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Outro tipo de pergunta comum observada nos momentos em que o discurso dialógico é predominante nesta sala de aula é a pergunta de compartilhamento em que o professor responde a pergunta de um aluno com outra pergunta, ou simplesmente devolve a pergunta ou comentário originalmente formulado por um estudante, a outro estudante ou a toda turma. Dessa maneira o professor transfere a responsabilidade de pensar sobre a questão de volta aos alunos compartilhando ideias de um aluno com outro, com um grupo de alunos ou com a turma inteira. O uso desse tipo de pergunta numa interação discursiva promove o cruzamento de vozes distintas no plano social da sala de aula. Ao convidar os alunos a dialogarem com saberes enunciados por colegas, pelo professor, livro didático ou outras vozes que se fazem presentes na aula através de textos, vídeos etc., a função do professor

se assemelha a de um regente de orquestra que coordena os diferentes instrumentos e textos, convidando-os alunos a expressam suas vozes em confronto/contato com outras.

Ao compartilhar os pontos de vista de um aluno com os demais, o professor, muitas vezes, parafraseia a ideia inicial deste. Neste tipo de “revoicing” (O’Connor e Michaels 2007) o professor confere à afirmação ou pergunta de um aluno, um sentido mais próximo dos sentidos autorizados pela ciência escolar. Em alguns casos essa modificação do enunciado é apenas um leve ajuste das palavras de modo a precisar melhor as ideias tornando-as ligeiramente distintas ou mais próximas da linguagem da ciência escolar. Em outros casos o professor modifica fortemente as palavras provocando mudanças significativas de sentido no enunciado do aluno de modo a torná-lo mais próximo do saber científico, realizando correções de prováveis erros conceituais.

Trecho de episódio 9: O reflexo na cadeira (2ª parte)

Durante esse episódio ocorrido no módulo de “Luz e Visão” o professor faz uma revisão dos conteúdos trabalhados na sala, em aulas anteriores. O tema da revisão é a reflexão da luz e suas características. O professor discute com os estudantes o conceito de reflexão difusa e reflexão especular retomando ideias já apresentadas e faz uma pergunta evocando o debate na turma. A questão colocada, a partir de um exemplo do livro didático Construindo Consciências, se referia à reflexão da luz em uma cadeira da sala de aula. A luz que penetrava pela janela era refletida numa cadeira. Os alunos haviam respondido uma questão semelhante proposta pelo livro e o professor retoma o assunto perguntando a um aluno se essa reflexão que ocorre na cadeira é especular ou difusa. Diante da dificuldade do aluno em propor uma resposta o professor solicita ajuda dos colegas:

Professor: Ajudas?

Pedro: a imagem é especular porque é igual. Tatiana: eu acho que é difusa!

Professor: quem tá falando difusa? Tatiana: Eu.

João: Eu. Cida: Eu.

Professor: Você também acha que é difusa? Cida: também acho que é difusa.

Antônio: reflete a luz do sol na cadeira.

Professor: é, mas agora nós estamos voltando pra o que é ser difusa e o que é ser especular. Repete aí de novo pra mim, só deixar que eu esqueci, responde aí pra mim de novo.

Tatiana: é... sobre a cadeira? Professor: é...

Tatiana: Eu acho que é difusa. Professor: Porque?

Tatiana: Porque reflete pra vários lados. Num é igual espelho que é... Grazi: depende do ângulo.

Professor: Você concorda? Você escreveu isso aí? João: eu concordo com Tatiana

Professor: Antônio... você também acha?

Antônio: é... acho... que é difusa a reflexão da luz na cadeira. Bruno: você discorda da Tati?

Professor: (falando para João) Explica para o Bruno aí porque você não concorda com ele.

João: é porque reflete pra você né... pra você conseguir ver a imagem lá. Quando eu olho pra cadeira eu vejo a cadeira, eu não consigo ver refletido a minha imagem lá. Então ela seria o que? ela seria difusa porque ela... a luz bate nela e volta em todas direções..

No episódio como um todo, existem marcas do discurso dialógico na medida em que alunos respondem as solicitações do professor emitindo suas opiniões, algumas vezes em consenso outras em dissenso com o ponto de vista da ciência. Distintas vozes se fazem presentes no discurso e o professor as considera. No entanto, são fortes as características do discurso de autoridade, pois a maioria dos enunciados dos estudantes manifesta consenso com o ponto de vista da ciência. Os estudantes procuram alinhar suas respostas com a perspectiva do conhecimento escolar que permanece, todo o tempo, como referencia para o conhecimento comum a ser construído em sala de aula. Além de terem se apropriado do discurso científico ressaltamos aqui o papel fundamental que o contexto extralinguístico desempenha na análise destas interações discursivas. O caráter de revisão e fixação de conceitos da atividade desenvolvida em sala influencia sobremaneira os enunciados dos estudantes de modo que estes buscam ajustar suas assertivas ao discurso autorizado pela ciência escolar. Nas próximas seções discutiremos de forma mais aprofundada as relações entre contexto, intenções do professor e alunos e os tipos de perguntas formuladas e a relação dialética entre produção e restrição de sentidos.

As perguntas do professor “Você também acha que é difusa?”, “Você concorda?” e “Antônio... você também acha?” cumprem a função de compartilhar opiniões de um aluno com outro ou com a turma, buscando concordâncias ou discordâncias. A intenção do professor, que inferimos a partir da observação e

impressões registradas em caderno de notas, foi a de buscar o compartilhamento de enunciados científicos a partir de seu uso em um novo contexto, o do reflexo da luz na cadeira no interior da sala de aula. A busca do consenso como conhecimento compartilhado a ser sistematizado ou dos dissensos, que evocariam a necessidade de argumentação e novos esclarecimentos, dá o tom das interações discursivas. Por meio das perguntas de compartilhamento o consenso é alcançado como forma de equalização do discurso em torno da linguagem da ciência escolar, estabelecendo como passo seguinte à sistematização dos conceitos.