• No results found

7048319N 558383Ø Viktig naturtype: -

Lierne kommune

UTM 32: 7048319N 558383Ø Viktig naturtype: -

No período em foco, há que se atentar para a franca continuidade do formato folheto como estratégia de divulgação da propaganda libertária. Trechos de alguma obra clássica do anarquismo impressas num folheto foram decerto a primeira leitura de muitos militantes. O número reduzido de páginas e o papel geralmente de menor qualidade permitiam a redução nos custos de impressão, bem como de envio e distribuição. O preço igualmente tornava-se mais acessível, muitas vezes, permitindo a distribuição gratuita do folheto.

Já no primeiro número do jornal Remodelações, Moacir Caminha exortava os companheiros de ideias ao auxílio para a publicação de textos voltados à difusão libertária entre os trabalhadores, sugerindo um temário próprio voltado para esse fim:

BIBLIOTECA DO POVO TRABALHADOR

Solicitamos aos veteranos do movimento proletário desta cidade e de São Paulo, a sua colaboração no sentido de auxiliar-nos intelectualmente na compilação de uma série de folhetos que pretendemos para a propaganda dos ideais de emancipação humana entre o povo trabalhador, como biografias dos grandes teóricos do socialismo, dos agitadores, dos propagandistas, dos mártires do movimento (Kropotkin, Bakunine, Eliseu Reclus, Louise Michel, Sofia Perowskaia, Francisco Ferrer, etc.) monografias de fatos históricos do movimento proletário (os temerários e as seções de Paris, durante a Revolução Francesa – A Comuna de Paris, etc.), divulgações teóricas (o sindicalismo, neutralidade, ação direta, autonomia do sindicato – Evolução e revolução, etc.) (Remodelações, 18 de outubro de 1945).

Caminha construía, assim, um repertório de leituras voltadas à difusão e esboçava um programa editorial em perspectiva, em que se alinhavam a força da memória e da tradição, nos relatos das trajetórias dos ―grandes vultos‖ do anarquismo; a trajetória particular das ideias e práticas libertárias, as ideias em ação, por meio dos relatos de acontecimentos históricos; e os temas frequentes da discussão doutrinária acerca da dimensão prática dos princípios anarquistas. A natureza da propaganda junto aos trabalhadores, então, privilegiaria a intervenção social libertária, naqueles tempos que se caracterizavam, no dizer de Maria Iêda de Morais, como de ―agitação de idéias, de perturbação de consciências, de exploração política do povo trabalhador‖ (Remodelações, 24/11/1945).

Na Biblioteca do Povo Trabalhador, foi publicado o ―Curso Popular de Sociologia‖, de autoria de Moacir Caminha, no formato de folheto, com 62 páginas, anteriormente apresentado no Remodelações na forma de extratos. Dividido em doze lições, o curso resultava da compilação das aulas de um curso de sociologia ministrado pelo autor e que então apareciam ―modificadas às pressas, ao correr da pena, em vista da urgência de reiniciar a propaganda do ensino das ciências sociais entre o povo que trabalha e sofre‖, o que sugeria a continuidade das publicações e da difusão libertária naquele período. Como afirmou Gonçalves, embora não se possa precisar em que condições era

ministrado o curso, nem o seu alcance, antes de sua conversão ao formato de folheto,

[...] o simples fato de Caminha ter elaborado um curso de sociologia que, em linguagem acessível, tenta transmitir as idéias libertárias para um público popular, é uma iniciativa relevante do ponto de vista educacional e militante, principalmente nesse período em que o movimento anarquista enfrentava grandes dificuldades organizativas, em resultado da repressão e desmobilização que atingia grande parte dos ativos militantes dos anos 1920 (GONÇALVES In: ADDOR; DEMINICIS, 2009, p. 113).

