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3   METODE

3.5   I NNSAMLING  AV  DATA

Retomando a crítica ao modelo de intencionalidade da consciência de Bretano e também, embora apropriado e modificado de maneira particular, compartilhado por Husserl, Geiger argumenta a respeito de uma posição que considera a intencionalidade como um atributo não essencial da consciência tomando justamente o exemplo dos estados de ânimo (vivências afetivas). Em seguida também posiciona um novo exemplo a respeito da demarcação do modo como atendemos aos nossos sentimentos e das mudanças que ocorrem

quando transitamos entre diferentes focos ligados ao complexo vivencial em jogo na experiência.

Trata-se do exemplo da experiência estética ao contemplar uma pintura. Descreve que, em um primeiro momento, se pode estar atendendo ao quadro em suas propriedades sensíveis e em sua estrutura no sentido da percepção, enquanto simultaneamente se vive em algum sentimento em relação ao qual o “eu” não se dirige da mesma forma temática tal como quando se encontra inteiramente visando os aspectos que despertam a sua atenção no campo objetivo da percepção, ao contemplar a pintura mesma. Com isso, aponta Geiger, posso alternar a minha atenção e transitar por diferentes aspectos componentes do quadro sem atender de modo focalizado aos sentimentos que tenho em relação a ele, que acompanham como uma consciência de fundo junto à percepção que se dá em primeiro plano.

Ainda assim, descreve Geiger, posso também voltar a minha atenção à vivência afetiva, exemplificando essa possibilidade a partir do desfrute estético em relação a uma pintura. Entretanto, com essa mudança de atenção da pintura e de seus componentes perceptivos em direção ao foco nos sentimento que se vive ao contemplá-los, temos, de acordo com Geiger, uma modificação que excede a mera mudança do foco da atenção para um novo objeto, pois vai do objeto do sentimento ao sentimento mesmo, produzindo uma “modificação” ou “deslocamento da ordenação da consciência” (Quepons, 2015b, p. 162).

A partir desse exemplo da experiência ligada contemplação de uma pintura, Geiger introduz sua problematização original a respeito do nexo existente entre o próprio sentimento e o objeto em relação ao qual esse se dirige, apontando para uma mudança que acompanha a alternância do foco da atenção em relação a cada um deles, destacando que, em cada caso, temos um modo de manifestação completamente distinto. Sendo assim, de acordo com Geiger, no primeiro caso, enquanto a consciência está dirigida ao objeto do sentimento, podemos notar que a orientação objetiva, isto é, a intencionalidade do sentimento está

preservada. Assim, a partir desse modo, como observamos anteriormente, nossos sentimentos podem ser captados pela atenção simples e qualitativa. No segundo caso, quando a consciência muda o foco de atenção dos objetos do sentimento para o próprio sentimento, em atenção analítica, observa-se aquilo que o autor denotou como a absorção da consciência no sentimento, levando à perda de sua orientação objetiva (Averchi, 2015).

Ainda, considerando o tema central de seu artigo a respeito da questão da consciência dos sentimentos, Geiger aponta que existem formas de orientação aos sentimentos que não são formas de atenção dirigidas a eles. Refere-se para esse esclarecimento ao exemplo das obras de arte que podem estar dirigidas aos objetos, buscando reproduzir a sua forma de manifestação tal como são, e aquelas em que o objetivo da obra é provocar no espectador certo estado de ânimo, não sendo, portanto, seu objetivo principal a atenção ao objeto apresentado. Assim sendo, nesse segundo caso, Geiger pontua que estamos orientados ao nosso próprio estado, ou seja, ao sentimento mesmo suscitado pela obra de arte. Nessa orientação aos sentimentos, como vimos, observa-se uma relação distinta entre o sentimento e o objeto do sentimento daquela existente entre esses dois elementos quando se considera a prevalência de uma orientação do sentimento ao objeto, posto que na experiência de orientação ao sentimento, de alguma maneira, não temos de modo explícito a manifestação de uma referência objetiva. Ademais, ao destacar esse ponto, problematiza o autor, em relação à orientação dirigida ao sentimento, que, “inclusive quando o objeto do sentimento está presente, o nexo entre o sentimento e o objeto não corresponde à direção objetiva que, de acordo com Geiger, é a essência da intencionalidade” (Quepons, 2015b, p. 163). Para Geiger, isso impele a consideração de que o nexo entre ambos não está baseado numa estruturação em que o sentimento tenha uma direção ao objeto, senão que a referência vivida entre ambos se dá pela apreensão de que o sentimento nos aparece como proveniente do objeto, de certo modo, como se saísse do mesmo, por ser suscitado por ele. Todavia, aponta ainda que “dita

