Os elementos de mobilização, atividade e sentido que nos interessam serão revelados por meio das narrativas de histórias de vida dos sujeitos da pesquisa. Para entender e interpretarmos essas narrativas, utilizaremos as teorias
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da autora Christine Delory-Momberger (2008) como base para nos fundamentarmos. Quanto às histórias de vida a autora enfatiza que:
O ser humano apropria-se de sua vida e de si mesmo por meio de histórias. Antes de contar essas histórias para comunica-las aos outros, o que ele vive só se torna ele mesmo por meio de figurações com as quais representa sua existência. A primeira dessas figurações, a mais matriarcal e abrangente, aquela que de certa maneira enquadra a infinita multiplicação das histórias humanas, concerne ao desenrolar da vida. (MOMBERGER, 2008, p. 35).
Momberger (2008) salienta que o ser humano vive, mas apesar de viver não se apropria (rapidamente) da sua história, todavia isso somente é possível, através das representações internalizadas de sua existência. A partir deste processo ele consegue transmitir (comunicar) aquilo que viveu. Portanto, as pessoas se apropriam de si e de suas vidas através de suas histórias. Aplicando estes conceitos a nossa pesquisa entendemos que as histórias narradas pelos sujeitos da pesquisa irão potencializar os elementos de mobilização, atividade e sentido.
Quanto ao fato biográfico e a narrativa de vida Momberger (2008, p. 36) explica que quando queremos nos apropriar das nossas vidas, nós precisamos narrá-la, assim:
O que chamamos de fato biográfico é esse viés da figuração narrativa que acompanha o percebido de nossa vida, esse espaço-tempo interior segundo o qual representamos o seu desdobramento, sobre o qual nos situamos, sem conhecer exatamente o momento e o lugar que o ocupamos na figura de conjunto que lhe atribuímos. (MOMBERGER, 2008, p. 36).
Logo, conforme a autora o fato biográfico é representado pelas impressões percebidas e internalizadas sobre nossas vidas, que são construídas ao longo do tempo, e no qual nos situamos. A ponte entre as histórias e o vivido são as mediações.
É a narrativa que confere papéis aos personagens de nossas vidas, que define posições e valores entre eles; é a narrativa que constrói, entre as circunstâncias os acontecimentos, as ações, as relações de causa, de meio de finalidade; que polariza as linhas de nossos enredos entre um começo e um fim e os leva para sua conclusão; que transforma a relação de sucessão dos acontecimentos em encadeamentos finalizados. (MOMBERGER, 2008, p. 37).
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Portanto, a narrativa possibilita a nós a possibilidade de “definir” papéis em nossas vidas. Nos colocamos como protagonistas de nossas histórias, traçamos história e fatos que tenham a nós como ponto de referência no tempo e no espaço na qual, também se referem às relações de causa e efeito.
Quanto a representação que temos da nossa existência, Momberger, (2008) afirma que, cada um representa sua existência segundo trajetórias e construções diferentes que integram as restrições, os valores, as dinâmicas ou o peso de seu meio socioprofissonal.
Entretanto, é importante ressaltar toda a relevância das narrativas na representação que temos de nossa própria existência, pois sabemos que,
Essa escrita pela qual tornamo-nos os recitantes da nossa vida, nos inscreve na história e na cultura. A imersão do fato biográfico na linguagem da narrativa remete à historialidade das linguagens da narrativa: as histórias que contamos de nossa vida escrevem sob as condições sócio-históricas da época e da cultura (das culturas) às quais pertencemos. Há uma história do “narrar a vida”, como há uma história (uma historialidade) do “indivíduo” da “consciência de si” do “sujeito”. (MOMBERGER, 2008, p. 37).
Percebe-se então que a linguagem da narrativa está posta sob a ideologia da cultura, e também dos fatores sociais, todos esses elementos influenciam nas narrativas de histórias de vida.
