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Observemos um grupo de operações militares terrestres (algumas com apoio naval) que considero serem as mais significativas ao longo do século XVI, não do ponto de vista do seu resultado em termos militares, políticos ou estratégicos, mas porque melhor revelam idiossincraticamente a forma como os portugueses faziam a guerra. Tentar-se-á uma análise tão completa quanto possível, cobrindo os aspectos ilustrativos daquela cultura de guerra e tentando assim aferir da existência de traços comuns que se estenderam durante quase 70 anos, reforçando a ideia de uma forma transgeracional de fazer a guerra, não obstante a permeabilidade à polinização acima aludida, à transferência de técnicas e procedimentos militares entre as diversas partes do império. Para um melhor enquadramento do problema, iniciaremos com três exemplos ocorridos ainda no reinado de D. Manuel I, o cerco de Arzila, a tomada de Benastarim e a batalha de Bulaluão.

O que os episódios militares nos mostram, no início do século XVI, é o convívio de dois modelos distintos, mas complementares e até eficazes, de organizar forças: a combinação da hoste senhorial, numa lógica ainda medieval, com forças crescentemente profissionalizadas ou totalmente profissionais, à moderna. Ou este convívio é uma opção voluntária ou é o modelo sociologicamente possível. Em ambos os casos, a sua eficácia militar era inquestionável para os homens de então, embora a convivência entre as diversas forças não fosse pacífica.

Habituados a pensar que uma dada operação militar é realizada em função de um determinado objectivo superior, de ordem estratégica ou, até, política, teremos aqui de entender a operação militar num outro enquadramento. Não que algumas operações militares não fossem planeadas e não obedecessem a objectivos preestabelecidos mas, como adiante veremos, estamos, nos alvores do século XVI, perante uma cultura institucional e política substantivamente diferente da actual pelo que incorreríamos facilmente num anacronismo. Mesmo assim, façamos-lhe uma concessão e dividamos estas operações militares em quatro categorias principais para melhor organizarmos o raciocínio, a saber, de Tipo A – exclusivamente terrestres, em campo aberto, Tipo B – de tomada de fortaleza, de cerco com ou sem surtidas, Tipo C – com apoio naval ao nível do transporte de efectivos e seu desembarque, com ou sem apoio de fogos de cobertura, e de Tipo D – exclusivamente navais. O que imediatamente se nos põe diante dos olhos é isto: Tipo A, os quase 200 anos de almogavarias, da guerra de razia que os portugueses praticavam em Marrocos com enorme sucesso ou, por exemplo, Bulaluão, 1514, Abissínia, 1542, Alcácer-Quibir, 1578;

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Tipo B, por exemplo Arzila, 1508, Benastarim, 1512, Calecute, 1525, Diu, 1538 e 1546, Mazagão, 1562;

Tipo C, por exemplo Azamor, 1513, Tunis,1535, Diu, 1546, Mangalore, 1568; Tipo D, por exemplo Chaul, 1508, Diu, 1509, Carvoeira, 1554.

Estaremos, para o período proposto, de D. João III a D. Sebastião, a falar de milhares de episódios militares, operações ofensivas de pequena, média e grande envergadura, operações defensivas de iguais dimensões, de combates em terra e no mar, de batalhas navais e terrestres, de toda a sorte de factos militares que não cabem na presente dissertação.1

1 Só entre 1506 e 1579, Armando Saturnino Monteiro regista 250 ep isódios relacionados maioritariamente com co mbates e batalhas navais. Cf. MONTEIRO, Armando Saturnino, Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa, Vo l. I-III, Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 1989. As operações ou ocorrências militares terrestres, por seu turno, são quase impossíveis de contabilizar. Só em Marrocos, o constante estado de prontidão em que as 9 praças portuguesas viviam são disso exemplo.

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Almogavarias e razias em Marrocos – a escola de guerra.

