4.3 Hypotheses
4.3.1 Nihil’s Scrum Structure Forms Coordination Issues . 57
Demonstraremos neste subitem como o home office é representado nas mídias sociais, tomando como referência de análise três blogs especializados na temática. O
critério de escolha fundamentou-se na relevância das três páginas em relação ao tempo de existência; à frequência com que são realizadas as atualizações das informações (diárias ou semanais); e o número de curtidas e de seguidores das páginas (neste caso, medido a partir da página do Facebook). Estes canais figuram como espaços virtuais por meio dos quais realidades em torno do home office são construídas e disseminadas, a partir das experiências particulares dos responsáveis e do compartilhamento de experiências de terceiros. Além disso, figuram também como um empreendimento voltado para venda de conteúdo digital, no caso conhecimento em trabalho em home office, seja por meio de cursos ofertados ou de livros (impressos ou on line). O número de curtidas, visualizações e compartilhamentos das publicações divulgadas servem, portanto, como meio de auferir rendimentos ao empreendimento. Essas empresas digitais utilizam, além dos blogs, outras mídias sociais41 como ferramenta de divulgação do seu trabalho e disseminação do conteúdo. O quadro abaixo apresenta uma síntese do perfil de cada blog analisado.
Quadro 5 - Blogs Home Office
BLOGS PUBLICAÇÃO ANO DA CURTIDAS* PERFIL TEMAS
Go Home publicação Primeira ocorreu em 2006 6.288 curtidas na página da rede social até 29.12.2016 “Go Home, vá para casa. Poderia ser um manifesto, mas é só uma celebração da qualidade de vida no escritório em casa.”
Portal que reúne informações sobre
home office; plataforma para cursos sobre como organizar um home
office e implementar uma política home
office nas empresas.
Nômades
Digitais Não localizado
166.030 curtidas na página da rede social até 29.12.2016; Informa sobre acessos para fins de marketing “Audiência mensal: + 1 milhão de pageviews + 700 mil visitas “Usando a tecnologia para viajar e trabalhar ao mesmo tempo.”
-Por meio de abas na página do blog, os seguintes temas são abordados: “viagens”; “empreendedorismo”; “tecnologia”; “brasileiros viajantes”; histórias “nômades”; “nossos vídeos”.
41Além do blog o mesmo conteúdo é replicado no em diferentes mídias sociais, a saber: Youtube;
+ 650 mil views no Youtube + 100 mil fãs no Facebook”. Adoro Home Office A primeira publicação no Blog ocorreu em Abril de 2015 26.776 curtidas na página da rede social até 29.12.2016
“O blog de quem é fã do home
office!”
-Publicações variadas sobre empresas que adotam home office; propostas para se tornar um freelancer; indicação de lugares para trabalhar deslocado; rede de
wi-fi gratuita; notícias variadas sobre home
office; boas práticas em home office. Fonte: elaboração própria a partir de informações disponíveis nas páginas do Facebook e do blog dos referidos grupos. Dados de referência entre os anos de 2015-2016.
* Informação referente aos seguidores destas páginas no Facebook.
Dos três blogs selecionados, aquele que difunde a ideia de um estilo de vida nômade é o que possui maior número de curtidas em suas páginas na rede social. Trata- se de um projeto de difusão de conteúdo que associa trabalho deslocado e viagem, cujo objetivo é mobilizar as potencialidades da tecnologia informacionais que permitem trabalhar remotamente e conformar um perfil de profissional que consiga articular a vida produtiva (trabalho) com a possibilidade de conhecer outras cidades e/ou países (viagens). Para isso, adotar um estilo de vida nômade é, segundo seus idealizadores, fundamental. Não se trata da realização de viagens como momento de descanso, com o interesse no turismo e no lazer.
O conceito e os valores do projeto de nomadismo são difundidos por meio do documento disponível no blog com o título de Manifesto Nômades Digitais42. Nele são apresentadas as possibilidades da proposta que se articula com a própria história pessoal do casal como exemplo empírico. São divulgados também, por meio de imagens (fotográficas e de vídeos) casos de outros indivíduos com histórias de sucesso, imagens das viagens, dicas sobre lugares e os canais de divulgação que esses trabalhadores- viajantes ou viajantes-trabalhadores realizaram. O layout da página é sofisticado, as imagens são grandes e de alta resolução, demonstrando que os idealizadores não são amadores na tarefa de comercialização de suas ideias, ademais, eles relatam ter investido financeiramente para criar e manter a página.
O blog foi projetado com o objetivo de gerar renda. Há na página espaço para propagandas, patrocínio e oferta de cursos pagos, que funcionam como meios de geração de renda. As publicações de conteúdo e matérias sobre outras experiências de brasileiros e estrangeiros que adotaram o estilo nômade de trabalho é o modo pelo qual o ideário é difundido e pode passar a estimular potenciais interessados. A etapa dos cursos43 seria o estágio daqueles que ultrapassaram o limite entre o desejo de adotar um estilo de vida nômade e a elaboração do projeto, ou para aqueles que já atuam numa vida nômade e buscam melhorar sua organização pessoal e seu desempenho. O trecho seguinte é utilizado pelos idealizadores na página do Facebook como apresentação síntese do projeto Nômades Digitais.