Ilustração 24 – Folha de rosto do Curso popular de Sociologia, de Moacir Caminha. Rio de Janeiro, 1945. A publicação do seu curso no formato do folheto era, de fato, a continuação da propaganda já reiniciada com o aparecimento do Remodelações. Em 25 de outubro, o jornal anunciava à venda o Curso popular de Sociologia, ao preço de Cr$ 1,00 (o mesmo valor do periódico), reproduzindo-lhe o sumário descritivo. Não identificamos nesta pesquisa outros títulos da Biblioteca do Povo Trabalhador. É provável que a manutenção do jornal, que já exigia a superação de obstáculos de toda ordem e a alocação de muitos recursos, foi, naquele momento, privilegiada em relação à propaganda por outros meios.

A circulação dos folhetos atesta o intercâmbio entre os militantes anarquistas de vários países. De mais fácil reprodução e distribuição, os folhetos cruzaram fronteiras e o Atlântico, fruto do esforço da atividade militante

mundo afora. A diáspora a que foram submetidos os militantes do movimento libertário espanhol, por exemplo, permitiram que chegassem de vários países a literatura libertária. Recebidos em consignação para a venda, ou mesmo como apoio para o fortalecimento da imprensa libertária local, os folhetos foram fartamente anunciados desde os primeiros números da imprensa libertária do período estudado nesta tese.

A publicação de folhetos ou livros era acompanhada de uma campanha de divulgação nos periódicos. Em 1946, Ação Direta listava as publicações estrangeiras que recebia com regularidade, destacando sobretudo a atividade do movimento libertário espanhol no exílio. Do México, um dos países que recebeu grande leva de espanhóis exilados, vinham Tierra y Libertad, porta-voz do Movimento Libertário Espanhol; Solidaridad Obrera, órgão da Delegação Mexicana da CNT espanhola; Estudios Sociales e Inquietudes, ambas revistas publicadas pelo movimento anarquista espanhol naquele país; Regeneriación e Espartaco, órgãos da Federação Anarquista Mexicana.

Da França, vinham Ruta, das Juventudes Libertárias em Toulouse, Libertad, do movimento libertário espanhol na cidade de Rennes; e C.N.T e Solidaridad Obrera, ambos porta-vozes da Confederación Nacional de los Trabajadores espanhola, sediada em Toulouse.

Do norte da África, da Argélia, vinha também Solidaridad Obrera. Cultura Proletaria, longevo jornal anarquista publicado em espanhol nos Estados Unidos, vinha de Nova Iorque e L‟Adunata dei Refratari, jornal anarquista italiano chegava de Nova Jersey. Da Inglaterra, vinha Freedom Through Anarchism, publicado em Londres; e da Suécia recebia-se regularmente Dack on Durk, órgão dos trabalhadores marítimos de Estocolmo. De Buenos Aires, recebiam La Protesta, um dos veteranos da imprensa libertária sul-americana (Ação Direta, 1/6/1946).

Em várias edições dos jornais brasileiros encontramos uma listagem de publicações estrangeiras recebidas. Delas publicavam notícias, extraíam traduções, exercitavam, enfim o internacionalismo, tomando pé da atividade libertária nos outros países. No mesmo número, Ação Direta divulgou extensa lista de folhetos recebidos do movimento anarquista espanhol em Bordeaux, entre os quais Organización de la Educación Nacional, de José Tapia (1945);

El Sindicalismo y la Anarquia, de Soledad Gustavo; Errico Malatesta, de Max Netlau (1945); Hacia uma Federación de Autonomias Ibericas, de Felipe Alaiz; Breves Apuntes sobre las Pasiones Humanas, de Ricardo Mella e El Movimiento Cooperativista en Suecia, de Agustin Souchy.

A imprensa e os folhetos chegados de outros países ficavam à disposição da leitura na redação do Ação Direta. Constituíam, assim, espécie de biblioteca coletiva, onde os militantes e outros leitores do jornal podiam dispor de livros, periódicos, folhetos. Aqueles que chegavam em maior quantidade, imediatamente eram anunciados à venda:

Rudolf Rocker – La Influencia de las Ideas Absolutistas en el Socialismo. 10 cruz.

