1. Introduction
1.3 Nitrification
Como visto acima, grande parte dos nomes que circulam entre os Manoki e os Mỹky (muitos em comum) foram adquiridos dos peixes e das abelhas (M7e M8). Há outros de origem animal, como Tapurá, associado ao lobo-guará e outros cuja origem eles desconhecem – por vezes dizem ser nomes de aldeias.
Como se pode observar nas tabelas abaixo, há entre os Manoki e os Mỹky, um número restrito de nomes nativos, femininos e masculinos, que circulam entre eles48. Suas variações e inflexões apresentadas nas tabelas abaixo, foram agrupadas em grupos de nomes de um total de 626 pessoas nomeadas. Destes, são observados 27 nomes femininos distribuídos entre 327 mulheres, e 42 nomes masculinos para 326 homens e 8 mulheres.
A listagem apresenta formas diversas usadas para um mesmo nomes, seja em razão das diferentes grafias, estritamente ou ainda por conta de diferenças dialetais ou de pronúncia/sotaque (relacionadas nas linhas), seja por uma questão de inflexão do nome, que apresenta diferentes formas diminutivas, vocativas ou referenciais (relacionadas nas colunas). A todas essas possibilidades relacionadas na ordem vertical (nas colunas), chamo variantes.
48 A antropóloga Gisela Pauli constatou em seu corpus genealógico composto de 102 indivíduos (que
inclui mortos e exclui os Manoki que viviam ou tiveram filhos entre os Mỹk ), a existência de 56 diferentes nomes e t eàosàMỹk , dos quais 22 eram femininos e 34 eram masculinos (1999:290).
146 2.1. Nomes femininos
Var.
Grafia Signif. Espécie/
Infl. Família
V.1 Atusi Atuci Palu/Paasi Cichlídae
V. 2Atuu
Acará; Maria da toca V.1 Jaapatasi Jalapoitaci Jalapoitasi
V. 2Jaapatau Jalapatalu
V.1 Jeimusi Jemiunsi Jemyusi Yemiuntsi V. 2Jemulu Jemuu Nemulu
V.1 Juruci Jurusi Kalapy Caracídeo
V. 2Jurulu Juruu Pacu
Jurukaatau Kaau V.1 Kamaimpa Kamapa V. 2Kamaimpasi Kamtinuwy Kamembia
Kamulu Kamuu Espécie de
abelha
V.1 Kamunu Kamuniu Camunu Alitai Trigona
capitata V. 2Kamunstsi Kamuntsi Kamusi Kamutsi Mombuca
Kanuu Kaparautu V.1 Kapatau Kapoitalu V. 2Kapojtasi Karauku Kojayru Koparauku Kuialiru
V.1 Kutiru Kutyru Periquito
V. 2Kutitsi Kutitxi V.1 Maninu Manynu
V. 2Manitsi Manity Manytsi
V.1 Marikananu Marikaneni Marikjananu Anâxi
V. 2MarikianansiMarikianasi Marikianentsi Marikyanajtsi Marikyanasi Pacuzinho V.3 Marikau Marikialu Marikjalu Marikyalu
V. 4Marikiaci Marikiasi Marikjasi Njakyru Njankiru
Njasyru
V.1 Njakalu Naakalu Njakau Nome de
147
V. 2Njankaci Njankasi
V.1 Naacy Naasi Nanci Nansi Njasi V.2 Nialu Njau Njawayruku Paatau Palatalu Panakusi Sakau Takarauku
V.1 Tipiu Typju João Pinto; Icterus
croconotus
V. 2Tipiuci Tipiusi Tipyusi Corrupião
V. 3Tipiulu Tipulu Tipuu
148 2.2. Nomes masculinos
Var. Grafia Significado Espécie/
Infl. Família
Aawa Alawa Auwa Piúva
Arai Araxi
Capunxi Kapayxi Kapuinxi Kapunxi Kapuxi Kapynxi V.1 Irawaxi
V. 2 Irawali
V.1 Jaluka Nome de aldeia
V. 2 Jalukaxi
V. 3 Jaukai Jaukairi Jalukali Jamaixi Jamaxi Jamoexi V.1 Jamali
V. 2 Janãxi
V. 3 Janãi Janãli Jaowy
V.1 Jola Jolasitsi Monocirrhus
polyacanthus
V. 2 Jolasi Peixe-folha
Jony
Kaioli Kajaowi Kajoli Kayoli Kayoly Abelha preta Kamaiki Kamajki Kamaki Kamaky Kamoeke Abelha que
mora no cupim Kamanowy Kamanoxi Kamanoy
V.1 Kanunxi Kamunxi Ka ũ i M ptaũsi/M pTa ũ i Manduri/ Melipona; marginata V. 2 Kanuli Lambari-do- rabo-vermelho Caracídeo V. 3 Ta ũ i V. 4 Tamuli Tamuly Kawyxi Manduri-preto
Kiwiuxi Kiwixi Kiwuxi Nome de aldeia
Kujey Kuxiwiru Mãkakoxi Pintado Pseudoplatys- toma; coruscans
V.1 Mampuxi Mampuche Mia Brycon sp.
