De fato, como dizem Elias e John (1992) o esporte se apresenta como um elemento estratégico para se conhecer a sociedade. Ao se debruçar sobre o processo de constituição do futebol no Brasil, pode-se atingir um entendimento que vai além das próprias fronteiras do futebol, de modo a compreender elementos materiais e culturais, além da constituição dos diferentes papéis sociais, hierarquias, comportamento e as formas de representações da sociedade brasileira.
A partir do exposto neste trabalho, pode-se observar que o futebol tem um papel relevante para a sociedade. O importante é que este olhar seja com outro foco, com olhar voltado para as histórias de vida de jogadores e ex-jogadores profissionais, que, pela natureza de seu trabalho, absorveram a imprecisão da vida capitalista.
Muitos intelectuais ganharam a reputação de serem ineficazes e incapazes. Não são poucos os jogadores do futebol brasileiro que corroboram com a máxima de que portam, por certo, a culpa de uma má gestão de sua vida financeira e não tiveram sabedoria para lidar com ela. Não devemos nos esquecer que a maioria dos ex-jogadores de futebol profissional jamais fez cursos de gestão financeira ou tiveram chance ou investimento do clube para isso (até mesmo para os gestores financeiros do mundo todo, esse mundo se tornou algo fora da previsibilidade em questões financeiras).
A maioria dos ex-jogadores de futebol no Brasil vem de uma classe social menos favorecida, por isto são submetidos a condições difíceis em sua trajetória, principalmente aqueles que não optaram por privilegiarem e pautarem suas vidas nos estudos. A educação tem sido ao longo dos anos, uma necessidade e uma luta, não só dos movimentos minoritários, mas o apelo de outras categorias da sociedade, para que haja uma
promoção justa em direção a outros grupos sociais, com uma prática pedagógica oposta à desigualdade e à discriminização.
Além da discussão sobre “a culpa” que traz um ex-jogador de futebol profissional que passa necessidades, se por falta de gestão pessoal ou por falta de apoio do clube onde atuou, o que está em “jogo” é que, enquanto o futebol “profissional” não virar de fato “profissional”, em toda a amplitude social da palavra, o problema não será solucionado.
A administração do esporte no Brasil é conduzida, com raras exceções, de forma amadora. Essa situação interessa apenas aos poucos administradores de clubes, federações e confederações que, amparados por estatutos indutores de condutas absolutistas, aproveitam-se de regras formais e informais para perpetuarem-se no poder e, segundo a avaliação de alguns, até para combater a profissionalização da administração do esporte brasileiro.
Uma análise sociológica pode contribuir e muito para que questões como essas mereçam maior atenção, considerando que o número de ex- jogadores de futebol profissional que finalizam a carreira de forma desestruturada, é expressivo.
O momento do fim da carreira gera ansiedade que pode ser amenizada, quando existe uma esfera de equilíbrio familiar, uma sensação de pertencimento a um local, uma comunidade, que proporciona raízes e senso de continuidade, que fazemos parte de alguma coisa duradoura e estável, ser conhecidos e aceitos, independentemente da profissão (Pahl, 1997).
Olhar retrospectivamente para o sucesso alcançado, de forma mais sustentável e consciente, considerando que completou bem uma tarefa e que deu uma contribuição social e familiar, poderia gerar uma satisfação íntima, incapaz de ser apagada ou extinta, mas, nem sempre assim acontece nas histórias pessoais dos ex-jogadores.
A persistência das enormes desigualdades socioeconômicas impõe para a sociedade uma série de desafios no que se diz respeito à formulação e implementação de políticas públicas, já que somado às desigualdades sociais, o futebol profissional apresenta sua contribuição para a configuração social. Afinal, um ex-jogador de futebol já foi uma figura importante para multidões e também agora se enquadra na classe da multidão dos desempregados.
BIBLIOGRAFIA
Antunes, Ricardo. A dialética do trabalho. São Paulo: Ed. Expressão Popular, 2004.
Antunes, Ricardo. Adeus ao Trabalho: ensaio sobre as metamorfoses e a centralidade do trabalho. São Paulo: Cortez; Campinas: Editora da UNICAMP.PG, 6ª edição, 1999.
Barros, Claudius AC. Excelência em Serviços: questão de sobrevivência no mercado. Rio de Janeiro: Qualitymark Editor,1996. Bedoian, Graziela e Madalena, Roberto Carlos. Mundo do trabalho e juventude em situação de risco. In Revista do Projeto Quixote. São Paulo, 2008.
Bernardo, Teresinha. Memória em branco e negro: olhares sobre São Paulo. São Paulo: Fundação Editora da Unesp, 1998.
Chauí, Marilena. Mito fundador e sociedade autoritária. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2000.
Chesnais, François e Colaboradores. Globalização e socialismo. São Paulo: Xamã Editora,1997.
