2 Prosjekt LINK Vestfold i et større bilde
2.3 Modeller for selvhjelpsgrupper og igangsetting
2.3.1 Nærmere om begrepsbruk
Na reunião de intervisão que se seguiu ao encontro, Thor considerou que as características atribuídas aos homens no exercício do crachá de gênero eram “mais cruéis”. “Isso é inacreditável”, afirmou Romina, a nova integrante da equipe, com voz grave e muito segura. Ela coordenaria o curso de formação em facilitação, uma velha amiga de Thor, que trabalhou como facilitadora no projeto de “Homens, saúde e vida cotidiana”. Romina considerava que a descrição do acontecido no grupo parecia mais uma “psicoterapia” e que os facilitadores deveriam evitar que virasse um “muro das lamentações” – ela era uma mulher direta e aguda, com um estilo “pouco diplomático”, segundo Thor.
“Qual é a importância do grupo?”, perguntava Romina para os estagiários. Eliana e Carlos ficaram em silêncio por uns instantes, pareciam intimidados. Ela mesma respondeu que era a “humanização!”, que implicava “trocas entre narrativas [e] a preocupação com os outros para criar vínculos de cuidado pelo outro”. Para Romina, Pedro, Paulo e Fabrício, a importância está em “compartilhar”, “acolher” e “elaborar” suas experiências, “dando valor à participação de cada integrante”, de modo tal que “o grupo se consolide e cresça”. Thor assentia com a cabeça, acrescentando que esses homens precisavam “se apropriar do espaço e do processo [...] esse [é] o sentido do grupo”. Carlos perguntou se eles, como facilitadores, não estariam agindo como “meio jesuítas em doutrinamento”. Thor e Romina se olharam entre si e não responderam nada. Thor sorriu e pegou sua japamala, Romina olhou pro teto como se a pergunta nunca houvesse sido feita.
Para Thor, os homens do grupo tinham “uma ideia de família tradicional”, embora Fabrício fosse “mais progressista” que os outros dois. Romina considerava isto irrelevante. Ela não estava interessada na “narrativa emergente” no grupo, mas sim na “maneira como eles se relacionam”. Romina considerava que era mais proveitoso “produzir a confrontação entre os
homens” e, para isso, ela sugeria perguntar pelas “práticas familiares” e não pelo “ideal de família”. Sem polemizar, Thor passou ao planejamento do encontro seguinte, o último do qual eu participaria. O tema era “alteridade”.
Thor propôs uma atividade na qual eles deveriam se “olhar fixamente”, porque esta era “uma interfase muito forte”. Depois, a ideia era falar “do encontro com o outro”, que rapidamente ele definiu como um “encontro entre as diferenças”. Thor considerava que “as pessoas devem ter muita empatia” para manter essa relação porque do contrário “ficam duas ilhas e o que tem que formar é um continente”. O trabalho da empatia era para que eles “entendessem o sentir do outro”. Carlos achava que esta seria uma tarefa fácil, porque “o grupo já tinha vínculos” e, gostando da atividade, mencionou que os homens tinham que “sair do seu lugar para facilitar o convívio”, ajudando assim a “sair das relações de autoridade”. Thor concordou e complementou que esta era uma “alteridade ruim”, e o importante do próximo encontro seria “trabalhar a empatia para criar uma alteridade igualitária”. Depois de se olharem entre si, os facilitadores deveriam perguntar como seria esse olhar para as companheiras e solicitariam descrever o “sentimento” que aflorou quando eles foram “autor”, ou “vítima”, ou “testemunha” de uma violência.
No início do encontro seguinte, os estagiários estavam conversando sobre o suíço Julien Blanc, que estava publicando na internet as “técnicas violentas para pegar mulher”35. Thor e os
estagiários consideravam isto inaceitável, porque ele não ensinava a seduzir as mulheres, mas sim a estuprá-las. Fabrício considerava que esse “filho da puta não tem filhas” e por isso falava tanta “besteira”. Thor iniciou atividade, Pedro e Fabrício estavam dispostos a se olhar por uns instantes. Fabrício começou rir e Pedro disse que não podia olhar diretamente nos olhos. Não houve muito desenvolvimento da atividade. Thor ressaltou quão “difícil é formar empatia entre as pessoas”, sendo este um trabalho que precisaria ser praticado todos os dias, especialmente com as pessoas mais próximas.
