5 Beregningsprosedyre og resultater
5.1 Nitrogenavsetning
Universidade Nova de Lisboa | CEIL, FCSH-UNL
N
um estudo publicado em 1998 sobre os prólogos e os epílogos de coleções medievais de fábulas, habitualmente conhecidas pela designação genérica de «isopetes», produzidas em língua francesa, Jeanne-Marie Boivin sublinhou as diferentes tradições dos prólogos a partir de uma análise da tópica e da retórica prologais, tendo definido, essencialmente, duas famílias de prólogos no conjunto das coleções que foram objeto do seu estudo. Em larga medida, a argumentação de Boivin baseia-se numa análise da tipologia da fábula e procura demonstrar que a construção das composições deste género se processa em torno de uma tradição bipartida onde se conjugam duas orientações da fábula subsumidas na sua dupla vocação, sempre reiterada, de deleitar e instruir. Porém, como também nota Boivin, o que se observa nestas coleções, de uma forma geral, é uma inca - pa ci dade da fábula medieval para acolher uma tal tradição que implica aceitar o equilíbrio e a complementaridade de ambas as vertentes. Esta autora verificou que, ao mesmo tempo que a bipartição tradicional era incorporada nos prólogos através de marcas tópicas, neles se desenvolveram mecanismos internos de rejeição dessa dualidade a favor do predomínio da vertente moralizadora, sendo possível registar esses mecanismos em grande parte do corpus das coleções medievais de isopetes.Neste breve estudo, procurar-se-á, através de uma análise do prólogo do
Livro de Exopo1, em confronto com algumas coleções produzidas em língua
DA LETRA AO IMAGINÁRIO CENTRO DE ESTUDOS SOBRE O IMAGINÁRIO LITERÁRIO, FCSH - UNL 2013
1 Livro de Exopo, Calado, A. de Almeida, edição crítica com introdução e notas, Separata do Boletim
Bibliográfico da Universidade de Coimbra, vol. 42, 1994. Todas as citações desta obra feitas neste
artigo se reportam a esta edição e serão referenciadas pela abreviatura LE seguida do número de referência da fábula e das respetivas linhas. Igualmente, seguimos neste artigo a denomi - nação da coleção em português fixada por Almeida Calado na sua edição.
francesa nos séculos XII, XIII e XIV, dar conta da configuração particular que aquela bipartição apresenta nesta coleção. É nosso objetivo demonstrar que quando aí se reitera o característico escamoteamento da vertente da fabula em proveito da lição, tal é conseguido por meio da introdução de elementos de ordem histórica, ou que são apreendidos como históricos, processo que concorre para o aprofundamento da vertente da narratio authentica e para uma aproxi - mação deste isopete a uma coleção de exempla.
É notável, tanto pelo rigor como pela quantidade de informação fornecida, o estudo que Leite de Vasconcellos dedicou a este texto, por ele denominado
Fabulário Português, num artigo publicado na Revista Lusitana em 1906. Este
seguia-se à edição do texto do fabulário em número anterior desta revista, datado de 1903-1905, que permitiu a este eminente estudioso retirar esta coleção quatrocentista de fábulas do esquecimento em que jazia na Biblioteca Palatina de Viena, atualmente Biblioteca Nacional de Áustria, e que se conhece, hoje ainda, como testemunho isolado de um fabulário em língua portuguesa. O estudo apresentado compreende um extenso «Vocabulário», um conjunto de importantes «Considerações Glotológicas», «Anotações às Fábulas» e, finalmente, um «Estudo Literário», formando, no seu conjunto, um trabalho que ultrapassa a centena de páginas, sem contar com o texto do fabulário. As minuciosas análises que aí o autor oferece, bem como o imprescindível trabalho de contextualização do nosso fabulário no intrincado mapa das compilações e recensões de fábulas europeias na Idade Média, constituem precioso contributo para o seu primeiro conhecimento. Curiosamente, após esta auspiciosa inauguração dos estudos sobre as fábulas medievais em língua vulgar portuguesa, escassos