Maria, ai ela aceitou, ela me aconselhou, ela me educou como travesti também, como eu sou hoje, agradeço a ela42.
Marcela
Antoniel: Como eram suas relações familiares?
Marcela: No começo havia uma má aceitação, mesmo quando a gente é bem aceito em casa, mais sempre tem os irmãos que não gosta, mas com minha mãe e meu pai nuca tive problemas, principalmente quando eles descobriram. Eu mesmo contei pela minha boca, o que eu era, e o que eu sou, e não tive problemas com eles. Desde os meus 12 anos eu me assumi, por que quando nasce assim, não tem pra onde correr pra outra coisa.
Antoniel: Você tem irmãos?
42 Entrevista realizada em 21/05/2016.
Marcela: São 16 irmãos, entre homens e mulheres são 8 e 8, e nasceu eu, uma quase mulher43.
Íris
Íris: Eu sempre tive a minha família bem próximo a mim. Quer dizer, nem tanto assim, sempre tive uma parte da minha família bem perto.
Antoniel: Como assim, uma parte?
Íris: Eu tive meus pais juntos até os meus 12 anos de idade, ai eles se separaram e foi a partir desse momento que minha vida por completo começou a mudar. Quando eu era criança, com 8, 9, 10 anos, eu já sabia que eu não era como meus colegas meus primos, que eu era uma pessoa diferente. Então de certa forma ter meus pais juntos, estava me atrapalhando para que eu mostrasse quem eu era de verdade.
Antoniel: Por que motivos eles separados era mais confortável para você? Íris: Por que meu pai é uma pessoa bastante complicada de se entender, ele é homofóbico, então escutava coisas que ele falava, e isso acabava me dando medo, e eu pensava: meus Deus o que vai ser de mim. Ai quando eles se separaram eu fui morar com minha mãe, e sempre senti que com minha mãe eu tinha uma proteção bem maior, então come ela eu já me sentia mais a vontade para contar tudo44.
Adriana
Adriana: Minha história de vida foi bem normal, assim como a história de vida de todos assim como eu. Nasci em 1990, sempre morei com meus pais numa casinha humilde, meu pai sempre trabalhou como carpinteiro, a minha mãe trabalhou em escola e tenho três irmãos, dois moram comigo junto com meus pais, e minha vida é uma vida normal, uma vida humilde45.
As experiências de travestilidades são marcadas por processos de identificação e orientação sexual, que, na grande maioria das vezes, é homo orientada. Deste modo, antes de se construir como travesti estas pessoas se identificam temporariamente como homossexuais, ou, como Laura diz, como um “gayzinho”.
João Jorge Raupp Gurgel (2013), em seu estudo sobre a homofobia nas famílias, aponta que as construções sociais sobre o ser masculino e feminino se iniciam na família, sendo este marcado, em especial no nordeste, por uma ideia de homem que é superior, viril e violento, ativo e poligâmico, enquanto a mulher representa o oposto. E, detrimento disso, é
43 Entrevista realizada em 19/09/2016.
44
Entrevista realizada em 01/03/2017. 45 Entrevista realizada em 01/06/2017.
necessário que os meninos aprendam a ser homem, para não serem tachados nos espaços públicos como “veados”.
Com relação ao “veado”, o que vai caracterizar é a sua passividade em uma relação homogenital com outra pessoa do sexo biológico. Desta forma, para a cultura brasileira, quando dois homens têm esta forma de relação sexual, o ativo na relação não se considera inferior aos outros homens. Para nossa cultura, o que é desenhado é a posição de passividade nesta relação (GURGEL, 2013, p. 66).
Diante destes apontamentos teóricos, e analisando as falas de Íris em relação ao seu pai, e a sua sensação de, desde criança, já sentir algo diferente em relação aos outros meninos, surgem indagações sobre como foram os processos de subjetivação do pai de Íris, e quais suas visão de mundo em relação às pessoas homossexuais e transgêneras, algo que não foi possível conhecer nesta investigação. Íris tinha medo das reações homofóbicas do seu pai por conta de seu comportamento, e via em sua mãe uma fonte de segurança e proteção, sendo talvez este o grande motivo de ter achado positivo a separação dos seus pais.