Martin Gudell – Verdad sobre Rusia, excelente reportagem reveladora do paraíso soviético. Dispomos de muitos exemplares ao preço de 30 cruz (Ação Direta, 10 de abril de 1946).

Outros folhetos ganhavam divulgação maior no próprio jornal, servindo aos seus artigos de fundo. Foi o caso da resenha do professor Seraphim Porto a propósito do folheto La Bancarrota Fraudulenta del Marxismo, em que se discutiam pressupostos da obra de Marx acerca da transformação social. O folheto de 103 páginas fora publicado no México, por Eusébio C. Carbó, pelas Ediciones Orto, em 1941, e pelas páginas do Ação Direta, multiplicava sua difusão (Ação Direta, 29/6/1946).

Em alguns casos, a publicação dos folhetos poderia servir à propaganda libertária em períodos em que as dificuldades não permitiam o aparecimento regular da imprensa anarquista. É o que se depreende da divulgação que, em São Paulo, faz A Plebe de folheto de Luce Fabbri,68 em que chama atenção às qualidades literárias e metodológicas da autora:

LIVROS E FOLHETOS

La Libertá Nelle Crisi Rivoluzionarie

Luce Fabbri – Acabamos de receber este folheto editado por Studi

Sociali, de Montevideo, em que Luce Fabbri, que é continuadora da

obra do velho camarada que foi Luiggi Fabbri, seu pai, faz uma exposição histórica do conceito de revolução, analisando com critério científico, as causas que determinaram o movimento revolucionário espanhol.

Estuda nesse folheto a situação do princípio de liberdade nos períodos de decadência revolucionária, citando fato e concluindo com

68Sobre a trajetória de Luce Fabbri, ver: RAGO, Margareth. Entre a História e a Liberdade. Luce Fabbri e o anarquismo contemporâneo. São Paulo: Editora UNESP, 2001.

uma argumentação fora do comum, o que torna a leitura não só agradável, mas instrutiva e necessária aos militantes do anarquismo. Aproveitamos a oportunidade para realçar a obra que Luce Fabbri vinha realizando através da revista ―Studi Sociali‖, que infelizmente, por dificuldades econômicas, não tem aparecido, mas que constituia uma das mais belas e bem-feitas publicações do mundo anarquista e que agora, transitoriamente, passa a ser substituida por uma série de folhetos (A Plebe, 1º de outubro de 1947).

Em verdade, a publicação de folhetos, calendários, separatas e suplementos aos jornais adensavam as possibilidades da propaganda libertária. Era propósito de grande parte dos grupos editoriais de jornais reunir condições para publicar também noutros formatos as ideias ácratas, e os folhetos estavam entre os formatos preferidos.

Fundamental, primeiramente, manter a regularidade dos periódicos, mas a variação nos formatos era um horizonte sempre vislumbrado, como assinalava o Ação Direta, em meio aos recorrentes pedidos por auxílio financeiro ao jornal: ―Tão pronto o número de contribuições ultrapasse as necessidades de Ação Direta, empreenderemos a publicação de folhetos e, quase certo, um suplemento cultural (ciência, literatura, artes, música, etc.)‖ (Ação Direta, 29/6/1946).

Era sobretudo na facilidade de circulação que repousava a prática de converter textos doutrinários em folhetos. As pequenas publicações eram, muitas vezes, a fonte do primeiro contato com as ideias libertárias, o despertar do interesse que conduziria à busca de aprofundamento. Era comum os militantes mais experientes terem sempre à mão um folheto com o qual se pudesse fazer um regalo a um jovem ―anarquista em potencial‖, cioso de melhor conhecer a ―Ideia‖.

