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Em contraste com a atual riqueza de seu capitalismo industrial e o “caráter democrático” de seu estado burguês, com sua liberdade de expressão, sufrágio universal e suas inúmeras instituições estabelecidas na sociedade civil (políticas, patronais, profissionais, sindicais, populares, corporativas, dentre outras), produtos da liberdade de associação, a história socioeconômica e política alemã foi, até boa parte do século XIX, uma sucessão de misérias48. Na verdade, mesmo com a intensa e abrangente industrialização ao final desse século, a miséria alemã, na esfera política, arrastou-se até o fim da Segunda Guerra Mundial, momento que demarcou o encerramento prático e teórico-cultural da “excepcionalidade” de seu desenvolvimento e o efetivo adentramento da Alemanha (nesse caso, a ocidental) no rol dos “estados burgueses democráticos”49.

Seguramente, muitas são as causas e muitos são os acontecimentos que contribuíram para essa “excepcionalidade alemã”, mas as raízes modernas desse percurso histórico tortuoso e permeado de singularidades podem ser sintetizadas no seguinte fato essencial: ao contrário dos grandes povos europeus ocidentais50, que “desenvolveram fortes monarquias nacionais no início da era moderna, o Sacro Império Romano-Germânico [nome do arremedo de monarquia nacional que unia as centenas de principados alemães] saiu da idade Média como uma entidade fraca e fragmentada” (STACKELBERG, 2002, p. 44), incapaz de promover as condições políticas, jurídicas e sociais necessárias ao pleno desenvolvimento econômico capitalista. Haja vista que, nesse momento, por conta do baixo desenvolvimento de suas forças produtivas, o capital, dependia em demasia das forças extra-econômicas do estado para sua reprodução. Como diz Marx, este é o período em que todos “utilizaram o poder do estado,

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Até parte do século XIX porque a revolução de 1848 – e, ainda que lentamente, a consequente supressão de certos entraves político-jurídicos, à reforma de algumas instituições do estado, os efeitos do Zollverein (aliança aduaneira) – e os acontecimentos políticos de 1866 e 1870 possibilitaram um surto de desenvolvimento econômico.

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Isto é, num momento em que, há tempos, a democracia burguesa já se encontrava largamente corrompida em suas entranhas pela monopolização, pela profissionalização da política, pela manipulação midiática das massas etc. Mas, de qualquer modo, agora a Alemanha encontra-se “politicamente atualizada” em relação aos seus congêneres, os países centrais do capitalismo monopolista.

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Portugueses, espanhóis, holandeses, franceses e ingleses. A única exceção são os italianos, que, em diversos aspectos, desenvolveram uma trajetória similar à alemã. Quanto ao povo russo, sua unificação também ocorreu no início da era moderna, porém, a trajetória de formação do seu absolutismo, as condições econômicas e geográficas do país, a dimensão e o atraso sociocultural de seu campesinato, dentre outros fatores, contribuíram para o imenso atraso de sua industrialização (Cf. ANDERSON, 1995, pp. 328-60).

42 a violência concentrada e organizada da sociedade, para ativar artificialmente o processo de transformação do modo feudal de produção em capitalista e para abreviar a transição” (MARX, 1985(II), p. 286). Assim, a não unificação nacional nesses primórdios da sociedade burguesa (o que somente se realizou no último terço do século XIX) marcou profundamente a história alemã posterior, especialmente por suas consequências sobre a transição do feudalismo para o capitalismo (ausência de uma revolução burguesa clássica) e sobre o próprio modo como ocorreu aquela unificação, com todos seus complexos e problemáticos desdobramentos.