foram os traba lhos que a crítica dedicou a esta coleção, tanto em contexto nacional como internacional. Esta circunstância destoa flagrantemente da importância efetiva que a fábula parece ter alcançado durante o período medieval, tanto no contexto poético, como no teológico, como, ainda, no filosófico, a partir do século XII e, sobretudo, do XIII, a julgar pelos testemunhos que sobreviveram. O interesse recente que este género tem vindo a despertar no âmbito dos estudos de lite - ra tu ra medieval, muito impulsionado pela atenção que volta a merecer a impor - tante coleção das fábulas de Marie de France, e, também, pelos trabalhos que incidem sobre o corpus fabulístico hispânico, aliados à produção de estudos fundamentais sobre retórica medieval, produziu desenvolvimentos assinaláveis que, no entanto, e mau grado a qualidade dos contributos que vieram, até agora, a lume, não se traduziram ainda numa produção crítica que nos permita termos ANA PAIVA MORAIS 56
PRÓLOGOS DE ISOPETES — DAS COLEÇÕES MEDIEVAIS DE FÁBULAS EM FRANCÊS AO LIVRO DE EXOPO 57
um conhecimento satisfatório do Livro de Exopo2. É certo que o facto de o texto português ter sobrevivido, tanto quanto se sabe, através de um único teste mu - nho manuscrito não terá contribuído para dinamizar o seu estudo, mas a circuns - tância de dispormos atualmente de três edições críticas desta coleção, duas delas produzidas há menos de duas décadas, além de dispormos, no acervo da Biblio - teca Nacional de Portugal, da reprodução fotográfica do códice depositado na Biblioteca Nacional da Áustria encomendada por Leite de Vasconcellos são fato - res animadores para o estudo do fabulário medieval português. Procura remos, neste artigo, dar um contributo para o seu desenvolvimento partindo de aspetos específicos focados nos estudos de Leite de Vasconcellos para uma releitura da coleção em língua portuguesa que se situará no âmbito de uma discussão mais alargada em que serão focadas questões relacionadas com o estatuto genológico da fábula nas coleções medievais.
Os prólogos e os epílogos nas coleções em francês — a confirmação do género Os estudiosos que se debruçaram sobre a fábula medieval têm dedicado nos seus trabalhos alguma atenção a uma questão central neste género, que é o problema da ficção.3Nesses estudos verifica-se mais a preocupação de compre ender que função desempenha a ficção na fábula medieval do que de definir a sua espe ci -
2 Edições: «Fabulário Português», Vasconcellos, J. Leite de (ed.), Revista Lusitana, Vol. VIII, p. 99-
151, 159, 311-312, 1903-05; Fabulário Medieval Português, Junior, J. Alves Maia (ed.), São Paulo, Universidade de São Paulo - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 1993 (Tese foto - co piada/dactilografada); Calado, A. de Almeida, op. cit. Estudos: Vasconcellos, J. Leite de, «Esopo Adelfo», Revista Pedagógica, 1, 1904, p. 388-90 e «Fabulário Português», Revista Lusitana, Vol. IX, Imprensa Nacional, Lisboa, 1906, p. 5-109 (vocabulário, considerações glotológicas, anotações às fábulas e estudo literário); Prista, L., «Apostilha a uma genealogia proposta por Leite de Vascon cellos a propósito de certas características sintáticas do Livro de Esopo», Actas do IV
Congresso da Associação Hispânica de Literatura Medieval, Aires Augusto Nascimento (dir.), 1993,
vol. 3, p. 293-98; Castro, I. de, «Livro de Esopo», Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portu -
guesa, Giulia Lanciani e Giuseppe Tavani (dir.), Lisboa, Caminho, 1993, p. 408; Montillo, C. de Cássia
Capello, A voz e os ecos: medievalismo e actualidade n’«O Livro de Esopo», Rio de Janeiro, Universi - dade Federal do Rio de Janeiro, 1993 (Tese datilografada/policopiada); Pereira, P. A. Cardoso, «O Homem e o unicórnio: efabulações», Forma Breve, 3, 2005, p. 69-84; Pereira, L., A Fábula em
Portugal. Contributos para a história e caracterização da fábula literária, Porto: Profedições, 2007.