Eliana explicou a atividade dos sentimentos e dos três papéis do cenário da violência. O primeiro a falar foi Pedro, que narrou a situação na qual ele foi “vítima da mãe”, a mesma que ele comentara durante a entrevista inicial. Como já sabemos, Pedro era uma criança que passava os dias lendo. Um dia a mãe lhe pediu para trazer os irmãos mais novos que estavam fora da casa, brincando na rua. Ele se recusou. Como castigo, a mãe pegou os livros e colocou-os dentro de uma caixa d’água. “Eu senti muita raiva dela ter feito isso com meus livros” e, nesse
35 No seu perfil na wikipedia, Julien Blanc se apresenta como um “expert na arte da sedução”. Ele foi expulso da
Austrália, do Reino Unido e do Canadá por suas “controvertidas” técnicas, que foram equiparadas a estupro. No Brasil houve petições para impedir o ingresso no país.
momento, Pedro começou a chorar. Thor passou um lenço para ele secar seu rosto. Os estagiários se olhavam entre si, pareciam nervosos. Pedro se perguntava se ele poderia algum dia “perdoá-la”, mas como ela era “negra e favelada”, ele sabia que ela não considerava isto como uma “violência”. Uns minutos depois ele falou de quando foi “autor de violência”, voltando a narrar o episódio no qual gritou com sua esposa em Brasília, comentando como sentia ainda “muita culpa”.
Thor concordou e afirmou que muitas vezes “as pessoas não sabem que cometem violências” porque as assumem como “formas naturais de relacionaento”. O facilitador narrou um episódio em que foi “vítima da agressão do seu pai” por namorar uma mulher que não era judia. Ele sentiu “medo dos gritos do pai” e “raiva” quando não foi reconhecida sua relação. Como “autor de violência”, disse que ele havia batido no seu irmão mais novo com uma pelota de baseball e sentira “culpa”. Como “testemunha”, Thor contou sobre uma briga em função de um acidente de carro, que qualificou como “irracional”. Já Eliana se considerava “vítima a todo momento por ser mulher [...] não tem dia que não sinta isso”. Ela estava “cansada” das piadas, cantadas e dos olhares que a “intimidavam” e expressou seu “medo por ser mulher, por ser violada, por ser estuprada”. Como “autora”, ela disse que, quando criança, respondeu de maneira grosseira para seus pais.
Para Thor, as mulheres se sentiam em “risco de permanentemente” porque eram tidas como “objetos” pelos homens. Estando hospedado em um hotel fora do Rio de Janeiro, ele utilizou o serviço da sauna, sem saber que era um lugar frequentado por homens gays. Depois de um momento, ele se sentiu “observado e perseguido”. Thor não gostava da “sensação de assédio” e naquele momento teve a “clareza” de que assim deviam se sentir as mulheres quando eram acossadas. Para Eliana, esta era uma sensação diária. Essa experiência fez com que Thor tivesse mais elementos de compreensão da “violência sexual”, entendendo melhor argumentos do movimento de mulheres. Carlos perguntou se fosse uma mulher que estivesse olhando, se ele sentiria a mesma sensação de perseguição. Thor, com calma, disse que não. Fabrício interrompeu para comentar que ficou “desconfortável” quanto teve uma “experiência de assédio por parte de uma mulher mais velha”, que lhe ofereceu dinheiro para ter sexo. Eliana apontou que era “diferente a experiência de acossamento entre homens e mulheres”, porque eles não tinham o mesmo “grau de vulnerabilidade” que uma mulher. Eles nunca poderiam sentir o “medo” que elas sentiam no dia a dia. Os homens ficaram em silêncio sem poder responder.
Tive que voltar para a Colômbia quase no fim do processo com os homens de demanda espontânea. Umas semanas depois, já iniciado o ano de 2015, Thor estava um pouco preocupado com as metas do seu projeto: poucos homens haviam passado pelos grupos e eles,
como facilitadores, não conseguiram que os homens se engajassem à proposta do grupo e se envolvessem. Para o início desse ano, Thor queria investir seu esforço na formação de novos facilitadores através do curso que iria ministrar e que Romina coordenaria nesse ano. A ideia era “reclutar voluntários” para formar mais grupos e, desse modo, atingir a meta do projeto, processo que narrarei no quinto capítulo.