A migração intracaribenha ocupa um lugar destacado na integração étnica da nação cubana e dentro dela, a de procedência haitiana é uma das mais significativas. Esta migração iniciou num período anterior à chegada de Cristóvão Colombo305 à Ilha no ano de 1492 e continuaria a se manifestar306, com maior ou menor grau de intensidade, nos séculos XVIII, XIX307 e XX308 até o arribo de um último grupo no ano
304
DIAZCERVETO, Ana Margarita, PEREIRA PINTADO, Ana Cecília. La religiosidad en la sociedad cubana actual. In: Aniversario 25 del Departamento de Estudios Sociorreligiosos. La Habana: Centro de Investigaciones Psicológicas y Sociológicas, 2006, p. 74.
305
Segundo vários historiadores, embora não se possa determinar exatamente a origem de cada um dos povoadores antigos que habitavam Cuba, os Taínos chegaram à Ilha procedentes de Haiti. Cf. LAMPE, Armando. História do Cristianismo no Caribe. São Paulo: CEHILA, 1995.
306
Em seguida, alguns dos momentos e motivos que propiciaram a imigração haitiana para Cuba: os acontecimentos da revolução haitiana no ano de 1789; o acordo de paz que em 1798 os ingleses firmaram com Toussaint Louverture, fato que marcaria a saída dos ingleses do país; a derrota do exército napoleônico em 1803 por Jean Jaques Dessalines; a proclamação da república livre em primeiro de janeiro de 1804, que provocou a saída de colonos franceses com seus escravos para a região oriental de Cuba; o avanço da indústria açucareira; a construção das ferrovias (a partir de 1837) e a transformação tecnológica da indústria, que precisava de força de trabalho. Para maior informação, cf. GÓMEZ NAVIA, Raimundo. Lo haitiano en lo cubano. In: CHAILLOUX LAFFITA, Graciela (coord.). De dónde son los cubanos. La Habana: Editorial Ciencias Sociales, 2005, pp. 8-20.
307
No século XIX, o influxo de franco-haitianos para Cuba decresceu, entre outras razões, porque as autoridades coloniais cubanas impediram sua entrada no país, no intuito de evitar a propagação dos ideais da revolução haitiana. Cf. GÓMEZ NAVIA, Raimundo. Lo haitiano en lo cubano, p. 8.
308
Em 1920 se evidenciou uma redução dos imigrantes haitianos, mas isto mudou em 1923 e nos anos seguintes, período no qual imigraram para Cuba espanhóis, haitianos e pessoas do resto das Antilhas. Também neste século teve lugar a repatriação forçosa de muitas pessoas de procedência haitiana. Cf. GÓMEZ NAVIA, Raimundo. Lo haitiano en lo cubano, pp. 17-20.
de 2001309. Embora esses imigrantes seguissem as trilhas do café e do açúcar nas diferentes regiões do país, haitianos se assentaram fundamentalmente na parte oriental da Ilha, nas atuais províncias310 de Camagüey, Las Tunas, Santiago de Cuba e Guantánamo, entre outras311.
Os haitianos inseriram diversos costumes na realidade cubana: na alimentação e na arte culinária incorporaram a sua tendência de comer vegetais (berinjela, espinafre, alface, acelga, feijão, chuchu, entre outros), junto ao consumo de produtos que não eram muito populares entre os cubanos (o bledo, a erva mora, o güiro), acrescentaram o
domplin312 às sopas, bem como a sua habilidade para fazer doces (de amendoim, ajonjolí, coco, creme de banana da terra verde) e pinol. Introduziram também a preparação de licores com quimbombó, aguardente ou rum e açúcar branco313.
As mulheres haitianas trasladaram para Cuba suas formas de penteados, a maneira de usar o lenço cingido à cabeça; o jeito de tecer os chapéus de yarey314, cestos, leques, nasa de pescar, bornais para transportar mercadoria nos cavalos e a maneira de construir móveis de bambu. Ensinaram o uso das cinzas produzidas pelo carvão, que era o combustível das cozinhas daquela época, para a limpeza do piso; bem como o preparo das tintas com folhas de tuna, água e cal. Quanto aos valores familiares, os pais ensinavam aos filhos o respeito às pessoas adultas, às autoridades e à liderança da comunidade. Crianças não podiam participar das conversas das pessoas adultas, nem chamá-los pelos seus nomes, ao passo que deviam usar os termos tio, tia, avô ou avó, segundo as exigências de cada situação315.
