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Nas economias periféricas, o início dos anos 1980 pode ser identificado como a gênese do seu processo de financeirização (MOREIRA, 2005). Buscando compensar o desequilíbrio de balanço de pagamentos, os governos se endividam no exterior. Porém, como o modelo econômico não se modifica, persistindo uma insuficiência de poupança interna e a pressão no balanço de pagamentos (pela dificuldade de exportar), a insuficiência da capacidade de importar só se agrava, visto que agora o país possui um elevado serviço da dívida.

Este elevado endividamento obriga os governos periféricos a emitir títulos para diminuir o impacto inflacionário provocado pela transformação de moeda estrangeira em moeda nacional. Para estimular que empresas e bancos se endividem no mercado internacional, o governo eleva a taxa de juros interna.

Esta política de alta taxa de juros reais tem um impacto negativo sobre o capital produtivo de pequenas e médias empresas. As grandes empresas multinacionais não são prejudicadas por tal política, pois possuem uma elevada taxa de autofinanciamento. Por conta desta política as empresas passaram a adotar estratégias de rentabilidade de curto prazo e, assim, a esfera financeira torna-se o locus da valorização do excedente que foi criado na esfera produtiva (MOREIRA, 2005).

Com a elevação das taxas de juros nos países centrais, os países da América Latina passam a viver, durante toda a década de 1980, com a crise da dívida, o que leva a

literatura econômica a intitular esta como a “década perdida”35. Esta crise se caracterizou por

um drástico racionamento dos financiamentos externos. Assim, essas economias foram obrigadas a implementar planos de ajustes do Fundo Monetário Internacional (FMI), para poder ter acesso aos recursos para pagar o serviço de suas respectivas dívidas.

O processo de financeirização destas economias se intensifica transformando-as em exportadoras líquidas de capitais. Então, todo o endividamento tomado passa a ser direcionado para o pagamento do serviço das dívidas em detrimento de suas políticas industriais. As políticas de ajustamento adotadas se traduzem em uma recessão interna, visto que a capacidade de investimentos públicos e privada fica impossibilitada.

As bases que davam sustentação para o modelo de substituição de importações são destruídas. Este modelo dependia de uma intervenção do Estado e da capacidade de investimento das multinacionais.

Para Moreira (2005), o papel do Estado na economia brasileira, nos anos 1980, foi reduzido por dois mecanismos: queda das receitas fiscais (por conta da recessão) e a elevação do serviço da dívida (que aumentava cada vez mais por conta da política de juros altos adotada para tentar frear as fugas de capitais). O aumento da dívida interna produz uma redução dos investimentos públicos.

A mudança de estratégia das empresas multinacionais buscando rendimentos de curto prazo no mercado financeiro reflete sua defesa para este período de estagflação. Elas se beneficiam do crescimento da dívida financeira do Estado, pois adquirem os títulos públicos com alta lucratividade. A especulação na esfera financeira serve tanto para as empresas multinacionais se protegerem da alta inflação, como para realizarem ganhos elevados.

Em função do protecionismo e por conta do período recessivo, os grandes grupos multinacionais vão adotar uma estratégia rentista. Realizam lucros extraordinários via remarcação de preços para compensar a queda da demanda interna.

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OàB asilàsof euà e osàosàefeitosà egativosàdaà d adaàpe dida àdoà ueàosàde aisàpaísesàlati o-americanos. Seu crescimento per capita foi nulo, nos anos 80, enquanto que quase todos os outros países sofreram uma queda: de cerca de 10% no México, de 20% na Argentina. A estrutura produtiva do Brasil, mais forte do que a das outras economias semi-industrializadas e, sobretudo, mais completa (presença de um importante setor de bens de produção), permitiu que ele resistisse melhor à crise e desenvolvesse as exportações, apesar da revalorização da sua moeda, em seguida, e da importante redução das subvenções das quais se beneficiava esseàseto ,àp o ovidaàpeloàp eside teàCollo à SALAMA, 1998, p. 230)

Para Salama (1998), o protecionismo, a diminuição do papel do Estado, a perda de autonomia em adotar uma política econômica, a forte queda dos investimentos e a preferência das empresas pelas atividades especulativas fez com que freasse a introdução de tecnologias modernas. A indústria nacional se torna obsoleta e aprofunda um afastamento da produtividade. Este problema é compensado pela diminuição dos salários reais, por conta da inflação, obrigando o trabalhador a se submeter a formas arcaicas de extração do valor36.

Foi esta baixa de salários que, combinada com as políticas de promoção das exportações (com as maxidesvalorizações), estimulou as multinacionais a concentrar seus esforços nas exportações brasileiras nos anos 80. Este crescimento em nada teve a ver com a realização de investimentos na modernização tecnológica (MOREIRA, 2005).

Portanto, a década de 80 é caracterizada como o primeiro período de financeirização das economias periféricas da América Latina. Aqui, a financeirização esteve diretamente relacionada com o processo inflacionário (intenso) acompanhado pela crise da dívida externa. Um período caracterizado pela existência de episódios de “ciranda financeira” (empresas se financeirizando e o Estado emitindo títulos), com ampliação do espaço para as operações do capital financeiro e, também, por um processo de flexibilização (precarização) do trabalho. Como os fluxos de capitais internacionais cessaram por conta da crise da dívida, esta financeirização foi um fenômeno interno.

Nos anos 90, tem início um novo período deste processo, quando a financeirização passou a ser utilizada como estratégia de saída da crise. Os governos, influenciados pela ortodoxia liberal que estava em voga nos países centrais desde meados dos anos 1970, passam a adotar uma intensa liberalização dos mercados (que fica caracterizado na literatura como a incorporação dos ‘mercados emergentes’ ao regime de finanças internacionais) e uma política de valorização da taxa de câmbio (provocando elevados déficits no balanço de pagamentos que são financiados pelos fluxos de capitais externos).

36 Co àaào soles iaàdo aparelho produtivo, o aumento, ou até mesmo a simples manutenção de um dado

nível de mais-valia, quando a depressão se torna efetiva, não pode vir do melhoramento do conjunto da produtividade. A mais-valia relativa conhece aqui os limites de seu progresso. A intensificação do trabalho, ligada ao desenvolvimento do progresso técnico, é também limitada, pois necessita, em geral, do suporte de técnicas modernas. Dessa forma, a possibilidade de utilização dos mecanismos de mais-valia absoluta ode a àpa aàaumentar a mais-valia, ou mantê-la, é também limitada. Resta a mais-valia absoluta arcaica, que predominava no início do desenvolvimento do capitalismo nos países hoje desenvolvidos. Seu mecanismo é simples: trata-se de prolongar a jornada de trabalho, a fim de aumentar a quantidade de trabalho não

A América Latina, ao retomar sua capacidade de endividamento externo, a partir do início dos anos 90, o faz sob a égide de movimentos de capitais financeiros voláteis, atraídos pelo elevado diferencial de seus juros internos relativamente às taxas internacionais. Sem dispor do raio de manobra dos NICs orientais em função de sua inserção absoluta na esfera de influência dos Estados Unidos – com quem, ademais, não mantém (com a possível exceção do Chile) as complementaridades e sinergias que caracterizam o espaço econômico asiático –, a América Latina torna-se um exemplo nítido dos malefícios de uma inserção subordinada no processo de globalização, sofrendo perdas de competitividade, reversão de seu processo de industrialização, exacerbação das mazelas sociais e crescente dependência dos fluxos de capital externo para evitar a débâcle cambial” (TAVARES E MELIN, 1997, P.78)