Que tal trabalhar de um café em Paris? Ou de uma praia na Tailândia? Ou quem sabe, de um restaurante em Tóquio? Se você acha que essa realidade é utópica demais, saiba que estamos na crista da onda de um movimento global formado por pessoas que conseguiram realizar o sonho de trabalhar viajando. Com a evolução da internet e das tecnologias móveis, os Nômades Digitais cada dia mais provam que não é mais preciso trabalhar de um escritório para ganhar dinheiro e ser produtivo.
Lugares incríveis pelo mundo, histórias inspiradoras de empreendedores, tecnologias inovadoras, e o dia-a-dia de um casal que pediu demissão, criou uma empresa de projetos para a internet, e hoje vive trabalhando e viajando pelo mundo. O Nômades Digitais nasceu para mostrar que você também pode. Inspire-se. (NÔMADES DIGITAIS, S/D).
A apresentação do projeto sinaliza uma tendência às atuais formas de trabalho contemporâneo, que seria a eliminação das fronteiras entre vida e trabalho, entre tempo de trabalho e tempo de não trabalho. Com isso, o sentido de trabalho, de lazer, e de turismo são ressignificados, na medida em que a ideia difundida não seria instalar-se em uma determinada cidade ou país para, na localidade escolhida exercer uma atividade ocupacional. Também não se trata de se deslocar com fins de descanso ou passeio para uma determinada cidade e, eventualmente, realizar algumas atividades de trabalho. A ideia é passar temporadas em diferentes localidades, podendo trabalhar e conhecer a cidade ao mesmo tempo. De se instalar em determinados regiões do país ou do mundo e passar a construir uma vida ali, por um período curto de tempo, já que o objetivo é o movimento. É utilizar ao máximo os recursos disponíveis pelas tecnologias para a
43 Em abril de 2015, a página organizou o primeiro congresso sobre nômades digitais com objetivo de apresentar as experiências de indivíduos que trabalham deslocado e sem uma moradia fixa. Conferir em
realização do trabalho e das viagens. O conteúdo do blog analisado tem o interesse em inspirar, provocar e engajar os leitores ou seguidores ao desenraizamento. De modo que associam, de um lado as possibilidades abertas pelo avanço tecnológico e, de outro, as práticas do trabalho autônomo, do auto emprego, ou do trabalho independente. As proposições de um estilo de vida nômade – que se apresenta como tendência – representariam o extremo do trabalho flexível e do sujeito “leve” e desenraizado tal como espera-se dos sujeitos que passam a operar em conformidade com a cité por projeto que Boltanski e Chiapello (2009) destacam os atributos necessários viver segundo essa lógica.
A exigência de leveza pressupõe, em primeiro lugar, renúncia à estabilidade, ao enraizamento, ao apego ao local, à garantia oferecida por elos estabelecidos desde longa data. Em termos de elos, investir é largar a presa e pegar a sombra: mão se fechar em elos preestabelecidos e ficar disponível para tentar novas conexões que podem fracassar (BOLTANSKI; CHIAPELLO, 2009, p. 156)
Nesses termos, outro elemento que permeia o propósito da leveza, do desapego e desenraizamento é o discurso, presente no blog, de deixar o emprego cujo controle é considerado sufocante e estressante, para se tornar o chefe de si. Decorre disso a fusão entre as possibilidades de trabalho deslocalizado com a lógica empreendedora. O emprego, como descreve Boltanski e Chiapello (2009, p.141) é “substituído pela noção de portfólio de atividades que cada um administra por conta própria”. Por meio de casos de sucessos são apresentados narrativas de indivíduos e/ou casais que, assim como os idealizadores do blog, deixaram o emprego considerado estável e no auge da carreira para reconfigurar a forma de trabalhar e buscaram o estilo de vida nômade.
Figura 1 – Mensagem síntese - “I Congresso Nômades Digitais”
Fonte: vídeo divulgado no I Congresso “Nômades Digitais” 44
A noção de liberdade é valorizada e almejada. A sensação de que as liberdades são tolhidas no espaço do escritório, com trabalhos entediantes é sinônimo de perda de vida, de impossibilidades de felicidade. É uma frase de efeito com a finalidade de estimular os participantes dos cursos, os seguidores das páginas, e que nas entrelinhas aponta para a necessidade de calcular a rota da vida, ou sair da “zona de conforto” do emprego estável, mas cheio de regras e de trabalho intenso. Levantamos a questão que é: a quem se destina esse discurso e quem realmente poderia adotar uma vida nômade?
Seguir um estilo de vida nômade não significaria menos trabalho, ao contrário, resulta em trabalho em maior intensidade, porque o aspirante a tal estilo precisaria aprender a viver ainda mais na instabilidade e com as incertezas de sua condição. Incerteza e instabilidade estariam presentes em sua carga máxima. Porém, os discursos, as narrativas, as histórias difundidas no material difundido no blog não falam em instabilidade, incertezas. Mas, ao apresentar situações limites de outros nômades, tratam indiretamente sobre como se conviver com as incertezas.
