No que tange ao modelo de jogo adotado pelos treinadores, TB observa o modelo de jogo de uma forma bem ampla onde todas as variáveis possíveis dessa organização são importantes para a o desenvolvimento do trabalho de sua equipe.
“ Modelo de jogo cara é um todo, é um todo, é uma cultura, é uma ideia de captação de jogador, são as ideias de jogo do treinador que comanda essa equipe, são os comportamentos a nível de gestão do clube, a características dos jogadores que tu encontras dentro desse determinado clube, todas essas informações vão determinar uma ideia geral do clube dependendo do contexto que tu tá inserido. ” (TB)
Podemos identificar na fala de TB, que a ideia de modelo de jogo para este treinador é muito abrangente, para ele o modelo de jogo está relacionado com o todas as dimensões de um clube, não somente com o futebol dentro das quatro linhas. Oliveira (2003) também entende o modelo de jogo como algo abarcante, para o autor o modelo começa a partir da construção dos momentos do jogo e seus princípios, das características dos jogadores, das ideias dos treinadores, da cultura local e do clube, das capacidades dos jogadores e das estruturas táticas. Para o autor os fatores que compõem um modelo de jogo, fazem com que esse clube crie uma identidade única e própria que o caracterize, significando que cada clube pode ter a sua proposta de modelo de jogo.
Oliveira et al (2006) apud Mourinho (2001), na mesma perspectiva anterior, falam que conhecer o clube, ou seja, o contexto que o treinador está inserido, também é necessário para se elaborar um modelo de jogo. Os níveis de jogo, objetivos, calendário, nível de entendimento tático, para o autor, são fatores que influenciam o modelo de jogo da equipe.
Casarin & Esteves (2010) confirmam que o modelo deve ser uma referência que o clube deve possuir para nortear o seu trabalho na busca de seus objetivos, assim, buscando ser a referência para a construção de todo um trabalho, desde a escolha do treinador para o melhor rendimento a partir dessa maneira de jogar.
Desta maneira, o modelo de jogo de cada equipe é uma construção de todos os setores do clube, podendo ser ele o objeto para a organização do clube a partir de tudo que o envolve, desde o futebol jogado até as ideias e decisões do clube fora do campo, fazendo assim com que o clube funcione em total harmonia em todos os segmentos na busca dos objetivos traçados.
Já o TP, não tem uma definição muito clara segundo a literatura sobre modelo de jogo, para o treinador modelo de jogo está relacionado com sistema tático e padrão de jogo.
“ Modelo de jogo é uma forma de jogar, é hoje a gente comenta que modelo de jogo é plataforma de jogo, é plano tático, é isso que cada um tem o seu né. Hoje no futebol brasileiro tá se adotando muito o 4-1-4-1, o 4-2-3-1, são alguns modelos de jogo que tá sendo introduzido dentro do futebol brasileiro. ” (TP)
“ O padrão de jogo ele te da condição de você ser uma equipe equilibrada né, e uma equipe equilibrada naturalmente ela caminha pra conquistar algo, nós tivemos no “clube” 2014, 2013, 2014 com um modelo de jogo e ai isso deu uma condição, nós chegamos perto do acesso, conquista os o campeonato estadual, chegamos em final de copa do nordeste, fizemos jogos fascinantes na Copa do Brasil, então o modelo de jogo te dá uma condição de você ser uma equipe equilibrada para alcançar os objetivos. ” (TP)
É comum ouvirmos muitos técnicos relatarem sobre a forma de seus clubes jogarem, o modelo de jogo, e relacionam com os sistemas táticos utilizados. E nisso, percebe-se que muitas vezes há uma troca das informações, ou melhor, uma maneira equivocada, mencionando que sistema tático e padrão de jogo é a mesma coisa que modelo de jogo.
Para Oliveira (2006), modelo de jogo é uma ideia constituída de princípios, subprincípios, que estão engajados dentro dos momentos do jogo (ataque/defesa/transições), conectado com as ideias do treinador, com as capacidades e características dos jogadores, com as organizações estruturais da equipe, bem como a cultura local, as condições e objetivos do clube, articulando-se entre si, ocasionando uma organização funcional para a equipe.
De acordo com o autor acima, modelo de jogo vai além de apenas sistemas táticos, para o autor os sistemas (organizações estruturais) são um dos requisitos que formam um modelo de jogo.