3 Veja-se, entre vários outros estudos sobre este problema, Blackham, H.J., The Fable as Literature,
Continuum International Publishing Group, Athlone, 1985; Strubel, A., «Exemple, fable, parabole:
le récit bref et figuré au Moyen Âge», in Le Moyen Âge, 94, 1988, p. 341-361; Ziolkowski, J.M., Talking Animals. Medieval Latin Beast Poetry, 750-1150, Philadelphia, University of Pennsylvania Press, 1993.
ficidade, uma vez que esta, apesar de ser o ponto de partida nas composições deste género, não constitui o seu núcleo de significação e parece justificada à parti da pelo papel de instrumento que aí assume na construção da dimensão moral, que é predominante. Apesar de a função utilitária das narrativas ficcionais estar convencionada no período medieval, as coleções de fábulas em francês que circularam a partir do século XIII viram os seus prólogos desviarem-se dos das coleções latinas, em larga medida precisamente no que toca à justificação da sua componente ficcional. É legítimo pensar que a ambiguidade a que se prestou o termo fable tivesse pesado significativamente nesta evolução da situação, ao apontar a componente ficcional, por um lado, e constituindo a designação do género da composição, por outro. Recorde-se que Wace, que usa este termo pela primeira vez em língua vulgar, segundo se crê, o utiliza par se referir a lendas sem fundamento que circulavam acerca de Artur e a távola redonda, lançando sobre ele o descrédito e procurando fundamentar a narrativa romanesca arturiana numa base que se distanciasse claramente de um fundo ficcional marcado pela transitoriedade e inconsistência da palavra oral que não se deixa fixar.4Esta suspei ção relativamente ao termo fable está patente nos isopets, onde, por vezes, a precariedade do elemento ficcional é associada à circulação da fábula em língua vulgar por oposição à língua latina que surge no seu horizonte de refe rên - cia como garante de uma solidez do saber e da auctoritas. Como salienta Boivin5, é manifesta a consciência da dupla postulação deste vocábulo nas várias formas que assumiu a designação do género pelos fabulistas medievais: dit, conte,
paraboles e exemples, por um lado, sendo também possível atestar ocorrên cias
como jeux ou frivoles. Nas coleções de fábulas, é obrigatório justificar o género, e Marie, a primeira a cultivá-lo em língua francesa, não se exime a esse exercício de justificação:
Mes n’i ad fable de folie U il n’en ai philosophie Es essamples ki sunt apres, U des contes est tut li fes. 6
ANA PAIVA MORAIS 58
4 «Fist Artur la Roünde Table | Dunt Bretun dient mainte fable.», Wace, Roman de Brut, Arnold, I.
(ed.) Paris, SATF, 1940, vv. 9751-9752.
5 Boivin, M.-J., «Prologues et epilogues des isopets», Reinardus, 1998, Vol. 11, p. 5.
6 Marie de France, «Prologue», in Les Fables, C. Brucker (ed. e trad.), Louvain, Peeters, 1991, p. 50,
v. 23-26. As citações das fábulas de Marie reportam-se a esta edição e serão doravante referenciadas pela abreviatura MFf.
PRÓLOGOS DE ISOPETES — DAS COLEÇÕES MEDIEVAIS DE FÁBULAS EM FRANCÊS AO LIVRO DE EXOPO 59
Os termos usados por Marie, no prólogo, para se referir às suas composições são
diz, essamples, pruverbes, retomando o contexto filosófico sapiencial em que filia
a sua coleção e apresentando o termo fable apenas no final da série, logo seguido da precisão que acabámos de citar. Encontramos, além deste, certas legitimações do termo fable que são marcadas mais estreitamente pela ambivalência do contexto em que surgem, como «semblance asez veire» (MFf, 17, 29), ou, no Isopet de Chartres: «…Ce sont fables, | Mes j’é bons tesmoings estables | Toutes viennent a verité.»7
A ambiguidade da função da fábula, que é um tema central no prólogo do
isopet de Marie, não fica aí resolvida, permanecendo ativa ao longo da coleção
através de incessantes confirmações como a que encontramos no binómio recorrente mensonge / essample, em que este último termo designa umas vezes a narrativa, outras, o epimythium moralizado.
É elevado o risco de contaminação entre a narratio ficta, que corresponde à parte narrativa da fábula, e a narratio authentica, referente à sentença, e torna- se necessário estabelecer uma separação entre elas em cada uma das compo - sições. Mas, em muitos casos, a própria estrutura da coleção concorre para tornar mais fluida a separação, sobretudo quando o compilador reúne na sua coleção material disperso, o que confere aos fabulários um carácter maleável e, ao mesmo tempo, inscreve no seu seio uma indefinição teórica quanto ao uso da fábula, mau grado as teorizações inscritas nos prólogos e nos epílogos.