Tal como já afirmámos, esta é a atmosfera guerreira por excelência dos portugueses desde 1415. Marrocos é não só o exemplo perfeito da aplicação do poder militar como prossecução de objectivos políticos, como de continuidade de exercício desse mesmo poder quando dos períodos de indecisão política sobre os objectivos, como, ainda, palco para a continuidade de formas sociais que mudavam na Europa e que aqui se prolongavam. É um território com uma actividade militar constante, de carácter permanente, em que o dispositivo militar é a face visível da afirmação do poder da Coroa, do poder do reino sobre o território, as suas gentes, o comércio, os recursos. Os fronteiros de África, os capitães das fortalezas, os protagonistas da acção militar, as verdadeiras dinastias que se formam e cristalizam em torno da guerra em Marrocos e a forma como projectam depois a sua influência política na administração de outras partes do império, e a forma como se prestigiam, fazem do norte de África quase uma espécie de Cursus Honorum das armas portuguesas.2

A operação típica que caracteriza a almogavaria é de fácil descrição: um pequeno grupo de homens, montados ou apeados, transportando armamento ligeiro (espada, punhal, lança ou arco) alguns mantimentos, penetrando em segredo e velocidade em território inimigo, muitas vezes a coberto da noite, para executar uma dada missão – um roubo de víveres, de munições, por exemplo, um rapto, um assassinato, em suma, um chamado golpe de mão. É este tipo de missão precedido da primeira fase que inicia uma qualquer operação militar em qualquer tempo ou local da História, ou seja, de informações e reconhecimento. Informações da mais variada natureza sobre o inimigo, sobre o alvo, recolhidas por locais, mouriscos, ou por portugueses, apoiados numa – muitas vezes – complexa rede de informadores; e reconhecimento do terreno, para que este não traga surpresas capazes de fazer perigar a missão. Quando montados, os almogávares constituíam uma força de cavalaria ligeira, de ginetes, rápida e pouco armada, muitas vezes os cavaleiros envergando trajes locais, mouros, para mais dificilmente serem identificados. Estas acções ofensivas, também conhecidas como correrias, corridas, entradas, eram vulgares, mesmo sem a presença de forças sitiantes. Destinavam-se também a manter a pressão sobre as forças inimigas, ajudavam a manter um certo estado de prontidão e, talvez a sua característica mais

2 Cf. por exemp lo FA RINHA, António Dias, Os Portugueses em Marrocos, Lisboa, instituto Camões, 1999, p.8 e p. 45 para a descrição do paradig mático caso de Vasco de Pina.

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importante, constituíam treino para o efectivo militar. Efectiva táctica militar que os portugueses inexcedivelmente apuraram, as entradas eram operações calculadas, estudadas. Os atalhadores ou cortadores constituíam verdadeiras unidades ou equipas móveis avançadas de reconhecimento do terreno, não só tentando mapear os percursos dos inimigos como seleccionando os melhores locais para as emboscadas, as ciladas. A vigilância estática dependia das atalaias e dos fachos, numa estudada teia que se estendia em todos os pontos de vigilância de todo o perímetro das fortalezas. Pouco era deixado ao acaso e a realidade o que mostra é um elevado estado de prontidão e eficácia, altamente profissionalizado, onde todos e cada um sabem exactamente o que fazer. Talvez até por se tratar de procedimento conhecido desde há muito dos portugueses, desde a guerra da reconquista na Península, que foi transportado para o Norte de África.3 Apesar de necessárias, constituíam motivo de óbvia preocupação, tanto militar como política. Em carta de D. João III ao capitão de Mazagão Luís de Loureiro, de 1542, lê-se:

«(...) sam enformado que says muytas vezes fora dessa vila cõ alguma gente e que quando algumas vezes vos coreem os mouros says asy mesmo fora, e que vosa tenção he fazerdes que guerra desta man.ra e de qualquer out.ª que sabedes porque em tal tempo eu o ey por cousa de muyto grande meu deserviço [...] vos encomendo muyto e mãdo que per nenhum modo que fose sayaes fora dessa vila nem mandes sayr nenhuma gente».4

Missões prevalecentes até ao final do reinado de D. Manuel, a mudança da política dos xarifes em Marrocos fez mudar a presença militar portuguesa no início do reinado de D. João III. Nem por isso, porém, fez mudar o carácter da operação típica da almogavaria a maior parte das vezes conduzida pelo adail. São tantos os exemplos de entradas que só em lugar próprio cumpriria descrevê-las mas o seu número faz-nos perceber imediatamente que se tratavam da forma de operação militar que traduzia o constante estado de guerra em que se encontravam as praças portuguesas no Norte de África. Em 1547, seis anos depois da tomada de Santa Cruz do Cabo Gué pelo xerife saadita (que tomará Fez em 1549 pondo fim à dinastia oatácida) e já consumado o abandono de Azamor e Safim, capitaneava Arzila D.

3 RICA RD, Robert, «A propos de rebato. Note sur la tactique militaire dans les places portugaises du Maroc », in Bulletin Hispanique, Anais da Universidade de Bordéus, Bordéus, Tomo 35, N°4, 1933. pp. 448- 453 .

