• No results found

O comercio exterior é visto como consequência do processo de divisão internacional do trabalho. Sobre esta, duas linhas podem ser assinaladas, sendo a segunda a mais relevante: a) divisão das tarefas do processo produtivo em partes, com o objetivo de tornar simples o trabalho executado por cada trabalhador; e b) a adaptação do sistema produtivo que destina àqueles com mais talento ou facilidade determinados tipos de trabalhos. (HARROD, 1933, p. 9)

As vantagens, talentos ou facilidades que os países possuem na produção de determinados bens são a principal causa da divisão internacional do trabalho. Em primeiro lugar, estas vantagens podem ter tido sua origem na abundância ou presença de recursos naturais; alguns produtos como café, por exemplo, requerem um clima específico para seu cultivo. Em seguida, a distribuição desigual da população, tornaria o comércio exterior interessante, os países com população densa em proporção a capacidade do seu solo naturalmente empregariam seus recursos nos processos que não necessitam do uso do solo e trocariam bens manufaturados com as demais regiões. Além disso, as habilidades dos indivíduos são diversas podendo se dar em decorrência de maiores destrezas manuais, habilidades científicas, estratégias políticas e organizacionais oriundas da própria organização da sociedade ou dos acontecimentos históricos vividos por aquela nação. Por fim, há o legado do passado, uma sociedade pode ter tido uma ótima estrutura de organização no passado e este conhecimento construído a época faz parte do presente e das formas de produção atuais. (HARROD, 1933, p. 10-12)

Estudos sobre comércio exterior trabalham com a definição da Lei dos Custos Comparativos e estabelecem este conceito a partir da avaliação de dois produtos de dois países diferentes ou levando em consideração um país como sendo o “país de origem” e os demais como “resto do mundo”6. A lógica nesta análise é a de que o país de origem produzirá para si e exportará os produtos que consegue produzir de maneira menos custosa e importará do resto do mundo os demais produtos que são mais baratos lá.

Uma necessidade deste exercício é a de tornar comparáveis os custos de duas mercadorias. A mesma unidade não precisa e não deve ser usada para medir os custos do país de origem e do resto do mundo. O custo pode ser medido em termos de esforços ou de recompensa que é paga pelo esforço gasto na produção da mercadoria. Se os valores relativos dos vários fatores de produção forem determinados, é possível comparar o custo de produção das mercadorias A, B, C e assim em diante, no mesmo país de forma inequívoca. Já para países diferentes, as unidades das mercadorias também devem ser definidas. Estas podem ser medidas de acordo com o seu custo, ou seja, X dias de trabalho, ou X cestas de mercadorias. (HARROD, 1933, p. 13)

Supondo que o país de origem tenha vantagens na produção de uma mercadoria B em relação ao resto do mundo e os custos para de produzir a mercadoria A sejam os mesmos. Esta vantagem não pode ser observada a partir da análise entre os custos do país de origem e do resto do mundo pois não há unidade em comum que meça os custos entre eles, uma vez que os fatores são remunerados de maneiras diferentes nas duas localidades, e sim a partir da relação entre os custos internos do resto do mundo para a produção das mercadorias A e B. Neste exemplo, os recursos produtivos podem ser aplicados com igual eficácia à produção das unidades A ou B no país de origem, mas no resto do mundo as unidades de A são produzidas com mais eficácia do que as de B.

A partir disso, o país de origem passará a produzir mais da mercadoria B para que possa exportá-la para o resto do mundo importando A em troca. Ao transferir o esforço produtivo de B para A, o resto do mundo produzirá mais unidades de A que ele estava produzindo de B e ao transferir o esforço produtivo de A para B, o país de origem não produz menos unidades de B do que ele produzia de forma ativa. O ganho com o comercio exterior não depende do custo comparativo da produção de A no país de origem

6 O termo “no exterior” é utilizado como uma abstração. O mundo exterior não é um lugar homogêneo,

e no exterior, mas da relação entre o custo da produção de A e B no resto do mundo. Este ganho só será possível caso as proporções sejam diferentes.

Dessa forma, quanto maior for a diferença entre relação entre os custos de produção no país de origem e no resto do mundo, maior será o volume do comércio entre eles. O tamanho do resto do mundo, ou do país com o qual se estiver trocando, também implica num maior ou menor crescimento do comércio exterior. No caso, quanto maior for o resto do mundo, maior será o ganho com o comércio, ou seja, uma melhoria geral da eficiência produtiva em todo o mundo exterior, ou um crescimento da população, gerariam, portanto, uma vantagem. Além destes fatores, uma redução nos custos com transporte ou nas dificuldades que venham a ocorrer nas vendas ou compras no mercado internacional, que podem estar relacionadas a regulação, por exemplo, ampliam as possibilidades de comércio externo. (HARROD, 1933, p. 37)

Acima foram apresentados os principais determinantes da possibilidade de comercio exterior. Dessa forma, agora é preciso entender se os países de fato tendem a distribuir seus recursos produtivos de acordo com as vantagens e custos da divisão internacional do trabalho e por qual mecanismo este processo ocorre. Além disso, a questão da distribuição do volume de emprego em relação ao comercio internacional também deve ser explorada.

3.3.3. A Divisão Internacional do Trabalho e seu Mecanismo de Funcionamento