6 Tema til diskusjon
6.2 Nisjeproduksjon – barrierer og utfordringer
Existem duas formas básicas de narrador, considerando-se sua relação com o mundo diegético apresentado. Caso ele se coloque “fora” desse mundo, isto é, esteja ausente como personagem, recebe, segundo classificação de Genette (1972), a denominação de narrador
heterodiegético; caso contrário, participante da ficção narrada, estamos diante de um narrador
homodiegético. Neste segundo caso, distingue-se ainda a situação na qual ele comparece
como protagonista, quando recebe então o nome de narrador autodiegético. Este apresenta um aspecto peculiar: narrador de si mesmo, ele é personagem de sua própria narração.
Assim se apresenta Renatus Cartesius, o narrador do “Catatau”, praticamente, do ponto de vista da extensão da ação representada, o único personagem do romance. Isso porque, Arciszewisky, o outro personagem, só aparece nas últimas linhas da narrativa, sem esboçar praticamente nenhuma ação, a não ser a do próprio ato de “chegar” ao encontro do primeiro, que o aguarda ansiosamente desde o princípio do romance. “Abrir meu coração a Artyczewski. Virá Artyczewski. Nossas manhãs de fala me faltam” (LEMINSKI, 1989, p. 14), anuncia Cartesius logo nas páginas iniciais. Ao final, nas últimas linhas do texto, exclama: “AUMENTO o telescópio: na subida, lá vem ARTYSCHEWSKY. E como! Sãojoãobatavista! Vem bêbado, Artyschewsky bêbado” (p. 206). Essa espera, segundo Leminski (1989, p. 210), constitui o próprio eixo da fábula:
O Catatau é a história de uma espera. O personagem (Cartésio) espera um explicador (Artiscewski). Espera redundância. O leitor espera uma explicação. Espera redundância, tal como o personagem (isomorfismo leitor / personagem). Mas só recebe informações novas. Tal como Cartésio.
O fato de Arciszewisky chegar completamente bêbado e de não poder atender às expectativas do narrador, isto é, de explicar-lhe a nova realidade, é de grande relevância para o desfecho em aberto do romance. A expectativa que se frustra compõe uma de suas estratégias narrativas, pois, ao ratificar o processo de perda da realidade por parte do narrador ao longo do livro, explicita sua precária condição, a de narrar, de certo modo, a própria incapacidade de narrar-se. Melhor dizendo, sua inaptidão para narrar-se como alguém que se sabe, que possui o controle dos fatos e de si mesmo, como ocorre geralmente nas narrativas tradicionais. Cartesius lamenta: “Este pensamento sem bússola é meu tormento. Quando verei meu pensar e meu entender voltarem das cinzas deste fio de ervas? Ocaso do sol do meu pensar” (p. 206).
Cartesius, como já foi dito anteriormente, é o duplo textual do filósofo francês Renné Descartes, considerado o “pai” da Filosofia Moderna. Como tal, carreia para o universo ficcional um mundo de referências, ao qual devemos estar atentos e levar em consideração quando da análise de sua performance. Não devemos nos esquecer, entretanto, da sua proposital infidelidade ao original, de sua explícita intenção parodística e alegórica. Tratamos deste aspecto com mais atenção no quarto capítulo. Apesar das muitas e óbvias correspondências, trata-se de uma construção ficcional a serviço de um projeto narrativo:
O Catatau procura captar, ao vivo, o processo da língua portuguesa operando. E mostrar como, no interior da lógica todopoderosa, esconde- se uma inautenticidade: a lógica não é limpa, como pretende a Europa, desde Aristóteles. A lógica deles, aqui, é uma farsa, uma impostura. O
Catatau quer lançar bases de lógica nova. (LEMINSKI, 1989, p. 211)
No item destinado às discussões sobre as distâncias narrativas referentes ao narrador, comentamos as relações entre linguagem e pensamento, destacando as concepções da lógica subjacentes àquela. Quanto ao personagem Arciszewisky, é também ele a reduplicação ficcional de uma figura histórica, a de um militar polonês homônimo que servira a Maurício
de Nassau, grafado de múltiplas maneiras no texto do “Catatau”, como já lembrado por nós em passagem anterior. Segundo Montenegro (2004, p. 266), à parte “alguns desvios históricos em relação ao anti-herói plurinomes” (como, por exemplo, o fato de que ele não teria vindo ao Brasil exilado da Polônia em razão de convicções religiosas, como é apresentado no romance, em nota de rodapé), o esperado personagem poderia ser identificado com o próprio Leminski. Justifica sua intuição em razão da presença de qualidades comuns entre eles, postas em destaque, tais como as de “poeta-guerreiro, conhecedor do latim, de temperamento audacioso e de origem polonesa” (p. 265), chegando, ainda, a reconhecer alguma semelhança entre suas imagens (desenhos de ambos e foto do segundo). Tal idéia parece se confirmar quando atentamos para as possíveis insinuações contidas em uma das dedicatórias do “Catatau”: “à glória de Paulo Leminski o Velho / pelas mensagens em código / pelo sangue de Krzysztof Arciszewski (1592 – 1656)” (LEMINSKI, 1989, p. 5). Para a análise que estamos desenvolvendo do romance, entretanto, essa circunstância não altera significativamente nossas conclusões. Fica apenas aqui o seu registro como mais um elemento.
