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New strategy towards trans-fused mucosin (3)

Em sua ética diferencial, Foucault evoca outro tipo de sujeito: esfacelado, criativo, híbrido, mutante, um sujeito do devir, descompromissado de quaisquer políticas identitárias,

um sujeito que jamais permanece o mesmo. Acima de tudo, um nômade. Ao contrário do

Humanismo, que colore e justifica as concepções do “homem”, o evocado por Foucault nos anos 1980 é uma ética da diferença. Em oposição à utopia normativa e apaziguadora do homem inserido como substituto de Deus, vislumbra-se a possibilidade de uma heterotopia

inquietante. Diz Foucault (2007, p.XIII):

As utopias consolam: é que, se elas não têm lugar real, desabrocham, contudo, num espaço maravilhoso e liso; abrem cidades com vastas avenidas, jardins bem plantados, regiões fáceis, ainda que o acesso a elas seja quimérico. As heterotopias inquietam, sem dúvida porque solapam secretamente a linguagem, porque impedem de nomear isto e aquilo, porque fracionam os nomes comuns ou os emaranham, porque arruínam de antemão a ‘sintaxe’, e não somente aquela que constrói as frases – aquela, menos manifesta, que autoriza ‘manter juntos’ (ao lado e em frente umas das outras) as palavras e as coisas. Eis porque as utopias permitem as fábulas e os discursos: situam-se na linha reta da linguagem, na dimensão fundamental da fábula; as heterotopias (encontradas tão frequentemente em Borges) dessecam o propósito, estancam as palavras nelas próprias, contestam, desde a raiz, toda possibilidade de gramática; desfazem os mitos imprimem esterilidade ao lirismo das frases.

É na conferência proferida no Circle d’Études Architecturales, em 14 de março de 1967, que Foucault anuncia: vivemos na época do espaço, em contraposição à obsessão do século XIX com a história. Não é o tempo que nos preocupa, e sim o espaço. Diz Foucault (1967):

A nossa época talvez seja, acima de tudo, a época do espaço. Nós vivemos na época da simultaneidade: nós vivemos na época da justaposição, do próximo e do longínquo, do lado-a-lado e do disperso. Julgo que ocupamos um tempo no qual a nossa experiência do mundo se assemelha mais a uma rede que vai ligando pontos e se intersecta com a sua própria meada do que propriamente a uma vivência que se vai enriquecendo com o tempo. Poderíamos dizer, talvez, que os conflitos ideológicos que se traduzem nas polêmicas contemporâneas se opõem aos pios descendentes do tempo e aos estabelecidos habitantes do espaço.214

O espaço como foco de preocupações não é, contudo, uma exclusividade da contemporaneidade. Os conjuntos hierárquicos de lugares já existiam em diversas outras culturas, séculos atrás. Estabelecem-se lugares sagrados e profanos, protegidos e desprotegidos, urbanos e rurais. É Aristóteles quem estabelece, conforme abordamos no primeiro capítulo desta dissertação, a diferença de natureza entre o espaço do devir (mundo sublunar) e o espaço celeste. Tais contrastes entre espaços perfaziam uma hierarquia em que tudo tinha o seu “lugar natural” e não nos preocupavam tanto por serem supostamente garantidos. Eis que surge Galileu, fazendo embaralhar o que se estabelecera como “devido espaço”, e assim reconhece Foucault (1967):

Este espaço de disposição, de fixidez, foi aberto por Galileu. O escândalo profundo suscitado pelas suas investigações não foi o facto de ter descoberto, ou melhor, redescoberto que a Terra girava à volta do Sol, mas na constituição do conceito de infinito e, o que é implícito, de um espaço infinitamente aberto215. Num espaço desses, os lugares da Idade Média

214

Conferência proferida por Michel Foucault no Cercle d'Études Architecturales, em 14 de Março de 1967. Disponível em: http://www.virose.pt/vector/periferia/foucault_pt.html Acesso em: 16 jul 2013. Tradução: Pedro Moura.

acabam por se dissolver; um lugar de uma coisa não passava afinal de apenas um ponto do seu movimento, assim como a estabilidade dessa coisa não passava afinal da infinita desaceleração do seu movimento. Por outras palavras, Galileu e todo o século dezessete foram os primeiros de todo um movimento que substituiu a localização pela extensão.216

