Depois de apresentar os dados do questionário, registrar-se-á nesta seção as percepções de dez alunos ouvidos com a utilização da técnica de grupo focal. Foram trinta minutos de conversa com os alunos representantes da amostra de 201 pesquisados.
No início, os entrevistados se mostraram um pouco tímidos, mas por pouco tempo, até a discussão das temáticas começarem a fluir. Um dos entrevistados participou com mais freqüência e suas colocações eram de grande pertinência. Foi perguntado o que ela fazia e a pessoa disse que lecionava na primeira fase do ensino fundamental. Os(as) outros(as)
entrevistados participaram, também, de forma satisfatória. Eram seis mulheres e quatro homens e todos, sem exceção, expuseram seu ponto de vista sobre as questões apresentadas.
A princípio foi apresentado o objetivo da pesquisa que era o de identificar o perfil do aluno que está adentrando as IES privadas, no que tange à questão do letramento. Explicou- se, sucinta e rapidamente, o conceito desta palavra. Foi dito que, embora não tivesse sido, ainda, incorporada ao nosso léxico, hoje é um termo que representa algo muito em voga na educação brasileira.
A seguir, tem-se o relato, na íntegra, de algumas passagens da fala dos entrevistados e as impressões analíticas sobre elas.
Quando foi perguntado, para início da entrevista, como eles viam essa questão da relação que tinham com a leitura e com a escrita, foram obtidas algumas colocações comuns, embora outras mais específicas. 1-“Em questão da leitura eu me considero muito bem, eu
gosto muito de ler, adoro ler, mas escrever é uma coisa que não me atrai muito não!” 2- “Assim.. Até tenho idéias boas, mas na hora de desenvolver, na hora de colocar no papel eu acho que não fica legal. Ler não (...), se a senhora chegar aqui com uma montanha de livros e me der pra eu ler, eu leio com o maior prazer, interpreto legal, entendeu? Faço pontuação, tudo direitinho. Mas na hora de escrever, colocar no papel... Eu acho que isso é uma deficiência lá do (...) primeiro grau, segundo grau, exatamente. Eu acho que eu não fui bem aproveitada, bem cobrado, então... hoje eu tenho essa dificuldade. Ler não, pra mim é uma maravilha, mas escrever...”
Embora, nessa questão, outros entrevistados tenham concordado, mesmo que em termos, com essas duas pessoas, é relevante abordar, mais especificamente, essas duas falas, porque foram pessoas que admitiram, explicitamente, gostar de ler, mas não de escrever. Essa é uma questão que Vieira (2003) fundamenta com muita clareza, quando afirma que as práticas de letramento estão presentes nas atividades sociais de escrita e referem-se às práticas sócio-culturais que influenciam o discurso escrito. Dessa forma, o letramento no ensino das áreas, em geral, principalmente no ensino da língua portuguesa, necessita ser analisado como um amplo discurso, vez que abriga variados eventos discursivos. Em cada área, há muito o que propor para o aluno, atividades que envolvam, conjugadamente, a leitura e escrita. Somente o exercício da leitura “desembocando” na escrita será capaz de transformar as limitações de pensamento e reprodução desse pensamento em habilidade de argumentação. Demo (2005) defende que
O aluno precisa estar sempre escrevendo, pesquisando, elaborando, produzindo conhecimento com mão própria, durante o período de aula, já que dificilmente iria estudar depois. A possibilidade de estudar
depois não precisa ser descartada mecanicamente, porque existem alunos que, apesar da dureza de suas vidas, querem estudar para além do tempo de aula. Esses alunos, em particular, merecem toda dedicação dos professores. (...) argumentar é “fundamentar”; significa aduzir razões plausíveis, bem formuladas e amarradas, de tal sorte que se espera do outro não crença, mas discernimento; (...) argumentar é “compreender e implica, como primeira fase indispensável, a desconstrução (...) implica a arte de interpretar, não ao léu, dizendo o que vem à cabeça, mas com base, dizendo apenas aquilo para o que temos base; ao elaborar, percebemos melhor se o que vai ao papel se sustenta, tem começo, meio e fim, revela raciocínio completo e amarrado. (DEMO, 2005, p.108)
