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A empresa agrícola ou unidade de negócio representa a relação conjunta do investimento e do recurso operacional disponível para o gestor realizar um empreendimento. Obviamente, espera-se que o negócio agropecuário produza retorno financeiro superior à taxa mínima de oportunidade do mercado financeiro, dentro de um nível de risco considerado aceitável.

Na Figura 4.1, a empresa está divida em três segmentos, que correspondem à fonte dos recursos financeiros, aos investimentos realizados e aos resultados obtidos. Assim, tem- se:

a) Fontes: representam o aspecto financeiro da empresa, que agrupa as várias origens dos recursos financeiros disponíveis para se financiar ou investir. As fontes de recursos financeiros podem ser financiamentos, empréstimos, sócios e recursos próprios.

- O financiamento é uma operação em que as instituições (privada e pública) fornecem recurso para investimento específico com um período pré-determinado para sua liquidação. Quando o financiamento é contraído, o devedor passa a assumir o valor financiado e os juros da quantia emprestada.

- O empréstimo é um dinheiro concedido por uma instituição financeira e que pode ser investido em qualquer coisa. Nesse tipo de operação, assume-se o valor principal, o juro e a correção, que deverão ser pagos ao longo do tempo.

- O sócio é um indivíduo que trabalha conjuntamente na atividade e que divide despesas e lucros com os demais membros associados na empresa ou projeto comum. Nesse caso, cada sócio se compromete a aportar um capital para investir na atividade.

- Recurso próprio é a quantia de dinheiro do proprietário utilizada para investir na atividade.

b) Investimentos: representam o aspecto econômico da empresa agrícola, que reflete a necessidade física e monetária para se produzir um ou mais produto e/ou serviço. O recurso financeiro é utilizado no capital de giro e investimento (terra, instalações, rebanho, máquina, implementos, equipamentos e culturas perenes).

- O recurso do capital de giro é utilizado para financiar a atividade da empresa durante o ciclo de produção, no qual o dinheiro é gasto com insumos, mão de obra, serviço terceirizado e despesas gerais.

- O recurso para investimento refere-se ao dinheiro utilizado para financiar máquinas, equipamentos, benfeitorias, rebanho, culturas perenes e melhorias na terra.

c) Resultados: representados pelo custo variável, pelo custo fixo, pela receita, pela margem de contribuição e pela receita líquida.

- Custo variável: parte do custo que varia conforme a quantidade produzida. É composto por insumo, mão de obra, serviço terceirizado e despesas gerais.

- Custo fixo: parte do custo que não se altera, independente da quantidade produzida. É composto por depreciação, despesas fixas e juros do capital investido.

- Receita: montante obtido com a venda de produtos.

- Margem de contribuição: saldo monetário resultante da diferença entre receita bruta (preço de venda do produto/serviço) e custo de produção.

- Receita líquida: mede a eficiência econômica da empresa em gerar valor no produto/serviço para o consumidor. O resultado positivo é dividido em quatro partes:

 Juros: remunera o mercado financeiro pelo empréstimo contraído;  Dividendos: beneficia os acionistas e sócios (famílias) da empresa;

 Lucro retido: fundo de reserva de capital próprio para possibilitar novos investimentos; e

 Participação dos funcionários: beneficia os funcionários com uma parcela do lucro obtido no período.

Figura 4.1 – Fluxo econômico-financeiro geral da empresa agropecuária.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Setor financeiro

Financiamento Empréstimo Sócios Recurso próprio

Recurso financeiro

Capital de giro Investimento

Instalações/

Benfeitorias Implementos Máquinas/ Cultura perene Rebanho Terra

Ag en tes fo rn ec ed ore s

Insumos Mão de obra terceirizados Serviços Desp. Gerais

Juros sobre capital de giro

Arrendamento Cli en tes Receita P ro du to s Custo fixo Depreciação

Desp. Gerais Fixo

Juros Custo Variável Margem de contribuição Receita líquida Participação

de lucro Dividendos Lucro retidos

Funcionários investimentos Outros Sócios Consumo Poupança n $$ Resultados F on tes Re su lt ad os

Recurso financeiro próprio Recurso financeiro de terceiro

Juros pagos

Estru

tu

A partir da visão geral do fluxo econômico-financeiro da empresa agropecuária pode-se compreender melhor a dinâmica do negócio. A Figura 4.2 apresenta uma ampliação do fluxo econômico-financeiro no segmento estrutura para atividade agrícola, que organiza a combinação de produtos, os investimentos máquinas/implementos, instalações (benfeitorias) e terra, insumos, mão de obra, serviços terceirizados e despesas gerais.

Figura 4.2 – Estrutura básica do processo de produção de único produto e multiproduto na propriedade rural.

Fonte: Elaborado pelo autor.

A estrutura básica configura as possíveis combinações na propriedade rural, no caso com três produtos (P1, P2 e P3). A produção de cada um deles necessita de uma determinada

máquina/implemento (Mn) de uso exclusivo, o que significa dizer que o produto P1 precisa da

máquina/implemento M1 no processo de produção. Além disso, têm-se as

máquinas/implementos de uso geral, não exclusivo, utilizados entre os produtos combinados. A decisão de combinar diferentes produtos na propriedade implica mudança quanto ao uso da terra e de máquinas/implementos, à disponibilidade de mão de obra, à alocação de recursos financeiros para compra de insumos e pagamentos das despesas gerais e serviços terceirizados. Como consequência, a rentabilidade da propriedade será diferente na escolha

P1 P2 M2 P1 P2 P3 M2 M3 P3 M3 P1 P3 M3 P2 M2 M1 M1 M1 P1 P2 P3 M2 M3 M1 Único produto Multiproduto Terra + Instalações Insumos Mão de obra + Serviços terceirizados + Despesas gerais Recursos Financeiros

produzir de cada produto e seu arranjo. Para avaliar essas diferenças, geraram-se duas estruturas de modelo econômico para a propriedade com único produto e multiproduto.

a) Único produto

A propriedade com uma única atividade caracteriza-se, basicamente, por se especializar na produção e no fornecimento de um único produto. Além disso, o processo produtivo, a aquisição de insumos e a comercialização da mercadoria final estão estruturadas para uma produção de larga escala. Essas medidas procuram responder ao mercado competitivo do setor agropecuário na produção de produtos com pequena margem de lucro.

