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Além de ser um dos principais tradutores da língua inglesa no contexto editorial brasileiro, Paulo Fernando Henriques Britto é poeta, contista, ensaísta e professor de tradução, criação literária e literatura brasileira na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Britto nasceu na capital carioca em 1951, é formado em Letras com habilitação em português e em inglês e possui mestrado em língua portuguesa. Recebeu da PUC-Rio o título de Notório Saber em 2002. Morou nos Estados Unidos em dois períodos diferentes, tendo estudado cinema em São Francisco em um deles. Já traduziu mais de cem livros e também verteu algumas obras de autores brasileiros para o inglês. Como tradutor, recebeu o Prêmio Paulo Rónai de Tradução de Autores Estrangeiros para o Português da Fundação Biblioteca Nacional, em 1995, pelo livro A mecânica das águas de E. L. Doctorow12 e foi classificado em segundo lugar no Prêmio Jabuti para tradução em 201313. É autor de seis livros de poesias, um volume sobre a música de Sérgio Sampaio e um livro de contos. Como autor, recebeu o Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira pelo livro Trovar claro, de 1997; o Prêmio Alphonsus de Guimarães da Fundação Biblioteca Nacional e o Prêmio Alceu Amoroso

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Disponível em: http://www.companhiadasletras.com.br/autor.php?codigo=00061. Acesso: 18/10/2014.

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Lima de Poesia14, ambos pelo volume de poesias Macau, de 2004. Em entrevista, por ocasião de sua visita a Berlim como convidado do Instituto Ibero-Americano, Britto declarou a uma revista cultural berlinense que sua verdadeira paixão sempre foi a música; no entanto, devido à falta de talento musical, passou a se dedicar ao que considerou estar mais próximo da música: a poesia, trabalhando com muita atenção o ritmo e a métrica.15 Ao falar sobre sua poesia, Britto diz que seu objetivo é sempre fazer diferente; seu desafio é inventar novas formas e quebrar a rotina. Sua opinião sobre o trabalho de um tradutor inclui, até certo ponto, essa postura quando Britto afirma, em um posicionamento crítico e pessoal, em uma resenha publicada pelos Cadernos de

Tradução: “[...] os tradutores são os culpados se não possuem o mesmo status dos

autores, sua atitude autodepreciativa é parcialmente responsável pela mitificação do

„original‟”.16

Nessa mesma resenha, Britto questiona a recomendação dada pelo autor, Clifford Landers, para que tradutores tenham humildade e discorda da afirmação de que tradutores não possuem estilo próprio, desaparecendo no texto. Em entrevista a Mauri Furlan e Walter Carlos Costa, Britto fala também sobre a noção de transparência do tradutor:

Minha posição pessoal é moderada, um pouco mais para o conservador. Acho interessantes as questões que estão sendo levantadas pelos teóricos radicais, mas tendo a discordar das conclusões que eles tiram. Um bom exemplo disso é a questão da transparência do tradutor: tendo travado conhecimento com todos os questionamentos que estão sendo feitos ao conceito de transparência, concordo que, de fato, o tradutor jamais pode ser transparente,

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Disponível em: http://www.phbritto.org/p/biografia.html. Acesso: 18/10/2014.

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Disponível em: http://www.berlinda.org/pt/reportagens/leituras/paulo-henriques-britto-a-criatividade- nao-se-ensina/. Acesso: 18/10/2014.