Na próxima fala, constata-se que a pessoa entrevistada enfoca o aspecto da “cobrança”. Embora se saiba que a base familiar não signifique, apenas e necessariamente, a família “cobrar” atitudes de ler e escrever, para a maioria dos entrevistados, se não foi estimulada (e aqui o termo usado foi ‘se não foi cobrada’) pela família ou pela educação básica, logo, é natural que ela apresente dificuldades. Galvão (2003) diz que é sabido que a “mobilização” familiar, que se expressa através da utilização de táticas e práticas cotidianas nem sempre visíveis e explícitas, desempenha um papel fundamental. Um(a) dos(as) entrevistados disse: 3-“No meu caso, eu acho que faltou, assim a prioridade, o crucial , a
base familiar, a família dá base pra criança, ne?! Pra daí vir a ser um estudante, um aluno (...) um hábito mesmo ...” Outros(as) reforçam: 4-“No meu caso, não tive essa cobrança, em relação tanto à leitura e escrita quanto qualquer outro trabalho em relação à escola. Sempre fiz os trabalhos direitinho (...), com esse passar do tempo, sem essa cobrança, sem esse estimulo à leitura, hoje eu não tenho muito hábito de ler, eu até gosto de ler, mas eu não leio muito não, mas quando eu pego pra ler entendo mas não consigo passar pro papel, a interpretação, até entendo tudo que está bonitinho, só que pra passar pro papel, eu tenho uma certa dificuldade, em relação à expressão (...) e se apresentar ao público, eu morro de vergonha, tô morrendo de vergonha só de falar aqui pra você, eu fico vermelha... (...)” 5-“no início eu não me cobrava muito essa questão de leitura, de escrita, então eu sempre tive muita dificuldade, tanto que hoje eu tenho melhorado, assim (...) pouco, mas eu tenho guardado do semestre passado, que o professor pediu pra fazer uma redação (...) como que mudou a minha redação, hoje! Hoje eu tenho melhorado, assim, digamos, uns 20%, eu sei que eu tenho que melhorar, que eu tenho que desenvolver a leitura, mas como eu não fui muito cobrado, meus pais também não cobraram muito, então eu deixei correr muito solto, então eu tenho uma dificuldade muito grande em leitura, interpretação em relação a isso. (...) eu gosto muito de leitura, mas, por exemplo, interpretar, por exemplo, o comando de
questões (...), eu tenho essa dificuldade, eu leio e entendo cada palavra, o que significa, mais juntar e saber o que ele está querendo eu tenho muita dificuldade nisso (...)
Nesta última fala, a pessoa entrevistada declara que a questão da cobrança não diz respeito apenas à família “eu não fui muito cobrado, minha família também não cobrou
muito”. Ou seja, primeiro, provavelmente, a escola não “cobrou”, a família também, que
poderia ter feito, não o fez. Essa impressão é ratificada por Galvão:
a família não é, pois, a única e principal mediadora entre o indivíduo e sua relação com a escrita. A escola, pelo menos nas últimas décadas e para grande parte da população brasileira, tem-se constituído na principal via de acesso à leitura e à escrita – embora essa afirmação não seja válida para as gerações mais velhas. (...) É fundamental, portanto, a discussão sobre as práticas de leitura e da escrita, em seus contextos de uso, no cotidiano da escola, tornando o relacionamento com o mundo escrito (a relação com o mundo escrito), principalmente para as crianças e adultos que provêm de famílias “improváveis”, marcada por uma maior naturalidade, intimidade e prazer. Ao lado da escola, diversas outras instâncias também contribuem para que as pessoas utilizem com maior freqüência e propriedade a leitura e a escrita: o trabalho, o sindicato, o partido, a igreja, a biblioteca do bairro, a associação, o clube... (GALVÃO, 2003, p.151)
Segundo os dados do INAF, entre as principais influências nesse processo de desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita, primeiro está a do professor (37%) seguido da mãe - ou responsável do sexo feminino - (36%), e do pai – ou responsável do sexo masculino – 24%. Mas 17% afirmam que ninguém influenciou o gosto pela leitura. São dados que reforçam a importância da escola e dos professores, bem como da mãe (ou responsável), na formação não só do gosto de ler mas também da proficiência como leitor.
