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2. Forslag om endringer under det enkelte departement

2.9 Nærings- og fiskeridepartementet

Apesar de existirem alguns pontos na tese de Mulvey que vão ao encontro da minha reflexão, há muitos outros com os quais discordo. Nesta minha reflexão, irei começar por dizer aqueles com que me identifico.

Concordo com a teórica britânica essencialmente no que toca ao papel exibicionista e, portanto, passivo, de Lisa. A protagonista feminina, ao mostrar-se glamorosa, ao exibir-se a Jeff (pedindo-lhe a opinião sobre as suas roupas, o que revela o seu desejo em ser eroticamente atraente aos olhos do namorado) e ao ser apresentada através de certos planos, como os close-ups, revela o seu papel de “para-ser-olhada”: Lisa apresenta-se como um objeto erótico a ser alvo do male gaze (Jeff e o espetador masculino controlam-na visualmente).

Durante grande parte do filme, a personagem feminina mostra-se mais preocupada com assuntos ligados à moda do que com o desaparecimento de Anna Thorwald. Afinal, Lisa passa quase todo o filme com uma indumentária muito sofisticada, referindo-se algumas vezes a ela, o que revela a sua preocupação com a sua aparência. Ao início do filme, Lisa não controla o desenrolar da narrativa (no sentido em que não faz desenvolver a investigação em torno do desaparecimento de Anna Thorwald), o que revela também o seu papel passivo. Na verdade, a personagem interpretada por Grace Kelly, ao originar momentos que evidenciam o seu papel de objeto a ser alvo do male gaze, tende a paralisar a ação. Por exemplo, no momento em que a protagonista se exibe a Jeff com a sua blusa de dormir, a narrativa é paralisada. O universo da investigação sobre Anna Thorwald desaparece e passa a assistir-se a um “espetáculo”, a exibição de Lisa.

Indo ao encontro da tese de Mulvey de que, no cinema clássico, o protagonista masculino é ativo, considero que Jeff possui esta característica ao controlar a narrativa, fazendo-a avançar através da sua investigação, e ao ser o dono do olhar, controlando os vizinhos e Lisa, ao objetificá-la eroticamente através da sua visão. A utilização da câmara subjetiva, que adota desde o início e muitas vezes o seu olhar, reforça, a meu ver, o seu papel ativo. No fim de contas, o olhar controlador de Jeff sobre os vizinhos e Lisa é mais facilmente evidenciado e reforçado junto do espetador através da adoção do seu ponto de vista. Pode dizer-se que Jeff, ao ser ativo, revela-se masculino.

Tal como Mulvey, considero que o espetador masculino se identifica com Jeff. Uma vez que Jeff tem um papel ativo, no sentido de, apesar das suas limitações físicas, dominar a ação, fazendo com que esta se desenrole (através das suas investigações), e deter um olhar controlador sobre os vizinhos e sobre Lisa, o espetador acaba por se identificar com ele. O espetador masculino, ensinado a ser ativo (controlador) identifica-se com aquele que domina a narrativa. Adaptando a tese de Mulvey, pode dizer-se que Jeff, aquele que controla a ação, é visto, pela audiência masculina, como tendo um maior controlo sobre o desenrolar da história do filme do que o espetador tem sobre os eventos na vida real. Deste modo, o protagonista é visto como o mais perfeito ego ideal da audiência masculina, possibilitando nesta a experienciação do prazer narcisista. Ao identificar-se com Jeff, o espetador sente que controla a ação, o que lhe gera prazer.

Para além disso, se se alargar a ideia de que o prazer narcisista resulta do facto de o herói controlar os eventos, pode dizer-se que Jeff, ao ser capaz de convencer Lisa de um assassinato e provar a sua existência, reforça a sua imagem como sendo o ego ideal do espetador, suscitando o prazer narcisista na audiência. A utilização da câmara subjetiva, que adota muitas vezes o olhar de Jeff, também contribui, como Mulvey considera, para a identificação (o espetador masculino vê o mesmo que ele, tendo facilmente os mesmos pensamentos e emoções, o que facilita a identificação). Para além disso, uma vez que a câmara subjetiva reforça o controlo de Jeff sobre os vizinhos, o que revela o seu papel ativo,

o espetador mais facilmente se identifica com ele, visto ligar-se à personagem ativa, controladora. Também através da adoção do ponto de vista de Jeff, o espetador sente que controla visualmente os vizinhos e Lisa, como objeto erótico.

Embora Mulvey não se refira ao prazer da escopofilia na sua análise a Rear Window, pode dizer-se que este é experienciado pelo espetador masculino. No fim de contas, este tem a possibilidade de dirigir um olhar erótico sobre Lisa e sobre a sensual “Miss Torso”. Estas são alvo do controlo visual do espetador. O prazer da escopofilia revela como Rear Window impõe o olhar masculino por parte do espetador, ao explorar estas personagens femininas de forma erótica (no caso de “Miss Torso”, o seu erotismo evidencia-se na pouca roupa que veste e nas suas danças ousadas). Ao contrário das figuras femininas, as personagens masculinas não são exploradas de um modo erótico (não existem momentos em que qualquer homem do filme seja posto no papel de “para-ser-olhado”: não se exibem, tentando funcionar como objeto). Deste modo, indo ao encontro da tese de Mulvey, o espetador feminino apenas pode experienciar o prazer da escopofilia se assumir um olhar masculino, vendo a mulher do filme como um objeto erótico.

Tal como Harl, considero que o voyeurismo é um dos assuntos tratados no referido filme, na medida em que Jeff e Lisa passam grande parte do tempo a espiar os seus vizinhos. Viu-se que a ensaísta britânica aborda indiretamente, na sua análise a Rear Window, a noção de voyeurismo como forma da mente masculina contrariar a ansiedade de castração (ato de espiar a mulher). A meu ver, este voyeurismo está realmente presente no filme. Como se sabe, Jeff espia as suas vizinhas “Miss Torso” e “Miss Lonelyhearts” (Judith Evelyn), bem como a sua namorada, quando se encontram no apartamento em frente (esta atitude de Jeff revela que Lisa não só significa o desejo masculino como também a própria ideia de castração). Tal como o protagonista, o espetador masculino, ao assistir aos momentos de voyeurismo e assumindo igualmente um olhar voyeurístico, contraria também a tal ansiedade. Como se sabe, o voyeurismo está associado ao sadismo. Este evidencia-se na medida em que Lisa é submetida à agressão de Thorwald, sendo vista por Jeff como uma “intrusa culpada”. Afinal, Jeff nunca aprovou a ida da sua namorada até à casa do assassino. Neste sentido, e aplicando as ideias de Mulvey, pode dizer-se que o espetador masculino sente prazer em se confrontar com o estado de culpa de Lisa e com a sua submição à punição. Além da punição, verifica-se também a salvação de Lisa por parte de Jeff, que telefona à polícia para a sua namorada ser resgatada das mãos de Thorwald.