16Minha tradução para: “(…) translators are themselves to blame if they are not given equalfooting status with authors; their self-deprecating attitude is partly responsible for the mythification of the „original,

(…)‟. LANDERS, C. E. Literary Translation: a practical guide. Clevedon, Inglaterra: Multilingual

Matters, 2001. Resenha de: BRITTO, P. H. Cadernos da Tradução. Florianópolis: Editora da UFSC, V. 2, No. 8, 2001, p. 258-261.

que sua tradução sempre conterá marcas pessoais suas, que a postura de transparência pode até contribuir para a desvalorização do seu trabalho no mercado. No entanto, continuo achando que a minha meta, ao traduzir um texto literário, não pode ser outra que não tentar reproduzir no meu idioma, dentro das minhas possibilidades, os efeitos textuais do original. Ou seja: continuo querendo ser transparente, ainda que não tenha ilusões sobre a possibilidade de uma transparência absoluta.17

Sobre a influência da língua-fonte, no sentido de interferir, contribuir ou promover mudanças no português brasileiro, Britto acrescenta:

A tradução sempre amplia e renova a língua de chegada, introduzindo nela no mínimo um léxico novo, mas também inovações formais, prosódicas, até mesmo sintáticas. O ideal é que estas contribuições sejam oportunas e criativas, e não redundantes e ditadas pela mera preguiça do tradutor.18

Em seu livro A tradução literária, Britto aborda a tradução de ficção a partir do contraponto entre os conceitos de estrangeirização e domesticação. Para ele, o tradutor literário contemporâneo precisa se perguntar até que ponto seria possível reproduzir as características do texto-fonte na língua-alvo, considerando as especificidades e as limitações dessa língua. Nesse ponto, Britto destaca um princípio enunciado por Meschonnic sobre traduzir o marcado pelo marcado e o não marcado pelo não marcado. Os conceitos de marcado e não marcado para Britto, nesse contexto, vêm de Roman

Jakobson e são redefinidos logo em seguida como “desviante” e “padrão”19

. O que Britto defende com isso é que todos aqueles elementos que o leitor do texto-fonte consideraria típicos devem corresponder, no texto traduzido, a elementos vistos da

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BRITTO, P. H. Depoimento [V. 1, No. 2, 1997, p. 467-495]. Florianópolis: Cadernos da Tradução. Entrevista concedida a Mauri Furlan e Walter Carlos Costa.

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BRITTO, P. H. Depoimento [V. 1, No. 2, 1997, p. 467-495]. Florianópolis: Cadernos da Tradução. Entrevista concedida a Mauri Furlan e Walter Carlos Costa.

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No território do estilo da tradução, Munday (2008), baseado em Hatim e Mason (1990, 1997), usa o conceito de marcado e de não marcado via Teoria Sistêmico-Funcional. Na definição de Hatim e Mason (1997), o que Britto chama de padrão é o uso “estático” da linguagem, que corresponde às expectativas das normas linguísticas e das convenções culturais, sem desafiá-las. Da mesma forma, o que Britto chama de desviante, para Hatim e Mason (1997), é o uso “dinâmico” da linguagem, que rompe com as expectativas das normas e convenções, desafiando-as.

mesma forma pelos leitores da língua-alvo. De outra forma, quando o autor do texto-

fonte emprega um recurso “desviante”, causador de algum tipo de estranheza em seu

leitor, o tradutor precisa encontrar alguma maneira de suscitar no leitor nativo da língua de chegada o mesmo estranhamento, nem mais, nem menos. Britto finaliza sua explicação sobre esse tópico, antes de fornecer exemplos, com a seguinte afirmação:

“Não cabe ao tradutor criar estranhezas onde tudo é familiar, tampouco simplificar e

normalizar o que, no original, nada tem de simples ou de convencional”.20

Britto demonstra em toda a sua obra, traduzida e não traduzida, profundo conhecimento das duas línguas com que trabalha e consciência sobre o ato de traduzir. A visão que ele tem do trabalho do tradutor, conforme se pode perceber nos excertos reproduzidos anteriormente, dialoga com diferentes percepções de equivalência. Além disso, ele admite a existência de criatividade por parte do tradutor, mas limita essa criatividade em função do impacto causado pelo texto-fonte no leitor da língua-fonte. É relevante ressaltar, entretanto, que as escolhas do tradutor podem ser conscientes ou subconscientes. Assim, a análise sistemática do corpus de estudo compilado para esta pesquisa de doutorado pode fornecer indícios que comprovem ou refutem as percepções de Britto em relação ao seu próprio trabalho.