O presente trabalho estuda a ética nas empresas tomando, para tal finalidade, três fontes de informação: a produção acadêmica referente ao tema, os códigos de ética divulgados por sete grandes empresas do setor bancário brasileiro e a realização de conversas com trabalhadores de grandes empresas contemporâneas nas quais a presença desses materiais se faz presente.
A pesquisa se direciona mais ao setor bancário que aos demais, porém as conversas realizadas não se limitam a esse setor. Esse maior foco no setor bancário se deu por dois motivos. Primeiro, por esse possuir por natureza uma proximidade e permeabilidade muito grandes às demandas e à racionalidade econômica; e, segundo, pela maior proximidade do autor do presente trabalho em relação ao setor, o que facilita tanto no que diz respeito a ter acesso a pessoas que nele atuam, como a visualizar e compreender as coisas por eles relatadas com maior profundidade.
Cabe sempre lembrar que, como já mencionado, os fenômenos e questões aqui estudados parecem ocorrer praticamente em qualquer grande empresa contemporânea, independente do setor, de maneira que não pretendemos com o trabalho atual discutir se um setor ou outro é mais ético ou menos ético.
No que diz respeito à análise dos materiais divulgados, realizamos uma leitura crítica de nove códigos de ética pertencentes a sete empresas20 de grande porte21
do setor bancário brasileiro. Para a realização dessa leitura crítica, tivemos em vista, principalmente a proposta conhecida como análise crítica do discurso, ou C.D.A., como apresentada por Fairclough (2003) e Fairclough (1996), que está apoiada sobre a proposta de paradigma ontológico-epistemológico denominada Realismo Crítico conforme descrita por Collier (1994) e Bhaskar (2005, 2008). Optamos por denominar de “leitura crítica”, ao invés de “análise crítica” aquilo que realizamos nessa segunda etapa, por conta da ênfase em ressaltar aspectos comuns nos diversos materiais, procurando dar maior amplitude ao que estamos estudando, ao invés de uma abordagem de análise detalhada e aprofundada de cada material
20 Entre os nove códigos há dois que são versões mais novas de materiais de empresas já mencionadas, motivo pelo qual são nove códigos e apenas sete empresas.
21 Para definição de “grande porte” podemos tomar o conceito proposto pela Lei 11.638/2007 Art 3º, segundo a qual a empresa deve ter ativo total superior a duzentos e quarenta milhões de reais ou receita bruta anual superior a trezentos milhões de reais. (BRASIL, 2007, LEI Nº 11.638).
individualmente. Acreditamos que esse caráter não desmerece, em sentido algum, a proposta teórica da C.D.A., uma vez que essa já leva em consideração que análises de discurso podem ser realizadas com diferentes níveis de detalhamento e tendo em vista diferentes tipos de questionamentos, sem por isso serem menos válidas. Como vemos em Fairclough (2003):
We should assume that no analysis of a text can tell us all there is to be said about it – there is no such thing as a complete and definitive analysis of a text. (…) textual analysis is also inevitably selective: in any analysis, we choose to ask certain questions about social events and texts, and not other possible questions22 (FAIRCLOUGH, 2003,
p. 14).
A seguir, nos valemos de conversas com trabalhadores de empresas contemporâneas tendo como ponto de partida os materiais corporativos citados (códigos de ética, conduta e valores) e suas vivências cotidianas. Nessas conversas, priorizamos dar condições para conversas espontâneas e horizontais.
Para tal levamos em consideração o apontado por Spink (2008) ao definir o posicionamento de pesquisadores “no cotidiano”:
Ao contrário dos métodos planejados em que se delineia a priori um roteiro de perguntas sobre um tema previamente acordado e operacionalmente definido, ser um pesquisador no cotidiano se caracteriza freqüentemente por conversas espontâneas em encontros situados (SPINK, 2008, p. 72).
E, um pouco mais a frente, que:
Declarar-se parte de um campo-tema é demonstrar a convicção ética e política de que, como psicólogos sociais, pensamos que podemos contribuir e que estamos dispostos a discutir a relevância de nossa contribuição com qualquer um, horizontalmente e não verticalmente. Horizontalmente, porque não há nenhuma grande verdade mantendo quentes as nossas costas; nenhum instrumento de inquisição que podemos mostrar para garantir obediência às nossas idéias. Só podemos argüir e discutir, tal como os demais. (SPINK, 2008, p. 76).
22 Tradução nossa “Nós devemos assumir que nenhuma análise de um texto pode nos dizer tudo que há para ser dito a respeito dele – não existe a completa e definitiva análise de um texto. [...] a análise textual é, também, inevitavelmente seletiva: em qualquer análise, nós escolhemos realizar certas perguntas em relação aos eventos sociais e textos, e não realizar outras perguntas possíveis”.
Como mencionam Hammersley e Atkinson (2007)23, tais conversas são
realizadas mais com os temas a serem conversados do que com perguntas e aproximações específicas desses temas, visando torná-las ao máximo reflexivas. Ainda cabe aí o cuidado de partir sempre dos temas mais abrangentes, dando espaço ao próprio entrevistado para adentrar ou não os temas mais específicos por conta própria e só vindo a colocá-los de forma explicita posteriormente caso não tenham surgido de forma espontânea, por exemplo, como vemos na metodologia utilizada por Rodrigues (2005, p. 207).
No que se refere à forma de contato com os trabalhadores com quem falamos foi utilizada a metodologia de cadeias de referência, denominada Snow Ball (“Bola de neve”), de acordo com a primeira definição proposta por Thompson (2012, p. 212), na qual os indivíduos iniciais são escolhidos, a esses foi pedido que identificassem outros a serem entrevistados, a esses segundos foi pedido que identifiquem ainda outros e assim por diante.
Por se tratar de um estudo qualitativo, não tivemos pretensões de que os entrevistados fossem um grupo estatisticamente representativo do total de trabalhadores dessas empresas.
Após as conversas, visando uma reflexão mais aprofundada do fenômeno estudado, desenvolvemos algumas articulações entre: os aspectos cotidianos resultantes das conversas realizadas, as nossas análises dos materiais e as propostas teóricas dos autores que julgamos serem mais adequadas para compreender os fenômenos que observamos.
23 "The main difference between the way in which ethnographers and survey interviewers ask questions is not, as is sometimes assumed, that one form of interviewing is ‘structured’ and the other is ‘unstructured’. There is a sense in which all interviews, like any other kind of social interaction, are structured by both researcher and informant. The important distinction to be made is between prestructured and reflexive interviewing. Ethnographers do not usually decide beforehand the exact questions they want to ask, and do not ask each interviewee precisely the same questions, though they will usually enter the interviews with a list of issues to be covered. Nor do they seek to establish a fixed sequence in which relevant topics are covered; they adopt a more flexible approach, allowing the discussion to flow in a way that seems natural. Nor need ethnographers restrict themselves to a single mode of questioning. On different occasions, or at different points in the same interview, the approach may be non-directive or directive, depending on the function that the questioning is intended to serve; and this will usually be decided as the interview progresses” (HAMMERSLEY, ATKINSON, 2007, p. 117).
4. CONTRADIÇÕES, ÉTICA CORPORATIVA E CONTROLE DOS