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2.5 Methods  to  study  the  presence  of  consciousness

2.5.2 Neural  correlates

O primeiro livro analisado é o da autora Nilma Lino Gomes, que tem uma ligação muito evidente com seu trabalho realizado entre 1999 e 2002, no qual pesquisou salões étnicos em Belo Horizonte, do qual resultou sua tese de doutorado, abordando questões relacionadas ao corpo negro e, sobretudo, ao cabelo, como uma marca identitária capaz de evidenciar uma gama de conflitos e tensões para a aceitação desse elemento do corpo como parte da estética negra que se transforma também em um elemento político de afirmação do modo de ser povo negro. Conforme Gomes (2008):

Dessa forma, podemos afirmar que a identidade negra, conquanto construção social, é materializada, corporificada, nas múltiplas possibilidades de análise que o corpo negro nos oferece, o trato do cabelo é aquela que se apresenta como a síntese do complexo e fragmentado processo de construção da identidade negra (GOMES, 2008, p .25).

O cabelo assume um papel muito importante na estética negra, tanto para a afirmação quanto como alvo de manifestações racistas. Questões muito importantes

sobre a subjetividade, o significado construído acerca do cabelo da população negra na mídia, na literatura e em outros veículos contribuíram para a construção de um imaginário cuja representação desvaloriza a estética negra nesse componente fundamental ao tratar da subjetividade ligada a esse elemento como fator que mexe com as emoções das pessoas e com suas formas de se perceberem no mundo. Nesse sentido, o cabelo ganha muita importância como um atributo da estética marcador de identidades. Gomes (2008), abordando a questão do cabelo como marca do corpo negro suscetível a manifestações racistas:

No Brasil, o racismo, a discriminação e o preconceito racial que incidem sobre os negros ocorrem não somente em decorrência de um pertencimento étnico expresso na vida, nos costumes, nas tradições e na história desse grupo, mas pela conjugação desse pertencimento com a presença de sinais diacríticos, inscritos no corpo. Esses sinais remetem a uma ancestralidade negra e africana que se deseja ocultar e/ou negar. Além disso, são vistos como marcas de inferioridade (GOMES, 2008, p. 31).

Em suas palavras, Gomes (2003) aborda a importância do corpo como parte da identidade negra, sua comunicação estabelecida com a cultura negra, com o processo educacional, e o resultado dessa articulação impresso na autoestima das crianças negras e como elas se constituem a partir do olhar que nega sua estética.

O corpo localiza-se em um terreno social conflitivo, uma vez que é tocado pela esfera da subjetividade. Ao longo da história, o corpo se tornou um emblema étnico e sua manipulação tornou-se uma característica cultural marcante para diferentes povos. Ele é um símbolo explorado nas relações de poder e de dominação para classificar e hierarquizar grupos diferentes. O corpo é uma linguagem e a cultura escolheu algumas de suas partes como principais veículos de comunicação. O cabelo é uma delas (GOMES, 2003, p. 174).

O resultado da construção de forma negativa da visão do atributo que é o cabelo vai permear as relações nas salas de aulas revelando subjetividades, emoções e negações nos processos de construções identitárias das crianças negras.

Gomes (2008) aborda a importância dos salões étnicos para além de estabelecimentos comerciais. Esses espaços têm importância política para a afirmação e construção da identidade negra, de mediação de conflitos sociais nos quais a estética negra é desvalorizada em detrimento de um modelo de cabelo do segmento branco, amplamente aceito, levando, sobretudo, as mulheres negras a lançarem mão de produtos e artefatos para alisarem os cabelos nem sempre como uma opção consciente de

mudança de estilo, mas como uma exigência para se sentirem belas ao incorporar a estética do grupo branco:

Os salões étnicos são lugares importantes para refletir sobre a relação entre cabelo crespo e identidade negra. Por quê? Porque o cabelo não é um elemento neutro no conjunto corporal. Ele foi transformado pela cultura em uma marca de pertencimento racial. No caso dos negros, o cabelo crespo é visto como um sinal diacrítico que imprime a marca da negritude no corpo (GOMES, 2008, p. 25).

Em seu trabalho, Gomes (2008) concluiu que os salões étnicos abrigam questões relacionadas ao mito da democracia racial e à ideologia do branqueamento evidenciadas por conflitos e tensões, tendo como eixo os cabelos e todo o conjunto de sentidos que este suscita para mulheres e homens negros na dinâmica das relações sociais cotidianas.

Na obra que será apresentada a seguir, o ato de uma avó trançar os cabelos de sua neta e o modo como a criança se sente bela depois do penteado pronto carrega em si significações que possibilitam uma representação positiva de beleza negra e como esse atributo pertence a todos os povos e ganha sentido de acordo com cada cultura. Parte da narrativa se confunde com a própria história de vida da autora Nilma Lino Gomes ao narrar o ritual de pentear os cabelos quando ainda era criança, as dores pela ausência de produtos apropriados para cabelos crespos, mas também a felicidade ao se olhar no espelho.

