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6. Reparations Implementation

6.2. Need for Cooperation from States and Other Actors

Numa reflexão sobre a bibliografia que se debruça sobre a problemática da arte no espaço público, o investigador catalão Antoni Remesar e o arquitecto português Pedro Brandão distinguem entre dois tipos de abordagens: as que se centram no mundo da arte e as que enfatizam mais o público e menos a arte – portanto, a rua. Nenhuma delas está isenta de riscos, afirmam; nomeadamente os «excessivos critérios temáticos», as «aproximações espúrias aos temas» e um pendor de «forte carga ideológica» (Remesar e Brandão, 2010:5), pressupostos fortemente limitadores, e nos quais uma pesquisa sobre

street art poderia incorrer.

Deste modo, um primeiro risco de uma abordagem sociológica à street art decorreria de assumir o objecto de pesquisa como uma extensão do graffiti, transplantando a literatura sobre as suas práticas e as suas características culturais para o caso corrente e assim se perdendo todo um conjunto de aspectos que aparecem como únicos e definidores da prática de street art que é, ao momento, bastante transversal e visível em diferentes contextos. Para prevenir incorrer nesse risco, tracei no primeiro capítulo as origens da street art, bem como os pontos que partilha com o graffiti e os que distinguem ambas as práticas. Igualmente para reforçar a especificidade da prática de street art em relação ao

graffiti e a outras práticas artísticas ou expressivas de rua, expus, no terceiro capítulo, as suas origens e enquadramento para o contexto metropolitano de Lisboa.

Um outro risco possível na presente investigação decorreria de assumir que estas expressões de rua têm um carácter uniformemente subversivo e reivindicativo, se não no seu conteúdo, pelo menos no simples acto de pintar uma parede no espaço público. Se este aspecto pode ser verificável numa gama de casos, tal não acontece em todos, havendo aliás uma forte componente de negociação e de estratégia nas práticas de street art em contextos legais. Este aspecto será explorado e interpretado a fundo, nas suas origens e efeitos, ao longo do trabalho.

Das práticas «em si» às dinâmicas urbanas

Assim, ao procurar desenvolver uma abordagem pertinente e adequada a este objecto de estudo, surgiu uma interessante pista de trabalho durante o momento da exploração bibliográfica, nomeadamente no trabalho de José Guilherme Cantor Magnani (1994) sobre a análise das práticas esotéricas em contexto urbano brasileiro. A forma como este antropólogo abordou a questão das práticas esotéricas é semelhante à adoptei para a análise das práticas da street art. Esta consiste no deslocar da perspectiva das práticas em si para as relações que estabelecem com a cidade:

«A perspectiva que este texto introduz (...) desloca o foco das práticas esotéricas em si (origens, funcionalidade, causas de sua proliferação) para as relações que estabelecem com a cidade - com a paisagem, o ritmo, as instituições e a dinâmica urbanas.» (Magnani, 1994:3)

Nesse sentido, o autor optou por caracterizar as práticas esotéricas relativamente à forma como se organizam e inserem em diferentes dinâmicas urbanas, o que implicou identificar e analisar: padrões de comportamento com elas relacionados no contexto urbano; estratégias discursivas dos actores e entidades envolvidas; zonas de intersecção entre diferentes lógicas de actuação, por vezes conflituais; e os padrões de sociabilidade e estilo de vida dos actores que praticam o esoterismo e que a ele recorrem.

Para o presente objecto de estudo, desenvolveu-se uma perspectiva semelhante, centrada nas relações que a street art estabele com a cidade, para o contexto metropolitano de Lisboa. Assim, neste trabalho é conferido destaque à forma como a street art se insere nas diferentes dinâmicas que se entrecruzam e seus diversos discursos e actores, nomeadamente: da parte das instituições, o controlo do espaço público e a promoção de uma determinada imagem de cidade, o marketing das cidades num contexto de competitividade turística e não só; da parte dos artistas, individual e colectivamente, a contextualização de um conjunto de práticas, e as representações e expectativas que com elas se interligam, o aspecto do trabalho, de como se elabora a construção de uma carreira artística, e o que há de estratégico nas opções que fazem a nível da colaboração com instituições, e como essa é reflexo da inserção da street art no mundo da arte e seus mercados.

Outra semelhança que encontrei entre a abordagem de Magnani e a presente pesquisa, é o facto de ambas as práticas aparentarem a passagem de um momento de pouca visibilidade e mesmo clandestinidade, para começarem a adquirir uma visibilidade crescente no espaço público. Se as

práticas esotéricas se dão agora a conhecer através de feiras, anúncios de cartomantes e tarólogos (Magnani, 1994), assumindo mesmo uma emergente lógica empresarial, a street art é também cada vez mais visível através de iniciativas legais, sendo objecto de ampla e variada exposição mediática, que a incorpora inevitavelmente no domínio do marketing urbano à escala global.

Perspectivas sociológicas e antropológicas sobre a cidade

Uma perspectiva antropológica urbana é aquela que pretende apresentar a experiência pessoal da cidade, assumindo a sua subjectividade. Tanto o etnógrafo como o sociólogo que assumam uma perspectiva metodológica qualitativa partilham a mesma dificuldade na construção do objecto na cidade, na diversidade e multiplicidade das dinâmicas e actores que a constroem. Esta dificuldade deriva da complexidade de um objecto que é construído por múltiplas representações, pelo que os diferentes modelos de análise partirão necessariamente da opção por um determinado nível de pesquisa sobre o qual se construa uma perspectiva sobre o objecto.

É assim já clássica a abordagem ao bairro como unidade de pesquisa (Cordeiro, 1997; Costa, 1999; Frúgoli e Sklair 2013), bem como as interacções ao nível micro dos passeios (Jacobs, 2000; Duneier, 2001; Nunes, 2012) ou dos prédios de habitação em Copacabana (Velho, 1989). Este tipo de abordagens, que priveligia a análise das dinâmicas identitárias e os processos de representação social, permite uma perspectiva transversal da realidade do contexto urbano em questão:

«(...) tratando-se de imagens tendencialmente ‘localizadas’, elas apelam, permanentemente, a referentes mais globais, o que pressupõe remeter aquelas imagens para o quadro de sinais e de significações daquele cruzamento de ‘sociedades’ e de ‘lugares’, face à cidade-metrópole de Lisboa.» (Ferreira, 2002:136) Aqui, o contexto de pesquisa é Lisboa e o nível a que se pretende abordar as suas dinâmicas urbanas é o da produção de street art que nela tem lugar, com os seus actores e entidades, inserindo-se esta numa constelação de relações, discursos e estratégias cuja complexidade será exposta ao longo deste trabalho.