Ainda quanto à passagem desta última fala, em que a pessoa entrevistada declara suas dificuldades no processo de compreensão da leitura, em uma visão mais ampla, sabe-se que ler significa, fundamentalmente, compreender o que foi lido. Apenas decodificar os grafemas não basta, é necessário que o leitor se situe no contexto e atribua significado à sua leitura. Quando um leitor atinge esse nível de compreensão é considerado fluente ou proficiente, desde que também sejam agregadas outras habilidades relevantes, tais como, a velocidade, a criticidade, a criatividade e a motivação. Indubitavelmente, vários fatores influenciaram no perfil dessa aluna. E é justamente por estar em um cenário em que encontrar vários casos de estudantes com esse perfil poderá ser uma situação prosaica, o professor deve tomar conhecimento de todo esse quadro, a fim de refletir melhor suas propostas de ações pedagógicas em sala de aula. Segundo Bagno ( abut Demo, 2004), na Universidade, fazemos de conta que repassamos conhecimento através de aulas, mantendo os alunos como
receptáculos mais ou menos passivos. Os alunos não comparecem para participar do processo de reconstrução do conhecimento, mas literalmente para escutar aulas, tomar nota, memorizar e regurgitar nas provas. No caso das IES privadas, “a pressão é ainda maior: muitos alunos dizem na cara do professor que é pago para dar aula e que o aluno quer aula e ser aprovado”, completa Bagno. Outra abordagem considerada de extrema relevância é a de Demo (2005):
do professor, esperam-se igualmente atitudes norteadas pela dinâmica de construção de conhecimento. (...) A aula reprodutiva esconde o trambique da fórmula pronta e impede saber pensar, porque já vem pensada, basta copiar e reproduzir na prova. Encurta os caminhos, porque, em vez de levar o aluno a ler, argumentar, elaborar, repassa extratos condensados, prontos para armazenar e transportar. Sobretudo quando se trata de jovens que estudam à noite. O que menos se poderia oferecer a estes jovens cansados, é aula, porque é amplamente inepta. Seria, de todos os modos, mais proveitoso ler com eles, elaborar com eles, discutir com eles, argumentar e contra-argumentar com eles. Isto talvez levassem para a vida. O resto perde-se no vazio, como se costuma dizer: formação é aquilo que resta, depois que se esqueceu tudo! (DEMO, 2005, p.85) O grande desafio, portanto, são professores que saibam transformar informação em formação, completa Demo. E para ilustrar que esse perfil de estudante com habilidade de transformar as informações recebidas do professor, concomitantemente com a leitura, e que quando o faz é porque sabe intervir e interferir com suas reflexões, análises e sínteses o pensamento discutido no processo de leitura, infelizmente, não é uma constante entre os entrevistados, outras falas que tratam dessa questão são transcritas: 6- “... o problema vem do
ensino médio, fundamental, que não cobrou muito da gente. E... O meu problema também é na hora de passar para o papel ...”7-“Na escrita também tem muitos erros, que eu sei que vem da leitura, não é? Pelo fato de eu ter algum problema com a leitura eu não escrevo muito bem. E é isso. Mas pelo fato de eu ser estudante de letras eu vou ter que correr atrás.”8 - “Bom no meu caso foi um pouco diferente dos colegas que falaram (...) eu saí do ensino do supletivo do ensino fundamental e do supletivo do ensino médio, então não fui trabalhado enquanto a leitura e o ato de escrever... entrei aqui na academia sem alicerce sem estrutura e o que eu faço agora? Correr atrás, ler livros, todos os livros que eu encontro pela frente eu leio.” 9 – Olha, eu tive professores bons. Mas acho que eles deviam incentivar mais a leitura, dar um jeito da gente gostar mais de ler. Deve ter um jeito pra isso, né, professora?