Para permitir essa divulgação mais ampla, fazia-se necessário ―imprimir a resistência‖ e adensar a obra de propaganda, como encorajava o anarquista Carlos Valesella, respondendo por carta à circular de convocação ao Congresso Anarquista de 1948. Louvando a iniciativa da promoção do certame, o qual considerava ―meio de travar relações pessoais, soldando os elos de uma recíproca amizade e confiança‖, lamentava a ausência no congresso e recomendava:

Não tenho sugestões a vos dar. A única que poderia sugerir é que concentrem todos os esforços na propaganda exercida, em vista da falta absoluta de publicações no movimento; difundindo se possível

em folhetos gratuitos, de forma sintética, singela e sem violência de linguagem ou palavras triviais, a beleza do ideal anarquista e a utilidade do seu conhecimento, comentando os fatídicos acontecimentos sociais do momento. Será um meio para abrir caminho no seio das grandes massas inertes, do povo indiferente aos problemas que lhe diz respeito (VALESELLA apud RODRIGUES, 1994, p. 147).

Frutos desse anseio, foram publicados, em 1951, pelo grupo editor do mensário carioca, dois folhetos que iniciaram a série ―Cadernos de questões sociais‖. A escolha do primeiro número dos ―Cadernos‖ recaiu sobre o conhecido texto de propaganda ―O evangelho da hora‖, de Paulo Berthelot que, tendo conhecido anteriormente o formato de folhetim no próprio jornal, aparecia agora em folheto de 16 páginas. O segundo número da série foi ―Histórico do Primeiro de Maio: os mártires de Chicago‖, de autoria de Serafim Porto, a cuja pena se deveu também o prefácio do folheto de Berthelot. Os dois volumes foram imediatamente anunciados à venda pelo jornal, à importância de Cr$ 4,00 e encontrados também na banca de revistas da Galeria Cruzeiro na Avenida Rio Branco, tradicional ponto de venda dos jornais libertários no Rio de Janeiro, onde se podiam adquirir inclusive os estrangeiros Solidaridad Obrera, do México e L‟Adunata dei Refratari, dos Estados Unidos.

A distribuição da imprensa libertária, dos folhetos e outros impressos em bancas de revistas era outra estratégia de divulgação e ampliação de sua visibilidade. É sintomática, ainda, da circulação dos libertários pela cidade e dos laços de afinidade que se vão estabelecendo. ―PROCURE SEMANALMENTE NAS BANCAS DE JORNAES‖, carimbava o Ação Direta em letras vermelhas a parte superior de sua primeira página. Os lugares de distribuição nas bancas da cidade, bem localizadas nas esquinas de grande afluência dos trabalhadores, assim como nos pontos de bonde, de lotação dos trens e em frente à Light, dão-nos a conhecer uma geografia da circulação dos impressos anarquistas e, como possível, em cada banca um potencial apoiador:

AÇÃO DIRETA

Encontra-se a venda no centro, na seguintes bancas: Na E.F.C.B. (na rampa de saída).

Na E.F.C.B.(no ponto de lotação de Copacabana). Em frente à Light.

Na Rua Marechal Floriano, esquina da Conceição. Visc. de Inhaúma, esquina de Av. Rio Branco.

Av. Rio Branco, esquina de Sete de Setembro. Galeria Cruzeiro, esquina de Bittencourt da Silva. Av. Rio Branco, esquina de Bittencourt da Silva. Lapa (ponto de bondes).

Uruguaiana, esquina de Alfândega.

