3. PREVIOUS RESEARCH AND THEORETICAL PERSPECTIVES 4
3.4 N ORWEGIAN P SYCHO M OTOR P HYSIOTHERAPY
Para chegar à visão total do signo ideológico e a todo embasamento teórico que adiantamos, Bakhtin partiu de dois movimentos dissonantes. Explicaremos o primeiro deles e, mais adiante, retornaremos o segundo para, tal qual Bakhtin, sintetizá-los e agregá-los à teoria/métodos aplicada pelo autor. Assim, teremos um todo da teoria da Filosofia da Linguagem em seus mínimos detalhes.
Para começar, tal primeiro movimento Bakhtin denominou de psicologia objetiva; a conjunção nada mais é a mera recusa da ideia de que a psicologia é maior que a ideologia, existindo um psiquismo interior nos sujeitos que ultrapasse a fronteira dos signos. Basicamente idealista, tal corrente, iniciada por Wilhelm Dilthey31, prega que haveria uma ciência do espírito, espécie de compreensão pelo interior. Daí nasce o nome: subjetivismo idealista. Bakhtin utiliza-se exatamente o processo inverso (exterior) para iniciar a concepção teórica: o fenômeno psíquico só pode ser explicado
31 Wilhelm Dilthey foi um filósofo historicista alemão nascido em 1833. É apontado como criador do historicismo e, como vimos, da ciência do espírito. De 1868 até o fim da vida, em 1911, ocupou a cátedra de filosofia sistemática da Universidade de Berlim, que havia pertencido a Hegel.
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por fatores sociais, que irão determinar a vida concreta dentro das condições do meio onde este se insere (BAKHTIN, 1997, p.47).
Dilthey explicaria o signo por meio do psiquismo, enquanto, na realidade, é o signo que elucida o psiquismo. Desse modo, tudo o que ocorre dentro do organismo é uma expressão semiótica pois, por exemplo, respiração, articulação, mímica possuem capacidade de adquirir valor semiótico (o discurso interior tem a prerrogativa de ser o material ideológico privilegiado do psiquismo). Só que Bakhtin também não pretendia um afastamento e negação total, tornando-se "antipsicologista" ao extremo. Esta atitude, aliás, seria impensável para ele. Para Bakhtin, a psicologia e ideologia têm como fundo o signo ideológico, logo, traçar uma delimitação entre ambas seria impossível. Uma vez mais, ele não nega que o fenômeno ideológico passe pelo psiquismo, pois o signo se banha na consciência como processo anterior à exteriorização. Só que, para Bakhtin, um pensamento que existe somente no contexto da consciência e não ganha o seio social é algo inacabado. Com isso, não nega a individualidade, mas a liga obrigatoriamente ao social. Essa é uma chave conceitual e compreensiva importante, pois não nega o sujeito e tampouco fica refém dele.
O intrigante é que o signo não é da consciência enquanto individual; ele é formado por signos anteriores, aprendidos no corpo social e, por isso, conclui que o psiquismo individual é tão social quanto a ideologia. Assim, a própria conscientização, enquanto indivíduo só é possível porque é um processo social. A exemplificação mais simplória é dizer que já existia uma linguagem antes de nascermos e que esta prevalecerá após morrermos – carregada por outros indivíduos. Mesmo assim, criamos, usamos e proferimos discursos nossos, ou seja, únicos.
Mas, porque então não estamos fazendo desta tese um estudo sobre comunicação e não sobre psiquismo ou linguística pura? Onde é que se estabeleceriam fronteiras? Bakhtin também se fez essa pergunta e explicou que a expressão semiótica exterior (e ele usa do exemplo de uma enunciação) tem dois caminhos: 1 – em direção ao sujeito ou 2 – rumo à ideologia. No primeiro caso, o ato de enunciar (que podemos transformar em comunicar) servirá somente para traduzir o que é signo interior ("o que eu pensei", o que no esquema antigo da comunicação seria tido como "eu-emissor") em signo exterior (o que foi exteriorizado, dito, a "mensagem"). Ainda neste primeiro caso, a exigência seria para o interlocutor, cuja tarefa seria relacionar o que foi enunciado com um contexto interior. Bakhtin chamou tal oscilação de compreensão puramente psicológica.
