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Já antes da utilização da pólvora como agente propulsor de projécteis existia a artilharia neuro-balística em que engenhos do tipo catapulta com um conjunto de cabos e cordas submetidos a torção lançavam objectos contundentes, como pedras, flechas e blocos de substâncias inflamadas. Foi, contudo, a pólvora o principal agente de mudança revolucionando as artes da guerra, a organização militar e as estruturas defensivas, constituindo uma nova artilharia, a artilharia pirobalística.

A pirobalística ou artilharia da pólvora fora introduzida, provavelmente, pelos árabes na Península por volta do séc. XII (BAÊNA, 1989:73) mas os primeiros contactos com os trons ou bombardas no nosso País só datam de 1381; estas armas equipavam a frota do Conde de Cambridge que nos trouxe auxílio aquando do cerco de Lisboa por D. João I de Castela; e D. Nuno Álvares utilizou um trom na Batalha dos Atoleiros, em 1384; porém, a pirobalística só veio a ser utilizada em campanha, pela primeira vez por tropas portuguesas, na Batalha de Aljubarrota, em 1385 (MORENO, 1941a:1). Os primeiros projécteis eram de pedra, daí a designação de “pedreiros” para os canhões que disparavam esse tipo de balas. Se bem que as balas de ferro começassem a ser utilizadas em Portugal a partir de 1492 (IDEM, 1941a:1), as balas de pedra continuaram a ser usadas em Portugal até ao séc. XVI, apesar de já em desuso por muitos países. Eram mais leves do que as de ferro e exigiam menos pólvora, sendo que a bala de pedra pesava três vezes menos do que a de ferro e eram também mais baratas. Tinham

como senão o requerer muito trabalho e perícia de fabrico, facto que não atormentou Portugal, porque dispunha de cativos em África e no Oriente para trabalhar a pedra (PEDROSA, 2000:112).

Com o aperfeiçoamento do fabrico da pólvora e da fundição do ferro e do bronze, a nova artilharia atingiu grande desenvolvimento em Portugal nos séculos XV e XVI. A artilharia vai ser a força de ataque e de defesa por excelência sendo montada em navios que sofrerão alterações para o efeito, como o reforço das estruturas para suportar o impulso de recuo das peças; vai ocupar as Praças do Reino e ser montada em construções de raiz em África e no Oriente.

D. João II mandara instalar no bojo das caravelas de maior porte bombardas grossas ou pedreiros, grandes peças de tiro rasante que atiravam pedras e D. Manuel ordenara que a totalidade da armada fosse equipada com berços, colubrinas, canhões de ferro forjado ou de bronze que disparavam pedra ou bala de ferro, peças bastante manobráveis e de elevada cadência de tiro (IDEM:121 e 129).

Foi o poder da artilharia que fez com que os Portugueses tivessem o controlo das comunicações marítimas e o domínio das Índias Orientais, sendo mesmo a artilharia naval portuguesa considerada, em finais do séc. XV, uma das melhores do mundo.

Evoluindo muito rapidamente em modelos e calibres, pois não havia regra fixa para a sua fundição, só em 1540 é que surgiu em Espanha o primeiro documento a definir calibres e dimensões (IDEM:112). Era grande a diversidade da artilharia, quer portátil, quer pesada e a nomenclatura muito vasta, existindo

nomes diferentes para o mesmo tipo de peça; cerbatana, serpentina, passavolante eram sinónimos de colubrina, peça em forma de cobra ou serpente. Bombarda era a designação genérica para todo o tipo de peças e espingarda designava qualquer arma de fogo portátil, embora também fossem usados os termos escopeta e arcabuz e até bombarda espingarda. O mesmo se passava em relação a canhão, nome genérico para armas de grande calibre e pequeno comprimento de cano; eram utilizadas para atingir muralhas ou alvos a curta distância. Colubrina era uma peça de pequeno calibre e grande comprimento de cano, usada para atingir alvos muito distantes; distinguindo-se, contudo, a artilharia grossa da artilharia miúda.

Os alemães foram dos primeiros fabricantes de peças de artilharia marcando presença no nosso País desde inícios do séc. XV. Com eles se especializaram portugueses no fabrico do armamento que em 1445, no reinado de D. Afonso V, seguiu a bordo dos navios para a costa da Guiné.

