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“O que mais amedronta é a ubiquidade dos medos; eles podem vazar de qualquer canto ou fresta de nossos lares e de nosso planeta.”

(BAUMAN, 2008, p.11)

O medo presente no conto “La lettera U”, manifesta-se na forma de superstição que se apodera da consciência do narrador protagonista, fazendo com que coordene toda sua vida, desde a infância, buscando distanciar-se da letra “U” que, para ele, carrega um valor potencialmente negativo, devendo, portanto, ser evitada a qualquer custo.

Quella linea che si curva e s’inforca – quelle dele due punte che vi guardano immobili, che si guardano immobili – quelle due lineette che ne troncano inesorabilmente, terribilmente le cime – quell’arco inferiore, sul qual ela lettera oscila e si dondola sogghinando – e nell’interno quel nero, quel vuoto, quell’orribile vuoto che si affaccia dall’apertura dele aste, e si ricongiunge e si perde nell’infinità dello spazio.7 (TARCHETTI, 1869, p.73- 74).

Para os demais personagens que com ele convivem, sua repulsa em relação ao “U” não possui uma explicação lógica que seja capaz de convencê-los, uma vez que a valoração negativa atribuída a esta vogal é exclusiva do protagonista e o mal que dela, hipoteticamente, emana, só pode ser experimentado por ele, o que pode ser afirmado pelo fato de que todas as

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“Aquela linha que se curva e se enforca – aquelas duas pontas que nos olham imóveis, que se olham imóveis – aquelas duas linhazinhas que se encurtam inexoravelmente, terrivelmente os topos – aquele arco inferior, sobre o qual a letra oscila e se balança zombando – e no interior, aquele negro, aquele vazio, aquele horrível vazio que se revela da abertura das duas hastes, e se reconstroem e se perdem no infinito do espaço.” (TARCHETTI, 1869, p.73-74, trad. nossa).

pessoas têm contato com a mencionada letra desde que são alfabetizadas, mas nunca se sentiram ameaçadas por ela. Em outras palavras, todo o desenvolvimento da narrativa calcado na negativização da vogal está baseado em um sistema de valor criado e legitimado apenas pelo personagem principal, baseado em sua própria percepção do mundo.

Seguindo-se esse raciocínio, o que distancia e impede que ele seja devidamente ajudado e compreendido pelos demais personagens é a sua diferente visão/percepção de mundo em relação aos colegas de escola, às namoradas, e, posteriormente, à esposa e todas as outras pessoas que o cercam. Há um novo código criado por ele que não é validado pelos outros, por isso, não são capazes de se entenderem, ainda que façam parte da mesma realidade.

De acordo com o personagem, a letra U possui uma espécie de força sobrenatural maligna que é capaz de provocar coisas terríveis às pessoas que com ela mantêm uma relação, como no caso dele, que tem a letra em seu nome.

A primeira vez em que o protagonista demonstra a aversão pela vogal é já na infância, quando encontra imensa dificuldade em aprendê-la decorrente de seu pavor. Sua vida escolar passa a piorar quando o pavor se intensifica a ponto de fazer com que se volte irado contra aos colegas que, sabendo de sua aversão, fazem-lhe provocações.

Na idade adulta, a reação ao U não se mostra diferente, fazendo com que demonstre grande dificuldade em encontrar uma namorada bem como casar-se, já que todas as moças pelas quais se apaixona têm a letra U em seu nome.

Dessa forma, abdica de muitas experiências, em sua maioria, comuns à vida de toda pessoa – ser alfabetizado, ir à escola, apaixonar-se – , tudo por conta de sua obsessão pela dita vogal.

Mais tarde, já na idade adulta, priva-se de conhecer pessoas que possuam a letra em seu nome. Aliás, de maneira desobediente à sua crença, ao invés de se afastar da sua mulher, a qual possuía a letra U em seu nome, quis casar-se com ela. Por fim, acaba sendo privado do convívio em sociedade por assassiná-la.