Essa diferença de visão do termo modelo de jogo, pode estar relacionada com a formação dos treinadores e as referências sócio culturais que cada um adquiriu na sua formação integral. TB ao se identificar colocou que era formado em Educação Física e tinha pós-graduação em treinamento esportivo na Universidade do Porto, e tem como referência o livro de Marisa Gomes, que trata de periodização tática. Já TP não terminou o curso de Educação Física e sua formação foi em gestão e lazer. O mesmo relata que sua formação no futebol foi muito influenciada quando era atleta profissional.
Quando perguntados sobre a relação do futebol brasileiro e modelo de jogo, ambos os treinadores observam dificuldades para identificar nos clubes esta metodologia de trabalho. Também complementam dizendo que a mudança de treinadores dificulta muito a implantação de um modelo de jogo.
“Dentro do futebol brasileiro, eu acho que é uma questão muito difícil, até porque há uma mudança muito rigorosa no treinador do profissional. Acho que isso não pode partir do treinador, tem que se uma regra do clube. ” (TP) “ O futebol brasileiro é muito difícil você fazer isso por essa questão de mudança de treinador sempre né. ” (TP)
“[...] a ideia modelo de jogo a palavra modelo de jogo que ainda é muito pouco compreendia aqui no nosso pais, muito pouco, ainda se faz muita é, se faz muita complicação do que que é modelo de jogo, uns acham que é sistema de jogo, uns acham que é plataforma de jogo ou questão de sistemas táticos, não é nada disso, é algo muito superior a isso, muito mais complexo, então modelo de jogo pra mim hoje é quando um profissional ou um clube ele consegue realmente entender a fundo o que e a palavra ele se torna um profissional diferente e um clube diferente. ” (TB)
“Nenhum clube no Brasil hoje tem isso, não temos essa filosofia de futebol ainda, ela é muito ambígua ao que a gente tem de cultura de futebol ainda, não existe essa realidade na prática, não existe, podem existir alguns discursos que dizem que um determinado clube tem uma mesma maneira de jogar. ” (TB)
TB também declara que o futebol brasileiro passa por um momento de turbulência depois da tempestade, citando a derrota na Copa do Mundo de 2014 para a Alemanha, derrota essa, previsível na sua visão, e que hoje o futebol brasileiro junta os cacos, passando por um percurso longo para voltar a ser protagonista no cenário futebolístico mundial.
“ Hoje a gente ta ainda num momento de turbulência entendeu, pós Copa do Mundo, 7x1, a gente recém ta à deriva é um barco à deriva tu entendeu? É um barco que foi arrematado pela tempestade, ele perdeu o leme, perdeu as velas, perdeu metade da tripulação e agora ta na calmaria da tempestade você me entende? Futebol brasileiro ta vivendo por isso, tem a questão também que vai ter que ser reformulado, essa crise a própria crise política do brasil, a crise da CBF, corrupção, uma série de coisas você entende? Então estamos na calmaria após a tempestade, a tempestade foi o 7x1 que pra muita gente foi uma tempestade surpresa, pra pessoas que estavam já dentro do futebol já a bastante tempo e estudando futebol e indo atrás de mais informação era algo muito, muito previsível. Claro que o 7x1, o 7x1 foi um troço muito forte né, 7x1 é um troço muito forte, mas que a gente ia passar por um momento muito sério, e a gente já vinha passando, tu pega os jogos das equipes brasileiras nos mundiais interclubes dos últimos anos todos foram de forma vexatória, a gente perdeu os jogos, nunca foi, a nossa categoria de base da seleção vem tomando resultados negativos atrás de resultados negativos, não foi algo assim que aconteceu, pro grande público o 7x1 ficou marcado mas pra nós que estudamos o futebol, vivemos o futebol foi algo que era bastante previsível então a gente vive um momento de calmaria, a partir de agora que essa, que agora nós vamos começar a
recuperar uma vela, recuperar um leme, nós vamos começar a juntar os cacos você entendeu? Tá começando a se juntar os cacos mas o processo, por nós estarmos no brasil um país de terceiro mundo onde a corrupção impera, onde não existe meritocracia, onde as pessoas ocupam determinados cargos e não estão preparadas para ocupar esses determinados cargos e é mais um viés político essas escolhas vai levar um grande tempo pro futebol brasileiro voltar a ser protagonista no cenário mundial, isso, não é eu que to dizendo isso, quem sou eu pra dizer isso, é só a gente ser atento e observador que a gente vai perceber isso, então, a gente ta remontando né e vai levar um tempo, não sei te dizer o tempo se é uma década, duas décadas, mas é coisa para um longo espaço de tempo. ” (TB)
Confirmando as falas de TP e TB que não identificam e acham muito difícil em clubes do Brasil um trabalho relacionado ao modelo de jogo, Heineck; Casarim e Oliveira (2012) identificam no Brasil a ausência de um trabalho baseado no modelo de jogo.