Quanto a construção biográfica e a educação Momberger (2008) destaca que a história da vida acontece na narrativa, ou seja, por meio dela, acontece também no momento em que narramos, no momento em que sintetizamos nosso pensamento para realizar a atividade de narrar. Sobre a história de vida, bem como a narrativa. É importante salientar que para esta pesquisa nos interessará a narrativa da vida, a qual se limitará a experiências relacionais anteriores ao CEJA e no tempo presente do CEJA, como foi explanado na introdução.
Mas essa operação de configuração é, primeiramente, uma operação discursiva: a narrativa é não apenas o meio, mas o lugar: a história de vida acontece na narrativa. O que dá forma ao vivido e à experiência dos homens são as narrativas que eles fazem de si. Portanto, a narração é o lugar no qual o indivíduo toma forma, no qual ele elabora e experimenta a história de sua vida. Essa dimensão formativa da narrativa biográfica evoca uma série de questões sobre natureza das operações que realiza sobre o vivido, e a maneira pela qual integramos em nossa experiência biográfica as situações que acontecem conosco ou que nos são narrados por alguém. (MOMBERGER, 2008, p. 56).
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A autora salienta a relevância da narrativa biográfica, posto que ela é descrita como o lugar por meio do qual a vida acontece, portanto ela não é tão somente um meio, todavia nesta construção é considerada um fim. Nessa perspectiva, a narrativa se apresenta como sendo responsável por possibilitar, conforme Momberger (2008) o formato as vivências, bem como as práticas dos sujeitos, através do qual, o homem ganha a capacidade de executar e vivenciar a própria história de vida. Portanto, a autora caracteriza a narrativa como formativa, constitutiva, bem como construtiva a qual propõe reflexões acerca da natureza das intervenções exercidas em prol daquilo que foi vivenciado e como unimos às nossas narrativas biográficas os acontecimentos os quais somos expostos durante nossas vidas e que são contados por outras pessoas.
A construção biográfica inscreve-se numa dinâmica temporal que articula estreitamente três dimensões – passado, presente e futuro – mas na qual a projeção do por vir desempenha um papel motriz. Num plano bem cotidiano, passamos a maior parte do presente de nossa vida a projetar, a antecipar o que faremos dentro de uma hora, no dia que virá, no ano que começa, quando formos “grandes”, quando formos “velhos”. Não cessamos de prever, planejar e organizar nossas atividades. (MOMBERGER, 2008, p. 63).
Nesse trecho da explanação a autora chama a atenção para a movimentação temporal a qual a construção biográfica está inserida. Segundo Momberger (2008) trata-se de uma dinâmica que engloba as três dimensões que são: o passado, o presente e o futuro. Diante disso a autora esclarece que é a descrição projeção, ou seja, é o planejamento do futuro que gera esse impulso, ou ainda que funcionam como uma força motriz, pois conforme a autora, boa parte do tempo, nós dedicamos a antecipar, ou seja, planejar, aquilo que será feito nas horas subsequentes do dia, nos dias subsequentes do ano, ou ainda quando atingirmos determinada idade. Toda essa ansiedade a qual somos expostos é descrita pela autora afirmando um estado permanente, o qual, dedicamos e empenhamos boa parte do nosso tempo a antecipar nossas tarefas distribuídas ao longo do tempo.
Quanto a definição de construção biográfica Momberger (2008).
A construção biográfica é, pois a tentativa – necessariamente inacabada e indefinida reiterada – de reduzir a distância do eu de seu projeto primordial. Pode-se, algumas vezes, representar a narrativa da vida como uma forma de balanço prospectivo, apresentando o estado de uma relação com o possível e buscando no reconhecimento passado, pontos de referência para
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o futuro [...] O impulso do projeto de si permite fazer acontecer a fábula de uma história que desenha um futuro possível e se concretiza em projetos singulares. (MOMBERGER, 2008, p. 65).
