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Sendo o empreendedorismo o tema principal deste trabalho, pretende-se apresentar seus principais conceitos, assim como aqueles sobre a figura do empreendedor e, mais especificamente, o seu comportamento.

Para Barros, Fiúsa e Ipiranga, (2005) a origem da Escola Empreendedora se deu no âmago dos conceitos das teorias e pensamentos econômicos. Nesta ótica, Landström e Benner (2010) afirmam que os pioneiros a estudar essa prática foram Richard Cantillon e Jean Baptiste Say. O manuscrito Essai Sur La Nature Du Commerce En Général (CANTILLON, 1730 apud FILION, 1999) é considerado o primeiro trabalho sobre esse fenômeno. Segundo Filion (1999), os escritos de Cantillon revelam um homem em busca de oportunidades de negócios, preocupado com o gerenciamento inteligente de negócios e a obtenção de rendimentos otimizados para seu capital.

O economista Say (2001) definiu o empreendedor como aquele que transfere recursos econômicos de um setor de produtividade mais baixa para um setor de produtividade mais elevada e de maior rendimento. Segundo Barros, Fiúsa e Ipiranga (2005), a visão de Say não está ligada apenas ao fato de o indivíduo abrir seu próprio negócio, mas de ser o criador de algo inovador, ou seja, aquele que muda e transforma valores, seja fornecendo produtos e serviços inéditos ou de forma diferenciada ou única.

Segundo Filion (1999), Say, que considerava o desenvolvimento econômico como resultado da criação de novos empreendimentos, foi o segundo autor a demonstrar interesse pelos empreendedores. Já Richard Cantillon descrevia o empreendedor como aquele que estava envolvido com a troca de mercadoria direcionada ao lucro e decisões empresariais tomadas em face das incertezas. Uma de suas grandes contribuições foi a ênfase sobre o “risco e as incertezas” (FILION, 1999).

Abaixo, pode-se verificar de forma sucinta a evolução cronológica do processo apresentado por Landstrom e Benner (2010):

Fonte: Adaptado pelo autor a partir de Landström e Benner, 2010, p. 20

Segundo Verga e Silva (2014) na era econômica (1870-1940), o interesse pelo empreendedorismo por parte dos economistas vem desde a abordagem de Cantillon (1680- 1734), seguida pela tradição knightian, representada pelo autor Frank Knight (1885-1972), com foco nas incertezas, além da fase schumpeteriana, representada por Joseph Schumpeter (1883-1950). Este último constrói uma nova teoria econômica baseada na “mudança e inovação”. Por fim, há a escola austríaca (a partir de 1871) que destaca a necessidade de uma melhor compreensão do empreendedorismo e um esclarecimento entre a ligação do empresário, empresa e a sociedade.

Hisrich, Peters e Sheperd (2014) apresentam informações sobre o desenvolvimento da teoria do empreendedorismo e do termo empreendedor a partir da idade média até 1985, quando definem empreendedorismo como o processo de criar algo com valor, dedicando o tempo e o esforço necessário, assumindo riscos correspondentes e recebendo as consequentes recompensas da satisfação econômica e pessoal.

Zarpellon (2010, p. 48) afirma que, na teoria econômica, o empreendedorismo é visto mais como um fenômeno individual, ligado à criação de empresas - quer através de aproveitamento de oportunidades ou simplesmente por necessidade de sobrevivência -, do que um fenômeno social que pode levar o indivíduo ou uma comunidade a desenvolver capacidades de solucionar problemas e buscar a construção do próprio futuro, isto é, de gerar capital social e capital humano.

Ainda segundo Filion (1999), Cantillon é o precursor da teoria econômica, e associou o empreendedor à oportunidade de lucro não explorado e ao risco intrínseco à sua exploração. Fillion corrobora esta posição com Adam Smith (1723-1790), considerado o formulador da teoria econômica a qual vislumbra o empreendedor como aquele que deseja obter um excedente do valor sobre o custo de produção.

Para Schumpeter (1997) o empreendedor é aquele que destrói a ordem econômica existente pela criação de novos produtos e serviços, pelo desenvolvimento de novas formas de organização ou pela exploração de novos recursos e materiais. Com base nessa definição surge o conceito de destruição criativa3.

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Destruição criativa em economia é um conceito popularizado pelo economista austríaco Joseph Schumpeter em seu livro Capitalismo, Socialismo e Democracia (1942), quando descreve o processo de inovação, que tem lugar numa economia de mercado em que novos produtos destroem empresas velhas e antigos modelos de negócios.

Drucker (2008) afirma que Schumpeter postulava que o desequilíbrio dinâmico provocado pelo empreendedor inovador, em vez de equilíbrio e otimização, é a "norma" de uma economia sadia e a realidade central para a teoria e prática econômica, portanto, o foco desta teoria é construído em torno do marco da teoria econômica institucional4.