Uma notte mi sentii invaso da non so qual furore: aveva avuto um sogno affannoso... Un U gigantesco postosi sul mio petto mi abbracciava colle sue aste immense, flessuose...mi stringeva...mi opprimeva, mi opprimeva...Io balzai furioso dal letto: afferrai la grossa canna di giunco, corsi da un notajo, e gli dissi:

-Venite, venite meco sull’istante a redigere un atto formale di rinuncia...

Quel miserabile si oponeva. Lo trascinai meco, lo trascinai al letto di mia moglie.

Essa dormiva; io la svegliai aspramente e le dissi:

-Ulrica, rinuncia al tuo nome, all’U detestabile del tuo nome! [...]

Il suo silenzio, il suo rifiuto mi trassero il senno: mi avventai sopra di lei, e la percossi col mio bastone.8 (TARCHETTI, 1869, p.81).

O trecho acima é o ápice da narrativa, antes de o protagonista ser condenado a passar o fim de seus dias em um sanatório, o que para ele será a redenção da perseguição sofrida desde seu nascimento. Ele tem a certeza, fortalecida por seu sonho, de que deve fazer algo a respeito do U presente no nome de sua esposa, uma vez que, ao se casar com ela, sabendo disso, ele transgrediu uma norma de seu próprio sistema e, por isso, precisa consertar seu erro. Em outras palavras, precisa convencer sua esposa a abdicar do U contido em seu nome.

Meu U me condena

Indubitavelmente, mais do que em qualquer outro conto tarchettiano da coletânea selecionada para a elaboração desse trabalho, La lettera U é a que melhor desenvolve o tema da loucura, do indivíduo acometido de obsessões e monomanias.

O protagonista atribui à vogal U todas as tragédias possíveis, considerando-se predestinado à desgraça por ter a letra U em seu nome: “Io nacqui predestinato. Una terribile

condanna pesava sopra di me fino dal primo giorno della mia esistenza: il mio nome conteneva un U. Da ciò tutte le sventure della mia vita.”9 (TARCHETTI, 1869, p.75-76, grifo nosso.)

Retrata-se, pois, também o sujeito produto da modernidade, entretanto, este não se apresenta como um sujeito forte, destemido, herói de sua própria história, mas alguém debilitado, em permanente confronto consigo mesmo, um sujeito, portanto, fragmentado. A imagem do indivíduo doentio, obcecado, revela-se como um pedido de socorro do homem moderno diante da nova configuração da sociedade e mesmo do mundo como um todo.

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“Uma noite me senti invadido por não sei que furor: havia tido um sonho sufocante...Um U gigantesco postou- se sobre o meu peito, me abraçava com as suas hastes imensas, me apertava...me oprimia, me oprimia...Eu saltei furioso da cama: agarrei o grosso cano de junco, corri até um tabelião, e lhe disse: - Venha, venha comigo um instante para redigir um ato formal de renúncia... Aquele miserável se opunha. Arrastei-o comigo, arrastei-o ao quarto da minha esposa. Ela dormia; eu a acordei asperamente e lhe disse: - Ulrica, renuncia ao teu nome, ao U detestável do teu nome! [...] O seu silêncio, a sua recusa me tiraram os sentidos: me joguei sobre ela e a atravessei com meu bastão.” (TARCHETTI, 1869, p.81, trad. nossa.)

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“Eu nasci predestinado. Uma terrível condenação pesava sobre mim desde o primo dia da minha existência: o

meu nome continha um U. Daí, todas as desgraças da minha vida.” (TARCHETTI, 1869, p.75-76, trad. nossa, grifo nosso.)

Não se trata, portanto, da coletividade, da união de um povo que se identifica e se completa, mas das consequências monstruosas do individualismo exacerbado que coloca o homem defronte ao seu maior inimigo: sua psique.

É importante considerar o contexto sociocultural italiano em que se desenvolve o conto para que se possa compreender os posicionamentos do autor e a forma como busca apresentar o medo através da ótica de seu personagem. Na segunda metade do século XIX, a Itália, que começava a se constituir como um país, já estava passando por inúmeras mudanças e revisões, incluindo-se a necessidade de repensar também suas crenças, em meio a um contexto em que se sobressaíam o cientificismo, a filosofia, enfim, a razão propriamente dita em suas diversas representações, buscando alcançar cada vez mais respostas para as ansiedades e insatisfações experimentadas pelas pessoas, visando abandonar as verdades cegas, baseadas na crença, e caminhar rumo ao esclarecimento, baseado na razão.