Largo de São Francisco, esquina de Andradas. Praça Tiradentes, esquina de Av. Passos. Av. Getúlio Vargas, esquina de Uruguaiana. Av. Almirante Barroso, esquina de 13 de Maio. R. Araújo Pôrto Alegre, esquina de R. do México. PREÇO: Cr$ 2,00 (Ação Direta, jul. 1956)

Essa geografia era comum à estratégia de distribuição, tentando alcançar seu público e expondo nas bancas bem localizadas seus impressos. Algumas vezes, determinadas bancas cumpririam, nesta nova cartografia das folhas anarquistas, a função de juntar os leitores dispersos, como em outros tempos o foram as banquinhas de sapateiro, os pequenos salões de barbearias e alguns cafés. Nesse caso, terão sido as bancas, em maioria, o lugar desse impresso, ainda que algumas livrarias se dispusessem a expor e vender as publicações libertárias, como se verá neste trabalho. Para incrementar tal difusão, com frequência se anunciavam campanhas para tiragens de folhetos voltados à distribuição gratuita:

O GRUPO DE AÇÃO LIBERTÁRIA propõe a todos os companheiros e amigos leitores a edição de um folheto com os princípios fundamentais do anarquismo e destinado a distribuição gratuita entre os operários e pessoas interessadas. Para tanto precisamos de fundo monetário. Tôdos os que estiverem de acordo com o exposto queiram enviar suas contribuições e sugestões para: Manuel Peres, Caixa Postal 4588, G. A. L. Distrito Federal (Ação Direta, mai-jun/1952).

Ao lado das publicações locais, cuja matéria poderia vir inclusive da intervenção política dos anarquistas na sociedade – como o folheto ―O escritor e a defesa da liberdade‖, de Raul Vital, apresentado originalmente como tese ao IV Congresso Brasileiro de Escritores, e oferecido à venda por Cr$ 5,00 - continuavam a chegar os folhetos impressos pelo movimento libertário de outros países, que Ação Direta anunciava, em castelhano, entre as ―Leituras que recomendamos‖. ―Socialismo Y Humanismo‖, de Ernestan, impresso em Buenos Aires, era oferecido ao preço de Cr$ 5,00, mesmo valor pelo que se podia adquirir ―El Anticomunismo, El antiimperialismo y la paz‖, de Luce Fabbri. Ao custo de Cr$ 1,00, vendiam-se os folhetos ―La Ley y la Autoridad‖, de Kropotkin, e ―La Mujer y la Revolución‖, de F. Stackelberg (Ação Direta, jun-

jul/1951). Antes, em 1948, era anunciado à venda à razão de Cr$ 5,00, ―Karaganda! La Tragedia del Antifascismo Español‖, editado naquele ano pelo movimento libertário espanhol no exílio, denunciando a prisão de antifascistas espanhóis no campo de concentração na Sibéria (Ação Direta, 15/9/1948).

A necessidade de ampliação da propaganda libertária pela divulgação de seus impressos redundou, também em São Paulo, em esforços coletivos para a publicação de folhetos. Reconhecendo a carência do meio editorial no que dizia respeito à literatura libertária, bem como referindo à intervenção social que no momento se impunha, no início dos anos 1960, O Libertário anunciava a criação de uma ―organização editora‖:

LITERATURA LIBERTÀRIA

O momento de inquietude, provocado pelos acontecimentos sociais que agitam o mundo, torna necessário divulgar a literatura libertária no Brasil, onde escasseia.

Com o fim de contribuir para a divulgação dos princípios anarquistas, esta sendo ultimada a preparação de obras dêsse caráter. ―PROBLEMAS DA QUESTÂO SOCIAL – A Solução Anarquista‖- cuja impressão está sendo providenciada por uma organização editora constituida em São Paulo (O Libertário, mai/1961).

A ―organização editora‖ recebeu o nome de ―Guilda de Estudos Sociais‖ e meses depois aparecia o folheto ―A solução anarquista para a questão social‖, de Errico Malatesta, em edição com 36 páginas e ―muito bem cuidado na sua apresentação gráfica‖:

Nesta obra, o inesquecível Malatesta, na linguagem clara que se nota em todos os seus trabalhos doutrinários, faz uma síntese magnífica da crítica ao Estado e a todas as instituições autoritárias, contrapondo-lhe a solução anarquista sem Estado para um novo sistema de convivência humana, baseado na solidariedade e no mútuo acôrdo, na liberdade e na justiça social para todos (O Libertário, jun/1962).