Uma delas está relacionada aos ganhos variados que se resolveria com a prática da poupança e da ideia de um consumo minimalista, ou seja, de substituir o desejo por bens materiais pelos imateriais. Entraria aqui, no plano do consumo, a ideia segundo a qual as experiências vivenciadas são mais relevantes e teriam mais valor para os indivíduos quando comparado com o consumo de bens materiais. A valorização da experiência enquanto um bem a ser adquirido – e que passa a ser compreendido como bem que enriqueceria emocional e psicologicamente o sujeito – é homologo em relação às competências e habilidades exigidas de um profissional. No sentido atribuído pelo blog foco é consumir as experiências por meio das viagens, dos lugares e das culturas presentes nas localidades e territórios onde temporariamente se instalam. Assim, os cursos oferecidos pelo blog cumprem o papel de oferecer as estratégias sobre como organizar a vida e o trabalho a partir da lógica do trabalhador-viajante.
Um dos conteúdos que analisamos foi extraído de um vídeo de apresentação do I Congresso Nômade Digital o qual apresenta os quatro eixos garantidores de um estilo de vida nômades com sucesso. Seria uma espécie de quatro etapas que os interessados no estilo de vida precisam adotar para garantir que o objetivo do trabalhador-viajante cumpra-se.
Eu chamo esses pontos de “As 4 liberdades”. Dominando-as, você vai poder viver viajando para o resto da sua vida. Ou ainda vai poder morar em qualquer lugar e ter uma carreira bem sucedida, seja gerenciando seus negócios de uma ilha do Caribe ou tocando seus projetos de um grande centro da Europa (CONGRESSO NÔMADES DIGITAIS, 2016).
Os quatro pontos fundamentais seriam: liberdade geográfica; a liberdade de tempo; a liberdade financeira e a liberdade de fazer o que ama. Por meio da noção de liberdades geográfica e de tempo difunde-se a ideia de trabalho deslocalizado, da necessidade de desenraizamento e da venda e comercialização de “resultados e produtos” e não do tempo em si. Essas ideias estão contidas no discurso sobre liberdade geográfica e liberdade de tempo.
Se você mora na Ásia, digamos, mas cobra para dar consultoria por Skype para empresas do Brasil, com duração de quatro horas. Seus rendimentos estão atrelados ao seu tempo de trabalho (duração das reuniões). E você ainda tem que atender clientes nos horários em que estão disponíveis. Já se você transforma a mesma consultoria em um curso em vídeo, você ganha por vendas do produto e pelo resultado entregue e não pelo seu horário ou número de horas trabalhadas, alcançando muito mais liberdade de tempo. Além, é claro de ter um negócio muito mais escalonado (que pode crescer com muito mais facilidade). (CONGRESSO NÔMADES DIGITAIS, 2016).
Ser um nômade digital requer planejamento e disciplina para empreender uma vida com trabalho remoto (ou itinerante) em que os interessados em tal estilo devem estar em ocupações com possibilidade de mobilidade, cujos contratos devem também ser flexíveis. Nesse sentido, a valorização de trabalhos na forma de freelance tem sido uma das bandeiras, tanto deste, quanto dos demais blogs analisados aqui. Eles dedicam- se a visibilizar uma infinidade de ocupações com possibilidades de trabalho freelance45 ou de indicar as ocupações propícias ao trabalho remoto (blogueiros, tradutores, fotógrafos, etc.).
A liberdade financeira é apresentada como a terceira liberdade fundamental para os nômadaes digitais e não significaria o quantun de dinheiro se ganha por mês, mas a “liberdade financeira é igual ao tempo que você poderia sobreviver sem trabalhar a partir de hoje” (CONGRESSO NÔMADES DIGITAIS, 2016). Está pressuposta nesse
45 Observamos que em meio às divulgações de trabalhos que envolvem ocupações ligadas às tecnologias informacionais e à comunicação, a ideia de trabalho temporário ou por projeto é difundido por meio da nomenclatura do freelancer. Há pelo menos 10 páginas virtuais voltadas para divulgação de vagas
argumento a ideia de que os indivíduos precisam se organizar finaceiramente, a tal ponto de poder considerar trabalhar sem remuneração, ou passar por um período sem receber recursos ou sem trabalhar remunerado. Mais uma vez o que fica explícito é uma mensagem para viver o risco da instabilidade no seu limite. E para isso sugerem que “adotar um estilo de vida minimalista ajuda e muito no aumento dessa liberdade, sem falar na organização mental e de tempo” (CONGRESSO NÔMADES DIGITAIS, 2016).
A liberdade de fazer o que se ama, como quarto pilar que estrutura a vida nômades, é o mais difícil de explicar e explicitar no curso. Mas, em síntese, seria aquilo que manteria o indivíduo em ação diante das adversidades trabalho instável, flexível, em uma localidade que é provisória e distante dos laços de amizades e familiares. Seria em nome do “amor ao que se faz” que esse perfil de trabalhadores se mobilizaria para continuar aponstando no estilo de vida nômades, que alimenta uma ideia de trabalho home office.