Neste aspecto, é possível identificarmos duas situações distintas no con - junto de coleções que observámos. Em primeiro lugar, casos como a coleção de Marie, onde se aliam à fábula esópica outras composições diversas, algumas apresentando características próximas do fabliau,8as quais parecem colocar a tónica na componente ficcional da coleção. Porém, em nosso entender, esta
7 «Épilogue», Isopet de Chartres, in Bastin, Julia (ed.), Recueil général des isopets, Paris, SATF, Vol. I,
p. 181, v. 49-51.
8 Raby, M. J., «Marie de France’s Fable[s] de Folie: Fables or Fabliaux?», Auburn University, Analecta
Malacitana, XXI, 1, 1998, p. 33-57, URL: http://www.anmal.uma.es/numero5/Raby.htm, identifica
cinco fábulas da coleção de Marie no pequeno corpus de textos aparentados ao fabliau, que correspondem às de Brucker com os números 25, 44, 45, 94 e 95. Já I. Short & R. Pearcy selecio - nam quatro fábulas daquela coleção como fazendo parte desse corpus marginal, corres pon - dentes às que figuram na edição de Brucker com os números 42, 44, 45 e 94. Eighteen Anglo-
Norman Fabliaux, I. Short & R. Pearcy, (eds.), London, Anglo-Norman Text Society, 2000, URL:
circunstância não ocorre tanto para valorizar o elemento da ficção quanto para o sublinhar enquanto risco, sendo também evidente que se pretende salientar que a sua dimensão estética e a provocação do prazer estão colocadas ao serviço da promoção da moral, e não são exteriores a ela. Note-se, igualmente, a insis - tência sistemática no tema da mentira, que percorre toda a coleção de Marie, indicando de modo ainda mais nítido que a presença da ameaça ficcional é aí sentida constantemente. De certa forma, esta configuração da mentira assinala a ficção como uma força, simultaneamente instituidora e destruidora do sentido, relativamente à qual se constrói uma teoria da fábula necessariamente assente em dois princípios antagónicos: a dicotomia e a analogia.
A segunda situação que podemos identificar é a das coleções onde são reu - ni das à fábula esópica outras narrativas de carácter acentuadamente senten cial, como a coleção de Julien Macho, ou a coleção inserida no Speculum historiale de Vincent de Beauvais e as respectivas traduções em francês, o que contribui para tornar significativamente mais ténue a fronteira entre a narrativo ficta e a
narrativo authentica e favorece contaminações distintas das que observámos
acima, agora marcadas, em certa medida, por uma lógica da exemplaridade asso - ciada à pregação.9Nas coleções mais permeáveis ao exemplum, é possível obser - var com maior nitidez um carácter maleável da fábula, o que torna estes casos em particular mais susceptíveis de se apresentarem como coleções de exempla ou, pelo menos, de adquirirem características mais próprias deste tipo de coleções. Verifica-se que a hesitação entre fábula e exemplum se aprofunda nas coleções medievais de fábulas, relativamente às da Antiguidade, principal mente nas mais tardias, embora já na coleção de Fedro uma certa indistinção entre as duas vertentes se fizesse notar e fosse, em alguma medida, um elemento estruturante da própria fábula. Todavia é, sobretudo, na amplitude que adquire o termo
essample nas coleções deste grupo que podemos medir o grau de aprofunda -
mento da influência da dimensão exemplar, uma vez que este vocá bulo tanto ANA PAIVA MORAIS 60
9 Julien Macho, Recueil Général des Isopets, Tome III, Paris, SATF, 1982. Vincent de Beauvais,
Speculum Historiale, in Speculum quadruplex sive Speculum majus Vincentius Bellovacensis,
[Reprod. en fac-sim.] Graz: Akademische Druck - u. Verlagsanstalt, 1964-1965; The Aesopic Fables
in the Mireoir historial of Jehan de Vignay, Edited with Introduction, Notes and Bibliography by
Guy Everett Snavely, Baltimore, Furst, 1908; Hugues Vaganay (ed.) (1913). «La Mer des Histoires. Vingt fables d’Ésope traduites em français au XVe siècle», in Mélanges E. Picot, Paris: E. Morand, Tome I, pp. 67-82; Manuel d’histoire de Philippe VI de Valois, cf. Recueil des historiens des Gaules et
de la France, t. 11, p. 386; t. 12, p. 228-230; t. 21, p. 146-158; Mombello, G. (1995). «Traductions
designa a composição na sua totalidade, como se refere simplesmente à morali - dade, como, ainda pode ocorrer para designar a parte narrativa da fábula.