suscitação, agregada imediatamente depois, não é uma relação causal psicofísica entre o objeto e o sentimento, mas é uma referência efetivamente vivida”. Com isso, Geiger mais uma vez aponta criticamente para a noção de intencionalidade como traço essencial dos sentimentos (Quepons, 2015b, p. 163).

Partindo desse exemplo, Geiger apresenta essa distinção com dois termos específicos correspondentes, respectivamente, aos tipos de atitude ou orientação (Einstellung): a “concentração externa” (Aussenkonzentration), que se refere à atitude focada ou dirigida ao objeto do sentimento, e a “concentração interna” (Innenkonzertation), que se refere à atitude focada ou dirigida ao sentimento mesmo. Assim, Geiger destaca, a partir da constatação da perda da referência objetiva quando estamos voltados ao sentimento, que com isso encontramos um novo obstáculo à atribuição da intencionalidade como traço essencial da consciência, apontada, de modo particular, Brentano e Husserl (Averchi, 2015, p. 79).

No entanto, Crespo (2015, p. 384) assinala também que, apesar das similaridades entre a concentração interna e a atenção aos sentimentos, “no sentido de que ambas são formas de se referir intencionalmente aos sentimentos e não aos objetos, existe, de acordo com Geiger, diferenças importantes entre elas” que para serem evidenciadas necessitam de um esclarecimento adicional a respeito dos aspectos essenciais contidos na atenção, mas que faltam no caso da concentração interna. Dessa maneira, explicita Crespo (2015) a respeito dos traços essenciais da atenção:

Quando nós olhamos para um objeto, nós focamos um atributo nele que, como dizemos, chama a nossa atenção. Enquanto presto atenção a ele, minha consciência o visa, destacando ele em meio ao todo que constitui meu horizonte de objetos. De acordo com Geiger, existem quatro caracterísitcas da atenção: (1) o objeto atendido é caracterizado por um “grau de consciência” especial (Bewusstseinshohe), (2) o objeto é isolado dos objetos não atentidos por um (3)

“raio de consciência” (Bewusstseinsstrahl) que destaca ele e (4) a relação do si mesmo (self) ao objeto é mostrada como um “estar no interior” (“inner being in”) do si mesmo no objeto (p. 385).

Assim, tendo destacado os aspectos principais do fenômeno da atenção na perspectiva de Geiger, temos, segundo Crespo (2015, p. 385), que o autor também situa a existência de formas de estar orientado aos sentimentos que não são formas da atenção. Nesse sentido, escapando às características principais da atenção destacadas pelo autor, temos a “concentração interna” (zustãndliche Einstellung ou Innenkonzentration), como “quando eu ‘saboreio’ ou ‘desfruto’ certo sentimento que estou experienciando”. Ainda, pontua Crespo (2015, p. 385), seguindo a descrição de Geiger sobre a concentração interna, que esse modo de “‘ser a partir’ (dabei sein)” [no inglês, “being by”] do sentimento pode ter características diferentes e descreve as duas principais:

(1) às vezes, nós estamos orientados aos sentimentos de tal forma que nós estamos, por assim dizer, ‘imersos’ nele. (...). Isso acontece quando nós vivemos em alegria ou tristeza profundas. Eu estou no sentimento de tal forma que ele perde sua condição de ser perante a mim [Innenkonzentration ou concentração interna]. (...). Eu vivo em minha alegria sem denotar nem o sentimento nem o objeto do sentimento. É uma experiência orientada ao sentimento que consiste no estar na presença do sentimento, uma experiência que tem a peculiaridade de darinsein [em português, pode-se traduzir como “estar nele”]. Este caso carrega certa similaridade com o tipo de ser que o sentimento tem no caso do “ser a partir” do sentimento que ocorre quando eu “desfruto” esse sentimento sem perder minha orientação ao objeto (Aussenkonzentration) [ou concentração externa]. Contudo, existem diferenças específicas. Em (1) o sujeito não está orientado ao objeto, mas orientado ao sentimento. Aqui o sentimento é presente à consciência mais

claramente do que no outro caso. (...). (2) Em outras ocasições, eu estou orientado ao sentimento, não ao seu objeto; eu vivo nele, mas não estou ‘imerso’ nele como no caso anterior (Crespo, 2015, p. 385).