Conforme Momberger (2008) sobre a conceituação de uma construção biográfica e que tem relação direta com as narrativas de histórias de vida, a autora salienta tratar-se de uma possibilidade, bem como teste para diminuir o distanciamento entre o eu (ou seja, tudo aquilo que o homem construiu e trouxe internalizado, assim como a imagem que ele tem e formulou de si mesmo ao longo de sua vida, denominado pela autora como projeto primordial, mas que poderá ser compreendido com que esse sujeito apresenta de um balanço prospectivo, ou seja, trata-se de uma projeção em relação ao futuro, em relação aquilo que está por vir nas suas vidas.
A autora utiliza o termo balanço prospectivo para caracterizar a narrativa de vida, onde, algumas vezes, a maneira como narra a vida significa uma forma de adiantar o que está no futuro, ou seja, aquilo que tentamos, avistamos ou buscamos antecipar em nosso futuro, tanto para os dias quanto para os anos subsequentes, uma vez que, segundo Momberger (2008) buscasse a construção de reconhecimento no passado enquanto ponto de citação para aquilo que virá, que irá acontecer. Na definição da autora trata-se, pois, de uma projeção dos planejamentos que fazemos de nós mesmos e isto implica em produzir uma história que projeta esse futuro de possibilidade, e, portanto realizar tarefas singulares.
Quanto a cultura da escola e da socialização, Momberger (2008, p. 117) busca identificar como é a cultura escolar predominante e para isso ela inicia explicando como as expressões “matérias de ensino” e “transmissão de conhecimentos” não são adequadas.
Como “saberes” ou “saber- fazer”, os alunos devem integrar os tipos de discurso sob os quais esses saberes a saber-fazer se manifestam e que a história e a tradição escolar progressivamente fixaram em formas impostas. Essa predominância dos signos e dos discursos é característica da cultura escolar, de duas maneiras: por um lado, do modo indireto de apreensão do mundo, que é o da escola, e por outro lado, da maneira como a escola, os saberes e os signos valem para eles mesmos e por eles mesmos. (MOMBERGER, 2008, p. 118).
É importante conhecer o que a autora discorre nos parágrafos antecedentes ao referenciado, no caso, ela busca definir a cultura que é difundida
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das escolas e, para isto, ela nos explica que o ambiente escolar é um lugar onde se empregam signos, bem como os discursos ao invés de conteúdos e matérias. Ela cita Borderie (1991) e afirma que “os docentes não ensinam os denominados conteúdos, como muitas vezes é afirmado pelo meio social e pelo senso comum, porém, eles transmitem signos os quais são estruturados em forma de discursos”.
Conforme Momberger (2008) esses elementos (signos organizados) advém de registros científicos e didáticos. Nessa perspectiva Momberger (2008) estabelece a conexão entre o termo “saberes” relacionando com modos e expressões linguísticas, e o termo “saber-fazer”, relaciona às expressões e a modos não linguísticos, ação exercida. Ela utiliza esses dois termos aproximando-os para afirmar que eles devem fazer parte do discurso dos alunos, uma vez que tanto a escola como a tradição escolar fixaram em um formato imposto transmitindo, assim, os signos e não os conteúdos como era pensado anteriormente. Ela afirma que os signos, bem como os discursos prevalecem e que isto é atribuição da cultura escolar. Conforme Momberger (2008) isso se deve a uma maneira indireta de compreensão do mundo.
Quanto à experiência que a escola promove Momberger (2008) prossegue explicando o que seria o termo “experiência vicária”, qual sua relação com os signos e sua influência para a cultura das sociedades modernas.
Em um livro antigo, Abraham Moles (1967) propôs o termo experiência vicária. Para descrever a cultura das sociedades modernas como uma cultura de mediação pelos signos e imagens e para designar a maneira como os membros dessas sociedades dependem deles, nas mediações produzidas por outros, para ter “experiências vicárias”. A escola instituiu a experiência vicária como modelo dominante da relação com o mundo e o saber. (MOMBERGER, 2008, p. 118).