Logo nos primórdios do capitalismo, momentos cruciais na constituição da miséria alemã foram a Reforma protestante (1517) e a Guerra dos camponeses (1525) – e, claro, as consequências advindas da derrota das massas rebeladas. Nessa época, a religião ocupava uma posição ideológica dominante, por isso que as lutas socioeconômicas e políticas burguesas assumiram uma conotação imediatamente religiosa; ou seja, essas formas teológicas decorriam da própria configuração socioeconômica e político-cultural do mundo medieval51. Condenando os abusos econômicos que sustentavam a luxúria do alto clero e, ideológicos, que cerceavam a liberdade de pensamento e maculavam o próprio livre-arbítrio, a Reforma pretendeu aliviar o jugo material e espiritual da Igreja sobre seus fiéis. A Revolução camponesa, por sua vez, além das reivindicações socioeconômicas e religiosas, “pretendeu levar a cabo o que o império era incapaz de realizar: a unificação da Alemanha, a liquidação das tendências centrífugas, absolutistas-feudais, cada vez mais acentuadas. E a derrota dos camponeses acabou por dar ainda mais vigor a estas forças” (LUKÁCS, 1959, pp. 31-2). E, nos termos concisos de Stackelberg, pode-se dizer que os efeitos dessa derrota foram sentidos por séculos, pois

O absolutismo enraizado em centenas de principados alemães teve consequências persistentes e debilitantes: fortaleceu os privilégios sociais e econômicos de uma reduzida casta aristocrática, degradou a situação dos camponeses, obstruiu a emancipação e a educação política da classe média, instituiu a burocracia e o exército como os esteios do governo e perpetuou a estratificação rígida de uma sociedade em que cada grupo tinha seu lugar determinado (STACKELBERG, 2002, p. 45).

Tão grave quanto os resultados socioeconômicos e políticos dessa derrota52 – que, segundo Engels, fez a Alemanha desaparecer “por três séculos das nações que intervêm com

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Como diz Engels, “A Idade Média anexou à teologia, convertendo em seus apêndices, todas as demais formas ideológicas: a filosofia, a política, a jurisprudência. Obrigava, com isso, todo movimento social e político a revestir uma forma teológica” (ENGELS, s/d. “a”, p. 204)

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Com ela, a sociedade alemã passou a ser dominada basicamente “por dois grupos: os altos funcionários do estado e da corte, formando uma espécie de nova vassalagem em torno dos príncipes, e a burocracia dos níveis inferiores, formados pelos mais obedientes servidores dos príncipes” (HAUSER, 2003, pp. 604-5).

43 personalidade própria na história” (ENGELS, s/d. “a”, p. 205) – foram seus efeitos culturais53. Dentre eles, um dos mais desastrosos para o desenvolvimento da Alemanha, foi a contribuição que deu à constituição de um profundo e duradouro traço cultural do povo alemão, o qual perdurou pelos séculos posteriores: a estreiteza das preocupações e ambições políticas54 e um forte senso de submissão à autoridade55. Como salienta HAUSER (2003, p. 602), “A impotência da burguesia e sua exclusão do governo do país e praticamente de toda espécie de atividade política induziram uma mentalidade passiva que afetou a vida cultural desse tempo”. Mas além das próprias condições objetivas de sua existência social, houve um outro fator que contribuiu para essa mentalidade, a saber, o predomínio, dentre as seitas protestantes, do luteranismo56. Essa particularidade alemã possibilitou que se transfigurasse “religiosamente a submissão ao absolutismo dos pequenos estados, dando um fundo espiritual, uma base moral, ao atraso econômico, social e cultural da Alemanha” (LUKÁCS, 1959, p. 31). Isto porque, com o levante dos camponeses alemães e a reação nobiliárquica, os aspectos do protestantismo que possuíam conotações políticas progressistas acabaram sendo rejeitados pelo próprio Lutero57, um severo crítico da revolta popular.

