O fundador da Sonho Meu teve uma história pessoal e profissional de constante luta como vimos ao destacar sua visão de mundo empresarial. Embora fale com orgulho de seu início profissional na indústria cerâmica, não planejou ser um empresário da porcelana, vendo essa situação como um acaso. O “sócio do escritório foi quem comprou uma cerâmica, na época em Valinhos e não conseguiu tocar e me convidou para ser sócio dessa empresa (Empresa A) em 1986”, disse o Fundador.
Mesmo entrando na sociedade de uma empresa adquirida após anos de sua fundação, consideramos o empresário, dono da Sonho Meu como fundador, porque ao assumir, ele recomeçou as atividades empresariais em um novo contexto. Ele disse que,
[...] no primeiro dia que eu cheguei lá, o dono do imóvel pediu o imóvel porque fazia 12 meses que não pagava o aluguel... Eu pedi pra ele 60 dias de prazo para construir um galpão num terreno que eu tinha, pra tirar a indústria (de lá) e ele me deu.
O recomeço é marcado pela construção do barracão na cidade de Pedreira/SP e aquisição da parte do sócio: “fui pra esse local, acabei comprando a parte do sócio e comecei na cerâmica nesse período”, contou o Fundador.
Esse novo barracão ficava em um bairro misto, próximo a várias residências e a outras empresas de porcelana concorrentes. Já em 1987, foram contratados três funcionários da cidade que tinham experiência e, com os equipamentos adquiridos da antiga indústria cerâmica de Valinhos-SP, a Sonho Meu começou fazendo peças cerâmicas pelo processo de colagem de barbotina. Essas peças eram adornos utilizados como objetos de decoração, feitos pela composição de faianças15, conhecidos também como bibelôs.
O Fundador comentou que, mesmo com suas experiências anteriores, era uma situação completamente nova, porque “na [grande indústria cerâmica] eu era só um funcionário, recebia a massa pronta, fabricava as peças e mandava para outro setor”. Já experiência como empresário revelou que “a indústria não é só você fabricar, é ter toda uma equipe trabalhando, porque se não tiver ninguém produzindo não tem como vender, nós somos uma engrenagem e
15
A faiança é feita com a mesma matéria-prima da porcelana, mas em diferente composição. São produtos com maior porosidade e, em sua maioria, adornos, porque com o tempo abrem-se gretas onde se acumulam fungos e bactérias, inviabilizando sua utilização para louça de mesa.
não pode faltar nenhum dente”. Por isso, apreendemos nesse período inicial o VRCO ‘enfrentamento de desafios’ presente nas relações entre stakeholders da Sonho Meu.
Além disso, no período em que a Sonho Meu foi fundada, o país passava por crises econômicas e alta inflação. Em 1986, Sarney anunciou o plano Cruzado baseado no congelamento geral de preços, que conteve a inflação artificialmente, mas produziu desabastecimento. Com os produtos em falta, o comércio passou a cobrar ágio e a inflação voltou. Em 1989, atingiu 1.973% ao ano e, na tentativa do plano Verão, a moeda passou ao cruzado novo, que não resolveu tampouco. O recorde mensal foi batido em março de 1990, já no governo Collor, quando a taxa alcançou 82% e a moeda mudou novamente, agora para Cruzeiro. Preços e salários eram reajustados, automaticamente, assim que se divulgava a inflação do mês anterior (VEJA, 2008).
Nesse cenário, lembrou o Fundador: “chegava todo dia de manhã e mudava a tabela de preços [...] era comum entrar no supermercado e escutar as maquininhas remarcando preços”. Com normalidade continuou: “passou... sei lá, tínhamos que sobreviver [...] Como sobrevivemos à inflação? Não sei, mas sobrevivemos, estamos aqui”. Tentando explicar, esclareceu que chegou a “pegar nessa trajetória de indústria inflação de 85% num mês, na época do nosso querido Sarney né? Então na realidade a gente sobreviveu durante esses períodos baseado nos jogos de cintura”.
Já contador e advogado e com certa experiência no escritório, o Fundador realizava sozinho as atividades administrativas que eram necessárias à empresa: “quem fazia minha contabilidade era eu, eu quem assinava, fazia tudo aqui, na época tirávamos notas ainda com... fazia na máquina de escrever”. Por demonstrar autoconfiança em seu conhecimento específico adquirido com a formação acadêmica e seu exercício, apreendemos, desde então, o VRCO que chamamos de ‘conhecimento especializado do fundador’.
O funcionário pW, um dos mais antigos, também comentou do conhecimento do fundador ao falar que “o sucesso da empresa é o patrão, sabe por quê? Porque você vai nesse ramo de negócio da porcelana, a pessoa (fundador) tem que papo, empatia, inteligência”. Completa ainda que “ele é batalhador, é bom pra vender, não sei como que é, mas a chave do sucesso é ele”.
Vez ou outra, junto com os funcionários, o Fundador fazia, ainda, o que era preciso na produção: “a empresa era pequena, a gente não tinha função definida, se fosse preciso
fabricava as peças, os moldes de gesso, carregava forno, embalava, às vezes, até pintava”, contou-nos revelando a estrutura administrativa e operacional enxuta que tinha à época. Inicialmente, as peças eram vendidas na fábrica para comerciantes que iam a Pedreira/SP estimulados pela concentração de empresas de porcelana que lá existiam, pois, ainda, não existia nenhum centro comercial ou lojas de produtos de porcelana na cidade.
Nesse período, o Fundador conheceu um senhor de São Paulo, vendedor autônomo, que levou os produtos fabricados pela Sonho Meu às grandes redes, iniciando as vendas para uma grande rede varejista. Em pouco tempo, esse vendedor o convidou para acompanhar suas atividades, porque “ele já era uma senhor de idade e ele falou ‘gostaria que você aprendesse, porque meus filhos não querem seguir a área de vendas e quando eu for embora você já vai saber quem são os clientes’ e ele faleceu quatro ou cinco anos depois”, disse o Fundador, que assim, aprendeu a vender.
Em 1991, conheceu outro vendedor, que foi o responsável por fazer o contato e iniciar as negociações com uma grande empresa de catálogo16. Essa empresa vendia dentre muitos produtos, os bibelôs feitos em porcelana em todo o território nacional. Ainda nos primeiros pedidos, o vendedor precisou fazer uma cirurgia e veio a falecer também. Por esse motivo o Fundador comentou que, “quem começou a trabalhar com venda fui eu, comecei a atender a [empresa de catálogo], que foi comprando e colocando cada vez mais produtos na linha”. Por se tratar de uma época distante, não tivemos a oportunidade de detalhar algumas interações. No entanto, entendemos que esse período inicial é marcado pela abertura às situações convenientes para o desenvolvimento da organização, principalmente pela relação com os vendedores autônomos e, consequentemente, grandes empresas como cliente. Além disso, havia grande informalidade nos relacionamentos e, consequentemente, nos procedimentos, não havendo registros administrativos. Assim, apreendemos no período I quatro valores relativos à competição organizacional (Quadro 5) intimamente relacionados à visão de mundo do fundador e que podem manter-se ou não “dependendo das práticas e ações exercidas pelos membros da organização ao longo dos demais períodos de sua existência” (DOMENICO, 2007).
16 Empresa de catálogo é aquela que comercializa produtos expostos em catálogos pela venda direta representada
Quadro 5 – Valores relativos à competição organizacional - até período I
Enfrentamento de desafios
Conhecimento especializado do fundador Abertura a oportunidades
Informalidade nos procedimentos
Fonte: Elaborado pela autora