Destaca Crespo (2015, p. 385) também que, em relação a (2), “de alguma forma, o sentimento é experienciado como algo que ‘é’ na minha frente”, de modo que, “embora não no mesmo sentido que a atenção ao sentimento, o eu está em ‘frente’ ao sentimento”, sendo ainda sempre possível ao sujeito, como em todo caso de concentração interna, e de acordo com Geiger, se render, “ajoelhar-se” ou estar disposto à experiência do sentimento de forma entregue, em um puro desfrutar do mesmo, sendo essa possibilidade uma “reação interna do si mesmo (self) ao sentimento”. Dessa forma, para Geiger, por meio dessa rendição ao sentimento, desfrutando-o, este se torna mais presente e claro à minha consciência, como se fosse sentido com uma maior nitidez. Com isso, temos que a diferença entre as formas de concentração interna (1) e (2) se faz notar pelo fato de que “(2) não exclui esse olhar particular ao sentimento que, como Geiger insiste, não é o olhar da atenção”, pois mesmo sendo um olhar teorético, “ele não objetifica o que é olhado, e, nesse sentido, ele não modifica a experiência vivida dessa maneira” (Crespo, 2015, p. 386).

Quanto à questão da posição do eu com relação aos sentimentos, destaca Crespo (2015, p. 387) que para Geiger existem diferenças entre a atitude orientada aos objetos dos sentimentos (ou concentração externa), a atitude orientada aos sentimentos mesmos (ou concentração interna) e a atenção aos sentimentos, pois cada uma delas apresenta “diferentes modos de ser dos sentimentos como correlatos” do eu que os vivencia. Assim, de algum modo, “no caso da atitude orientada ao sentimento, eu ‘olho’, por assim dizer, aos objetos e vivo no sentimento correspondente”, enquanto que, de modo correspondente, mesmo no caso da atitude “na qual eu estou primariamente orientado ao objeto, existe um tipo de dar-se conta [ou aperceber-se] (awareness) do sentimento”, pois “de algum modo, eu me dou conta do

meu” sentimento, enquanto estou sentindo-o (Crespo, 2015, p. 387). Contudo, ressalta que, nessa atitude predominantemente orientada ao objeto do sentimento, o modo como o sentimento se dá para mim não equivale a um “conhecimento” do meu sentimento no mesmo sentido em que se dão os objetos da percepção. Diferentemente, de acordo com Geiger, tenho em mim a presença de sentimento e enquanto ele está presente para mim eu me apercebo dele. Entretanto, esta não é a única forma de atitude orientada para os objetos, pois existe outra forma que corresponde ao estar em um determinado sentimento, desfrutando-o, mas sem perder a orientação ao objeto, de modo que não estou propriamente orientado ao sentimento e sem referência objetiva como no caso da concentração interna (Crespo, 2015, p. 387).

Conforme o exposto, Crespo (2015, p. 387) conclui, a partir da consideração geral a respeito da investigação de Geiger, apontando para o objetivo principal para o qual os distintos momentos de sua análise convergem, a saber, a demonstração da “possibilidade de pelo menos três sentidos diferentes da expressão ‘consciência de sentimentos’”. Sendo assim, o primeiro sentido se refere aos sentimentos considerados desde os modos de intencionalidade que os tomam objetivamente, tal como quando atendemos aos sentimentos no sentido da observação, da análise, da reflexão ou fazendo julgamentos a respeito dos mesmos, etc. Desse modo, se refere ao sentido do visar dos sentimentos a partir de um modo intencional específico em um foco ativo, tomando-os objetivamente. Esses modos de intencionalidade, dessa maneira, se destacam pelo traço atentivo explícito que apreende os sentimentos de modo objetivo.

