O presente estudo teve como principal finalidade a identificação de concepções e obstáculos de aprendizagem dos alunos do 1º Ciclo do Ensino Básico, antes e depois do ensino formal, acerca do aparelho respiratório. Os resultados das diferentes questões apontam que houve aprendizagem de alguns conceitos fundamentais sobre a anatomia e fisiologia do aparelho respiratório e da envolvência nesse processo, visando a construção de um conhecimento mais científico, embora ainda persista na estrutura mental destas crianças conceitos prévios e algumas noções superficiais, produto de uma aprendizagem pouco profunda e incompleta, determinada pela ausência de conceitos veiculados nas práticas pedagógicas dos professores ou omitidos no manual escolar adoptado. De acordo com os resultados expressos no capítulo anterior, as conclusões da análise deste estudo apontam para:
Antes da aprendizagem formal
¾ A existência de concepções sobre o principal órgão do aparelho respiratório (pulmões), apresentando-o de uma forma pouco estruturada e morfologicamente incorrecta;
¾ Sem conhecimento formal do aparelho respiratório e circulatório algumas das crianças representam os pulmões ligados a um tubo único e desenham as veias para explicar a passagem do “ar”, fumo de tabaco e de haxixe para o sangue;
¾ Nos efeitos do tabaco, há a noção do grau nocivo que este causa ao ser humano, apenas o relacionaram com as doenças em geral;
¾ O processo inspiração/expiração é entendido pela maioria como um mecanismo desenvolvido pelo ar no nosso organismo e resulta da entrada e saída de ar no corpo. Em alguns casos, diferenciam estes dois mecanismos associando à entrada de ar puro/impuro, bom/mau;
¾ Relativamente à respiração predomina a concepção da necessidade de viver/não morrer, relacionando o ar e a respiração como uma necessidade vital para se manterem vivos;
¾ Atribuem aos pulmões o comando da vida.
Após o ensino formal, os resultados evidenciam uma evolução conceptual
traduzida em aprendizagem, com aplicação de uma terminologia mais científica, mas nem sempre acompanhada por uma evolução ao nível de conceitos, verificando-se nalguns casos a persistência de determinadas concepções de senso comum e ainda a presença de outras que requerem um maior aprofundamento de conceitos. No que respeita à anatomia e fisiologia do aparelho respiratório verifica-se que:
¾ Existe um desenvolvimento conceptual significativo sobre a anatomia e fisiologia do aparelho respiratório sobretudo no que respeita à estrutura, localização e sucessão de órgãos;
¾ O processo respiratório é entendido pela maioria das crianças como um “acontecimento que apenas se desencadeia nos pulmões”, sendo omitido pelas crianças o intercâmbio de gases e restante processo;
¾ A falta de clareza das figuras presentes no manual omitindo a continuidade entre órgãos e a inter-relação de sistemas traduziram-se em noções incompletas sobre o funcionamento adequado do aparelho respiratório;
¾ A representação gráfica do aparelho respiratório e respectiva legenda é do tipo padrão, baseada no manual adoptado;
¾ Raramente referenciam a passagem quer do “ar” como fumo do tabaco ou de haxixe para o sangue, excepto, alguns alunos do 3º ano que referenciam a passagem do haxixe para o sangue, um vez que a toxicodependência é conteúdo abordado após os sistemas humanos, no Bloco de Conteúdos “A saúde do meu Corpo”; ¾ Para os efeitos do tabaco, predomina uma maior aquisição de conhecimentos no 3º
ano onde a aproximação ao conhecimento científico é notória com a utilização das expressões “dependência” e “doenças nos pulmões” e nesta última referenciam especificamente o cancro pulmonar, como um dos principais efeitos do tabaco. No 4º ano são evidentes expressões pouco fundamentadas em conhecimentos científicos, predominando o conhecimento de senso comum, referenciando órgãos ou doenças em geral, sem especificar a patologia directamente relacionada com o efeito;
¾ A diferença entre inspiração/expiração é entendida pela maioria como uma mera “entrada e saída de ar no corpo”, e nalguns casos (3º ano) referenciam a entrada e saída de O2/CO2 nos pulmões”. Um ano após estas aprendizagens verifica-se um reducionismo formal onde as concepções científicas deram lugar a expressões de senso comum (puro/impuro; bom/mau);
¾ São evidentes duas concepções respeitantes à respiração. Prevalece aquela que considera a respiração como um “fenómeno indispensável à vida, sem ar não há vida, morreríamos”, persistindo concepções do foro empírico e uma minoria (3º ano) considera que respira para “retirar o oxigénio do ar para este purificar o sangue”, atribuindo ao ar um papel determinante para que se realize todo o processo respiratório;
¾ Existe uma maior aproximação de conhecimentos científicos no 3ºano, verificando- se no 4º ano uma regressão conceptual destes conhecimentos, persistindo as concepções alternativas ao conhecimento científico.
De um modo geral e com base nos objectivos definidos no Capitulo I podemos afirmar que:
¾ Antes do ensino formal são evidentes alguns saberes mais científicos no quadro conceptual dos alunos do 1º e 2º ano de escolaridade sobre o aparelho respiratório; ¾ Confirma-se com este estudo algumas dificuldades de aprendizagem na aquisição
do processo completo do sistema respiratório;
¾ A não valorização das concepções conjunturais (Clément, 1994; 1999) dos alunos constituiu um obstáculo epistemológico às novas concepções científicas;
¾ As concepções alternativas, apresentadas neste estudo, persistem após um ano do ensino formal, à semelhança do que se tem verificado noutros estudos, em que as noções prévias não só surgem como persistem, impedindo a apropriação de conceitos mais científicos;
¾ O manual como instrumento mais utilizado na prática pedagógica dos professores envolvidos neste estudo, deve se escolhido e analisado com algum rigor no que se refere à informação teórica e respectivos complementos elucidativos dos conteúdos em estudo (imagens e esquemas), de forma a evitar que obstáculos didácticos possam dificultar a aprendizagem dos alunos e respectiva mudança conceptual; ¾ Sensibilizar os professores para necessidade do conhecimento das concepções dos
alunos, para que estes numa primeira fase o possam atribuir significado e reestruturá-las nos seus esquemas mentais evitando a confronto com o conhecimento científico;
¾ Não obstante, são fundamentais mudanças nas práticas pedagógicas utilizadas pelos professores no ensino das Ciências, utilizando estratégias e metodologias inovadoras, reconhecendo e valorizando os conhecimentos empíricos dos alunos como ponto de partida para a aprendizagem e mobilização de saberes de mais científicos;
¾ Aponta-se a necessidade de se desenvolver projectos de formação de professores que envolva os mais diversos conteúdos curriculares, no sentido de se clarificar concepções, dando-lhes maior rigor científico, de modo a que estas se modifiquem e evoluem de forma gradual e contínua, desenvolvendo-lhes a capacidade de análise reflexiva e critica das suas práticas;
¾ A maioria das crianças identifica o tabaco e a droga (haxixe) como elementos bastante nocivos à saúde do ser humano, expressando conhecimentos adquiridos através da sua experiência diária, dependentes do seu meio sócio-cultural e pela informação veiculada pela escola, sendo por isso crucial valorizar-se as suas representações acerca da saúde, com a implementação de práticas educativas
promotoras de saúde e de mudança comportamental, procurando sensibilizá-los para a prevenção de maus hábitos de saúde em prol de uma qualidade de vida saudável e de uma perspectiva positiva de saúde.