Outra questão levantada sobre a qual cabe uma reflexão mais acurada é um dos métodos de prática da leitura. Faz-se referência à leitura em voz alta. Vejamos o que declarou esta pessoa entrevistada: 9-“Eu sozinha lendo pra mim, eu dou conta, engraçado... se eu ler...
já... não é a mesma coisa.. Eu consigo entender, e por eu conseguir entender que eu sei que eu leio corretamente.”
Para Viana, em seu livro A arte da leitura, a leitura em voz alta é o necessário complemento da leitura mental. Para o autor, quem não sabe ler, em voz alta, não sabe verdadeiramente ler. Afirma ainda que quem não pratica, com método e freqüência, nunca pode falar corretamente, com boa pronúncia e entoação. Viana ainda coloca que são numerosas as circunstâncias em que o homem tem necessidade de pronunciar duas palavras ou de ler em voz alta qualquer documento mais ou menos importante. Se não treinar a leitura, terá de fazer inúmeras interrupções, necessitando de explicações. De fato, algumas experiências têm mostrado o quão facilitador é para o aluno ler o texto em voz alta com entonação adequada e ênfase, principalmente se se tratar de textos em verso.
Outra entrevistada também deu o seu depoimento sobre essa questão: 10-“percebo que
as pessoas hoje têm uma dificuldade com a leitura porque as pessoas também têm uma dificuldade de se expressar, principalmente de se expressar no falar, por exemplo, de passar que está triste, de passar que está alegre, de passar que está com problema. As pessoas hoje se envergonham de certas expressões (...) E eu acho que o grande pulo do gato é isso, os professores que trabalham com a área de leitura, dentro de uma faculdade, por exemplo, que é uma multiplicadora de conhecimento, eu acho que tem que começar a fazer um trabalho de leitura voltado pra isso, não só focado ao uso correto do português, o correto de... “ você tem que ler o livro tal, por que eu vou ter que cobrar a prova tal”, e também que tem que trabalhar a expressão do aluno, tem que ter...
Quando se indagou sobre as percepções que eles tinham dos colegas e deles mesmos com relação ao nível de letramento e como eles consideram a participação do professor nesse processo, obtiveram-se as seguintes respostas: 11 - O que eu pude observar, nos meus
colegas, o nível que eu pude observar dos colegas que eu conheço, com respeito ao letramento, é baixo, e aqui na faculdade temos pouquíssimos professores – eu diria – um ou outro que são ótimos, que tem ajudado a gente em relação à escrita, à fala, à leitura, enfim...” Percebe-se que os entrevistados reconhecem as deficiências no que tange às
habilidades de leitura dos colegas e deles mesmos, mas também consideram certa “displicência” por parte dos professores porque eles não se “empenham” em contribuir para que essa postura do aluno mude. Um deles até levantou um questionamento se era possível
que, em se fazendo alguma coisa pelo aluno, ele passaria a ler melhor ou a gostar de ler (fala
12). Outro acrescenta, inclusive usando o termo letramento, o que nos leva à inferência de que o uso desse termo é fato, no contexto acadêmico, embora não se tenha a garantia de que o
conceito deste termo seja bem assimilado. Diz a fala de número 13 - Com relação aos
colegas, eu concordo (...), também acho o nível de letramento baixo, quando entra na faculdade. Eu falo em caso de iniciante, primeiro ano. Então ... assim ... eu acho baixo ... não por eles não saberem ler, eu acho baixo pela falta de incentivo que ele tem à leitura, e pela falta de prática mesmo, de não ter o hábito. 14 – Na verdade, acho que os professores da faculdade são bons. Mas acho que eles deviam procurar outras formas mais eficientes de incentivar mais a leitura.
Outros estudantes entrevistados admitem esses fatos, não obstante vêem como uma situação que está sofrendo mudanças significativas. As duas falas a seguir ilustram esse ponto: 12 - Mas os professores têm tido, sim, uma participação boa de ajuda na leitura (...);
13 - Aqui na faculdade, eu vejo isso, tanto que o nosso nível de letramento de escrever, de ler, acho que tem aumentado (...) tem melhorado em processo acelerado, digamos assim... isso, tem melhorado, tem melhorado.