Em continuação, destaca Crespo (2015), temos o segundo sentido do termo em Geiger que se refere ao modo no qual o sujeito vive os próprios sentimentos quando está imerso neles, correspondendo assim à chamada concentração interna, a qual, como exposto, não contém as mesmas características da atenção ao sentimento, embora tenha de alguma forma uma relação de estar diante do sentimento sem objetivá-lo por parte do sujeito, sendo possível

ainda se render em um desfrute em relação ao próprio sentimento. Assim, a partir da descrição desse modo de vivenciar os próprios sentimentos, Geiger questiona a noção de que no caso dos sentimentos se constata a intencionalidade, pois “aqui o sentimento não é um objeto para a consciência; ao invés disso, a consciência ‘vive nele’” (Crespo, 2015, p. 388).

Finalmente, temos o terceiro sentido que se refere ao modo como experienciamos um sentimento quando nós estamos teoreticamente orientados a um objeto, que na terminologia de Geiger, em acordo com a exposição de Crespo (2015), corresponde à concentração externa. Esse caso corresponde à forma em que experienciamos o sentimento ainda focados no objeto que o suscitou, de modo que estamos dirigidos ao objeto e lidamos com ele, enquanto o sentimento está simplesmente aí. Não estamos diante do nosso próprio sentimento e nem visamos ele como quando refletimos ou prestamos atenção nele, mas, ainda assim, nos damos conta dele enquanto dura e quando rememoramos. Da mesma forma, a concentração externa não se trata de um visar o sentimento que o apreende de modo específico como objeto, mas apenas um dar-se conta ou aperceber-se dele enquanto estou voltado ao seu objeto. Trata-se, assim, de “uma intencionalidade indireta, não temática, não objetificante”, de modo que as formas de atenção simples e qualitativa também fazem parte desse terceiro sentido do termo consciência de sentimentos (Crespo, 2015, p. 389).

Adicionalmente, também destacamos a peculiar consideração de Geiger a respeito do problema do “resplendor dos sentimentos” que é análogo ao posicionamento de Husserl, embora traga no caso de Geiger haja algumas peculiaridades (Quepons, 2015b; Zirión, 2009). Para apresentar esse tema, Geiger retoma também a descrição dos diferentes tipos de experiência, normalmente nomeadas como “sentimentos”, de acordo com Crespo (2015), onde se destacam na sua terminologia os chamados: sentimentos de prazer e desprazer, os sentimentos de sensação (ou sentimentos sensíveis), os sentimentos a respeito de si mesmo, e os chamados sentimentos emocionais (intencionais).

Assim, apresenta Geiger que em toda vivência de sentimento, seja ela do tipo de sentimento emocional (enquanto vivência de sentimento intencional, também chamada pelo autor de movimento de emoção) ou sentimento sensível, se pode distinguir entre o momento de sentimento subjetivo, que corresponde ao lado da vivência e, do outro lado, um momento objetivo que depende do sentimento, correspondente ao resplendor. Dessa maneira, em relação ao resplendor, Geiger pontua que esse tem como caráter específico a sua localização difundida e/ou aderida sobre os objetos, que se explicita como um momento objetivo dependente dos sentimentos, ou seja, que pertence ao lado objetivo da vivência de consciência ao modo de uma iluminação correspondente às vivências afetivas consideradas (Zirión, 2009, p. 146). Com isto, Geiger considera o resplendor enquanto uma possibilidade de matização dos objetos que se expressa a partir dos sentimentos emocionais e também dos estados de ânimo, assim como nos sentimentos sensíveis, peculiarmente considerados por ele (Zirión, 2009).

Dessa orma, de acordo com Zirión (2009), Geiger reconhece a possibilidade da manifestação do resplendor em ambas as principais vivências de sentimentos consideradas, a emocional/intencional e a sensível, no entanto, compreende no caso dos sentimentos sensíveis uma particularidade relativa a sua forma de manifestação peculiar enquanto aderida ou presa “ao objeto que tem promovido o sentimento”, de modo que não é tanto a expressão de caratér luminoso que se observa no objeto, como é o caso dos chamados sentimentos emocionais e estados de ânimo, mas um tipo de intrincamento profundo com a própria exibição objetiva do mesmo (Zirión, 2009, p. 146), de sorte que “os sentimentos sensíveis parecem fusionar-se com o objeto, inserir-se nele” (Quepons, 2015b, p. 163). De forma distinta, a respeito dos respectivos momentos - subjetivo e objetivo (resplendor) - das vivências de sentimento, segundo Zirión (2009), Geiger observa também que, contrariamente à notável aproximação e correspondente dificuldade de delimitação entre os dois momentos apontadas no caso dos

sentimentos sensíveis, esses momentos tendem a aparecer de modo mais nitidamente separados e distinguíveis no caso dos sentimentos emocionais/intencionais.

