4 MARCO TEÓRICO
4.2 Las necesidades del niño como foco central de la educación
O fundador do ceticismo pirrônico, a skepsis54, ao contrário do que tradicionalmente é pensado, não é Pirro de Élis55 (sécs. IV-III a.C.), mas Enesidemo56 (séc. I a.C.), ao romper com a Academia platônica57. Querendo se distanciar do ceticismo acadêmico, como os de Arcesilau, Carnéades e Clitômaco, designa seu ceticismo (sendo provavelmente o primeiro a fazê-lo), de pirrônico. É Enesidemo quem escreve obra intitulada Discursos pirrônicos58, antecipando Sexto Empírico em cerca de 200 anos. Contudo, entre os céticos antigos, é apenas de Sexto que temos acesso a material textual (de fonte direta) com o qual examinar o ceticismo. Portanto, a obra de Sexto Empírico pode ser considerada a maior (principal) não apenas pelo evidente motivo de ser a única fonte primária mais completa (e extensa) que se tem acesso direto, sobretudo desde sua primeira edição impressa da tradução para o latim de Henri Estienne em 1562, como assim também por seu impacto na filosofia moderna, a partir do séc. XVI59.
Na obra Hipotiposes Pirrônicas, Sexto Empírico encadeia em capítulos aquilo que hoje podemos, mais propriamente, designar de ceticismo pirrônico ou, simplesmente, pirronismo. Apesar da advertência feita no parágrafo anterior, “pirrônico” vem mesmo de Pirro, como nos diz Sexto, “por ter ele se vinculado ao ceticismo mais sistemática e conspicuamente do que qualquer um antes dele”60 (I, 7)61. À parte a dificuldade de não se dispor dos materiais textuais de outros filósofos pirrônicos antigos em igual quantidade e preservação como os de
54BURNYEAT (1980, p. 23): “investigação”, “exame”.
55 Alan Bailey (2002, seção 3, p. 30-7. Para informações de publicação, ver Referências.) reclama ser uma “ficção”
a consideração de uma sucessão ininterrupta desde Pirro a Sexto.
56 Como fundador da escola pirrônica (BURNYEAT, 1984, 318(15); FREDE, 1979, p.182; FREDE, 1984, p. 218-9;
BAILEY (2002, p. 57).
57 Sexto no cap. xxxiii das Hipotiposes (I, 220-235) descreve três estágios, principais, pelos quais passou a
Academia platônica: a velha Academia, com Platão, dogmática; a média, com Arcesilau e, finalmente, a nova, com Carnéades e Clitômaco. Sobre as descrições de Sexto serem ou não confiáveis e as interpretações contemporâneas sobre a academia cética, ver nota 71 e seção 4.2 desta Dissertação.
58 Alan Bailey (2002, p. 57) referencia para tal informação:Photius, Bibliotheca, 169-70, trans. A. A. Long and D.
N. Sedley, The Hellenistic Philosophers (2 vols.; Cambridge, 1987), i. 468-9. BURNYEAT (1980, 29, nota 17) também indica a obra Vidas (IX, 106, 116) de Diógenes Laércio como fonte. Quanto ao título da obra, Michael Frede (1984, p. 219) nos apresenta a seguinte variante: Argumentos Pirrônicos.
59 A principal fonte é Richard H. Popkin The History of Scepticism from Erasmus to Descartes (1960, revisada e
expandida em 2003. Ver Referências para mais informações.). A qual endossam BURNYEAT, 1980, p. 20-1; BURNYEAT, 1984, p. 319 (15); FREDE, 1984, p. 219; BAILEY, 2002, p. 18.
60“[T]o have attached himself to Scepticism more systematically and conspicuously than anyone before him.”
(ANNAS e BARNES, 2007, p. 4).
61 Quando nos referirmos à obra Hipotiposes Pirrônicas, no corpo do texto, usaremos apenas o número do livro
em algarismos romanos, seguidos da numeração padrão da divisão em seções feita por J. A. Fabricius, de sua edição de 1718. Acrescento que a edição da tradução de ANNAS e BARNES (2007) das Hipotiposes, por dar preferência à sequência do texto via parágrafos, distanciou-se ligeiramente da numeração de Fabricius (BARNES, 2007, p. xxxiv). Contudo, sem prejuízo importante para as referências.