Um dos estudantes da graduação em Letras posicionou-se como algo primordial para quem escolheu esta área e afirma surpresa com algumas constatações. Vejamos o que declarou alguns entrevistados: 15 –“E no curso de letras, eu fiquei assustada quando eu
entrei no primeiro semestre e percebi a quantidade de gente que falou que não gostava de ler e não só nessa faculdade, a maioria das pessoas que eu conheço que faz letras, que entrou no curso de letras no primeiro semestre, não gostava de ler, e eu entrei no curso de letras ao contrário porque eu amo ler. 16 – E eu gostaria, eu quis me aperfeiçoar justamente na área de português, porque eu queria ser criteriosa com meus alunos, e como trabalhar isso na escola de uma forma que fosse prazerosa, que eu não tive essa forma prazerosa, como disse o (...) eu tive que correr atrás, é uma questão nata, como diz o (...) é autodidata, por esse caminho, por que assim se fosse pelo incentivo da escola que eu estudei eu achei pouco. (...) Então (...) assim, se o curso de pedagogia tá nesse nível, um nível até bom, então agora o curso de letras pode ser bacana, e assim (...) até o momento que estudei na faculdade eu acho a participação dos professores, tanto na parte de línguas quanto de português, maravilhosa. (...) Agora o que eu acho que falta na faculdade é esse trabalho de forma geral, de incentivo geral com a leitura.
Outros estudantes, os da graduação em Sistema de Informação e Telecomunicações, declararam vivenciar uma situação diferente com relação a essa questão da leitura. Eles afirmaram não haver propostas ou projetos de trabalho para o exercício de leitura. E afirmam:
17 -É... e acho que a cobrança é muito maior pra vocês, nós das exatas – Sistema, Telecom, por exemplo, a cobrança já é diferente. Acho que é por isso que a gente vê esse lance de
leitura de outra forma. 18 -Exatamente. Nossos professores são mais práticos... (risos). 19 - Eles chegam a dominar... mas às vezes eles escrevem errado, porque eles fizeram o primeiro semestre e (...), aí os meninos lá da (...) “eita ele escreveu errado”, “não sou de letras mesmo”. 20 -É isso que eu ia falar, os alunos tanto de matemática, pedagogia e sistema e até administração, quando eles vão à frente apresentar um trabalho eles não têm uma carga de cobrança no fato que ele errar uma palavra lá (...) Agora, vê se um do curso de letras chegar lá na frente e falar “poblema”, por exemplo, vão cair matando, aí ele já vai dispensar e mandar o aluno quebrar o trabalho todinho. Então a gente tem que se preocupar no que falar, no que escrever e na hora de se expressar, tudo isso, né?
Por fim, uma das pessoas entrevistadas coloca uma situação sobre a qual acredita-se também na relevância de uma reflexão. Ela diz: 21 -E eu acho, professora, que através dos professores, acho que eles ficam assim surpresos, tem ficar surpresos com essa situação, porque muitas vezes eles chegam assim, como os nossos professores, mesmo que a gente tem mais convivência, acho que eles imaginavam que nós estivéssemos realmente num nível muito acima, e não é só de um ou de outra matéria, mas todos, então eles chegam e vêem uma realidade totalmente diferente, que é uma coisa que vem lá de trás então, por isso (...), eu acho que é insatisfatório, totalmente insatisfatório o nível dos alunos de um modo geral.
Enfim, é possível constatar que os estudantes entrevistados percebem com clareza não somente sua própria condição no que tange ao letramento, mas também dos seus colegas e a situação do professor nesse contexto. Faz-se mister que se repense algumas ações e postura do professor com relação ao aluno – e vice-versa. O contexto de integração entre a aprendizagem dos dois participantes deste processo, certamente, é novo em uma série de aspectos (alguns ainda por se descobrir), mas pode se conceber a idéia de que a aprendizagem do aluno se dá, segundo Demo (2005) à medida que se introduz a noção de que a aprendizagem do aluno acarreta a aprendizagem do professor. Para orientar o aluno adequadamente, supõe-se que o professor saiba orientar de verdade, ou seja, não se apresente apenas como controlador externo, mas como parceiro mais experimentado no mesmo propósito da vida, afirma o autor. Demo ainda defende que o professor não pode ser mais apenas ministrador de aula, mas