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8 Natural modes of vibration

A obra mais representativa de Bronislaw Malinowski é Uma teoria científica da cultura, publicada em 1944, dois anos após a sua morte. Para o antropólogo, o funcionalismo “preocupa-se com a clara compreensão da natureza dos fenômenos culturais, antes que esses sejam submetidos a manipulações especulativas posteriores” (MALINOWSKI, 19869, p. 170). Para tratar dessa “natureza” ou “realidade cultural” o cientista polonês se remete a fenômenos culturais como, por exemplo, o casamento, um sistema político, um empreendimento econômico e questiona se há um esquema universal que se possa aplicar a todas as culturas humanas, no intuito de se realizar um estudo comparativo entre elas. Dessa maneira, notamos que os pressupostos e fundamentos de sua teoria, são o estudo do binômio “natureza humana” e “cultura”.

Nesse aspecto é citado E. B. Tylor, que em sua grande obra, Primitive Culture, investiga, entre tantas outras questões, o que é religião e assume chegar a “uma definição mínima” sobre o tema. Malinowski considera Tylor um funcionalista genuíno, apontando que a cultura pode ser melhor compreendida a partir de cinco definições, a saber:

A) A cultura é, essencialmente, um aparato instrumental; através dela o homem é colocado em posição de melhor tratar os problemas concretos específicos que enfrenta em seu ambiente, no decurso da satisfação de suas necessidades. B) É um sistema de objetos, atividades, no qual cada uma das partes existe como um meio para um fim. C) É uma totalidade, em que os diversos elementos são interdependentes. D) Tais atividades, atitudes e objetos estão organizados em torno de tarefas importantes e vitais, em instituições como a família, o clã, a comunidade local, a tribo e as equipes organizadas de atividades políticas, legais, educacionais e de cooperação econômica. E) Do ponto de vista dinâmico, isto é, com relação ao tipo de atividade, a cultura pode ser analisada sob diversos aspectos, tais como educação, controle social, economia, sistemas de conhecimento, crença e moral e, também, modos de expressão criativa e artística. (MALINOWSKI, 1986, p. 171, 172).

O processo cultural, para o antropólogo, está sempre permeado por relações humanas organizadas, em que estes grupos “manipulam artefatos, comunicam-se entre si pela linguagem ou por algum outro tipo de simbolismo” (MALINOWSKI, 1986, p. 172). Nesse caso, Malinowski destaca as três dimensões do processo cultural que são os artefatos, os grupos organizados e o simbolismo. A relação que se dá entre esses três componentes do processo cultural reside na ideia de que os artefatos são bens de consumo que têm como função o uso, a destruição ou a manipulação (por um homem ou por um grupo) como ocorre

com ferramentas – de acordo com o caso. O autor chama a atenção para os grupos organizados, visto que os itens da cultura material não se podem entender por referência a um único indivíduo, mas como referência a um grupo onde haja cooperação e continuidade de alguma tradição. A última das dimensões se refere ao simbolismo e sua relação com o desenvolvimento de atos convencionais que coordenam o comportamento humano. Nesse âmbito, Malinowski sublinha que a relação entre forma e função é “definitivamente artificial ou convencional” (MALINOWSKI, 1986, p. 174). O símbolo é, pois, o estímulo condicionado que se liga a uma resposta no comportamento humano, através do condicionamento.

Entendemos, dessa maneira, que Malinowski parte da seguinte conjectura para se referir à natureza humana: “Por natureza humana entendemos o determinismo biológico que se impõe a toda e qualquer civilização e a todos os indivíduos, à relação de funções corporais tais como respirar, dormir, descansar, alimentar-se, excretar e reproduzir-se.” (1970, p.76).

Em associação e como complemento ao conceito de natureza humana, a cultura poderia assumir variadas formas, tal como já expusemos. Nesse aspecto, é importante citarmos outra definição sua acerca do termo cultura: “o todo integral constituído por implementos e bens de consumo, (...) por crenças e costumes.” (1970, p.76). De certa maneira, unindo-se o binômio “natureza humana” e “cultura”, percebe-se que esta é um mundo criado pelo homem como extensão de seu próprio mundo natural, na busca pela satisfação de suas necessidades. Notamos aqui uma complementação à ideia antes mencionada de cultura.

Malinowski trata a “instituição” como unidade básica em sua teoria funcionalista e a considera constituída pelos seguintes elementos: estatuto pessoal, normas, atividades e função. O antropólogo elenca os principais tipos de instituições para os quais também define um princípio de integração: a família (reprodutivo); a aldeia, vizinhança (territorial); os grupos etários, os grupos de gênero (fisiológico), as sociedades voluntárias (associativo), as escolas e empresas (ocupacional, funcional), o clero (posicional).

Assim, para o ele, a definição de cultura no que se refere às instituições, é

um amálgama global de instituições em parte autônomas, em parte coordenadas (...) que se integra numa série de princípios tais como a comunhão de sangue por meio da procriação, a contiguidade em espaço relacionada com a cooperação, a especialização em atividades (...) o uso do poder na organização política (MALINOWSKI, 1970, p.47, grifos nossos).

A partir da definição acima, notamos que a função da linguagem ocorre – ainda que não tenha sido explicitada – no desenvolvimento da “série de princípios” que Malinowski (1970) aponta como integradores do termo propriamente dito. O autor aponta como “princípios” atos como a procriação, o fato de se viver em cooperação, a necessidade de o ser humano se especializar em atividades, bem como o uso do poder na organização política, elementos estes que, entendemos, são possíveis por meio do uso da linguagem como canal comum, visto que, conforme já citamos, o antropólogo preocupa-se com o uso da linguagem ou com outro tipo de simbolismo que permeie as relações humanas no processo cultural.

Outro aspecto que merece atenção no texto de Malinowski refere-se ao “uso do poder na organização política”. Entendemos por “organização política”, o modo de agir de uma pessoa em sua sociedade que, de acordo com a análise funcional apresentada pelo antropólogo, engloba cada costume, objeto, material, ideia ou crença que preenche uma função vital qualquer. Assim, é importante observarmos sua preocupação com “o uso do poder” e sua decorrência na definição de cultura, bem como o fato de esse aspecto ser retomado praticamente cinquenta anos depois por Thompson (1990), em crítica aos estudos de Geertz, segundo o qual, este não se preocupou em tratar dos problemas de conflito social e de poder no tocante à cultura. Comentaremos, a seguir, abordagem semiótica de Geertz, para depois continuarmos com a concepção de cultura de Thompson.