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6. Paper 3 Towards a regional innovation system? The role of a regional university system? The role of a regional university

6.3 The Network Reflection course

A luta pela autoridade científica, exige uma espécie particular de capital social que assegura um poder sobre os mecanismos constitutivos do campo científico e que pode ser reconvertido em outras espécies de capital, denominado capital científico. De acordo com Bourdieu (2008), o poder científico é uma espécie de poder simbólico que se exerce apenas sobre os agentes que possuem as categorias de percepção do conhecimento e reconhecimento, tratando-se de um poder paradoxal, porquanto exige a cumplicidade daquele que o sofre. Nesse contexto, para o sociólogo francês, o existir cientificamente é "[...] sobressair (positivamente) através de um contributo distintivo. Na troca científica, o cientista dá um contributo que lhe é reconhecido por atos de reconhecimento público tais como, nomeadamente, a referência como citação das fontes do conhecimento utilizado", ou seja, o peso simbólico dos cientistas varia de acordo com as suas contribuições reconhecidas pelos seus pares concorrentes imbricados no campo científico, em um processo de acumulação de capital científico (Bourdieu, 2008, p. 80).

Colaborando para esse entendimento, Hochman (1994) pondera que esse capital científico é simbólico, não-monetário e decorrente da autoridade e competência científica e, é acumulado e transmitido em um mercado específico que é o da produção de conhecimento científico. Nesses termos, o autor afirma que a teoria bordieusiana "[...] não faz apenas uma analogia do campo científico com o mercado capitalista, mas, indo além, propõe que esse é mais um mercado particular dentro da ordem econômica capitalista [...]". E, complementa afirmando que "[...] toda escolha científica é uma estratégia política de investimento dirigida para a maximização do lucro científico" (Hochman, 1994, p. 210). Diante dessas exposições, no campo científico, Bourdieu (2004) expõe que,

Segue-se que os campos são o lugar de duas formas de poder que correspondem a duas espécies de capital científico: de um lado, um poder que se pode chamar temporal (ou político), poder institucional e institucionalizado que está ligado à ocupação de posições importantes nas instituições científicas, direção de laboratórios ou departamentos, pertencimentos a comissões, comitês de avaliação etc., e ao poder sobre os meios de produção (contratos, créditos, postos, etc.) e de reprodução (poder de nomear e de fazer as carreiras) que ela assegura. De outro, um poder específico, 'prestígio' pessoal que é mais ou menos independente do precedente, segundo os campos e as instituições, e que repousa quase exclusivamente sobre o reconhecimento, pouco ou mal objetivado e institucionalizado, do conjunto de pares ou da fração mais consagrada dentre eles [...]. As duas espécies de capital científico têm leis de acumulação diferentes: o capital científico 'puro' adquire- se, principalmente, pelas contribuições reconhecidas ao progresso da ciência, as invenções ou as descobertas (as publicações, especialmente nos órgãos mais seletivos e mais prestigiosos, portanto aptos a conferir prestígio à moda de bancos de crédito simbólico, são o melhor indício); o capital científico da instituição se adquire, essencialmente, por estratégias políticas (específicas) que têm em comum o fato de todos exigirem tempo - participação em comissões, bancas (de teses, de concursos), colóquios mais ou menos convencionais no plano científico, cerimônias, reuniões, etc. (p. 35-36).

Portanto, em qualquer campo, as tomadas de posição não são aleatórias, representando um produto da relação entre a posição no campo e o habitus do agente ocupante. Nesse contexto, as escolhas científicas, os métodos utilizados ou periódicos selecionados para publicação não são decisões puramente científicas, mas também, uma estratégia social de posicionamento orientada para a obtenção e acumulação de capital científico. Assim, o que subjaz às escolhas de temáticas, são duas formas de determinação: "[...] do lado do agente, a sua trajetória, a sua carreira; do lado do campo, do lado do espaço objetivo, efeitos estruturais que atuam sobre o agente na medida em que está constituído de maneira a ser sensível a esses efeitos" (Bourdieu, 2008, p. 86).

Assim sendo, pelo fato de que todas as práticas estão orientadas para a aquisição de autoridade científica (prestígio, reconhecimento, celebridade, cargos, etc.), o que se conhece na contemporaneidade pela denominação de "interesse" por uma atividade científica e as estratégias para assegurar esse interesse têm sempre uma dupla face, ou seja, o campo cientifico

é um lugar de lutas pela autoridade científica e rompe com a imagem de uma ciência desinteressada e detentora da verdade final sobre determinado fenômeno. Tudo isso leva a conclusão de que não há escolhas científicas, por parte dos pesquisadores (de estratégias, metodologias, locais de publicação, publicações de resultados parciais ou totais, etc.), que não estejam atreladas a táticas políticas de investimentos objetivamente orientados para a maximização do lucro científico, isto é, a obtenção de prestígio pelo reconhecimento dos pares- concorrentes (Bourdieu, 2008). Nessa linha de pensamento, Reif (1961) advoga que:

Um cientista procura fazer as pesquisas que ele considera importantes. Mas a satisfação intrínseca e o interesse não são suas únicas motivações. Isto transparece quando observamos o que acontece quando um pesquisador descobre uma publicação com os resultados a que ele estava quase chegando: fica quase sempre transtornado, ainda que o interesse intrínseco de seu trabalho não tenha sido afetado. Isto porque seu trabalho não deve ser interessante somente para ele, mas deve ser também importante para os outros. Ele quer atrair a máxima atenção de outras pessoas, e esta busca por ser o primeiro é um fator crucial. Uma importante descoberta torna-se intimamente associada com o nome do investigador responsável por isso [...] ser o primeiro a fazer uma contribuição científica importante é, naturalmente, apenas uma forma de obtenção de reconhecimento (p. 1959- 1960).

Deste modo, na luta que ocorre no interior do campo científico, em que cada um dos agentes deve tentar impor o valor de seus produtos, para obtenção da autoridade científica, o que está implicitamente em jogo é a busca pela imposição de uma definição científica dos limites do campo, das estratégias e metodologias utilizadas e das teorias que sustentam a base de determinada área do conhecimento. Nesse sentido, as definições científicas mais apropriadas conferem a seu agente criador uma posição dominante de autoridade científica no campo, obtido de forma legítima, por meio do reconhecimento dos demais agentes, além de títulos pessoais ou institucionais dentro da hierarquia dos valores científicos vigentes (Bourdieu, 2004).