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3. Uenighet om passende rolle og spillerom

4.3.1 NAV sin forståelse av egen og andres rolle

No início da década de 70, na França, surge no cenário teatral Bernard-Marie Kòltes, um jovem dramaturgo francês, vindo de uma família pequeno-burguesa católica, marcada pelo terror e pela opressão da Revolução Argelina. Seu pai era um oficial do exército e tinha participado das campanhas de guerra contra a independência do país.

A ausência paterna para Kòltes foi marcante ao longo de sua infância e juventude, seu pai regressaria tempos mais tarde, com o peso da derrota da França nas costas. Por conta disso, o universo bélico, a metrópole e as opressões raciais marcaram a escrita do dramaturgo, segundo o próprio Kòltes (apud Machado, 2000, p.90)

Acho que os negros inevitavelmente estarão presentes até o fim, em tudo que escrevo. Pedir-me para escrever uma peça, um romance sem que haja, ao menos um, ainda que mínimo, mesmo escondido

atrás de um poste, seria como pedir a um fotógrafo para fazer uma foto sem luz.7

O francês estreou como dramaturgo em 1970, mas sua primeira obra consideravelmente relevante, Combate de Negros e Cães, foi encenada em 1983, sob a direção de Patrice Chéreau. A peça Na solidão dos campos de algodão estreou em 1985 e Roberto Zucco, em 1988, esta última não foi vista pelo dramaturgo, pois faleceu aos 41 anos de idade, vitimado pelo HIV um ano antes de sua estreia oficial.

Kòltes encontra-se na seara dos dramaturgos contemporâneos que buscam novas formas de expressão para sua obra. A estrutura de seu texto lança mão de elementos clássicos da constituição de uma obra dramática para criar outras dinâmicas na linguagem verbal em que “a atividade da palavra toma o lugar antes reservado à progressão da intriga” (FERNANDES, 2001, p.75). O jovem dramaturgo tinha muitas dúvidas em relação ao fazer teatral, não gostava de ir aos espetáculos, pois não via a pulsão da vida quando se deparava com a encenação de uma obra teatral. Para Kòltes (apud Machado, 2000, p.8):

Vejo o palco como um lugar provisório, do qual os personagens parecem estar querendo sair (...) o que parece suscitar que o teatro é o abandono do palco para reencontrar a própria vida. Mas já não sei de fato se a vida existe de algum lado (...) eu sempre detestei um pouco o teatro porque ele é o contrário da vida, no entanto, acabo sempre retomando-o, e ele é o único lugar onde se diz que aquilo não é vida.

Dessa maneira, Kòltes se mostra um dramaturgo atento ao seu tempo, cuja obra retrata o caos da tragédia moderna, que se encontra “ancorada no interior de nosso cotidiano, de nossa sociedade” e “que nos toca e nos desequilibra com sua linguagem inovadora” (MACHADO, 2000, p.9)

Trataremos, então, de contextualizar nesta pesquisa a peça Na solidão dos

Campos de Algodão, parte importante de nosso corpus de análise. No que se refere

à obra, podemos observar que todas as características essenciais da produção

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artística do dramaturgo se encontram desenvolvidas como uma das muitas respostas possíveis aos experimentos das neovanguardas dos anos 70 e 80 acerca dos apontamentos de Lehman sobre o teatro pós-dramático.

4.3NA SOLIDÃO DOS CAMPOS DE ALGODÃO

O título da obra Na solidão dos campos de algodão de Bernard-Marie Kòltes, segundo uma explicação do próprio dramaturgo, é uma metáfora aos algodoais do Mississipi nos Estados Unidos para onde os negros eram levados para trabalhar como escravos e lá ficavam uns ao lado dos outros sem poderem conversar, estando coletivamente solitários em seu trabalho diário.

A peça trabalha a partir da complementariedade entre procedimentos advindos do teatro épico e procedimentos advindos do teatro dramático de modo que os personagens ora narram o acontecido, ora evidenciam a constituição psicológica de uma personagem imbuída de uma lógica dramática.

O mote principal da obra é o encontro entre duas personagens sem nome próprio e que são denominadas alegoricamente como Dealer, em que na única rubrica existente do texto é categorizado como uma transação comercial baseada

em valores proibidos, e a outra personagem como o Cliente, transeunte que anda

pela cidade em busca de algo, ou seja, as personagens adquirem valores arquetípicos facilmente reconhecidos pelo sistema capitalista. Portanto, podemos observar que a peça trata sobre uma transação comercial entre um comerciante e um cliente e, por meio dessa transação, reconheceremos aquilo que as personagens podem trazer de mais humano em suas essências. De acordo com Fernandes (2001, p.74)

É interessante observar como em suas peças a circulação da palavra auxilia a construção de estratégias espaciais complexas. Na solidão dos campos de algodão é uma “trans-ação” entre traficante e cliente onde o jogo de ataque e defesa é projetado através dos movimentos do diálogo. Sem utilizar uma única rubrica, Koltès consegue sugerir a imobilidade do primeiro e a movimentação do segundo através de um “motim verbal” que se desdobra no ritmo preciso das falas e nas passagens bruscas do discurso altamente retórico à linguagem cotidiana. O movimento do traficante em direção ao cliente e o recuo deste, na tentativa dúbia de negar e afirmar a intenção de compra acabam projetando territórios de ação.

Portanto, não há um tema pré-existente para a peça, o que existe é o que se constrói no momento da enunciação, por isso as personagens estão ao longo de suas falas negociando, sem que haja um produto claro a ser negociado, elas negociam o desejo de estar diante de um outro que também está em plena solidão.

A relação que se estabelece entre os dois vem da imanência dialética do discurso das personagens e não do objetivo do que será conseguido ao final deste encontro. Assim como não há uma delimitação clara de um cenário instituído pelo autor, a construção dessa cena imaginária é discursiva, feita pela enunciação dos atores no quadro cênico. O texto falado na obra tem a característica de grandes monólogos entrecortados em que as personagens tendem a expor mais aquilo que sentem do que de fato ouvem o que o outro tem a dizer, por consequência a audiência que presencia tal verborragia é conduzida epicamente entre a narração e o mundo subjetivo e solitário dessas personagens, Michel Vinaver (apud FERNANDES, 2001, p.74-75) observa que a obra

tem qualidade postiça e retórica, acentuada pela falta de ligação entre pergunta e resposta. Na verdade, as réplicas infladas são longos monólogos em que cada interlocutor fala até perder o fôlego, sem que nunca se tenha certeza a quem se dirige. Em lugar de responder, o antagonista geralmente retoma sua fala anterior, compondo um movimento musical de repetição/variação.

Por fim, a obra Na solidão dos campos de algodão não pretende ter um fio condutor narrativo linear, por isso não há episódios ou ações que constituem uma história a ser contada, mas sim é uma obra sobre o encontro metafísico de duas instâncias alegóricas de poder, presentes na sociedade, que evidenciam o esfacelamento desse homem contemporâneo, solitário e que é reconhecido majoritária e socialmente pelo seu poder de compra e de negociação.