Este aspecto fica ainda mais evidente quando tomamos em consideração o exemplo de sentimento sensível apresentado por Geiger, a saber, o da agradabilidade própria ao sabor de uma refeição. Entretanto, importa destacar que apesar de Geiger considerar a presença de ambos os polos correlacionados de referência (momento objetivo e subjetivo) em cada caso das vivências de sentimento, tanto as emocionais quanto as sensíveis, aponta que, no primeiro caso, predomina o chamado momento subjetivo, enquanto no caso dos sentimentos sensíveis, predomina o lado correspondente aos caracteres objetivos ou momento objetivo (Zirión, 2009; Quepons, 2015b). Destaca Zirión (2009) que, no caso dos sentimentos emocinais, Geiger

(...) não faz explícita certa distinção que parece necessária a respeito do objeto sobre o qual recai o resplendor ou a iluminação, seja como cintilação de alegria ou como obscurecimento. Sem maiores precisões, trata casos em que este “momento objetivo” do sentimento recobre todos os objetos que o sujeito mira (quiçá inclusive todo o mundo), e outros em que o objeto é algo mais determinado, como uma cidade cuja “iluminação” é distinta segundo a pessoa amada se encontre nela ou a abandone. Neste mesmo exemplo, que provê de situações experimentais reais, Geiger se refere à cidade como um mesmo objeto cuja iluminação afetiva cambia, sem reparar em que de fato se trata, por sua vez, de um câmbio de objeto: a cidade com a pessoa amada e a cidade sem ela são objetos ou estados de coisas distintos. Deixando de lado esta sutileza, há que dizer que as descrições de Geiger tampouco aludem a nenhuma apercepção ou apreensão particular que dê razão do resplendor, da iluminação ou do obscurecimento. Este é um “momento objetivo” que, de alguma maneira na que não penetramos, se origina no sentimento e pertence a ele (p. 146).

Ainda, segundo Zirión (2009, p. 147), Geiger também aborda outro problema ligado à questão da “‘visibilidade’ do resplendor: sobre a forma em que se põe atenção nele, ou neles”. Nesse sentido, Geiger pretende apontar e abordar o problema de que em geral não atendemos tais caracteres objetivos decorrentes dos nossos sentimentos chamados resplendores. Com isso, expõe o autor que estes “podem ser observamos, sem embargo, em casos como o que refere da cidade antes e depois da partida da pessoa amada”, de modo que fica explícita a abordagem de Geiger em que “destaca esta circunstância de câmbio de sentimento como propiciadora de que o resplendor se imponha a atenção” (p. 147). Dessa maneira, temos com Geiger a concepção singular de que o fenômeno de resplendor afetivo, embora presente e manifestado à consciência, se faz notar de modo particularmente atendido apenas quando nossas vivências afetivas mudam ou, talvez, por assim dizer, oscilam. Em outros termos, para Geiger, o modo particular com que a experiência do resplendor ou da iluminação afetiva, enquanto momento afetivo objetivo (encontrado nos objetos ou no mundo), se faz notar está relacionado com a sua mudança ou, ainda, nos dirigimos a ele em função do contraste apreendido na variação de sua tonalidade específica (Zirión, 2009).

Por fim, cabe destacar que é no contexto da discussão sobre o fenômeno do resplendor e da distinção entre momentos presentes nas vivências de sentimento em que Geiger introduz a sua distinção entre a atitude/orientação (Einstellung) objetiva e aquela orientada ao (momento subjetivo do) sentimento (Quepons, 2015b). Dessa maneira, tendo apresentado as considerações e análises de Moritz Geiger a respeito da consciência dos sentimentos em seu artigo, abrimos espaço para a apresentação das considerações, pontuações e análises de Edmund Husserl a respeito dos problemas levantados nesse texto que compõe uma importante contribuição de Geiger ao movimento fenomenológico voltado à elucidação da vida afetiva em sua complexidade, peculiaridade e vicissitude.

4.4. As considerações críticas de Husserl a respeito do artigo “A Consciência dos