Outro costume levado à Ilha pelos imigrantes haitianos foi o Convite, isto é, o apelo a todos os membros da comunidade para se reunirem para a plantação da batata doce, do milho, da mandioca, entre outros produtos agrícolas, e logo, depois do trabalho, se reunirem para compartilhar as comidas e as bebidas entre os participantes316.
309
Em 2001 chegaram às costas de Cuba 877 haitianos, dos quais 110 foram repatriados voluntariamente e o resto ficou na Ilha. Ao que parece, este grupo ia para outros países e o mal tempo levo-os às costas orientais de Cuba. GÓMEZ NAVIA, Raimundo. Lo haitiano en lo cubano, pp. 37-38.
310 Cf. capítulo 1, p. 32 da presente pesquisa. 311
GÓMEZ NAVIA, Raimundo. Lo haitiano en lo cubano, p. 25. 312
Um tipo de rolinho compacto elaborado com farinha e sem condimentos. 313
Idem. Ibid., p. 28. 314
Folhas de um tipo de palmeiras identificadas com esse nome, que se usa para tecer sacolas, chapeis, entre outras peças.
315
Idem. Ibid., p. 30. 316
No concernente ao âmbito artístico-festivo, Haiti contribuiu com uma manifestação artística cuja relevância ainda perdura na sociedade cubana. Escravos assentados nos cafezais de Guantánamo, Santiago de Cuba, San Luis, Sagua de Tánamo e outras regiões organizaram o que atualmente chama-se de tumba francesa317, uma forma de associação que visava preparar os festejos para o tempo de descanso durante os finais de semana e que, posteriormente, converteu-se numa agrupação de ajuda mútua para escravos e seus descendentes. Segundo Raimundo Gómez Navia318, os festejos eram bem animados:
Ao compasso dos tambores principais: o premier, o second e o bulá grandes; o
catá tocando com pauzinhos, bem como dos chacás ou maracás, os antigos
escravos realizavam – depois da jornada de trabalho - um tipo de dança em homenagem ao dono do cafezal no dia de seu aniversário [...]. Várias mulheres entoavam canções em creole, acompanhadas pelos tambores, num coral que antecedia a saída de vários casais de dançarinos para o centro do lugar de reunião. Os casais vestiam roupas elegantes: as mulheres, com xales finos, colares, brincos, lenços de seda e batas de linhas e encaixes [...]. Os bailadores exageravam os movimentos próprios dessas danças. Os movimentos são suaves, sem apenas levantarem os pés do chão [...] os músicos repicam e realizam certo contraponteio com os bailarinos, que são conduzidos por um casal principal319. Quanto às crenças, a religião mais praticada entre os haitianos é o vodu, termo advindo da língua fon, do Benin, África ocidental, que significa espírito. O vodu é uma religião que se baseia nos espíritos dos familiares. Esses espíritos ajudam e protegem os membros de suas famílias. Os loas (espíritos ancestrais) estão ligados aos distintos aspectos da vida tais como: a natureza, as emoções e atividades humanas. Eles atuam como intermediários entre os seres humanos e os deuses. Raimundo Gómez Navia afirma que o vodu “tem seus próprios rituais e altares, suas próprias tradições e cerimônias [..]”. Segundo este autor, a referida prática “é um modelo de relações familiares [...], uma forma de relacionar-se com os antecessores, um relaxamento emocional, um contato direto com as forças naturais, um meio para a socialização
317
Existem três tipos de tumbas francesas em Cuba: a Pompadour ou Santa Catalina de Riccis, fundada em Guantánamo em 1905; a Bejuco, que surgiu em Guantánamo; e, a Sociedade Tumba Francesa La Caridad de Oriente, criada em 24 de fevereiro de 1862, que naquele momento se chamou de Sociedade La Fayette. Cf. GÓMEZ NAVIA, Raimundo. Lo haitiano en lo cubano, p. 32.
318
Raimundo Gómez Navia é formado em jornalismo e sociologia, pela Universidade de La Habana. Foi professor nesse mesmo centro, na Faculdade de Comunicação Social. No momento em que se escreve este texto é o chefe de pesquisa e análise na Agência Nacional de Informação em Cuba. Tem publicado vários livros. Desde 1991 investiga sobre a presença dos haitianos em Cuba.