A família é um local onde os laços e sentimentos afetivos estão presentes, como pode ser visto nas trajetórias de vida apresentadas, apesar de todos os problemas que estas pessoas enfrentaram sempre fazem destaque a suas famílias, como local de apoio e ponto de refúgio. Como pode ser visto na fala de Marcela e Adriana, a figura dos pais, enquanto pessoas que as apoiam e que a estes devem contar sua orientação sexual para que estes não fiquem sabendo por terceiros, é um meio de fortalecimento dos laços familiares.
Andrew Solomon (2013), em seus estudos com crianças transgêneros, escreve:
Uma pessoa pode ser gay sem nunca ter tido relações carnais com uma pessoa de seu gênero; e pode ser trans e se apresentar apenas com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer. Os que ignoram a cultura de homossexuais e transgêneros tendem a confundi-los, e com razão: a homofobia sempre teve como alvo a não conformidade de gênero. Existem diferenças incomensuráveis entre o garoto estranho que gosta de revistas de moda e decoração, e o ídolo de futebol americano da escola que prefere fazer sexo com homens. Embora o esportista se depare com dificuldades legais se quiser se casar com um homem, e talvez ouça gracinhas de seus companheiros de equipe se estes ficarem sabendo, nunca vai enfrentar as mesmas ofensas cotidianas que fazem da vida do garoto estranho um inferno (SOLOMON, 2013, p. 451).
Como aponta o autor, as crianças podem ter identificações com o outro gênero na fase da infância, sem que isto represente uma futura homossexualidade, mas diante das construções históricas e sociais para os gêneros, há ideia de que as sexualidades não
orientadas para o sexo oposto sempre se apresentam a partir de identificações contrárias. Assim, quando Íris aponta que, desde a infância, percebia diferenças entre ela e seus amigos e primos por conta de se identificar com artefatos femininos, (o que não necessariamente representaria uma homossexualidade) seu pai, ao que se pode inferir, tinha atitudes homofóbicas, possivelmente de correção comportamental, para um retorno à continuidade do sistema sexo-gênero, mas tais inferências se dão apenas no campo especulativo, não no campo concreto, uma vez que a entrevistada não quis se aprofundar nesta questão.
As discussões apresentadas sobre família e sexualidades (homo e trans), muito se parecem com as questões família e deficiência, principalmente quando se pensa na figura materna, a mãe, que é o porto seguro destas pessoas que socialmente são vistas com olhos tortuosos na sociedade, pois as diferenças sexuais e físicas escapam das construções de normalidade, como diz Francisca Geny Lustosa (2015, p. 184): “Saber da “diferença” de um filho tem um significado para cada mãe, mostrando-se sobre várias facetas, ainda que inicialmente, permaneça a marca de ser algo desconhecido para cada uma delas [...]”.
Acreditamos que esta mesma proposição das mães que descobrem e/ou tem filhos com deficiência, é valida para as mães de filhos LGBT. Saber da diferença sexual de um filho/a para uma mãe se apresenta de várias formas, exigindo, muitas vezes, destas um posicionamento, favorável e de apoio ou contrário. Diante dos relatos das entrevistadas, as mães, de um modo geral, se tornaram uma fonte de segurança, já que as atitudes destas foi de apoio. Mesmo que neste curso tenha ocorrido momentos de desconhecimento por parte destas, neste sentido as falas de Laura são pertinentes para demonstrar essa questão, comum a todas as informantes da investigação, apontando assim que as generalizações em torno das relações familiares das pessoas travestis não são apenas marcadas pela exclusão e discriminação, mais também pelo apoio e aceitação, se não por todos os membros familiares, mas pelos membros mas próximos como irmãos e, principalmente, as mães. Assim, os movimentos de aproximação e afastamentos são marcados por diversos momentos que vão, desde a infância, até o momento em que as pessoas, que outrora eram apenas homossexuais, hoje se apresentam como travestis.