Em seu Behemoth, Franz Neumann nos fornece, dentre outros, um típico exemplo do conservadorismo político do monge alemão ao tratar de seu conceito de liberdade, que “combina nossa [moderna, burguesa] ideia de liberdade e sua contraposição exata. ‘O cristão, diz ele, é o mais livre de todos os homens e não está sujeito a ninguém; o cristão é o servo mais humilde de todos e está submetido a todos’” (LUTERO in NEUMANN, 2005, p. 111). Esse imbróglio, em que o indivíduo cristão é o mais livre e o mais humilde e subalterno de todos, Lutero resolveu com “o conceito de ‘liberdade interior’. A liberdade e a escravidão correspondem a duas esferas distintas: a primeira, ao mundo interno; a segunda, ao externo” (NEUMANN, 2005, p. 111). Em termos políticos, a consequência desse conceito de liberdade é

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“Os camponeses alemães nunca tinham conhecido outra coisa senão servidão, mas agora também as camadas médias perdiam tudo o que haviam conquistado ao longo dos séculos XIV e XV. Primeiro empobreceram e viram-se despojadas de seus privilégios, depois perderam a autoconfiança e o autorrespeito. Finalmente, a própria miséria levou-os a desenvolver aqueles ideais de submissão e lealdade incondicional que tornam possível a qualquer bajulador ignorante julgar-se o servidor de uma ‘Ideia superior’” (HAUSER, 2003, p. 599).

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“...a extraordinária mesquinhez, a estreiteza, a falta de horizontes da vida nos pequenos principados alemães, comparada com a da Inglaterra ou França” (LUKÁCS, 1959,p. 32).

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O luteranismo “converte a submissão externa em servilismo interior e inocula, assim, aquela mentalidade de súditos que Friedrich Engels chamava a atitude ‘lacaia’” (ibid., p. 32). Para Lukács, mesmo com a posterior unificação nacional, “a atitude submissa do povo alemão ante a ‘superioridade’ não experimentou /.../ mais do que mudanças insignificantes” (LUKÁCS, 1959, p. 47).

56 Nos Países Baixos e na Inglaterra, por exemplo, onde ocorreram as primeiras revoluções burguesas vitoriosas, as correntes protestantes não assumiram essa característica.

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O que não é novidade alguma, pois sempre que suas ideias foram mobilizadas em prol da subversão popular da ordem ou da contestação da autoridade secular ele aderiu às soluções dogmáticas e políticas conservadoras.

44 a obediência incondicional dos súditos aos poderes seculares estabelecidos. Segundo o próprio Lutero, “A obediência é o dever dos súditos de empregar toda sua diligência e esforço em fazer e deixar de fazer o que seus senhores desejam deles, de não deixar-se afastar disto, façam o que façam os outros” (LUTERO in NEUMANN, 2005, pp. 112-3). Ou ainda, num trecho onde a sanção religiosa da obediência assume uma feição mais rude e explicitamente política: “O asno receberá golpes e o povo será governado pela força; Deus sabia perfeitamente bem e por isso não deu aos governantes um plumeiro, mas uma espada” (LUTERO in NEUMANN, 2005, p. 113). Com Lutero, portanto, no momento do ardor revolucionário dos camponeses,

A Bíblia serviu para justificar a monarquia pela graça de Deus, a obediência passiva e até a servidão. Foi a negação não só da sublevação camponesa como até da rebeldia do próprio Lutero contra a autoridade espiritual e secular; a traição em benefício dos príncipes, não só da rebeldia popular como até do movimento burguês (ENGELS, 2008b, p. 81).

Entende-se mais claramente, agora, a afirmação lukacsiana de que o luteranismo forneceu sanção moral à contra-revolução principesca58 como, também, a marxiana, segundo a qual “a guerra dos camponeses, o acontecimento mais radical da história alemã, fracassou por causa da teologia” (MARX, 2005, p. 152).

Nesse quadro lastimável, salta aos olhos, igualmente, o fato de que até mesmo aquilo que para outras nações constituiu um dos componentes motivadores da unificação59 produziu, entre os alemães, devido às peculiaridades de sua história (e não, como a cantilena comum dos conservadores teutônicos, por qualquer traço distintivo de uma suposta “essência ariana”), consequências bastante distintas – ou mesmo opostas60.