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Já no segundo caso, o que se requer é uma compreensão ideológica da enunciação, baseada na concretude e na unicidade da experiência real objetiva.
De certa maneira, Bakhtin quebra aquela velha ideia de que temos "gavetas" na cabeça guardando as memórias e ajudando a articular pensamentos. Para o autor, a relação é sempre exterior, os starts são dados de fora e só se realizam dentro (o signo ideológico se realiza no psiquismo, mas tal realização só existe porque existe o suporte ideológico). O destaque fica por conta de estabelecermos uma interação dialética. Na seguinte passagem, Bakhtin explica a intrincada relação:
A atividade psíquica é uma passagem do interior para o exterior; para o signo ideológico, o processo é inverso. O psíquico goza de extraterritorialidade em relação ao organismo. É o social infiltrado no organismo do indivíduo. E tudo que é ideológico é extraterritorial no domínio socioeconômico, pois o signo ideológico, situado fora do organismo, deve penetrar no mundo interior para realizar sua natureza semiótica (BAKHTIN, 1997, p.64).
Assim, passamos por este primeiro momento da teoria bakhtiniana, que é a impregnação mútua entre psiquismo e ideologia dentro do processo das relações sociais. O teórico russo fez tal estudo em resposta ao idealismo do pensamento psíquico como regente mor, inversamente do que ele pregou – mas sem negar totalmente, e sim adaptando e mostrando as relações entre interior e exterior no processo enunciativo.
É comum nos círculos linguísticos explicar tal relação com uma passagem anedótica do livro As Aventuras do Barão de Münchhausen, compiladas por Rudolph Erich Raspe. Em um determinado momento, em um dos feitos, o barão está preso em um pântano e vendo-se sem saída (ou sem possível ajuda próxima) acaba encontrando uma solução incomum: puxa-se pelos próprios cabelos e sai do atoleiro. No mesmo salvamento, o barão ainda resgata o seu cavalo. Aqui temos a comparação do sujeito que se constitui por si mesmo, onde a força (metáfora para os pensamentos) advém de algum lugar milagroso do próprio barão a se autossustentar. Dentro daqueles dois movimentos que dissemos anteriormente, a psicologia objetiva deságua na metáfora do Barão de Münchhausen.
A princípio, o subjetivismo idealista tem o psiquismo individualista como expressão maior. Por meio de Wilhelm Humboldt, o movimento ganhou notoriedade e expressão no campo específico dos estudos de linguagem. A argumentação é praticamente a mesma: o fato linguístico (sentido amplo) é um ato de criação individual. Caracterizado pelo fenômeno que Bakhtin denomina "energia" (divina?) que se transmutaria em um ato de fala, a língua também seria análoga à criação artística e,
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finalmente, um produto acabado em si mesma, estabilizada e inerte onde somente a aquisição prática seria necessária para o uso. A língua seria um produto a ser usado. A comparação última é com uma lava fria, já moldada e praticamente eterna. Humboldt amplificou e complexificou os elementos que dispusemos e influenciou pensadores importantes à época de Bakhtin, como Wilhelm Wundt, Karl Vossler e Benedetto Croce. Todos tinham abordagens distintas para a mesma questão, além do fato de negarem o positivismo.
Portanto, a corrente subjetivista idealista que vimos é ligada a um ato psicofisiológico que engendra formas linguísticas (Bakhtin diz que este pessoal destaca particularmente a fonética) e é onde os homens teriam um gosto linguístico como máquina criacional (cf. BAKHIN, 1997, p.75). Principalmente Vossler, diz o estudioso russo, apegava-se à língua como uma forma estética, sem correlação com fatores sociais, econômicos, etc. A língua seria uma manifestação poética do Belo dotado de Sentido (VOSSLER apud BAKHTIN, 1997, p.75). Deste modo, a linguística seria rebaixada para uma ciência da expressão, meramente voltada para a primazia estilística. No entanto, no âmbito da Filosofia da Linguagem Bakhtin nos apresentou também um contraponto ao "subjetivismo idealista" por nós discorrido: o "objetivismo abstrato". Essa segunda área dominou os estudos por muitos anos, sendo seu fruto mais conhecido a corrente de pensamento denominada estruturalismo. Apresentemos este segundo viés.