Uma das características mais salientes das coleções em francês que estudámos é o facto de apresentarem uma componente paratextual muito pronun ciada, exibindo, geralmente, prólogos e epílogos mais desenvolvidos do que as coleções latinas de que derivam. Assim, as coleções que se enquadram na família do Novus Esopus — o Isopet III de Paris e o Isopet de Chartres — exibem ambas pró logos desenvolvidos, tanto em extensão como nos temas que tratam, por oposição à coleção latina que lhes serve de base, que é desprovida de prólogo ou de epílogo. Já o mesmo não se passa na família do Anonymus Neveleti, cujas traduções em francês retomam muito de perto a tópica constante no prólogo daquela coleção latina, sendo que, no entanto, o Isopet I-Avionnet inclui, além do prólogo, um extenso e complexo epílogo, não apresentando o Isopet III prólogo nem epílogo.
Não podendo aqui, por razões de espaço, proceder-se a uma análise deta - lhada da retórica prologal e epilogal desenvolvida nestes fabulários, será, apesar disso, útil determo-nos por alguns instantes nalguns topoi que percorrem de forma recorrente as coleções em francês filiadas nestas duas famílias: no grupo de coleções derivadas do Anonymus, é assinalável a persistência da metá fora da coleção como um vergel («petit jardin») onde as flores significam o prazer («la flour est novele, delitauble, plaisanz et bele», Isopet de Lyon, vv. 11-12), e os frutos, a lição («doctrine profitable»), sendo o máximo proveito da fábula resul - tante da conjugação das duas vertentes, retomando o princípio do equilíbrio entre a sentença e o divertimento, por vezes com referência explícita da fonte retórica ciceroniana:
Raisons qu’est de solez paree Est plus voluntiers escoutee. […]
Tulles aussi l’ensoigne a faire. […]
Li flours est exemple de fauble, Li fruiz doctrine profitauble. Bone est la flour por delitier; Lou fruit cuil, se uez profitier. Se l’uns te plait, tu lo puez prandre, Ou les dous, se plus vuez aprendre. (Isopet de Lyon, vv. 2-3 […] 7 […]13-18)
Igualmente estável é a fórmula da casca e do miolo da noz, que coroa esta dualidade das fábulas tanto no Isopet de Lyon como no Isopet I-Avionnet. Este último tem a particularidade de juntar um epílogo intitulado «C’est la sustance de cest livre» que, ignorando o princípio do equilíbrio entre o prazer e o proveito (a casca e o miolo) refere que o proveito das fábulas resulta da sua sustance, ou seja, da moralidade, contradizendo o que ficara estabelecido no prólogo e, mais firme men te ainda, no modelo latino seguido, o Anonymus, que preconiza o equi - líbrio entre as duas vertentes.10O redator do Isopet I aproveita o epílogo para desen volver a sua teoria específica da fábula, que assenta marcadamente no reforço de uma concepção didática dos textos, e orienta a coleção numa direção nova ao revelar uma atitude notoriamente diversa do gesto mimético do prólogo, onde são reproduzidos os tópicos essenciais que figuravam já na coleção latina. Os prólogos das coleções derivadas do Novus Esopus, por outro lado, insis - tem na ligação da fábula à tradição da literatura de sapiência, tanto no Isopet II
de Paris como no Isopet de Chartres, que procuram legitimar a coleção através do
endereço aos homens sábios. É nestas coleções que mais extensamente se desenvolve a dicotomia entre as fábulas frivoles e as paraboles ou essamples, o que atesta a necessidade de confirmação e legitimação da fábula como um género que veicula a sabedoria. Mas é, sobretudo, no epílogo do Isopet II de Paris e, também, mais tarde, no prólogo de La Mer des histoires que sobressai de modo mais assinalável esta característica, quando se remete as fábulas para o criador do género, Esopo, traduzido por Romulus, como nos lembra o redactor de La Mer
des histoires, linhagem em que a atual coleção participa numa lógica de trans fe -