A autora explicou nos parágrafos anteriores que a prevalência dos signos, assim como dos discursos é uma qualidade da cultura exposta, muitas vezes, no meio escolar. Ela explica ainda que a essência da escola se contradiz, ou seja, não concorda com a relação vivencial do mundo, a qual afirma ser necessário retirar as crianças, bem como adolescentes com o intuito de instruí-los tanto sobre o mundo quanto sobre eles mesmos. Portanto, em uma obra o autor Abraham Moles (1967) a experiência vicária é relativo às características das sociedades modernas, através
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dos signos, bem como das imagens para relatar a maneira como esses dependem deles.
Sobre o ambiente escolar a autora inferi que a escola não se limita a descrição de ambiente tão somente dedicado a aprendizagem, visto que compreende também um local de cenários biográficos. Sobre o projeto da escola e o projeto de si Momberger (2008, p. 136) destaca,
Antes de ser reconhecido como um espaço funcional dedicado às aprendizagens, o meio escolar é um espaço físico e relacional aberto a um grande número de figurações e de cenários biográficos. Em suas múltiplas subdivisões, esse espaço é susceptível de investimentos variados: sala de aula, pátio de recreio, lugares de circulação, sala de direção, serviço administrativo, etc. Cada um desses espaços demanda um investimento físico, psíquico e social, em que o aluno mobiliza ou põe em cena figurações de si diversificadas.
Portanto, Momberger (2008, p. 136) afirma que esse ambiente escolar representa também um ambiente relacional o qual abrange uma quantidade considerável de figurações e cenários biográficos. Ela possui suas divisões, as quais, são passíveis de diversos investimentos, tais como: sala de aula, serviço administrativo, pátio de recreios, dentre outros. Aplicando isto para a realidade da Educação de Jovens e Adultos temos: a biblioteca, sala de avaliação, sala de canto, coordenação, sala de direção, dentre outros. Conforme autora, as especificidades desses ambientes possibilitam investimentos psicológico, social, sociológico, os quais os estudantes se mobilizam e dispõem de figurações e também diversificações.
Momberger (2008) descreve sobre a constituição do objeto da escola e qual sua relação com a aquisição de saber, bem como com a experiência escolar. Ela enfatiza também a questão da construção biográfica em meio as experiências da escola e as representações que esses sujeitos formam de si mesmos.
O que constitui o objeto próprio da escola, a aquisição de saber e os atos de aprendizagens que constituem a ela, não pode ser abstraído da maneira como os alunos vivem e representam sua experiência da escola e, mais geralmente, da maneira como eles inserem essa experiência, com as aprendizagens e os saberes que a acompanham, em suas representações de si mesmos e em suas construções biográficas. (MOMBERGER, 2008, p. 137).
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Sabemos que os alunos, sujeitos da pesquisa, do CEJA professor Gilmar Maia de Carvalho, possivelmente, tiveram acesso ao ambiente escolar em pelo menos dois momentos da sua trajetória estudantil, antes de interromper as atividades, em momentos anteriores ao ingresso CEJA e quando retomaram sua trajetória escolar. Portanto, quando retornaram ao ambiente estudantil, Momberger (2008, p. 137) versa sobre a biografização do ambiente escolar, o qual ela afirma ser um local de variadas relações, tais como conversas envolvendo entendimento, bem como desentendimentos, alegrias, dentre outros exemplos de representações de si mesmo quanto dos demais alunos.
Em seguida Momberger (2008) discorre sobre o objeto escolar, ou seja, sobre as possíveis formações desse próprio objeto, tais como a aquisição do saber e os atos de aprendizagem que formam este ambiente que não deverá ser da forma como os sujeitos vivem e absorvem a vivência escolar, uma vez que eles acrescentam essas vivências para constituir as construções biográficas, formando imagens de si e também dos outros.
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