Ilustração 25 – Capa do folheto ―A solução anarquista para a questão social‖, de Errico Malatesta. São Paulo, 1962.

No ano seguinte, o mesmo jornal oferecia à venda, na seção ―Biblioteca Social‖, o folheto ―Preanarquia: sugestões práticas sobre a organização da sociedade futura‖, de Randolfo Vella, em que se estudava ―o estabelecimento de uma sociedade preanarquista, isto é, de convivência transitória entre a sociedade capitalista e a anarquia‖ (O Libertário, ago- set/1963). A obra que, à altura, já tivera duas edições na Itália, ganhara publicação custeada pelo anarquista italiano Carlo Aldegheri, radicado em Santos, cabendo a Alexandre Pinto a tradução e composição. Alexandre C. Pinto foi o nome adotado por Alexandre Belo, operário gráfico e militante anarquista nascido em Portugal (RODRIGUES, 1994, p. 26-28). Foi diretor- responsável do Ação Sindical, periódico sindicalista revolucionário publicado em São Paulo, em 1958. Colaborou ativamente com a imprensa libertária, sobretudo n‘O Libertário, onde frequentemente assinou artigos com o pseudônimo Belando Xelear, ou simplesmente B. X.

Em ―tradução muito bem cuidada‖ o folheto fora colocado à disposição em livrarias de Santos, Rio de Janeiro e São Paulo, atestando a intenção de levar a públicos mais amplos a propaganda.

No mesmo ano de 1963, Ênio Cardoso, militante anarquista do Rio de Janeiro, em edição do autor, publicou Análise e Síntese Libertárias,69 folheto de 30 páginas que dava forma de ensaio às ideias que Cardoso publicava na imprensa libertária sob o pseudônimo de Lysenko. Ênio fora membro fundador do Centro de Estudos Professor José Oiticica, do qual posteriormente se afastou.

A divulgação libertária por meio da publicação de folhetos e outros impressos é também a marca de destaque na trajetória de Venâncio Pastorini Sobrinho, militante anarquista, jornalista operário, escritor e polemista, cujo nome se afirmou entre os maiores difusores dos princípios libertários no Rio Grande do Sul. Pastorini nascera em Rio Grande, mas sua militância desenvolvera-se principalmente em Bagé, cidade em que viveu até seu falecimento em 1965. De ativa participação no associativismo dos trabalhadores, foi um dos dirigentes da União Geral dos Trabalhadores e redator de jornais como ―A dor humana‖, em 1919 e ―Emancipação‖, já nos anos 1920 (MARÇAL, 1995, p. 137-136).

A crença de Pastorini na difusão da palavra impressa como arma para ―elevar os espíritos‖ é comprovada na sua vasta militância como escritor, editor e distribuidor de folhetos, panfletos, boletins, manifestos, além do constante intercâmbio com os grupos editores de jornais ácratas de São Paulo e do Rio de Janeiro, onde eram frequentes as notas dando conta da atividade editorial de Pastorini:

Propaganda Anti-clerical em Bagé.

Do companheiro Venâncio Pastorini Sobrinho, de Bagé, Rio Grande do Sul, recebemos recortes e boletins de propaganda anti-clerical por ele publicados e distribuídos naquela região.

Este companheiro não se limita, porém, à propaganda anti-clerical, orienta a sua ação no sentido de desenvolver a divulgação das idéias libertárias, tendo-se destacado na crítica aos politiqueiros do regime capitalista e à ação nefasta dos falsos socialistas (A Plebe, 4 de dezembro de 1948).

NOSSOS LIVROS

69No catálogo do Centre International de Recherches sur l‟Anarchisme – C.I.R.A., na Suíça há