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As vítimas de violência nas relações íntimas estão expostas a vários tipos de abuso e à ameaça do mesmo, tal como a desaprovação, crítica e isolamento, que poderão levar ao surgimento de psicopatologia como medo de aproximação a outras pessoas, restrição de afetos, inibição de expressão, tal como hipervigilância e desconfiança, utilizadas como estratégia de autodefesa (Torres, 2013).

Os resultados do estudo de Pico-Alfonso e colaboradores (2006) indicaram que o principal fator para predizer a sintomatologia psicopatológica era a experiência atual de violência. No entanto, também se pode observar o surgimento de psicopatologia consequente do abuso sofrido no passado. Cerulli, Poleshuck, Raimondi, Veale e Chin (2012) observaram que em muitas situações de violência o abuso já havia cessado, no entanto o ofensor procurava continuar a traumatizar a vítima através da regulação das responsabilidades parentais, processos litigiosos e outros aspetos. Outros autores (e.g., Anderson & Saunders, 2003; Ruiz-Pérez & Plazaola-Castaño, 2005; Temple, Weston, & Marshall, 2010) também observaram que a saúde mental das vítimas não melhorava quando terminavam a relação, considerando-se os efeitos de longa duração.

No que concerne à associação entre a violência nas relações íntimas e sintomatologia psicopatológica, as participantes que reportaram sofrer violência psicológica demonstraram sintomas depressivos (Al-Modallal, 2012; Coker et al., 2002; Meekers, Pallin, & Hutchinson, 2002), desenvolvimento de perturbação mental crónica (Coker et al., 2002); ansiedade (Al- Modallal, 2012; Meekers et al., 2002) e baixa autoestima (Al-Modallal, 2012; Taft et al., 2006). Coker e colaboradores (2002), também como Taft e colegas (2006), observaram que a

vitimação de violência psicológica estava mais associada ao desajustamento psicológico do que a de violência física.

Quanto à violência física, Meekers e colaboradores (2002) observaram um maior desenvolvimento de sintomas de depressão e ansiedade, tal como de perturbações psicóticas, comparativamente aos outros tipos de comportamento violento. No entanto, afirmaram que as participantes que relataram sofrer de violência psicológica demonstraram problemas de saúde mental semelhantes. Por sua vez, Scott e Babcock (2010) indicaram como consequência de atos violentos físicos os sintomas de stress pós-traumático.

Quanto à violência sexual, indicou-se uma maior probabilidade de desenvolvimento de perturbações mentais (Meekers et al., 2002), nomeadamente quando coexistente com lesão física (Senlet, 2012) e com outros tipos de comportamentos violentos, originando um efeito acumulativo (Ruiz-Pérez & Plazaola-Castaño, 2005).

No que concerne ao impacto da severidade e frequência da violência, estudos com populações normativas demonstraram que quanto mais elevadas fossem estas caraterísticas, maiores seriam os índices de sintomas de stress pós-traumático (Temple, 2010) e maior seria a probabilidade em se possuir uma perturbação depressiva (Hegarty, Gunn, Chondros, & Small, 2004). Os resultados do estudo de Torres e colaboradores (2013) indicaram que a severidade da violência nas relações íntimas era mais preditiva do distúrbio psicológico do que a duração da mesma violência.

Quanto ao tipo de sintomatologia demonstrado em amostras constituídas somente por vítimas de violência nas relações íntimas, alguns estudos observaram que a violência sofrida pelas participantes estava significativamente associada ao surgimento de sintomas depressivos e ao desenvolvimento da perturbação de stress pós-traumático (Buesa & Calvete, 2013; Mechanic et al., 2008).

No que concerne somente a sintomatologia depressiva, Beck e colaboradores (2010) observaram um maior impacto da mesma, comparativamente às perturbações de stress pós- traumático e ansiedade generalizada. Os sintomas predominantes consistiam no interesse reduzido nas atividades quotidianas, baixo nível de energia ou fadiga, sentimentos de inutilidade, falta de esperança perante o futuro e ideações suicidas. No estudo de Pigeon e colaboradores (2011) verificou-se que as vítimas de violência nas relações íntimas possuiam um índice elevado de insónias e pesadelos.

Relativamente aos tipos de violência, Mechanic e colaboradores (2008) observaram que o abuso psicológico contribuia independentemente para a depressão, depois de se controlar a violência física e lesões. Os autores sugerem que a humilhação e o comportamento de degradação da vítima podem influenciar a depressão pelo efeito de erosão da autoestima. Quanto a estudos comparativos entre vítimas de violência nas relações íntimas e não vítimas, Temple e colaboradores (2010), tal como Ruiz-Pérez e Plazaole-Castaño (2005), observaram que o primeiro grupo reportava pior saúde mental do que o segundo.

Blasco-Ros e colaboradores (2010) observaram que as mulheres vítimas de violência psicológica e física demonstravam ideação e tentativas suicidas, sintomatologia depressiva, ansiosa e traumática mais severa do que mulheres não vítimas. Pico-Alfonso e colaboradores (2006) também verificaram o mesmo tipo de sintomatologia nas vítimas, no entanto observaram que a violência psicológica efetuava uma maior contribuição em detrimento da física. A perturbação de stress pós-traumático revelou-se ser quase inexistente, com a maior parte dos casos a apresentar comorbilidade com sintomas depressivos, acrescentando-se que as vítimas possuíam mais 35% de probabilidade de cometerem tentativas de suicídio do que as não vítimas. Os investigadores não obtiveram diferenças significativas entre a violência física/psicológica e a física. A violência sexual não se apresentou como um preditor independente, no entanto a coexistência dos vários tipos de comportamento violento

aumentava a severidade dos sintomas depressivos.

No contexto português, as vítimas apresentavam índices mais elevados de automutilação, tentativas de suicídio, pânico, ideias delirantes de ruína, alucinações auditivas e visuais, fobias e medos excessivos. Da sintomatologia apresentada, comparativamente à população normativa, destacaram-se a falta de esperança e o sentimento de solidão (Lisboa et al., 2005).

É possível observar-se uma predominância de estudos, quer efetuados com amostras normativas ou forenses, que identificaram a depressão como a perturbação psicopatológica mais comum nas pessoas que sofriam de violência nas relações íntimas (Al-Modallal, 2012; Beck et al., 2010; Buesa & Calvete, 2013; Coker et al., 2002; Mechanic et al., 2008; Meekers et al., 2002), observando que entre vítimas e não vítimas, o primeiro grupo demonstrava indicadores mais elevados de sintomatologia e psicopatologia (Blasco-Ros et al., 2010; Lisboa et al., 2010; Ruiz-Pérez & Plazaole-Castaño, 2005; Temple et al., 2010).

Menciona-se que vários estudos indicam também a violência psicológica como o maior contribuidor para o aumento da sintomatologia psicopatológica (Coker et al., 2002; Mechanic et al., 2008; Pico-Alfonso et al., 2006; Taft et al., 2006).