Sexto62, e, somado a isso, com a distância temporal, eventuais problemas ligados ao vocabulário e sutilezas lexicais63 tornam mais difíceis nossas leituras e interpretações de textos, como é o caso das Hipotiposes Pirrônicas. Não obstante esses obstáculos presumivelmente esperados, não impedem a pesquisa, pelo contrário, tornam-se trilhas a serem percorridas para, na ou desde a obra estudada. É o que passaremos a fazer.
Vejamos, primeiramente, a apresentação que Sexto Empírico faz do ceticismo, mormente, no Livro I das Hipotiposes. Comecemos, portanto, com a definição de ceticismo. Sexto nos diz que o ceticismo é uma habilidade (I, 8) por meio da qual alcançamos a tranquilidade (ataraxia) via suspensão do juízo (epoché). E que o filósofo cético, ou simplesmente pirrônico64, é aquele que possui essa habilidade (I, 11). Para melhor compreendermos o que está aí implicado, precisamos antes considerar o capítulo de abertura de sua obra (I, 1-4) em que Sexto apresenta três resultados possíveis pelos quais os investigadores da verdade podem se deparar em suas investigações, o que, também, define para ele, os três possíveis tipos de filosofia.
Pelo primeiro, descobre-se ou dá-se com a verdade; no segundo, nega-se a possibilidade da descoberta ou admite-se a inapreensibilidade do objeto; e, no terceiro, continua-se a investigação. No primeiro tipo encontra-se os dogmáticos, entre os quais cita as filosofias, e seus seguidores, aristotélica, epicurista e estoica. No segundo tipo, os acadêmicos, inclui as escolas de Clitômaco e Carnéades. E, finalmente, no terceiro, os céticos, da qual filosofia pretende fazer seus esboços, suas hipotiposes. De imediato, os pirrônicos, segundo esta analogia, destacam-se dos demais por “estarem ainda investigando” (ênfase nossa) (I, 3). Como se verá mais adiante, este estado inconcluso da investigação tem significante importância para o entendimento daquilo que Sexto expõe sobre ceticismo em sua obra. Mas, por agora, voltemos à definição do pirronismo quanto ser uma habilidade.
Sexto nos descreve o ceticismo como uma habilidade de estabelecer oposições entre as coisas que aparecem (entre si ou) com as que são pensadas (entre si ou com as primeiras) (I, 8-9, 31), uma capacidade de opor explicações conflitantes (I, 10) de tal modo a alcançar a
62 A despeito de doxografias e compilações encontradas, por exemplo, em Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres
(séc. IV d.C.) de Diógenes Laércio e em Praeparatio evangelica (Preparação para o Evangelho) (séc. IV) de Eusébio de Cesareia.
63Como, por exemplo, os usos e significados da palavra grega “dogma”, da qual decorre cruciais implicações para
a interpretação da obra de Sexto, como se verá adiante.
64A partir daqui utilizaremos “cético” e “pirrônico”, e suas variantes, intercambiavelmente, querendo com isso
significar o cético descrito por Sexto em sua obra. Do contrário, especificaremos o ceticismo acadêmico antigo ou o cético moderno.
equipolência (isostheneia) (I, 8, 10, 190) entre os lados do conflito, de sorte que nenhuma das partes supere a outra quer convencendo, quer não convencendo, pondo-se assim a questão em equilíbrio ou empate. Do impasse, incerteza ou dúvida (aporia) ocasionado pela equipolência, o cético é levado primeiro à suspensão do juízo (epoché) (I, 8, 10, 196), entendida como uma interrupção do intelecto65, no sentido de não afirmar ou rejeitar aquilo que é o objeto da investigação (I, 10, 196). Como resultado da suspensão, segue-se a tranquilidade ou imperturbabilidade (I, 8, 10, 12, 25-30), no sentido da paz de espírito, a saber, daquele que logrou livrar-se das perturbações mentais (I, 10).