Quanto às condições socioeconômicas, o deslocamento das rotas comercias da península italiana e do Mediterrâneo para a península ibérica e o Atlântico também

58 Sem menosprezar ou refutar a orientação profundamente negativa da subserviência luterana, é necessário apontar que, ao mesmo tempo, por seu fomento à introspecção, o luteranismo promoveu certa valorização do “mundo interior” e, portanto, do pensamento, da reflexão (Cf. TALMON, s/d., p. 125). Hannah Arendt, ao abordar sumariamente a relação do protestantismo com Santo Agostinho (as idéias e o homem), enfatizou que, “Na Alemanha, esse desenvolvimento [da “vida interior”] deu a volta pelo pietismo. Com a crescente secularização, a autorreflexão religiosa perante Deus perdeu seu significado. Não havia mais uma autoridade à qual fazer confissões, e a autorreflexão religiosa se tornou simples reflexão sobre a vida pessoal, esvaziada do elemento religioso” (ARENDT, 2008, p. 57). E Franz Mehring, por sua vez, afirmou que, num contexto de declínio ou estagnação da reflexão filosófica original na Alemanha, a expressão exterior dessa introspecção foi o brilhante desenvolvimento da linguagem (Cf. MEHRING, s/d.).

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Pensemos, por exemplo, nas lutas religiosas e em suas consequências nos reinados de Elizabeth, na Inglaterra, e de Henrique IV, na França. Como diz Engels, “Enquanto, na Alemanha, a Reforma luterana estancava e arruinava aquele país, a Reforma calvinista servia de bandeira aos republicanos de Genebra, da Holanda, da Escócia, emancipava a Holanda da Espanha e do império alemão e fornecia a roupagem ideológica para o segundo ato da revolução burguesa, que se desenrolou na Inglaterra” (ENGELS, s/d. “a”, p. 205).

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“Enquanto na França o advento do absolutismo, na esteira das guerras religiosas, serviu para fortalecer a monarquia central, na Alemanha os beneficiários foram os soberanos dos muitos territórios separados” (STACKELBERG, 2002, p. 45).

45 contribuíram para a composição dessa crise, especialmente para o declínio das cidades alemãs e de suas camadas médias. E acrescentando mais um elemento cinzento a essa composição, Stackelberg comenta ainda que as divisões políticas e religiosas da Alemanha levaram à “Guerra dos Trinta Anos (1618-48), que deixou o império [Sacro Império Romano Germânico] como uma mera sombra do que fora e confirmou a fragmentação e o atraso alemães” (STACKELBERG, 2002, p. 44), expondo ainda mais a nação à intervenção estrangeira e, assim, abandonando-a às forças e aos interesses das potências europeias, mormente da França e da Inglaterra. Enquanto isso, na esfera cultural, ocorreu o desaparecimento do espírito burguês dos séculos XV e XVI da arte e da cultura alemãs (Cf. HAUSER, 2003, p. 600), deixando a nação entregue à reduzida estatura espiritual da pequena nobreza e de sua casta de funcionários públicos.

Numa análise sintética e precisa acerca das conseqüências desses acontecimentos, Lukács sublinha que esses tropeços iniciais do capitalismo na Alemanha tiveram como resultado o seguinte:

convertida em campo de batalha e em vítima dos interesses em disputa pelas grandes potências, [ela] se arruinou política, econômica e culturalmente. Esta decadência não se manifesta somente no empobrecimento geral e na devastação do país, no rebaixamento da produção agrícola e industrial, no retrocesso das cidades um dia florescentes, mas também na fisionomia cultural de todo o povo alemão. A Alemanha não fez parte do grande auge econômico e cultural dos séculos XVI e XVII; suas massas, incluindo as da nascente intelectualidade burguesa, ficaram muito atrás do desenvolvimento dos grandes países civilizados (LUKÁCS, 1959, p. 32).