Em vários países da África, o cabelo é um marcador do papel social e dos momentos da vida da infância, da passagem para a puberdade, do estado civil das mulheres, entre outros modos que o cabelo assume como emissor de mensagens. Lody (2004) apresenta o cabelo como uma manifestação estética que compõe o imaginário dos africanos por estar integrada à vida social, traduzindo os momentos de culto, festas, resgate de memórias, manifestações artísticas e declaração de identidade:

Livres são as cabeças e os penteados africanos. Essa afirmação se fundamenta na rica experiência das muitas culturas e povos que habitam a África [...] Livre é a arte de tratar os cabelos: trançados, untados de óleos e gorduras; com pigmentos que vão do barro ao azul índigo; adornados de búzios, pena, coral, marfim, âmbar, vidro, material reciclado, plástico, metais, papel e tudo o mais que, incluído no penteado, manifesta expressão e desejo de experimentar e revelar o belo, que é antes de tudo identidade (LODY, 2004, p. 13).

As representações sociais construídas até então sobre o cabelo da população negra é que ele é “ruim”. Essa imagem aparece constantemente revelando racismo nas

relações sociais de crianças da educação infantil e de anos iniciais do ensino fundamental.

Betina, título da obra escrita por Nilma Lino Gomes (2009) e ilustrada por Denise Nascimento, oferece um outro modelo de representação diferente dos modelos anteriormente construídos sobre a criança negra na literatura infantojuvenil ao apresentar uma obra bem escrita, repleta de elementos significativos e simbólicos que permitem uma interpretação do texto e das ilustrações de maneira muito positiva para a reconstrução de imagens sobre a população negra.

Figura 3 – Capa de Betina

Fonte: Denise Nascimento.

Os cenários como a rua, a casa e o caminho da escola dão a ideia de uma vida comum e feliz como outra qualquer. A avó, personagem muito importante, demonstra ser aquela que influencia a construção identitária de Betina bem ao modo da cosmologia africana, em que os mais idosos possuem status de pessoa mais experiente e, por isso, têm a função de acolher e orientar os mais novos, repassando as tradições de um povo.

Betina, a personagem principal do enredo, é uma criança vestida de forma bastante elegante, com pulseira que parece pérola ou ouro no braço e “maria-chiquinha” prendendo os cabelos. Demonstra, inclusive, estar em uma situação de poder. A cada página, ela é apresentada com roupas de criança em um momento de brincar, como

quando usa short e bata solta para favorecer a liberdade de pular corda com outras crianças negras e brancas.

A personagem pertence a um contexto familiar digno em sua materialidade de recursos, na reciprocidade de afeto entre a mãe e, principalmente, a avó e a criança. A menina é cuidada e respeitada, percebe-se pelo carinho da avó ao desembaraçar-lhe os cabelos, tomando o cuidado para que a menina não sinta dor. Nesse trecho da obra, pode-se perceber a relação com a história da autora, Nilma Lino Gomes, quando seus próprios cabelos eram tratados pela sua mãe.

Figura 4 – A avó trançando os cabelos de Betina

Fonte: Denise Nascimento.

Aquele momento especial, que constitui o ritual de pentear os cabelos, servia também para dialogar, contar histórias e fortalecer os laços entre avó e neta. Esse trecho do livro (p. 6) é direcionado às pessoas que cuidam também dos cabelos de crianças negras, sobretudo de meninas – um jeito de tratar os cabelos crespos, ensinando como ter um bom trançado:

O dia de fazer penteado novo era especial. A avó tirava as tranças ou coque antigos, lavava o cabelo da neta, passava creme para desembaraçar, desembaraçava, lavava de novo e secava com a toalha. Nessa última etapa, o cabelo já não tinha mais creme. Uma dica: o segredo para um bom trançado é deixar o cabelo bem limpinho e sem creme. Evita caspa e facilita manusear os fios (GOMES, 2009, p. 6).

Outro aspecto apontado em pesquisas anteriores, e extremamente relevante, é a menção da ida menina para a escola, a descrição do seu ambiente escolar, de sua beleza reconhecida pela professora e também de seus conflitos com algumas meninas e meninos, mas essa apresentação se dá de maneira em que a personagem demonstra altivez e segurança em relação aos seus atributos físicos. Betina é uma menina segura de si. Essa segurança decorre, entre outras coisas, de sua autoestima elevada, por se perceber bela, valorizada pela professora e pelos colegas.

Figura 5 – Betina e sua avó

Fonte: Denise Nascimento.

