Kapittel 3: Analyse – Helten og leseren
3.6 Heltens reise – utfordringer og løsninger
3.7.1 Nærhet til helten
O controle de adubação das hortaliças é feito observando seu tamanho e/ou aparência da cor das folhas. Esse procedimento de observar o tamanho e/ou aparência das hortaliças para, em seguida, aplicar a adubação necessária, ocorre também com o período da colheita, ou seja, os horticultores não registram a data que as hortaliças devem ser colhidas. Como argumentou o horticultor Francisco Nogueira, (02/01/2001)29, “eu não marco
os dia, é de olho. Mas às veiz a gente pode contar do tempo que plantou pra essa época [colheita], dá 45, 30 e tanto [dias]”.
Quando esse horticultor diz que não marca os dias que plantou as hortaliças, afirmando que “é de olho”, significa dizer que sabe quando deve colher apenas observando o tamanho e/ou a aparência das hortaliças. Aqui se pode ver uma noção de tempo intrinsecamente ligada aos processos que decorrem
29 Refiro-me a uma das entrevistas realizadas durante o meu trabalho de dissertação de mestrado (BANDEIRA, 2002).
na natureza. Consequentemente, ele (o tempo) é quantificado pelos processos que vão surgindo: germinação, crescimento das
plantas, cor das folhas, entre outros.
Na pesquisa realizada pelo saudoso Amâncio30 (1999) sobre
o sistema de contagem dos Kaingang, ele identificou que essa comunidade indígena conta a idade de seu povo pela floração da taquara do tipo taquaruçu ou taquara-brava, cujo tempo entre uma floração e outra é de aproximadamente trinta anos. Outros contam a idade através da taquara-mansa, cujo tempo entre uma floração e outra é a metade da taquaruçu. Na contagem dos meses, esses indígenas se baseiam pela lua.
Desde as cosmologias humanas primitivas, os conceitos de espaço e tempo eram dotados de significados emocionais e/ ou da natureza. Por exemplo, a periodicidade do tempo estava associada aos ritmos e ciclos da vida coletiva do grupo social, fortemente vinculada ao conhecimento dos ciclos de vida das plantas e das migrações de animais de caça. Contudo, foi somente com o surgimento da agricultura, há cerca de 10.000 anos, e, consequentemente, com o aumento da população e vida sedentária, que surgiu a necessidade de instrumentos intelectuais para o planejamento do plantio à colheita, do armazenamento, da organização de posse de terra, de produção organizada e de trabalho.
Essas consequências levaram a demarcar os relógios humanos e sociais, estruturando-se sobre estes o calendário, primeira construção simbólica a regular o comportamento social, observando atentamente o tempo. Atualmente, há no mundo cerca de 40 calendários em uso, mas o conhecido
30 Na tarde do dia 7 de março de 2008, a comunidade dos educadores matemáticos, em especial, etnomatemáticos, perdeu o educador e pesquisador Chateaubriand Nunes Amâncio (1968-2008), pro- fessor da Universidade Federal da Grande Dourados, juntamente com outros três colegas de profissão, em decorrência de acidente automobilístico na BR-163.
internacionalmente é o que está em vigor desde 1582, procla- mado pelo Papa Gregório XIII. Ressalta D’Ambrosio (2001, p. 21) que: “A construção de calendários, isto é, a contagem e registro do tempo, é um excelente exemplo de Etnomatemática”.
O que tem tudo isso a ver com aqueles alunos do 5º ano do ensino fundamental da escola da comunidade dos horticultores de Gramorezinho? Ora, uma das principais ideias que aparecem no início do pensamento matemático são as maneiras de contar o tempo, além disso, a História da Matemática mostra que grandes nomes da Matemática estão ligados à Astronomia.
Todavia, o mais importante de tudo isso é que se o aluno compreender o tempo como uma das principais ferramentas de sobrevivência dos horticultores daquela comunidade, também compreenderá que esse instrumento de medida é importante nos dias atuais. Ele, o tempo, move nosso comportamento dia- riamente, pois temos horário para tudo, como, por exemplo, para dormir, levantar, escovar os dentes, ir à escola e/ou ao trabalho, entre outras atividades cotidianas. Além disso, o tempo serve como ferramenta de exploração econômica, ao calcular-se, por exemplo, o salário de alguns empregados de acordo com a quantidade de tempo trabalhado para produzir certa mercadoria.
De acordo com Cipolla (2014, p. 388), “Marx define o valor da força de trabalho como o tempo de trabalho necessário para a produção de certas mercadorias”. Isso não significa a redução do tempo necessário para a produção de certo objeto ou a redução ou aumento do salário do trabalhador, mas, a produção em menos tempo daquele objeto, o equivalente ao salário do trabalhador no final do mês. Em consequência disso, o empresário adquire uma maior quantia de mais-valia, ao ser produzido aquele objeto em menos tempo pelo trabalhador. Em outras palavras, a mais-valia é o valor que o operário produz além do valor da sua força de trabalho.
Vejamos, com mais clareza, um exemplo de tempo rela- cionado à mais-valia: suponha que numa fábrica de confecções uma costureira leve 8 horas para confeccionar 6 camisas. Em uma semana de trabalho, que equivale a 44 horas, essa operária confecciona 33 peças. Nesse período de 44 horas, ela produz o necessário para pagar todo o seu salário no final do mês. No entanto, ela permanece mais três semanas na fábrica, produzindo mais camisas para receber apenas esse salário mensal. Se a jornada mensal de trabalho dessa operária é de 176 horas, isso significa que ela confecciona 132 peças de camisa. Com isso, conclui-se que essa costureira trabalha 99 horas não remuneradas, ou seja, de tempo de trabalho não pago, reduzindo o custo da camisa e aumentando o lucro do empresário. Esse valor a mais é apropriado pelo patrão dela e consiste no que Karl Marx (2006) chama de mais-valia.
Cabe ressaltar que esse tipo de situação geralmente é ocultado nos livros didáticos, principalmente nos de Matemática. Até porque, ela, a Matemática, está associada a um processo de dominação e à estrutura de poder desse processo. Pois, como ressalta D’Ambrosio (1990, p. 24), “embora não tenha sido suficientemente estudada, a análise de com- ponentes ideológicos no pensamento matemático revela uma forte ligação com um certo modelo socioeconômico”.