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Francisco Coutinho, filho e neto de capitães de Arzila. A 15 de Julho juntou-se a Francisco Botelho, capitão de Tânger,

«e ambos foram correr a uma aldeia que se chamava Alfadam-Quibir, e estava a nove léguas de Arzila, mas o mouro que guiava a ela pela muita névoa que fazia não deu com ela e por isso não se pôde correr. Na volta, porém, fizeram duas boas sortes; a 1.ª foi 70 ou 80 de cavalo da dianteira saírem a uns mouros, que andavam numas milharadas, cativando dêles 15 entre mouros e mouras; a 2.ª foi que vindo-se recolhendo, investiram com êles muitos mouros, mas voltaram sôbre êles e mataram e cativaram muitos. 1547, 21 de Julho. Neste dia novamente o capitão se ajuntou com Francisco Botelho e foram ambos correr Alguaxar de Xarfe, onde havia três aldeias, e nelas tomaram 13 mouros e mataram 14 ou 15. 1548, 20 de Janeiro. Neste dia também os dois capitães foram a entrar a umas aldeias do campo de Alexarife, para além de Alcácer, e nelas tomaram 47 mouros e ma taram 15 ou 20; e de gado grosso, porque o meúdo deixaram, trouxeram mais de 500 cabeças, e muito despôjo das casas. Recolhendo-se a nossa gente, vindo às portas de Alcácer, saíram dêle a ela 400 mouros de cavalo e 1.000 de pé, que investiram com os nossos furiosamente, mas os dois capitães voltaram sôbre êles até junto da povoção e mataram cento e tantos mouros de cavalo e de pé. D. João III agradeceu aos dois capitães tão famosa vitória.»5

Um olhar de hoje facilmente interpretaria esta descrição como se tratasse de uma acção de salteadores e homens sem lei, eventualmente não compreendendo que a guerra, em todos os tempos, também pode fazer-se desta maneira. Infligir perda ao inimigo, em homens, capacidade militar ou economia e recursos, é táctica militar antiga e muitas vezes necessária para angariar recursos, promover o desequilíbrio psicológico, e assim enfraquecer o adversário.

Em 1572 ainda se combatia a cavalo, em campo aberto, com forças de dimensão considerável. Rui de Sousa de Carvalho, o herói de Mazagão e capitão de Tânger, irmão de Álvaro de Carvalho, trava um combate a 21 de Setembro no campo A Decida contra 2000 cavalos dos alcaides de Alcácer, Arzila e Tetuão. Os portugueses deveriam ser cerca de 450 cavalos e número incerto de infantes. Numa linguagem setecentista, Barbosa Machado diz que

5 LOPES, David, História de Arzila durante o domínio português, Coimb ra, Imprensa da Universidade, 1924, pp. 385-6.

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«travando-se hum formidavel combate pelo espaço de duas horas, naõ podendo os Mouros romper o nosso esquadraõ, se retiraraõ confusos, e destroçados, mandando para final da victoria o Capitaõ mór tocar as trombetas, cujo armonico estrondo sendo plausivel aos vencedores era funesto aos vencidos».6

No século XVIII, a palavra esquadrão já designava, também, uma unidade de cavalaria pelo que subsiste a dúvida sobre o emprego de infantes. Porém, o pormenor das trombetas remete-nos para a presença de infantaria no terreno. No ano seguinte, quando o capitão morre em combate, está a socorrer com uma força de 30 cavaleiros uma tranqueira, à vista das muralhas da cidade, onde estavam alojados soldados apeados, procedimento muito comum na guerra de Marrocos. De facto, as tranqueiras, pequenas fortificações construídas em madeira, fora dos muros da fortaleza, serviam como guarda avançada para, em caso de ataque, e avisada pelas atalaias e vigias, podia a sua guarnição oferecer uma primeira linha de resistência, permitindo o regresso ao interior das muralhas a todos os que andavam a trabalhar e a circular pelos campos.

6 MACHA DO, Diogo Barbosa, Memorias para a Historia de Portugal que Comprehendem o governo Delrey D. Sebastião, Tomo III, Lisboa, na Officina Sylv iana, MDCCXLVII, pp. 552-3.