Mesmo com o mais sagrado de todos os espaços tendo sido profanado por Galileu, ainda experimentamos a existência de “lugares especiais”. Não atingimos o apogeu desta dessacralização, tanto que nossa existência ainda é governada por um “sagrado oculto” que sustenta as oposições e dicotomias entre lazer/trabalho, público/privado, família/sociedade e tantas outras. É óbvio, Foucault proferiu este discurso em 1967 e não teve a oportunidade de contato com as redes sociais da internet e seus procedimentos inevitáveis de destruição das frágeis delimitações espaciais, onde público e privado se misturam, assim como o familiar e o social, o espaço do poder institucionalizado e do povo. Ainda assim, é ao anunciar o conceito de heterotopia e se valer do exemplo do espelho, que Foucault mais se aproxima do que entendemos hoje em dia como “internet” – afinal, a heterotopia é o que não está nem “aqui”, nem “lá”, consolidando-se como um espaço simultaneamente físico e mental. Diz Foucault (1967):

Este tipo de lugares está fora de todos os lugares, apesar de se poder obviamente apontar a sua posição geográfica na realidade. Devido a estes lugares serem totalmente diferentes de quaisquer outros sítios, que eles reflectem e discutem, chamá-los-ei, por contraste às utopias, heterotopias. Julgo que entre as utopias e este tipo de sítios, estas heterotopias, poderá existir uma espécie de experiência de união ou mistura análoga à do espelho. O espelho é, afinal de contas, uma utopia, uma vez que é um lugar sem lugar algum. No espelho, vejo-me ali onde não estou, num espaço irreal, virtual, que está aberto do lado de lá da superfície; estou além, ali onde não estou, sou uma sombra que me dá visibilidade de mim mesmo, que me permite ver-me ali onde sou ausente. Assim é a utopia do espelho. Mas é também uma heterotopia, uma vez que o espelho existe na realidade, e exerce um tipo de contra-acção à posição que eu ocupo. Do sítio em que me encontro no espelho apercebo-me da ausência no sítio onde estou, uma vez que eu posso ver-me ali. A partir deste olhar dirigido a mim próprio, da base desse espaço virtual que se encontra do outro lado do espelho, eu volto a mim mesmo: dirijo o olhar a mim mesmo e começo a reconstituir-me a mim próprio ali onde estou. O espelho funciona como uma heterotopia neste momentum: transforma este lugar, o que ocupo no momento em que me vejo no espelho, num espaço a um só tempo absolutamente real, associado a todo o espaço que o circunda, e absolutamente irreal, uma vez que para nos apercebermos desse espaço real, tem de se atravessar esse ponto virtual que está do lado de lá.217

215 Mais do que isso, aponto para o fato de que o maior escândalo suscitado por Galileu foi, conforme detalhei no primeiro capítulo da presente dissertação, ter demonstrado que o espaço celeste era – ao contrário do preconizado por Aristóteles - composto por matéria tão banal e imperfeita quanto a matéria terrestre.

216 Idem à nota 201. 217 Ibidem.

Foucault estabelece diversos tipos de heterotopias: as de crise (onde nos inserimos quando nossa existência se choca com a sociedade vigente. Exemplo: guetos gays); as de desvio (onde inserimos os indesejados. Exemplo: hospícios); as temporais (locais que existem “fora do tempo”, como museus); as purificadoras (proibidas ao público, salvo permissão, cujo objetivo é purificar e/ou corrigir. Exemplo: prisões, templos); de ilusão (objetos reais que criam mundos alternativos. Exemplo: livros ficcionais, redes sociais virtuais, cinema); de compensação (lugares reais que simulam as condições de outros lugares. Exemplo: zoológicos, estufas, bairros étnicos, colônias).

Dentre todas as categorias heterotópicas apontadas por Foucault, uma nos interessa em especial na presente dissertação, pois é através dela que vislumbro a possibilidade desta “nova forma” a ser assumida pelo homem na medida em que morre e dá lugar a algo novo. Refiro-me à heterotopia de compensação.