Por outro lado, ainda que isso acontecesse, era possível constatar a existência das crenças primitivas em forças desconhecidas, muitas vezes qualificadas como sobrenaturais, as quais mesmo em meio a tanta racionalidade conseguiam sobreviver na mente dos mais diversos cidadãos. Ainda que o contexto histórico europeu estivesse sendo marcado pelos valores alicerçados na razão moderna, a especificidade da integração italiana retomou valores típicos do seu povo, fazendo com que se voltassem os olhos para as suas tradições, comumente cultivadas nos pequenos vilarejos em conjunto com as histórias contadas no

‘focolare’ (em volta da lareira).

Enfim, para que se pudesse alcançar o ponto mais genuinamente italiano, era preciso resgatar o que havia de originário na mente dos cidadãos, inclusive os elementos supersticiosos, típicos, também, em cada localidade. Portanto, a modernização e racionalização da vida se tornaram necessárias para a Itália se adaptar ao novo contexto sociopolítico e econômico europeu. Contudo, esse processo desencadeou-se sem o rompimento com a cultura, a religião e valores preexistentes.

O mundo caminhava para a intelectualização, o conhecimento; elementos claramente racionais, uma vez que as crendices, por aprisionarem a consciência dos indivíduos, acabava por impedi-los de ascender de todas as formas, em especial, no que diz respeito ao intelecto, tornando inatingível a satisfação de suas perguntas, que durante muito tempo se mantiveram sem resposta por conta das crenças incontestáveis.

Tal paradoxo entre o conhecimento libertador (ligado à razão) e a superstição aprisionadora se materializam no conto a cada privação que o protagonista coloca para si por medo de ultrapassar os limites impostos por sua crença negativa em relação à vogal, sendo a

primeira delas a impossibilidade de estudar. O protagonista, por conta de um comportamento alterado em sala de aula, resultado de uma brincadeira dos seus colegas envolvendo a letra U, é expulso e não consegue mais retomar os estudos e, mesmo antes disso, não pôde ser devidamente alfabetizado por ser incapaz de aprender a dita vogal.

Outro importante indício de sua obsessão se mostra na legitimidade que confere ao sistema que ele mesmo criou: para que a esposa renuncie ao U é necessário que se redija um ato formal de renúncia, ou seja, um documento que confira oficialidade e autenticidade ao ato, uma vez que este sistema possui um status de norma e, por isso, não poder se violado e, caso isso ocorra, sua reparação deve ser devidamente documentada.

Além disso, também é possível relacionar a análise do medo sofrido pelo protagonista com o “medo do inadministrável”, discutido por Bauman (2008), que o define como o medo proveniente de toda situação, objeto ou criatura que não se possa controlar. Nesse ponto, há uma aproximação da necessidade de controle exposta por Freud, por meio da qual o indivíduo está, incessantemente, buscando controlar o mundo a sua volta com a intenção, dentre outras, de se sentir seguro em relação ao mundo e ao seu próprio futuro.

Ademais, há o agravante de que, ainda que o medo tenha surgido por criação psicológica do próprio protagonista, não há um ponto fixo correto de onde parta este medo – sabe-se que ele está conectado à letra U, mas sua forma de manifestação não é possível determinar – fazendo com que este medo não seja palpável. Ou seja, o personagem não sabe ao certo do que se proteger, do que sentir medo, o que potencializa ainda mais a manifestação deste sentimento em sua mente.

O medo é mais assustador quando difuso, disperso, indistinto, desvinculado, desancorado, flutuante, sem endereço nem motivo claros; quando nos assombra sem que haja uma explicação visível, quando a ameaça que devemos temer pode ser vislumbrada em toda parte, mas em lugar algum se pode vê-la. ‘Medo’ é o nome que damos a nossa incerteza: nossa ignorância da ameaça e do que deve ser feito – do que pode e do que não pode – para fazê-la para ou enfrentá-la, se cessá-la estiver além do nosso alcance. (BAUMAN, 2008, p.8).