A situação socioeconômica e política da burguesia alemã nesses séculos era tão dramática que, segundo Hauser, ela fez com que a intelligentsia burguesa, basicamente constituída por “funcionário subalternos, mestres-escolas e poetas improficientes”, perdesse

todo contato com a realidade social /.../ Seu pensamento tornou-se puramente contemplativo e especulativo, irreal e irracional, seu modo de expressão obstinado, extravagante, incomunicável, incapaz de levar os outros em consideração e resistindo sempre a qualquer correção vinda de fora. Essas pessoas recolheram-se ao que chamavam o nível “universalmente humano”, um nível acima de todas as classes, categorias e grupos; consideravam uma virtude a sua falta de espírito prático e chamavam-lhe “idealismo”, “introspecção”, triunfo sobre as limitações de tempo e espaço. De sua passividade involuntária desenvolveram um ideal da idílica vida privada, e da ausência de liberdade externa extraíram a idéia de liberdade interior e da soberania do espírito sobre a realidade empírica comum (HAUSER, 2003, p. 602-3). Tem-se aqui, nas relações socioeconômicas, importantes elementos que forneceram sustentação a dois aspectos bastante característicos – ainda que jamais únicos ou exclusivos – do pensamento filosófico alemão: o idealismo (tanto subjetivo quanto objetivo) e o excessivo rebuscamento formal e sua conseqüente obscuridade, sendo que esta última esteve presente

46 desde Kant até os filósofos da primeira metade do século XX (momento este em que avultou a figura de Martin Heidegger).

Dito isto, e lançando um olhar retrospectivo sobre esses séculos (de meados do XVI a meados do XVIII) da história alemã, pode-se facilmente constatar como em todos os aspectos o povo alemão adentrou num torvelinho de decadência. Atravessado pela fragmentação e pelo autocratismo político da nobreza, pela fragilidade do desenvolvimento da burguesia – tanto socioeconômica quanto político-cultural –, por uma decadência avassaladora que abarcava todas as esferas da vida social e, ainda, envolvido em ideologias de lastro religioso (luterano, pietista) que fomentavam um espírito de lacaio entre as massas e até mesmo entre os intelectuais (Cf. LUKÁCS, 1959, pp. 32; 47-8), as possibilidades de desenvolvimento de movimentos de unificação nacional do povo alemão eram praticamente inexistentes, sobretudo se dependessem (e dependiam) de intensa participação popular61. A Alemanha não estagnou, mas, tal como a Europa nos séculos VI e VII, ela regrediu nesse período. Tanto que, “No decorrer do século XVI, as camadas médias alemãs tinham perdido sua influência política e econômica, que assistira a um constante progresso desde o final da Idade Média e, por conseguinte, perderam também sua importância na esfera cultural” (HAUSER, 2003, p. 598). Por isso, utilizando uma metáfora, pode-se afirmar que esses séculos constituíram uma pequena “Idade das Trevas” para os alemães, tanto em termos socioeconômicos e políticos quanto culturais.

Na vida social, porém, não há movimentos de crise ou ascensão eternos. Daí que, a partir da segunda metade do século XVIII, embora em ritmo lento, um “renascimento alemão” ocorreu e, com ele, o fortalecimento da classe burguesa, que ainda estava muito distante “de ser forte o bastante para eliminar os obstáculos que se interpõem ante a unidade nacional” (LUKÁCS, 1959, pp. 31-2). Uma das expressões desse renascimento é que, mesmo enredada em dificuldades econômicas múltiplas e politicamente atravancada pelo compromisso da burguesia com a nobreza, a vida nos estados alemães passou por um intenso processo de