O modelo de gestão de uma propriedade com um único produto é mais simples em relação à com multiproduto, pois todos os custos gerados na fazenda para o desenvolvimento da atividade referem-se a ela mesma. A Figura 4.3 apresenta a estrutura simplificada de uma visão sistêmica de gestão de uma propriedade com único produto.

Figura 4.3 – Modelo econômico simplificado de gestão de único produto na fazenda.

Fonte: Elaborado pelo autor.

Entre as vantagens desse tipo de gestão citam-se a facilidade no cálculo e alocação de custos gerais da fazenda, a facilidade na tomada de decisão na escolha do produto, além do que, em condição de melhor retorno financeiro, a propriedade está sempre maximizando o

Custos total da propriedade

Indiretos Diretos Depreciação Despesas gerais fixas Mão de obra Arrendamento Alocação Centro de custo Custo do produto Produtividade Preço Receita

Margem bruta de contribuição - Insumos Op. Mecânica Serviços terceirizados Desp. c/ comercialização Desp. c/ tributos de comercialização Desp. Gerais variáveis Desp. Financeiras Fixo s Variáveis Fixo Variável Remuneração dos fatores

lucro. A desvantagem é que a fazenda está sujeita a um grau de risco maior em relação à variação do preço no mercado, à produtividade e ao clima.

Além disso, comparada a algumas indústrias – como a mecânica, siderúrgica e petroquímica – a gestão na propriedade rural com um único produto não é tão simples, devido à necessidade de se distribuir a produção ao longo do ano, com diferentes cultivares. Caso contrário, aumentam as chances de ocorrerem problemas relacionados à sazonalidade da produção, à perecibilidade do produto, ao clima, à qualidade e tamanho do produto etc.

b) Multiproduto

A propriedade multiproduto caracteriza-se por gerenciar mais de um produto durante o ano-safra. O objetivo central da diversificação está atrelado à visão econômica-financeira e agronômica. No aspecto econômico/financeiro, o multiproduto procura reduzir a incerteza da propriedade com a variação negativa do preço. No agronômico, a preocupação está em rotacionar a atividade para reduzir o risco de doenças e pragas. A combinação de duas ou mais atividades pode resultar no modelo de produção desejável, em que a propriedade terá menor exposição de risco da propriedade, tanto no aspecto econômico e agronômico.

Para Azevedo (2000), a diversificação é uma resposta ao mercado concorrente quando a diferenciação de produto e a segmentação de mercado não são suficientes para garantir o potencial de crescimento de uma empresa. Além disso, adota-se também essa estratégia quando o mercado é pouco dinâmico.

A combinação de duas ou mais atividades na propriedade pode resultar numa menor exposição ao risco e em ganho na economia de escopo7. Contudo, nem sempre a escolha e combinação de produto é uma tarefa fácil no segmento agropecuário. O critério de seleção e a combinação das atividades devem levar em conta a competição no uso do solo, o comportamento do preço dos dois produtos no mercado, a compatibilidade da atividade com a estrutura da propriedade, a adaptação da atividade com a condição edafoclimático e a capacidade do produtor gerenciar mais de uma atividade na propriedade.

7 Economia de escopo é a redução do custo do conjunto de produção para os diferentes produtos desenvolvidos

Figura 4.4 – Modelo simplificado de gestão de multiproduto.

Legenda: CP1 = Custo de produção do produto 1, CP2 = Custo de produção do produto 2, CPn = Custo de produção do produto n, RP1 = Receita do produto 1, RP2 = Receita do produto 2, RPn = Receita do produto n, R1 = Resultado do produto 1, R2 = Resultado do produto 2 e Rn = Resultado do produto n.

Fonte: Elaborado pelo autor.

A empresa agrícola constitui um negócio viável quando é capaz de sobreviver no ambiente econômico, político, social e ambiental. Tunner & Taylor (1998) propõem três medidas para mensurar a viabilidade do negócio: lucratividade, fluxo de caixa e retorno sobre capital. A primeira (lucratividade) é um indicador básico, em que a sobrevivência de qualquer negócio no médio e longo prazos está em criar e obter lucro anual. O fluxo de caixa revela o poder de pagamento das operações da empresa no curto, médio e longo prazos. O retorno sobre capital refere-se à capacidade do negócio de sobreviver e crescer.

Custos total da propriedade

Indiretos Diretos Depreciação Despesas gerais fixas Mão de obra Arrendamento Produtividade Preço Receita Insumos Op. Mecânica Serviços terceirizados Desp. c/ comercialização Desp. c/ tributos de comercialização Desp. Gerais variáveis Desp. Financeiras Fixo s Variáveis Fixo Variável Remuneração dos fatores

Margem bruta de contribuição

CP1 CP2 ... CPn RP1 RP2 RPn Rn R2 R1 Alocação Centro de custo