Seguindo esta noção de medo para se interpretar a situação da personagem no conto, visualiza-se essa onipresença do medo que, neste caso, está nos objetos, nos nomes das pessoas, nos mais diferentes livros, enfim, em todo lugar. O medo, aqui, está presente na letra U, estando, portanto, parcialmente definido. No entanto, não se limita a esta letra: estende-se a todas as manifestações que ele possa assumir, fazendo com que o protagonista adentre em um estado de furor profundo e arrebatador por não poder definir de que ponto específico virá o

seu próximo ataque. Ainda, para piorar sua situação, fica à mercê da própria vida aguardando o momento em que se deparará com o ‘grande medo’, o qual, com sorte, fará cessar seu sofrimento por meio da morte.

O fato de o medo presente no conto ser fruto da superstição do personagem, potencializa a onipresença desse sentimento, conferindo-lhe a vantagem de poder surgir de qualquer ponto, por qualquer motivo, uma vez que uma das principais características da superstição é ser considerada arbitrária, não necessitando de uma justificativa lógica para ser admitida em qualquer contexto.

No final do conto, o personagem, por já possuir um histórico agressivo, é condenado a passar o resto de sua vida em um hospício, onde acaba morrendo em 11 de setembro de 1865, e mesmo em seus últimos momentos, sua crença o mantém preocupado acerca da humanidade, na necessidade de abolir a letra U do mundo, inclusive. Sua última fala se assemelha a uma espécie de profecia, segundo a qual, em sua visão, ele morre como um mártir cujo exemplo deve ser seguido pelos demais para que o mundo se purifique, conforme ilustra o trecho:

Forse la mia sventura sarà un utile ammaestramento agli uomini; forse il mio esempio li spronerà ad imitarmi...[...]

Che la mia morte preceda di pochi giorni l’epoca della loro grande emancipazione, dell’emancipazione dall’U, dell’emancipazione da questa orribile vocale!!!10 (TARCHETTI, 1869, p.82).

Baseado neste desfecho, o conto se encerra demonstrando a força influenciadora que a superstição tem sobre as pessoas, deixando claro que, mesmo que o mundo progrida, mesmo que caminhe rumo à racionalização, a superstição sempre habitará o lado mais primitivo da mente humana e terá o poder de controlá-la de acordo com uma força arbitrária que pode se pautar em qualquer objeto, agregando-lhe determinado valor – positivo ou negativo – sem qualquer necessidade de justificativa lógica. Isso acontece no momento em que o protagonista é enviado ao hospital psiquiátrico para que seja analisado seu comportamento, a fim de que, com isso, seja possível encontrar a cura de sua doença. Ou seja, por um lado, têm-se o triunfo dos elementos deste processo de racionalização da vida expostos do envio do protagonista para o hospital: o estudo racional do comportamento (análise) com vistas à solução racional

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“[...]Talvez a minha desventura seja um útil ensinamento aos homens; talvez o meu exemplo os estimule a me imitar... [...] Que a minha morte preceda poucos dias a época da sua emancipação, da emancipação do U, da emancipação desta horrível vogal.” (TARCHETTI, 1869, p.82, trad. nossa)

de sua doença (busca da cura). Por outro lado, há paradoxalmente o triunfo do medo, fruto da superstição do personagem, que com ele caminhou até o momento de sua morte.

A partir da breve a análise do conto tarchettiano, constata-se que o medo se constitui genuinamente de tudo que não pode ser explicado, que é desconhecido e que foge ao controle das regras humanas; em outras palavras, o que não pode ser controlado, deve ser temido.

Em uma época em que começava a se desenvolver a racionalização, a busca pelo conhecimento do mundo, tudo que não pudesse ser explicado por meio da razão causava uma imensa sensação de mal-estar, uma vez que o ser humano caminha em direção ao conhecimento, procurando abandonar a ignorância que o aprisiona.