Essa ausência de modelo de jogo nos clubes brasileiros se torna cada vez mais evidente com a mudança constate de treinadores e o pouco profissionalismo dos gestores do clube. Segundo Carravetta (2012), a gestão do futebol por um profissional da área, é muito importante para um clube atingir seus objetivos. Mas observamos na fala dos entrevistados que essa evolução no futebol brasileiro ainda está muito longe.
Comparando com o futebol europeu, Pereira (2004) apud Leocini & Silva (2000), apresenta alguns clubes como exemplos de modelo de jogo. Clubes como Barcelona, Manchester United e Milan, segundo o autor, possuem um modelo de jogo já definido em relação a sua forma de jogar e organização como clube, servindo de referência para outras instituições. Observando os exemplos do autor, verifica-se que clubes que possuem um modelo de jogo adotado, estão no patamar do futebol mundial.
Em relação ao modelo de jogo adotado pelo clube pesquisado, TP cita a dificuldade de se implantar essa organização a partir da maneira de fazer futebol no Brasil. As constantes trocas de treinadores, de filosofias de trabalho e a falta de organização influenciam na não implantação de um modelo de jogo, fato esse que podemos identificar no próprio clube estudado, que durante todo o processo de busca e coleta de dados acabou por trocar de profissional no comando técnico da equipe profissional.
“Não, nós chegamos aqui apenas há 1 mês né, e a gente não tem, não tem como você botar, padronizar, fazer com que todas as categorias joguem da mesma forma; ” (TP)
Essas substituições de treinadores no decorrer da temporada estão na contramão das ideias de Casarin & Esteves (2010), quando os mesmos falam que o modelo de jogo deve referenciar o trabalho do clube desde o início até o final do ano, a fim de conquistar os objetivos traçados para toda a temporada.
Na mesma linha anterior para Lemos (2005) apud Vale (2003), os princípios de um modelo de jogo não podem ser modificados, independente da substituição dos profissionais, pois se esses princípios forem alterados de acordo com cada novo profissional que chegar no clube, não haverá uma identidade a ser construída e seguida.
Esta situação é muito difícil de observar no futebol brasileiro, pois aqui se faz tudo com imediatismo, na busca desesperada por resultados e satisfação imediata dos torcedores.
Pode-se identificar que o modelo de jogo é algo que deve ser ajustado, mas não deve ser mudado, fazendo com que os novos profissionais que venham a chegar aos clubes se adequem a ele, situação essa que no Brasil se mostra difícil de encontrar pela falta de organização dos clubes, onde se vê na troca de treinadores a resolução para todos os problemas da instituição.
Já para TB quando perguntado do modelo de jogo do clube pesquisado, este comenta que está sendo implantado, mesmo que de maneira lenta, uma ideia de modelo de jogo para as categorias de base.
“ [...] aqui no clube estudado a gente está começando ainda a criar essa discussão interna principalmente na base, da gente começar a criar comportamentos, princípios e subprincípios de jogo né, que fiquem bem marcantes que forem observar e analisar nossas equipes, mas ainda é algo digamos que embrionário. “ (TB)
Casarin et al (2011) falam que essa discussão e implantação do modelo de jogo declarado por TB, deve ser um mecanismo que todos os profissionais do clube devem participar, pois para os autores, o modelo de jogo de um clube é importante na transição dos jogadores entre as categorias e de novas formas de jogar. Para Casarin et al (2011) esse modelo padrão entre as categorias pode fazer com que os as equipes atinjam seus objetivos mais rápidos e com maior qualidade.
Carravetta (2012) complementa dizendo que para conseguir alcançar os objetivos, tanto dentro quanto fora de campo, se faz necessário uma boa estrutura de clube que contemplem diferentes aspectos que norteiam o esporte, e principalmente as exigências do mercado futebolístico.
Percebe-se então que, um trabalho conjunto e direcionado pelo clube é importante para que se possa construir uma ideia de futebol na instituição, entretanto, os clubes ainda separam muito as categorias de base do profissional, como se fossem dois ambientes distintos, que não podem manter um mesmo trabalho dificultando a implantação de uma organização de modelo de jogo para todo o clube.