A era das ciências sociais (1940-1970), por sua vez, foi um período marcado por estudiosos das áreas de psicologia e ciências sociais, que buscaram o entendimento do empreendedor como indivíduo e começaram a investigar suas obras e traços de comportamento e personalidade (LANDSTRÖM; BENNER, 2010).

Por fim, a época dos estudos de gestão (1970-2016) foi e continua sendo marcada por mudanças políticas, econômicas e tecnológicas. Neste contexto, o conceito de empreendedorismo se torna uma questão prioritária na sociedade atual.

Para Landström e Benner (2010), muitos estudiosos de diferentes áreas se interessam pelo tema empreendedorismo e, com isso, o campo teve crescimento considerável nos últimos anos. Porém, isso não significa que exista um consenso sobre o tema, mas apenas reforça a necessidade de continuação das pesquisas direcionadas a uma melhor compreensão dos diversos aspectos desse fenômeno.

Considerando a grande importância dos empreendedores para a economia e a sociedade em que estão inseridos, os behavioristas (comportamentalistas) foram motivados a pesquisar sobre o comportamento e personalidade do empreendedor.

Segundo Baggio (2014), um dos primeiros autores desse grupo a demonstrar interesse foi Max Weber. Ele identificou o sistema de valores como um elemento fundamental para a explicação do comportamento do indivíduo. É importante observar que os autores da teoria comportamentalista não se opuseram às teorias dos economistas, e sim ampliaram as características dos empreendedores e a gama de estudos sobre o assunto.

No quadro abaixo, apresenta-se um comparativo das diferentes abordagens sobre empreendedores na visão desses autores até o início da década de 80.

Data Autor Características

1961 McClelland Correr riscos e necessidade de realização 1964 Pickle Relacionamento humano, habilidade de

4 A teoria econômica institucional se concentra na compreensão do papel das instituições na moldagem do comportamento econômico. Essa corrente teve seu apogeu nos anos 1920 e 1930, influenciando significativamente as medidas tomadas à época do New Deal.

comunicação, conhecimento técnico 1971 Palmer Avaliador de riscos

1971 Hornaday e Aboud Necessidade de realização, autonomia, agressão, poder, reconhecimento, inovação, independência

1973 Winter Necessidade de Poder

1974 Borland Controle interno

1974 Liles Necessidade de realização 1977 Gasse Orientado por valores pessoais

1978 Timmons Autoconfiança, orientado por metas, corredor de riscos moderados, centros de controle,

criatividade e inovação

1980 Sexton Enérgico, ambicioso, revés positivo 1981 Welsh e White Necessidade de controle, visador de

responsabilidade, auto confiança, corredor de riscos moderados.

1982 Dunkelberg e Cooper

Orientado ao crescimento, profissionalização e independência.

1991 Filion Princípios da educação do empreendedor 2000 Shane e

Venkataraman

Empreendedorismo como processo

2004 Hisrich e Peter Conjunto de habilidades empreendedoras 2008 Drucker Inovação como vetor de uma economia sadia 2012 Dornelas Comportamento como prioridade

Quadro 7: Diferentes abordagens sobre empreendedores Fonte: Adaptado pelo autor – Boulton, Carland e Hoy (1984)

Segundo Brancher, Oliveira e Roncon (2012), o trabalho mais citado pelos artigos analisados do EnANPAD sobre comportamento empreendedor foi o realizado por David McClelland. Este autor criou a Teoria das Necessidades Adquiridas, que preconiza que pessoas são impulsionadas por agirem motivadas por suas necessidades de realização, afiliação e poder, adquiridas com o seu desenvolvimento social. Ele argumenta que as pessoas possuem um pouco dessas necessidades em graus diferentes, destacando, contudo, uma delas. A seguir apresentaremos aspectos destes três conceitos:

Necessidade de Realização: As pessoas se interessam pelo seu próprio desenvolvimento, exigem um padrão de sucesso, domínio de tarefas complexas e superação de outras, de correr riscos calculados, desejam influenciar seus resultados e necessitam de feedback concreto de seu grau de desempenho no grupo (SEBRAE, 2014)

Pessoas com alta necessidade de realização procuram mudanças em suas vidas, estabelecem metas e se colocam em situações competitivas, estipulando para si metas realistas. Segundo McClelland (1972), a necessidade de realização é a primeira necessidade identificada entre os empreendedores bem-sucedidos e é a grande impulsionadora das pessoas na construção do empreendimento. O referido autor promoveu essa definição com base na cultura anglo-saxônica.

