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2 My theoretical framework

2.4 New Criticism

Galileu inaugura um novo raciocínio científico e marca um dos registros mais importantes do pensamento humano. Foi um dos cientistas que tiveram um expressivo protagonismo na Revolução Científica do século XVII, considerado o fundador da física clássica e do método experimental, explica Mariconda (2006). Galileu trouxe uma nova perspectiva para a ciência, incorporando ação, prática e instrumentalização, que imprimiram liberdade de pensamento ancorado a um método. O italiano descobriu, com seu método experimental, a lei da queda dos corpos, fato que o habilitou a confrontar as ideias de Aristóteles. Descobriu, também, a trajetória parabólica dos projéteis e formulou a teoria do movimento uniforme acelerado. Galileu foi capaz de fazer uma descrição matemática do movimento, organizando, desta forma, a primeira teoria cinemática. Esteve sempre à procura de regularidades expressáveis na natureza, as chamadas leis da natureza, evidências que poderiam ser comprovadas através da realização de experimentos, como no caso da lei da queda dos corpos. Galileu confirmou sua tese de que os corpos caiam com a mesma velocidade, contornando a dificuldade e falta de instrumentos à época com um engenho que permitia acompanhar e medir a queda de uma esfera metálica em um plano inclinado.

Antes de Galileu dar início às suas investigações experimentais com telescópios, o astrônomo observacional dinamarquês Tycho Brahe investigou os movimentos dos astros nos céus a olho nu por mais de 30 anos (GLEISER, 2014). Tycho teve a coragem de trazer a público o fato de que a ordem aristotélica imutável dos céus estava incorreta e que uma nova visão de mundo se fazia necessária.

Mariconda (2006) reflete sobre a mudança de uma atitude contemplativa para uma ativa que a revolução científica provocou, transformando o homem no senhor da natureza.

É comum caracterizar a revolução científica do século XVII como uma transformação completa de atitude fundamental do espírito humano. Essa transformação está expressa na oposição entre uma atitude ativa e uma atitude contemplativa: o homem moderno procura dominar a natureza, torna-se “dono e senhor da natureza”. enquanto o homem medieval visa apenas contemplá-la. Embora não se deva tomar tal caracterização em sentido absoluto, pois poderia conduzir. de um lado, a minimizar as realizações técnicas da Idade Média e, de outro, a maximizar a influência da técnica no desenvolvimento científico dos séculos XVI e XVII, não deixa de ser verdade que a filosofia, a ética e a religião modernas enfatizam a ação, a praxes, muito mais do que o faziam o pensamento antigo e medieval. (p. 269)

Com isto, Galileu deu início a um novo ciclo de desenvolvimento de instrumentos científicos. Seu primeiro experimento foi a balança hidrostática, que colocou fim ao problema de medição de uma grandeza física intangível, conceito teórico originalmente elaborado por Arquimedes, sobre o peso específico dos materiais. Outro avanço desencadeado por Galileu foi a melhoria do telescópio e sua utilização sistêmica em observações astronômicas. Somente em 1609 Galileu conseguiu fazer as primeiras descobertas que ajudariam a corroborar a teoria heliocêntrica, embasadas nas observações feitas com os primeiros telescópios, que permitiam visualizar estrelas até então desconhecidas a olho nu. Viu as luas de Júpiter e a superfície irregular da Lua, assim como validou a previsão de Copérnico de que Marte e Venus tinham tamanhos diferentes. Outro foco de suas observações foi a explicação das marés, causadas pela combinação da translação e rotação da terra, como um efeito visível para um observador terrestre sobre uma causa invisível. Estas provas começaram a desarmar os argumentos de Aristóteles, mas trouxeram um problema epistemológico para Galileu, que não tinha uma teoria ótica que desse suporte e endosso às suas observações feitas no telescópio. Galileu trouxe uma nova visão do mundo e ruiu os fundamentos aristotélicos nos céus e na terra.

Em resumo, o que caracteriza a atitude científica galileana - e também a atitude científica moderna - é a procura, na natureza, de regularidades matematicamente expressáveis, as chamadas leis da natureza, e o método de certificar-se de sua verdade através da realização de experimentos. (p. 269)

Só no século XVII, Kepler deu início a uma teoria que suportaria as observações de Galileu. Não havia até então provas que demonstrassem a superioridade dos dados obtidos pelos telescópios em relação aos feitos a olho nu. Galileu teve que aprender a ver através de telescópios para poder contrapor as posições aristotélicas, assim como um estudante de medicina tem que aprender a ver

as imagens de uma raio-X para poder discutir com profissionais mais experientes os resultados encontrados. Somente desta forma os cientistas conseguem se inserir em uma comunidade que compartilha crenças similares.

Galileu também trabalhou, sem obter sucesso, no desenvolvimento de um instrumento que medisse o tempo com exatidão: o relógio de pêndulo. Foi o protagonista do desenvolvimento de um compasso geométrico-militar, vendido com um manual de instruções de uso, fato inusitado que transformou a comercialização de equipamentos técnicos para um modelo de negócios válido até os dias de hoje.

Mariconda (2006) ressalta que desde Platão havia se estabelecido a diferença entre dois tipos de conhecimento: epistéme, como ciência, e techne, como técnica. A partir de então, a ciência era tida como um conhecimento garantido, de grande valor para os gregos, e a técnica, como o conhecimento prático. Galileu, contudo, tinha o conceito de ciência útil, não fazendo mais essa diferenciação e inaugurando uma nova fase na resolução de problemas, ao tornar possível uma avaliação prática e controlada dos resultados.

O diferencial que Galileu trouxe para o pensamento científico, no entanto, foi mais acentuado na mecânica, ao conseguir separar os conceitos de velocidade e aceleração e conjecturar sobre a igualdade da aceleração que ocorre com objetos diferentes em queda livre. A partir dessas descobertas iniciais, Galileu começou uma cruzada contra as teorias de Aristóteles que ainda tinham o apoio da igreja e o endosso da inquisição.

A definitiva adesão de Galileu ao copernicanismo questionou a autoridade de Aristóteles, ao colocar em dúvida seus axiomas, firmemente endossados pela igreja, ou seja, pelas sagradas escrituras. Galileu defendia que a ciência, então, tinha um método que a tornava independente de julgamentos da autoridade teológica, fato que contribuiu para reduzir e minar o autoritarismo e, desta forma, consolidar o nascimento de uma ciência moderna.

Galileu deu sequência à nova mecânica, analisando diversos tipos de movimento, leis da inércia e trajetórias parabólicas de projéteis, e lançou o embrião do movimento relativo e sua dependência do observador, posteriormente corroborado por Einstein. Galileu foi um divisor de águas para o conhecimento científico, trazendo para a ciência o aspecto prático e experimental das teorias. Postulava que as experiências envolvem uma ação planejada na natureza, orientadas pela teoria. Da mesma forma que Kepler, Copérnico e Descartes, promoveu a mecanização com

forte viés matemático, revolucionando a ciência. A origem dessa concepção, que valoriza a matemática na descrição do mundo, é oriunda de Platão e Pitágoras.