Por outro lado, neste mesmo cenário, resistia a superstição, o veículo que liga o homem às forças sobrenaturais, aos grandes medos, que o impedem de libertar-se das amarras da ignorância; o mesmo veículo que transporta o medo de época a época, impossibilitando a completa racionalização do mundo e dos elementos que o circundam.

Dessa forma, pode-se concluir que principalmente por meio da superstição é que o medo se mantém vivo e se manifesta nas mais diversas formas, adequando-se a cada época, de acordo com os anseios que lhe são próprios, evidenciando sua impossibilidade de extinção. Em outras palavras, enquanto o homem existir sentirá medo, pois este reside no que não se pode controlar, no que se desconhece. Enfim, como o desconhecido se encontra logo ali, na próxima estação, só é preciso que o medo suba em sua locomotiva-superstição e viaje tranquilamente por cada época preenchendo cada assento que a razão deixou vago.

Em terra de Tarchetti, quem não tem um U é rei...

Um aspecto importante que não pode ser deixado quanto ao procedimento utilizado pelo autor neste conto, é a exploração das interpretações que dá a cada uma das vogais, ressaltando o caráter maligno do U ao compará-lo com as impressões positivas exaladas pelas demais vogais.

Esse procedimento evidencia o caráter experimentalista de Tarchetti ao explorar os signos e seus significantes, revelando o interesse do autor pelo jogo com as palavras. Seu interesse não se limita à interpretação fônica, mas é ampliado até a expressão gráfica da letra, o que servirá de embasamento para que alguns críticos considerem esse seu gosto como uma antecipação futurista.

Por fim, neste conto, assim como se percebeu durante a análise, não há nenhum monstro ou criatura sobrenatural, nem mesmo qualquer situação cuja natureza se enquadre em

um espaço paralelo. Contraditoriamente, o que não é compatível com o mundo tal como nós o conhecemos é o comportamento do protagonista diante de um elemento pertencente ao universo coletivo, cuja natureza nada tem de sobrenatural: a vogal U. Não há hesitação ou incerteza quanto ao fato narrado, as informações fornecidas preenchem claramente sua função de apresentar ao leitor uma história cuja trama e o desfecho levem-no a impressionar-se e, principalmente, a colocar-se no lugar do protagonista.

O ponto principal da narrativa, conforme mencionado em momentos anteriores, é a obsessão do protagonista pela letra a qual é oriunda de um medo incomensurável. Mas o que pelo que esse medo é movido? Provavelmente pela necessidade de sobrevivência. O personagem principal busca de todas as formas esquivar-se do que acredita ser a origem de todo mal ocorrido e prestes a ocorrer em sua vida – vogal U -, buscando, portanto, manter-se intacto, ileso a esse mal, o que, dito de outro modo, nada mais é do que manter-se vivo. A partir do momento em que ele acredita não haver mais saída, entrega-se totalmente à condição de louco, aceitando passar o resto de seus dias em um manicômio aguardando a morte, mal do qual tentou se desvencilhar todos os dias de sua vida.

Antes de finalizar a análise, não se pode deixar de notar a fenda interpretativa que leva à associação deste conto a um plano autobiográfico, uma vez que o segundo nome de Tarchetti é Ugo. Entretanto, este não foi um nome recebido no batismo, mas que o próprio escritor agregou em homenagem a Ugo Foscolo. Além disso, assim como foi apontado na análise do conto Le leggende del castello nero, Tarchetti mantinha uma postura extremamente pessimista em relação ao mundo, assim como um gosto indiscutível pela psique humana. Diante disso, fica a seguinte indagação: teria Tarchetti vivido um destino semelhante ao de nosso protagonista?

Com isso, pode-se afirmar que o medo excessivo, mote para o desenvolvimento desse conto, explora, assim como ensinou Bauman, que o medo ganha um status de força tão absoluto em decorrência de sua ubiquidade, fazendo com que o mal não esteja apenas nos seres sobrenaturais, mas em cada elemento, ainda que natural, dependendo apenas do valor que lhe atribuímos e do ângulo pelo qual o miramos. Para alguns, é apenas a vogal U, para outros é o UUUUuuuuuuu.