Características:

 Procura alcançar sucesso perante uma norma de excelência;

 Aspira alcançar metas elevadas e realistas;

 Responde positivamente à competição;

 Toma iniciativa;

 Prefere tarefas em que possa ser diretamente responsável pelos resultados;

 Assume riscos moderados;

 Relaciona-se preferencialmente com peritos.

Necessidade de Afiliação: Desejo de travar relacionamentos próximos, evitar conflito, estabelecer fortes amizades, ser solicitado e aceito pelos outros. É uma necessidade social, de companheirismo e apoio por ideias em comum para desenvolvimento de relacionamentos significativos com pessoas. Demonstram dificuldade em avaliar os subordinados de forma objetiva, pois as pessoas são mais importantes que a produção de outputs (SEBRAE, 2014). Características:

 Procura relações interpessoais fortes;

 Faz esforços para conquistar amizades e restaurar relações;

 Atribui mais importância às pessoas que às tarefas;

 Procura aprovação dos outros para as suas opiniões e atividades;

Necessidade de Poder: Desejo de ser responsável pelos demais e ter autoridade sobre outros. Preferem o confronto, a concorrência e se preocupam muito com seu prestígio, reputação e com a influência que possam exercer sobre as outras pessoas, inclusive, mais do que com os seus resultados. Procuram a liderança e possuem elevada tendência ao poder associada às atividades competitivas. Buscam o reconhecimento e respeito dos outros.

Características:

 Tenta assumir posições de liderança espontaneamente;

 Necessita/deseja provocar impacto;

 Preocupa-se com o prestígio;

 Assume riscos elevados.

Em 1972, David McClelland realizou uma pesquisa mundial para conhecer os pontos convergentes entre as pessoas bem-sucedidas nos negócios e se tais características eram comuns entre os países. As principais características identificadas foram: busca de oportunidade e iniciativa; correr riscos calculados; persistência; exigência de qualidade e eficiência; comprometimento; busca de informações; estabelecimento de metas; planejamento e monitoramento sistemáticos; independência e autoconfiança e persuasão e rede de contatos.

Segundo Filion (1999), não se pode ainda avaliar um indivíduo e afirmar com certeza que ele vai ser bem-sucedido como empreendedor. No entanto, pode-se dizer se esse indivíduo tem as características comumente encontradas nos empreendedores. O autor enfatiza:

Embora nenhum perfil científico tenha sido traçado, as pesquisas têm sido fonte de várias linhas mestras para futuros empreendedores, ajudando-os a

situarem-se melhor. A pesquisa sobre empreendedores bem-

sucedidos...permite aos empreendedores em potencial e aos empreendedores de fato a identificarem as características que devem ser aperfeiçoadas para obtenção de sucesso (Filion,1999 p.10).

Somado às produções acadêmicas, algumas entidades colaboram com o desenvolvimento do empreendedorismo gerando relatórios periódicos acerca desta atividade no qual publicam os números do setor e trazem as tendências e conclusões identificadas em diversos países.

Um dos exemplos mais relevantes de relatórios é o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), que considera o empreendedorismo como vetor do crescimento econômico inclusivo,

e desenvolve pesquisas anuais sobre o perfil da atividade empreendedora no mundo, inclusive no Brasil (a partir do ano 2000).

Esse projeto é administrado pela holding Global Entrepreneurship Research Association (GERA), ligada à London Business School e Babson College, em Boston. O objetivo principal deste relatório é a pesquisa sobre a criação de novos negócios no mundo. Segundo o site do GEM (2016), a organização apresenta os seguintes indicadores: 17 anos de dados; mais de 200.000 entrevistas ao ano; mais de 100 países; mais de 500 especialistas em pesquisas sobre empreendedorismo; mais de 300 instituições e escolas envolvidas; mais de 200 instituições de financiamento. Os dois principais elementos para o GEM são: comportamento empreendedor; o contexto nacional e como isso impacta o empreendedorismo local.

No Brasil, o GEM é realizado pelo IBQP (Instituto Brasileiro de Qualidade e Produtividade), em parceria com instituições nacionais e estaduais. Segundo o site do IBQP (2016), a pesquisa levanta dados sobre as diferenças da capacidade empreendedora entre os países; a contribuição do empreendedorismo para o crescimento econômico e tecnológico; potencial dos governos para promover o empreendedorismo; a relação entre as oportunidades empreendedoras e a capacidade dos indivíduos em explorar novas oportunidades.

A pesquisa é realizada de forma comparativa, os diversos países envolvidos no projeto (aproximadamente 90% do PIB Mundial e 2/3 da população). No Brasil, o GEM tem constituído uma rica base de dados e análises, cuja capacidade de descrição e avaliação das tendências do comportamento deste fenômeno tem subsidiado os mais variados agentes na área (IBQP, 2016).

Veremos mais à frente outras informações e conteúdo sobre o empreendedorismo com foco de análise nas características no Brasil.

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