Em virtude do grande avanço tecnológico conseguido na Alemanha na fundição do bronze, as peças de artilharia inicialmente fundidas em partes, passaram a ser fundidas em monobloco o que lhes conferia um aumento de potência e de alcance jamais conseguido em peças fabricadas em partes, aliando- se as vantagens que o bronze tinha em relação ao ferro – não enferrujar. São monoblocos os berços, peças mais manobráveis e mais leves e de grande eficácia de tiro, que vão equipar a Armada de D. Manuel, em que se inclui a Armada do Estreito com base no porto de Tavira, altura em que o Algarve manteve um papel estratégico nas ligações com o Norte de África. São, ainda, do tempo de D.

Manuel as oficinas de fundição, construção e conservação de material de artilharia montadas em Cata-Que-Farás (Cais do Sodré) (GUEDES, 1988:225).

Quando no reinado a seguir, D. João III decide abandonar as Praças de Safim, Azamor e Arzila, não só por deficiências demográficas como também para aliviar o erário público, havia nos armazéns armas e abastecimento para quarenta mil homens. E D. Sebastião, ao partir para a jornada de Alcácer-Quibir, levava consigo uma numerosa artilharia de bronze de maior calibre e peso do que a usada nos anteriores reinados (MORENO, 1941a:2).

Com a dominação Filipina grande parte das fortalezas foi desguarnecida, abandonada e material e pessoal vão reforçar os exércitos de Castela, só vindo o Algarve a merecer alguma atenção por parte de Filipe III na zona de Budens, Ferragudo e Praia da Rocha para controlo da estrada costeira. É bem significativo o Relatório de Inspecção realizado por Massaii às costas do Algarve, em tempo de Filipe II, quanto às condições das fortalezas e estado da artilharia, condições que se foram agravando com o passar do tempo. Em 8 de Junho do ano de 1638, o Governador e Capitão-Mor do Algarve, Henrique Correia da Silva, enviou uma carta a Filipe III queixando-se da falta de dinheiro “para o reparo das fortificações e serviço de artilharia” (IRIA, 1940:14). A carência de armamento para fazer face às investidas turcas e inimigos de Espanha, agora também nossos inimigos, também seria grande, dado que, por ordem de Filipe III, o mesmo Governador dirige uma carta aos Capitães-Mores do Algarve para aprisionarem armas e munições de navios estrangeiros “deixando-lhes as precisas para sua

volta, …(e)… levar para terra as mais, e postas a bom recado nos Armazéns del- Rei” (IDEM:15).

O séc. XVII vai demarcar-se pelo uso generalizado da artilharia em função da produção em massa na Suécia de canhões de ferro fundido a preços mais baixos (8 a 10 vezes menos) do que os de bronze (MOREIRA, 1993:68). Simultaneamente, o armamento individual adquire grande desenvolvimento como o arcabuz e o mosquete, com mais rápida cadência de tiro e maior poder mortífero. Este desenvolvimento vai promover a profissionalização dos exércitos a que só as Praças-Fortes podem resistir.

Ao ser recuperada a Independência, o receio de futuros ataques por parte do exército espanhol torna imperiosa não só uma campanha de obras, mas também uma reorganização militar. É recrutado pessoal especializado em França, Itália, Inglaterra e Alemanha e levado a cabo um grande esforço no rearmamento das fortalezas e na reactivação das fábricas de material bélico; reorganização que continuou além da Guerra da Restauração (1640-1668). Não obstante, nas Praças de Castro Marim, Faro, Lagos e Sagres, em 1692, segundo o Governador Ayres de Saldanha de Menezes e Souza “…se acha nelas muita falta de artilharia; porque a de ferro arrebentou uma, e danificou outra, o tempo, e não ficou a que basta e da de bronze se tem remetido para a fundição dessa Corte (…) e não se mandou para cá outra em seu lugar” (Iria, 1976:170).