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O Cerco de Arzila de 1508

Tipos B e C

«[…] e sendo menhã, parecêrão ao derrador da vila muitas batalhas e bandeiras de gente de cavalo e de pé, que tomávão de mar a mar, e logo, sem ordem nem concerto se viérão ao muro, começando a minar e a cavar nele com enxadas e picões e artefícios pêra desfazerem e derribarem o muro, sem os nossos o poderem afastar, ainda que dos nossos recêberão muito dano de muitas pedras e azeite fervendo, que de cima lhes deitávão, e asi de algumas béstas e espingardas que na vila avia, ainda que muito poucas […]».7

Era o dia 15 de Outubro de 1508 e o que Bernardo Rodrigues nos conta é o relato de eventos que ele próprio experimentou, nesta altura ainda menino, pois terá nascido em 1499 ou no ano seguinte precisamente em Arzila. Escreveu a sua Crónica já adulto pelo que a linguagem que emprega é necessariamente uma construção intelectualizada, projectada na sua infância.8 As muitas batalhas e bandeiras e de gente de cavalo e de pé não significa necessariamente que os mouros estivessem organizados em unidades identificáveis segundo padrões europeus, ou hispânicos, mas sim que Bernardo Rodrigues quando escreve, depois de 1560, assim os entendeu designar, talvez porque projecta precisamente a sua experiência nas suas palavras. Aliás, refere serem sem ordem nem concerto. Era o exército de Mulei Mafamede O Português, rei de Fez e novo sultão oatácida. Governava a praça, pela segunda vez, D. Vasco Coutinho, 1.º Conde do Redondo, homem de experiência guerreira adquirida em Castela e em Marrocos.9 Aproximando-se do muro, iniciaram os mouros o que era já habitual na guerra de cerco: a tentativa da sua destruição. Fazem-no sem recurso a artilharia de cerco, utilizando os métodos e engenhos também habituais. Defendem-se os portugueses,

7 RODRIGUES, Bernardo, Anais de Arzila, crónica inédita do século XVI, Lisboa, Academia das Sciências de Lisboa, 1915, p.11.

8 «Todavia, conheço que pera poer cada cousa em seu lugar ouvera mester outra pessoa, que o milhor soubera contar, pois em mim outra cousa não ha, somente a confiança de ser lemb rado do que em meu tempo passou, conhecendo que a policia e o bom falar desta corte e reino a não ha em mim, sómente a anteguidade em que me criei a que sou muito afeiçoado... ». Idem, p.10. A esta afeição e ao seu sentido de pertença e identificação com a cidade marroquina alude Ach med Boucharb: «Les mémo ires de B. Rodrigues, destinées à glorifier l'ouvre des capitaines et des habitants d'Arzila, représent plutôt une critique dissimu lée de la politique officielle à l'égard des presides marocains […] Il n'est pas dificile de remarquer les empreintes du temps dans l'ouvre de B. Rodrigues. Il donne l'imp ression d'un homme désabusé, souffrant d'un sentiment de

déracinement et de nostalgie pour une terre qu'il a tant affectionnée». BOUCHARB, Achmed, « La Vision des marocains dans les «Anais de Arzila» de B. Rodrigues», in Estudos de História Luso-Marroquina, Lagos, Câmara Municipal de Lagos, 2010, pp. 165-7.

9 Cf. LOPES, Dav id, História de Arzila durante o domínio português, op. cit. Ou mais recentemente, SEMIÃO, Maria Rosalina, D. Vasco Coutinho Conde de Borba e Capitão de Arzila, FLUL, 2002, pp.23-76.

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também sem artilharia, utilizando métodos igualmente habituais nestas situações mas também com espingardas:

[que]«não pasávão de seis espingardeiros, e estes érão muito bons, os quais por serem poucos os nomearei: Alvaro Diaz, ferreiro, Pero Jusarte, pedreiro […] Domingos d’Amores, carpinteiro, e Perna d’Aranha, sarralheiro, e Peedrálvarez, çapateiro[…] E asi avia outros cavaleiros e homens de cavalo, que tínhão bestas com que fizeram dano asaz».10

Trinta e sete anos depois da sua tomada, Arzila dispunha de seis espingardeiros e, ao que parece, nenhum deles era um profissional da guerra, excepto, provavelmente, o dito Perna d’Aranha, pois este deverá ser o mesmo que em 1501 foi nomeado anadel dos 30 espingardeiros de Arzila por D. Manuel I e que em 1506 estaria em Lisboa.11 O facto de Rodrigues os classificar como muito bons, encómios à parte, significa que tinham, pelo menos, a prática do manuseio de armas de fogo ligeiras, no caso espingardas, apesar de terem outros ofícios.12 A menção a cavaleiros e outros homens de cavalo que tinham bestas deixa em aberto a utilização daquelas armas quando montados ou apeados. O que não parece ter acontecido neste cerco foi a utilização de cavalaria armada com espingardas.