Não há presença masculina na história cujo enredo gira em torno da avó e da neta, uma criança com conceito positivo de si mesma, inteligente, vivenciando as fases da infância de maneira feliz. Esse modelo de família contribui para a construção da

concepção de que a ausência do elemento masculino na família não caracteriza desestrutura familiar, mas um modo de viver que pode ser uma opção das pessoas, ou mesmo simples circunstância, e não uma condição que influencie negativamente o desenvolvimento das crianças pela falta da autoridade patriarcal. Rompe-se com a ideia de que o homem possui um poder natural de dar sustentabilidade social à imagem da família como sendo “estruturada”, conforme foi abordado anteriormente.

A presença do modo africano de cuidar dos mais jovens e respeitar a sabedoria dos mais velhos também é bastante óbvia no texto, evidenciada no momento da descrição do decorrer do tempo, como belos pássaros com motivos geométricos, típicos da arte africana, que foram utilizados para demonstrar que a avó estava envelhecendo, Betina crescendo e, portanto, chegando a hora de transmitir o ensinamento sobre os cabelos, ancestralidade, lutas, Brasil e África. A beleza está no fato de a morte ter sido colocada como algo próprio da vida e que não carrega em si o fim de tudo. As pessoas continuam vivas nos ensinamentos deixados, que precisam ser transmitidos aos outros.

Figura 6 – A descrição do decorrer do tempo

Fonte: Denise Nascimento.

A avó de Betina então lhe ensina a arte de trançar os cabelos com a condição de que esta trançasse o cabelo de qualquer pessoa e as ajudasse a se sentirem bem com

sua aparência. A menina cresceu e se tornou uma cabeleireira de renome internacional. Betina tinha um diferencial: o orgulho de falar sobre a questão da memória de seu povo, das formas de ensinar e aprender presentes nas famílias brasileiras. Gomes (2003) aborda a importância da família, entre outras instituições, como formadora, transmissora de cultura e representações no cotidiano de gerações, não sendo a escola o único lugar de aprendizagens.

Nesse sentido quando pensamos a articulação entre educação, cultura e identidade negra, falamos de processos densos, movediços e plurais, construídos pelos sujeitos sociais no decorrer da história, nas relações sociais e culturais, processos que estão imersos na articulação entre individual e social, entre o passado e o presente, entre memória e história (GOMES, 2003, p. 171).

A questão dos cabelos e da cor da pele vem trabalhada de modo que as crianças percebam a beleza contida nas diferenças, nos vários tipos de cabelos, nas múltiplas possibilidades de serem diferentes e bonitas. A obra apresenta fortes elementos para reforçar a autoestima das crianças negras.

Figura 7 – As tranças como elemento fortalecedor da autoestima

Percebe-se que a autora enfoca a criança negra como a protagonista da história, mas a todo momento há convivência com outros seguimentos, mostrada pela imagem da boneca branca, com outros brinquedos, no momento em que a avó coloca como condição para ensinar Betina a arte de trançar que ela trance o cabelo de toda as pessoas que a procurassem: “Você vai trançar o cabelo de toda a gente, ajudando cada pessoa que chegar até você a se sentir bem, gostar mais de si, sentir-se feliz de ser como é, com seu cabelo e sua aparência” (GOMES, 2009, p. 16).

É importante lembrar que a identidade construída pelo negro se dá não só por oposição ao branco mas, também, pela negociação, pelo conflito e pelo diálogo com este... As diferenças implicam processos de aproximação e distanciamento. Nesse jogo complexo, vamos aprendendo aos poucos, que as diferenças são imprescindíveis na construção de nossa identidade (GOMES, 2003, p. 172)

Adjetivos que exprimem valorização estão distribuídos ao longo do texto, de modo a tornar evidente que a personagem Betina é o centro da família e que a professora valoriza as diferenças e faz observações sempre positivas quando Betina trança os cabelos.

Figura 8 – A relação entre avó e neta

Há a preocupação com a subjetividade das pessoas, com as possíveis referências contidas na obra. A autora Nilma Lino Gomes e a ilustradora Denise Nascimento conseguem criar um clima em que signos são expostos por meio de imagens e, em algumas passagens, sem o texto. A cor das imagens exprime alegria. Os desenhos da avó e da menina apresentam coloração que dá uma impressão de realidade, parecendo mais um desenho inspirado em fotografia. Alguns signos, como o sapato da Betina na capa e a sandália da avó enquanto estava sentada trançando o cabelo de Betina dão ideia de duas dimensões: o momento atual de uma menina que se veste como as crianças de seu tempo e a sandália da avó, aparentemente de couro natural, artesanal, constituindo objeto que remete à cultura de vestuário de origem afro-brasileira, assim como as miçangas nos cabelos, referência à África e à identidade negra brasileira.

4.2 O sentido de contar a história dos orixás femininos para crianças: o