319
[...][que] serve para a proteção dos campos, a fertilidade, a dança, a música, o drama ou teatro320.
Tudo parece indicar que nos primeiros anos do século XX o estilo de vida dos imigrantes haitianos não era muito aceito pelo resto da sociedade cubana. Os mesmos foram marginalizados não somente pelas elites sociais, mas também pelos próprios descendentes das culturas africanas estabelecidos em Cuba. Suas práticas religiosas eram chamadas de bruxaria haitiana, acreditava-se que eram procliveis às revoltas e à criminalidade:
dizia-se que os antilhanos provocavam a conduta desobediente e delitiva no país, introduzindo na população cubana o vício e o crime, especialmente o crime violento. [...] se lhes acusava de haver contaminado Cuba com diversas doenças. Por volta de 1916 falava-se contra a imigração antilhana esgrimindo uma razão sanitária. Se lhes achacava as epidemias de paludismo, a viruela, entre outras321. Muitos haitianos foram deportados forçosamente, primeiro sob o pretexto de que eles tiravam dos cubanos oportunidades de emprego; depois, tornou-se uma questão de tipo ideológica, devido ao estereótipo322.
Os imigrantes haitianos, num primeiro momento, não pretendiam estabelecer-se definitivamente em Cuba, mas reunir dinheiro suficiente para voltar para seu país e melhorar as condições de vida de suas famílias no Haiti. Apesar de as repatriações obrigatórias, dos trabalhos forçosos e as segregações sociais, uma grande quantidade acabou se estabelecendo em Cuba323. Semelhante aos escravos advindos da África para Cuba, os procedentes do Haiti também tiveram que fazer um grande esforço para reter suas lembranças e valores ancestrais num contexto adverso. No decurso do tempo a sua cultura de origem seria reinterpretada à luz das culturas existentes em Cuba. Acudiram às igrejas católicas e protestantes resignificando muitas das práticas de ambas as tradições, mesmo assim, “a presença do haitiano [...] tem tido, e continua a ter, um papel ativo na formação da nação cubana. A idiossincrasia, as crenças e a conduta social,
320
GÓMEZ NAVIA, Raimundo. Lo haitiano en lo cubano, p. 34. 321
Idem. Ibid., p, 16. 322
Idem. Ibid., p. 17. 323
Uma pesquisa realizada na década de 1986 em Guantánamo evidenciou que atualmente existe somente nessa província oriental de Cuba uma cifra aproximada aos 4000 haitianos e 45 000 descendentes, números estes significativos tendo em conta que a população cubana é de uns 11 milhões de habitantes. Cf. Idem. Ibid., p. 28.
econômica, religiosa, cultural, artística, os hábitos alimentares, bem como o uso de remédios e outros conhecimentos têm se encaixado na textura desta nação”324.
No concernente à língua, o creole foi muito falado nos cafezais e canaviais. Os
mambises325 também se familiarizaram com esta língua durante o desenvolvimento das guerras independentistas. Mas, o creole também se converteu num elemento adicional de discriminação. Para a identificação desse idioma se usou, em Cuba, o termo desdenhoso “patuá”, de patois, em francês, o que em espanhol equivale à palavra dialeto. Raimundo Gómez Navia destaca que “descendentes de haitianos limitaram-se a falar o creole no âmbito familiar. Em público, estavam obrigados a se comunicarem em espanhol. Mesmo assim, os idosos não queriam que seus filhos falassem espanhol, por isso os obrigavam a fazê-lo em creole”326.
Esse mesmo autor acrescenta que “o creole se converteu na segunda língua mais falada em Cuba devido ao alto número de imigrantes haitianos”327 e que “cada vez mais, os cubanos foram usando esta língua para a intercomunicação com os haitianos. Conseguiam falá-lo, compreendê-lo com certa dificuldade, ou estavam de alguma maneira familiarizados com muitos dos vocábulos”328. Atualmente se realiza um esforço em Havana, Guantánamo, e em outros lugares, em prol do ensino do creole através de cursos especializados, além das transmissões radiais feitas pela emissora internacional Radio Habana Cuba, que dedica várias horas às transmissões internacionais nessa língua329.