Com a Restauração, D. João IV criou um organismo único que superintendesse os assuntos militares – o Conselho de Guerra; foi instituída a Tenência a cargo da qual ficava tudo o que dizia respeito ao armamento. O País

foi sujeito a uma divisão territorial militar e constituído em Praças de Guerra. O Algarve ficou com nove Praças cujos comandos se situavam em Sagres, Lagos, Vila Nova de Portimão, Albufeira, Faro, Tavira, Vila Real de Santo António, Castro Marim e Alcoutim; cada Praça com o seu Governador e todas sob o comando de um Governador-General com sede no Castelo de Lagos (CALLIXTO, 1991:61). Depois do terramoto de 1755 a sede passou para Tavira, Alto de Santana, onde permaneceu até 1834, tendo depois sido mudada para Faro e ficando sob o comando do Governador Civil (ANICA, 1993:95).

O século XVIII corresponde a um período de preparação e organização científica. À multiplicidade de projécteis e tipos de bocas de fogo sucede-se uma reorganização balística e um número mais restrito de tipos de armas com funções mais bem definidas.

Por ordem do Marquês de Pombal foi contratado o General alemão Conde de Lippe para organização da defesa, altura a partir da qual os governadores das praças passam a elaborar relatórios mensais sobre obras, recrutamento e estado da artilharia. Visitas de inspecção começam a ser frequentes nas quais se inserem os mapas das praças e plantas de fortificações do Algarve desenhados pelos Oficiais de Engenharia Francisco Lobo Cardinal e Romão José do Rego, de 1754; do Tenente-Coronel José Sande de Vasconcelos, c. 1788; relatórios do Sargento-Mor Euzébio de Sousa Soares, 1815; do 1º Tenente de Engenharia Gregório António Pereira de Sousa, 1821; do Capitão de Engenharia José Feliciano Farinha, 1823.

Foram criados os Regimentos de Artilharia e organizado o pessoal militar por companhias ficando o Regimento de Artilharia do Algarve com sede em Lagos até 1764, altura em que passou para o Regimento de Artilharia da Corte; uma década mais tarde foi criado o novo Regimento de Artilharia do Algarve com aquartelamento no Castelo de Faro (MORENO, 1941b:2).

O ensino da fortificação e artilharia por um lado e da engenharia por outro vão constituir especializações distintas ensinadas na Academia Real de Fortificação, Artilharia e Desenho e no Real Corpo de Engenheiros fundados por D. Maria I, em 1790 e 1792, respectivamente. O estudo da fortificação de campanha, a teoria de artilharia e minas, os métodos de construção de caminhos, hidráulica e a arquitectura de pontes e canais, matemáticas e orçamentos, entre outros, eram conhecimentos indispensáveis na formação de oficiais.

Com as Invasões Francesas e posteriormente com a Guerra Civil, a artilharia adquire grande mobilidade. O desenvolvimento do material de campanha como morteiros e obuses e a fortificação de campanha com a construção de redutos, valas, cinturas de segurança, trincheiras e baterias integrando linhas defensivas configuram uma nova forma de fazer a guerra. Interditar a passagem do inimigo sobrepõe-se à defesa das Praças. Já não é a fortificação permanente o alvo do ataque e da defesa; o enfoque é dado à topografia e ao conhecimento do território onde os exércitos travam batalhas campais em vez da guerra de sítio (LOBO, 1989:277).

A evolução técnica conseguida em meados do séc. XIX vem trazer à artilharia uma nova dimensão: mais rápida cadência de tiro, o carregamento pela

culatra em vez de pela boca, os canos estriados em substituição dos lisos e o projéctil oblongo em vez do esférico conferem uma precisão até então nunca conseguida; este tipo de material foi introduzido em Portugal em 1855, no reinado de D. Pedro V (MORENO, 1941e:1).

Dado o avanço da artilharia naval muitas fortalezas são abandonadas, legitimadas pelo Alvará de 1805 que determina o abandono das fortificações consideradas inúteis e a partir de 1815 começa a ser elaborada uma relação do que deve ser mantido e abandonado. Muitas das fortificações são desartilhadas e extintos os Trens de Artilharia (1851-52).

Em 1882 apenas 9 bocas de fogo artilhavam o Algarve, quando, em tempo de Massai, eram pelo menos 45 e em 1802 eram 264 (IDEM, 1941b:2).