Mais adiante, Rodrigues descreve a chegada de D. Pedro Navarro, texto muito curioso e informativo:

«Depois de cinco dias que Dom João estava no castelo e onze que a vila era entrada, chegou a ela o conde Pedro Navarro com ũa grosa armada d’el-rei Dom Fernando de Castela de naos e taforeas e quatro galés, das quais érão capitães micer Beringel d’Olmos e outros. Entrados no castelo com vinte ou trinta alabardeiros diante de si muito bem vestidos de calças de grã e jubões de seda e ũa banda de mui gentis soldados (que em aquele tempo chamávão suiços), as galés começárão de tirar á vila e derrubarão duas ou tres casas, e logo lhe mandárão recado que não tirasse á vila, pois esperávão de a tornar a povoar».13

10 RODRIGUES, Bernardo, op. cit. p. 11.

11 Cf. CASTRO, Tiago, op. cit. p.25. A figura é relevante pelo menos na história de Arzila pois u m dos dez baluartes da praça, redesenhada em 1508 por Boitaca e depois de 1510 por Francisco de la Encina, recebeu o seu nome. Cf. GUEVA RA, Adolfo, Arcila Durante la Ocupación Portuguesa (1471-1549), Tanger, Publicaciones del Instituto General Franco para la Investigacion Hispano-Arabe, 1940.

12 Ressalve-se que em Safim, em 1511, a guarnição co mpreendia pedreiros, sapateiros, alfaiates e que estes faziam parte da guarnição militar, recebendo soldo. Porém, não parece ser este o caso de Arzila em 1508. Cf. COSME, João, A Guarnição de Safim em 1511, Lisboa, Caleidoscópio/CHUL, 2004.

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Desembarcados os efectivos14 a coberto da artilharia naval, instalam-se na praça.15 De imediato, conferencia o experiente conde de Oliveto com D. Vasco Coutinho e D. João de Meneses,16 cunhado deste que tinha chegado antes em seu socorro:

«Foi recebido o conde Pedro Navarro do conde Borba e de Dom João e do capitão dos jinetes com aquela honra e solenidade como se requeria a tal capitão e de tão alto e tão poderoso rei como el-rei Dom Fernando; e como ele, em tomar e defender fortalezas, sobrepujase a todos os de seu tempo, foi logo ver o castelo e notar a vila; e foi o parecer destes ilustres capitães que ao outro dia cometesem a vila. […] pola porta do Albacar, saírão em muito boa ordem, indo diante o conde Pedro Navarro com ũa bandeira de suiços, logo o capitão dos jinetes com ũa bandeira de muito boa jente e trás ele Dom João, todos em boa ordenança; e rompidas as estancias e mortos alguns mouros os lançárão da praia, e em sua ordem se pusérão no adro ou eiras, e perante mais de vinte mil de cavalo que á sua vista estávão, do Facho até o outeiro de Fernão da Silva, fizérão seu caracol os suiços, per mandado do conde Pedro Navarro, e o desfizérão andando muitos mouros na escaramuça ao redor deles. Eu creio que este caracol e ordenança destes suiços foi o primeiro que nestes lugares se fez; e feita esta mostra e as estancias desfeitas, se viérão recolhendo á porta da Ribeira, vindo muitos de cavalo escaramuçando e remesando á ordenança dos suiços;».17

14 Cerca de 3.500 homens. Cf. MA RIZ, Pedro de, Dialogo de Varia Historia em que se referem as vidas dos senhores reis de Portugal, Quinta Imp ressão, Tomo I, Lisboa, Impressão Régia, 1806, p.717.

15 Vítor Rodrigues afirma que «Essas mesmas companhias [presentes na falhada tentativa da tomada de Azamor] participaram, alguns meses mais tarde, em Outubro de 1508, no socorro à praça de Arzila». Cf. RODRIGUES, Vítor Lu ís Gaspar, «As Co mpanhias de Ordenança em Marrocos nos reinados de D. Manuel e D. João III», in D. João III e o Império, Actas do Congresso Internacional Comemorativo do seu Nascimento , Lisboa, CHAM, 2004, p. 187. A verdade é que não encontramos qualquer referência a este facto, bem pelo