Os protocolos verbalizados dos pensamentos em voz alta foram utilizados em todas as fases deste experimento, ou seja, no pré-teste, pós-teste imediato e pós- teste tardio simultaneamente à leitura de input textual. É relevante destacar que, segundo Souza e Rodrigues (2008), o emprego da técnica dos protocolos verbalizados possibilita minimizar o efeito da inacessibilidade aos dados da consciência dos participantes, enquanto estes estão envolvidos com o input textual. Portanto, neste estudo, o objetivo do emprego dessa técnica foi verificar se os participantes notaram a forma alvo, a qual estava relacionada aos pronomes pessoais, bem como seus potenciais efeitos conscientes durante a realização dos três tipos de testes de leitura – nas palavras cruzadas, no reconhecimento de múltipla escolha e na produção escrita pelo preenchimento de espaços vazios – ao longo do experimento. E, ainda, com os protocolos verbalizados dos pensamentos, o objetivo também foi analisar se a acurácia gramatical da estrutura alvo foi mantida na fase do pós-teste tardio.
Como a técnica de protocolo verbalizado dos pensamentos implicou a execução simultânea de duas tarefas complexas e, provavelmente, distintas, isto é, a tarefa de input textual e o relato dos processos conscientes coocorrentes com a execução dessa tarefa textual, os participantes, antes da realização do pré-teste, foram submetidos a uma sessão de treinamento quanto ao uso da técnica no
laboratório de línguas da escola, local onde os dados foram coletados, durante o período regular de aula no turno vespertino. O objetivo do treinamento antes da realização das fases deste experimento foi preparar o participante para estar atento ao ato de verbalizar seus pensamentos durante o processo de realização dos testes, uma vez que, segundo Souza e Rodrigues (ibidem), o input textual e a verbalização, tarefas aparentemente complexas e distintas, são desafios aos participantes, principalmente, quando estes buscam à compreensão dos aspectos linguísticos, no caso deste estudo, os pronomes pessoais em L2.
Durante a sessão de treinamento para cada participante, realizado no mês de maio de 2013, os sujeitos entraram no laboratório, previamente preparado por esta pesquisadora, contendo 25 computadores portáteis, 25 microfones de cabeça com fio, um data-show, uma televisão e um quadro de giz, conforme a figura 1 abaixo:
FIGURA 1 – Laboratório de línguas da escola, local onde foram realizados os protocolos verbalizados dos pensamentos pelos participantes.
A pesquisadora, durante o experimento, contou com o apoio voluntário de um dos monitores da escola, o qual auxiliou os participantes quantos aos procedimentos a serem realizados durante o uso da técnica de verbalização dos pensamentos em voz alta. Inicialmente, o monitor demonstrou, passo a passo, os procedimentos por meio do data show aos participantes, os quais observaram e, posteriormente, executavam os comandos para gravar suas falas nos áudios. Os comandos para gravação das falas em áudio também foram escritos no quadro de giz, conforme demonstra a figura 2 abaixo:
FIGURA 2 – Procedimentos escritos no quadro de giz para a gravação dos protocolos verbalizados dos pensamentos.
Segundo Ericsson e Simon (1993), após as instruções para a realização das verbalizações, os treinamentos dos participantes são necessários a fim de evitar a possibilidade de interferência dos relatos verbais durante a realização dos testes experimentais com leitura. Para Souza e Rodrigues (op. cit., p. 30), o treinamento é “essencial, pois quanto mais explícitos forem os relatos dos processos, menos subjetivas e, portanto, mais confiáveis serão as suas classificações”. Assim sendo, a figura 3, a seguir, mostra o momento de treinamento dos participantes quanto à realização de suas verbalizações dos pensamentos em voz alta:
FIGURA 3 – Execução dos procedimentos para a gravação dos protocolos verbalizados dos pensamentos no computador portátil.
Portanto, na sessão de treinamento realizado no mês de maio, a pesquisadora juntamente com o monitor passaram, verbalmente com o auxílio do quadro de giz e, simultaneamente, pelo data show, as instruções visuais e auditivas a fim de que os participantes treinassem os comandos a serem realizados durante o experimento com o programa audacity, isto é, um programa de edição digital de áudio disponível pela plataforma Linux (sistema operacional de computador) da escola, permitindo o formato de gravação e reprodução de sons em MP3. O programa audacity é mostrado na figura 4 a seguir.
FIGURA 4 – Programa usado para a gravação dos protocolos verbalizados dos pensamentos.
Nome do participante
Na fase do pré-teste, pós-teste imediato e pós-teste tardio, o monitor também auxiliou voluntariamente a pesquisadora com relação à gravação dos áudios dos participantes, quando estes finalizavam seus testes e ainda apresentavam alguma dúvida quanto aos comandos de conclusão da gravação de seus áudios. O objetivo era não deixar o participante esperando por muito tempo ao término de seus testes no laboratório de línguas, uma vez que, ao concluir tais testes, os sujeitos se deslocavam imediatamente para outra sala.
Com relação ao tempo estipulado para a realização da gravação de suas falas, aos participantes foi estabelecido um tempo de aproximadamente 30 minutos para a gravação de suas falas de pensamento durante a realização coocorrente dos três modelos de testes (palavras cruzadas, reconhecimento e produção escrita) em cada fase.
Durante a gravação dos áudios nas fases deste experimento, os participantes seguiram as instruções de forma natural. Em alguns momentos, entretanto, houve interrupções do silêncio no laboratório de línguas ocasionado pela sirene da escola avisando quanto à troca de professores no horário regular de aula. Além disso, alguns avisos ocasionais e necessários foram feitos pela pesquisadora aos participantes. Por mais que os participantes tenham sido instruídos de forma clara e sucinta na sessão de treinamento e, ainda, antes do início da realização de cada fase, os avisos da pesquisadora ocorreram quando esta observava que alguns participantes passavam por um longo período sem verbalizações. Os avisos eram, por exemplo, os seguintes: “pessoal, lembre-se de falar o que está pensando em voz alta justificando sua resposta”; “pessoal, veja se seu fone está próximo à boca para que não haja interferência no volume do som”; “pessoal, faltam 8 minutos para o término da primeira tarefa”. Souza e Rodrigues (2008) defendem a não interferência no processo de verbalização dos pensamentos, exceto quando for observado que os participantes estão por um longo período sem verbalizar.
Finalmente, após a última gravação das falas na fase do pós-teste tardio, os participantes receberam um questionário com o objetivo de verificar o conhecimento prévio ou reconhecimento da forma alvo durante e/ou fora do experimento. O questionário é detalhado na seção 3.4.3.