61 “Os regimes rígidos, organizados de acordo com uma concepção estática de papéis sociais de designação divina, deixavam pouca margem para a iniciativa individual ou o envolvimento popular em assuntos públicos” (STACKELBERG, 2002, p. 45). Ou ainda, segundo Talmon, “Na maioria, os pequenos estados eram tão minúsculos e, no conjunto, tão burlescos com seus exércitos liliputianos, a sua macaqueação da corte de Versalhes, o seu absolutismo de capelinha – que dificilmente poderiam inspirar orgulho ou sequer respeito aos espíritos mais corajosos e fortes de modo a conquistá-los para o governo. Daí a alienação política” (TALMON, s/d., p. 125). Na mesma linha, Hauser afirma que “Todos os duzentos insignificantes principados tiveram como sua ambição suprema imitar o rei francês e a corte de Versalhes” (HAUSER, 2003, p. 600). E, por fim, enfatizando as implicações desse desenvolvimento sobre as massas urbanas e camponesas, Lukács diz que “a fragmentação do país numa trama de pequenos estados resultou extraordinariamente nociva para a educação revolucionário-democrática das camadas mais baixas do povo, para o desenvolvimento das tradições revolucionário-democráticas entre as massas plebeias” (LUKÁCS, 1959, p. 40).

47 burocratização, que, “como em todos os países da Europa, [se converteu] numa forma transitória da liquidação do feudalismo, da luta da burguesia pelo poder do estado” (Lukács, 1959, p. 34). De forma limitada e insuficiente, essa burocratização não deixou de implicar numa certa racionalização da organização interna desses pequenos estados em conformidade com as demandas reprodutivas do capital. Ou seja, inequivocamente subalterna à nobreza, a burguesia conseguiu inocular no estado dominado pelos junkers algumas de suas demandas, pressionando-o a fazer concessões que dessem algum amparo ao desenvolvimento capitalista.

Nessa época, há que se constatar uma característica do desenvolvimento alemão que, emergindo neste momento, perdurou por cerca de dois séculos (de meados do século XVIII ao mesmo período do século XX), qual seja, um acentuado descompasso (assincronia, incontemporaneidade) entre as transformações socioeconômicas, as políticas e aquelas de ordem cultural. Mesmo quando “nos pequenos estados absolutistas-feudais se faz sentir cada vez com mais força a necessidade econômica de se aburguesarem” (LUKÁCS, 1959, p. 33), as transformações socioeconômicas e políticas ocorriam muito mais lentamente do que as culturais. Entrementes, o contraste entre essas esferas constitutivas da vida social adquiriu, então, tal dimensão que, em meados do avançado século XIX, Marx ainda pode dizer: “Somos os contemporâneos filosóficos da época atual sem sermos seus contemporâneos históricos. /.../ A filosofia alemã do direito e do estado é a única história alemã que está al pari com a época moderna oficial” (MARX, 2005, p. 150). Por conseguinte, é na esfera cultural, mais especificamente filosófica e artística, que os efeitos do desenvolvimento da sociedade burguesa alemã foram sentidos de modo mais contundente.

Essa incontemporaneidade de suas respectivas esferas sociais ganha contornos mais nítidos quando rememoramos que, passando ao largo da primeira revolução industrial e das contradições sociopolíticas que assolaram a França setecentista, foi do povo alemão que, no mesmo século, para ficar apenas nos exemplos mais relevantes, emergiram as imponentes figuras de Lessing62, Kant e Goethe. Isso significa que,

Enquanto a Alemanha era, simplesmente, um país atrasado, tanto no [campo] econômico como no social, [ela] ia avultando, entretanto, no [campo] espiritual, como um rival digno e, em certos campos, como o guia espiritual do mundo burguês; brotou, dessa situação, a ideologia precursora da revolução democrática na Alemanha (os poetas e pensadores alemães desde Lessing até Heine e desde Kant até Hegel e Feuerbach) (LUKÁCS, 1959, p. 49).

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Em sua análise do iluminismo alemão, Hauser afirma que Lessing (1729-1781) pode ser considerado não apenas o mais importante representante do iluminismo na Alemanha, “mas o maior e talvez a mais autêntica e mais atraente personalidade desse movimento como um todo” (HAUSER, 2003, p. 596).

48 No campo espiritual, após meados do século XVIII63, o desenvolvimento das idéias burguesas na Alemanha foi tão destacado que, logo no início do século XIX, surgiu a mais