Como conseqüência quase que natural, porém não necessária, Cartesius, na condição de
narrador autodiegético, se apresenta na primeira pessoa gramatical. É curioso lembrar que
Renné Descartes, o filósofo, também escreveu alguns de seus textos doutrinários numa prosa autobiográfica, próxima do gênero narrativo. Em “Discurso do Método” e “Meditações metafísicas”, obras nas quais apresenta sua teoria do conhecimento e o correspondente método para se atingir as idéias claras e distintas (o subtítulo do “Discurso” era: “Para bem conduzir a própria razão e procurar a verdade nas ciências”), ele se mostra pensando e desenvolvendo seus raciocínios, enquanto nos encaminha passo a passo às suas conclusões. Na primeira parte do “Discurso”, por exemplo, Descartes (1996, p. 66) registra:
Assim, o meu desígnio não é ensinar aqui o método que cada qual deve seguir para bem conduzir sua razão, mas apenas mostrar de que maneira
me esforcei para conduzir a minha. Os que se metem a dar preceitos devem considerar-se mais hábeis do que aqueles a quem os dão; e, se falham na menor coisa, são por isso censuráveis. Mas, não propondo este escrito senão como uma história, ou, se o preferirdes, como uma
fábula, na qual, entre alguns exemplos que se podem imitar, se
encontrarão talvez também muitos outros que se terá razão de não seguir, espero que ele será útil a alguns, sem ser nocivo a ninguém, e que todos me serão gratos por minha franqueza. [grifos nossos]
Além dos pronomes reveladores da primeira pessoa, merece destaque seu pleno conhecimento de estar se apresentando através de sua própria história. Ao longo do texto, ele relata sonhos que tivera e lugares visitados, faz referências ao convívio com pessoas, diz como chegou a este ou aquele argumento, revela seu raciocínio, enfim, se coloca presente no texto que enuncia, com amplo domínio de suas intenções. Mas Cartesius, o narrador de “Catatau”, não se mostra tão seguro. Fazendo uso do monólogo interior, apresentando em um tempo simultâneo seus processos mentais, não tem o conhecimento integral de sua própria narração. Ela se desenvolve, assim, sem uma distância relativa do sujeito do enunciado, o que provoca uma visão colada ao que é percebido por ele, no momento mesmo em que seus pensamentos ocorrem. Não um “falar sobre”, mas o “acontecer” da própria falação. O texto não como representação, mas como presentificação, uma espécie de filme do pensamento. Personagem de si mesmo, sua narração tropeça, tornando transparente seu evidente tom parodístico. Esta situação o faz refém não só das eventuais surpresas provocadas pela nova realidade a que está submetido, como também o deixa “indefeso” diante do leitor que, em comunhão com o autor
implícito (ver próximo item), faz dele o alvo de ironias. Cartesius, apesar de, em vários
momentos, reconhecer sua delicada condição, não chega a ter consciência do que o leitor percebe a partir de suas “mudas” palavras. Vejamos alguns exemplos:
Pensar não é legítimo, por isso é antídoto contra a profissão. De qualquer forma, já que eu não me salvo, pelo menos vou dar o máximo de oportunismos ao meu desespero. (p. 59)
Que é que há? Falo tanto que minto algo: muito não está certo. Assisto, míope. Horizonte de cegos: quem tem muitos olhos, comparo aos cegos
e às cegas, reis às vistas ou ao alcance de um óculos de ver longe. Cego não vê, não lê, não crê, não é? (p. 82)
Nesta meditação, gastarei o tempo de minha vida, aquele microcosmos de protocolos! Alma, entra dentro de ti mesma, o alvo não passa de um espelho. Minha substância sofre um acidente, diante de mim. (p. 83) Um mal-estar tomou conta do meu ser, um mal-entendido contra o bom senso: estou à vossa disposição. Ponho um pé fora do caminho. ACONTECEU ALGO DE INACONTECÍVEL. Minha situação é perigosa. (p. 91)
Passagens como essas, em que Cartesius se reconhece numa situação de desconforto ou mesmo de auto-aniquilamento, se proliferam ao longo do texto. Na verdade, o romance todo gira em torno dessa circunstância, explicitando a fragilidade do narrador-personagem e, conseqüentemente, colocando em xeque a visão de mundo que se relaciona, de modo alegórico, ao filósofo que lhe serviu de referência. Cartesius é uma caricatura de Descartes, deixando entrever, de forma burlesca, as incongruências de certas convicções e valores culturais associados ao seu projeto racionalista:
Que fariam se soubessem que o verdadeiro cartésimo se transfigurou e me encarregou de usurpar-lhe o lugar em nome de mim? Que diriam se vissem o que penso? Deveriam dizer coisas de estarrecer já que pensamentos não é para andarem lendo por aí na cabeça dos outros, só se eles não têm cabeça. (p. 149)
2.4 Vozes do “Catatau”: 2. Autor implícito ou o “alter-ego” do Autor-criador
No item “Vozes e pessoas da narrativa literária”, desenvolvido anteriormente, anunciamos o conceito de autor implícito, proposto por Booth (1980), e informamos que o mesmo seria caracterizado com detalhes mais à frente. Embora não seja amplamente consensual entre os críticos, este conceito nos parece de grande operacionalidade para compreensão de vários aspectos do “Catatau”, entre eles, o sentido parodístico do texto, a presença da ironia e dos