V. 2 Mampuli Matrinxã
V. 3 Napui Napuli Materasi
Matixi
149
V.1 Mimnã Minã V. 2 Minai Minasi
V.1 Napioku Napoko Napoku Traíra Hoplias
malabaricus V. 2 Napjokuwy V. 3 Napotsi V.1 Paluxi V. 2 Paluli Pawuy Salawatala Tapaasi Borboletinha do tempo seco Tapau
V.1 Tapura Apura Chrysocyon
branchyurus V. 2 Tapurasi Lobo do campo/cerrado/ Lobo-guará Terawata V.1 Tupxi Zananguenza Crenicichla saxalis; Ciclídeo V. 2 Tupy Uhkjamu Uhukjamu
Ujakuxi Waiacuxi Waiakuxi Wajakuli Wajakuxi Ujepai Ujepali
V.1 Ulimna Uwimna Uwymna Alijta Acarapeba Diapterus rhombeus V. 2 Ulipyasi Umena Wajakota Wajana Wakasi
V.1 Waracuxi Warakuxy Wayakuxi Piava Leporinus sp.
V. 2 Warakuli
Watu Iraxim Meliponídeo
Xaioxi Xajuwy Xina
V.1 Xinuxi Xynuxi Nome de aldeia
V. 2 Xinui Xinuli
150 Se olhadas as tabelas onomásticas no seu sentido horizontal, percebe-se a proliferação de grafias a que um único nome foi submetido. Mas além das múltiplas grafias produzidas por um embaralhamento proposto pela semelhança fonética, há a grafia do nome de acordo com o dialeto mỹky, que não reproduz o som do fonema /l/, eàaàg afiaàdoà es oà o eà oàdialetoà l gua ài a e,à ueà ep oduzàoà l .àássi ,àoà o eà feminino Tipuu, falado pelos Mỹky, corresponde à Tipulu entre os Manoki. Tipiulu e outras correspondem a possíveis grafias. Mas ao serem registrados, todos eles se transformaram em nomes distintos.
Ao observar a coluna das variantes e inflexões nota-se a existência de outros nomes semelhantes que, com o registro escrito também se tornaram singulares. Na oralidade, contudo, eram designados a uma mesma pessoa. Tupxi, Tupỹ, para manter u à e e ploà a te io e teà a u iado,à eà Tupẽà s oà todasà a iaç esà deà u à es oà nome, mas acionados em situações específicas. Tupxi é empregado quando a pessoa assim denominada está ausente, Tupỹ ua doàelaàest àp ese teàeàTupẽà àaài fle oà vocativa do nome próprio. Os dois primeiros passaram a corresponder a nomes de pessoasà disti tas,à aoà passoà ueà oà Tupẽà oà o staà e à e hu à egist oà oficial. Os velhos manoki falantes da língua, no entanto, podem usar as diferentes inflexões, assim como o fazem, eventualmente, ao falar de Manoel Maria Tupỹ, por vezes ha adoà deà Tup i.à Ta ũ,à Ta ulià eà Ta ũ ià segue à aà es aà l gi a.à U aà lti aà observação sobre as inflexões dos nomes próprios diz respeito aos usos no diminutivo, que também foram registrados como nomes distintos. Embora não tenha informações dos usos, assim como o caso explicitado acima, foi-me explicado que os sufixos -si, -lu,
-tsi e -ru, de Atusi e Atulu, Kutitsi e Kutiru, são diferentes maneiras de representar o
nome em sua forma diminutiva.
A fixidez e o uso de cada uma das inflexões como um nome próprio são temas que se tornam mais interessantes se considerarmos algumas consequências na produção dos sentidos promovidas por essas transformações e a relevância do nome (e da nominação) entre eles.
Certa vez um senhor Manoki mostrou-se muito preocupado em me dizer o seu o eà o eto ,à e o aà ti esseà a a adoà deà eà dize à ueà Ta ũlià eà Ta ũ ià e am a mesma coisa, ou melhor, poderiam ser usados para a mesma pessoa. Mas no seu do u e toàofi ial,àfi ouà egist adoàape asàu àte o:àTa ũ i.àEà oà o te toàda uelaà
151 o e saàafi ouà ueàe t oàoàseuà o eàpassouàaàse àTa ũ iàeàte àape asàu àe aà aisà adequado, pois evitaria possíveis confusões no mundo da oficialidade dos brancos, que ele bem conhece.
Em alguns casos o uso do nome indígena paterno foi usado como uma espécie de sobrenome que todos os filhos de um casal – fossem eles homens ou mulheres receberam – daí a incidência dos oito nomes masculinos para mulheres. Em outras famílias repetiu-se o nome da mãe como um sobrenome para as filhas e o do pai para os filhos. A conjugação dos nomes – o uso do nome indígena com a identificação de um nome a uma única pessoa e a formação de um grupo familiar pela identidade onomástica – produziu outros sentidos, relacionados com as maneiras pelas quais as pessoas eram e são nomeadas entre os Manoki e qual o sentido a nomeação tem e teve entre eles.
A proposição de uma identidade onomástica é observada de maneiras distintas – al àdosà nomes de índio recebidos tal qual o fazem os Mỹky (veremos adiante). Pode ser feita por derivação do nome do pai ou da mãe, ou o uso de uma mesma letra inicial ou terminação para os nomes dos filhos, mudando ou não de acordo com o gênero, ou ainda o uso do nome indígena do pai e/ou da mãe como sobrenome familiar, como vimos acima. O uso do nome indígena como uma identidade familiar parece ter sido mais comum entre os anos 1980 e 1990. Atualmente os o esà deà a o à oà epete àoàdeà eligiososàouàdeàpessoasàdaàfa liaàp i aàouàdista te.à“ oà denominações singulares que podem derivar – e o são com frequência –dos nomes dos genitores e acrescidos de um nome indígena. A identificação étnica na composição do nome próprio passou de Irantxe a Manoki, quando usada.