COSTA, Andréia CB. Bate-bola com a crônica: o futebol, o jornalismo e a literatura brasileira. Juiz de Fora: UFJF; Facom, 1.sem. 2001, 80 fl. Projeto Experimental do Curso de Comunicação Social. Extraído da web – www.facom.ufjf.br em 22/7/2008.
DaMatta, Roberto. Esporte e sociedade: um ensaio sobre o futebol brasileiro. In: Universo do futebol. Rio de Janeiro: Ed. Pinakotheke, 1982.
DaMatta, Roberto. A bola corre mais que os homens: duas copas, treze crônicas e três ensaios sobre futebol. Rio de Janeiro: Rocco, 2006.
Damo, Arlei S. Futebol e identidade social: uma leitura antropológica das rivalidades entre torcedores e clubes. Porto Alegre: Editora Universidade/UFRGS, 2002.
Debord, Gui. A Sociedade do espetáculo. Tradução Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto Editora, 1997.
Eco, Humberto. Apocalípticos e integrados. São Paulo, Ed. Perspectiva, 1970.
Elias, Nobert e Dunning, John. A busca da excitação. Lisboa: Diefel, 1992.
Freitas, Lenita A. E uma carreira profissional sólida se desmancha no ar: um estudo psicossocial da identidade. Taubaté:Cabral, 1997.
Freyre, Gilberto. Novo Mundo dos Trópicos. Rio de Janeiro: TopBooks Editora, 2000.
Governo do Estado de São Paulo. Diagnóstico para o programa estadual de qualificação rofissional: caravana do trabalho. São Paulo: Secretaria do Emprego e Relações do Trabalho, 2008.
Hall, Stuart. Identidade cultural na pós modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2001.
Helal, Ronaldo. O que é sociologia do esporte. São Paulo: Editora Brasiliense, 1990.
Huizinga, Jonh. Homo ludens. São Paulo: Perspectiva, 2001.
Jardilino, José Rubens; Rossi, Gisele; Santos, Gérson Tenório. Orientações metodológicas para elaboração de trabalhos acadêmicos. São Paulo: Gion, 2000.
Kliksberg, Bernardo. O desafio da exclusão: para uma gestão social eficiente. São Paulo, 1997.
Lessa, Sérgio. Mundo Dos Homens. São Paulo:Editora Boitempo, 2002 Magnane, Georges. Sociologia do Esporte. São Paulo. Editora Perspectiva, 1969.
Martins, José S e Mencarini, Foracchi. Sociologia e sociedade. Rio de Janeiro: LTC Editora, 1978.
Marx, Karl. O capital. Tradução Klauss Von Puschen. São Paulo:Centauro,2005.
Mészaros, István. A teoria da Alienação em Marx. Tradução Iva Tavares. São Paulo: Boitempo Editorial, 2006.
Mészaros, István e colaboradores. Globalização e socialismo: a subordinação do trabalho. São Paulo, Xamã Editora, 1997
Nogueira, Cláudio. Futebol Brasil memória: de Oscar Cox a Leônidas da Silva. Rio de Janeiro: SENAC, 2006.
Ortiz, Renato. Cultura brasileira e identidade nacional. São Paulo: Brasiliense, 2006.
Pahl, Ray. Depois do sucesso: ansiedade e identidade fin-de-Siècle. São Paulo: Fundação Editora da UNESP, 1997.
Pereira, Adriana B. A construção social do tipo “jogador de futebol profissional”: um estudo sobre os repertórios usados por jogadores de distintas categorias etárias e por integrante de suas matrizes. Tese de doutorado em Psicologia Social. PUCSP, 2008.
Pimenta, Carlos Alberto M. O processo de formação do jogador de futebol no Brasil: sonhos, ilusões, frustrações e violências. [Tese] São Paulo (SP): Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2001.
Pimenta, Carlos Alberto M. Sociologia da juventude: futebol/paixão/sonho/frustração/violência. São Paulo: Cabral Editora e Livraria Universitária, 2006.
Shibata, Lilian H. Em busca de um novo caminho: o pós-carreira como oportunidade de realização de potencialidades. [Dissertação] São Paulo (SP): Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; 2006.
Smit, Bárbara. A invasão de campo. Rio de janeiro: Zahar, 2007.
Spink, Mary. Práticas discursivas e produção de sentido no cotidiano: aproximações teóricas e metodológicas. São Paulo: Cortez, 1999.
Souza, Camilo AM e Col. Difícil reconversão: futebol, projeto e
destino em meninos brasileiros. Horizonte Antropológico. Vol.14 Nº30 Porto Alegre July/Dec. 2008 (scielo-27/2)
Stigger, Marco Paulo. Esporte, lazer e estilo de vida: um estudo etnográfico. Campinas, SP: Autores Associados, Chancela editorial Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE), 2002.
Toledo, Luis Henrique de. Torcidas organizadas de futebol. São Paulo: Autores Associados, 1996.
Toledo, Luis Henrique de. No país do futebol. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.
Weber, Max. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo. Tradução José Marcos Mariano de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.