Pelo que já foi descrito anteriormente o envelhecimento é acompanhado de mudanças a nível estrutural e funcional do sistema respiratório. Embora consideradas como uma consequência normal do avanço da idade, estas alterações podem estar na base de uma maior suscetibilidade por parte dos idosos ao desenvolvimento de doenças respiratórias15. A prevalência deste grupo de doenças acompanha o envelhecimento da população, porém, é ainda subestimada nos idosos. A tosse e a dispneia são os sintomas mais frequentemente reportados, contudo, não são específicos de doenças do aparelho respiratório, podendo verificar-se sobreposição com outras comorbilidades clínicas não respiratórias102. O subdiagnóstico de determinadas condições médicas é uma realidade neste grupo específico. Por um lado, os idosos tendem a não reportar os sintomas, assumindo-os como características normais do envelhecimento, não atribuindo um valor acrescido à intervenção médica103. Por outro lado, uma taxa elevada de sintomas reportados nem sempre corresponde a alterações respiratórias objetivas. Os estudos epidemiológicos relacionados com doenças respiratórias apresentam uma série de limitações, quando os seus resultados se baseiam apenas na sintomatologia. Marcus et al.104 demonstraram que um grupo de idosos que manifestou ter dispneia (73%), bronquite crónica (67,8%) ou pieira (66,8%), o valor preditivo positivo da sintomatologia foi de 26% para alterações ventilatórias avaliadas por espirometria104
Os idosos reportam frequentemente fatores relacionados com um maior risco respiratório que incluem a exposição ambiental a toxinas respiratórias. O aparelho
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respiratório é especialmente vulnerável a essa exposição devido à elevada área da superfície alveolar que estabelece uma interface direta com o exterior69. A tabela 3 apresenta uma lista de alguns fatores de risco respiratório.
Tabela 3 - Fatores de risco respiratório reportados pelos idosos [adptado105]
Fatores de risco
Fumo do tabaco • 48%-56% nunca fumaram
• 32% dos não-fumadores reportam exposição ao fumo do tabaco
Poluição ambiental • 80% vivem em área metropolitanas, com maior índice de exposição à poluição do ar exterior • Dos não-fumadores, 18% referem a utilização de
combustível fóssil para a confeção dos alimentos Poeiras ocupacionais • Dos não-fumadores, 12% reportam uma exposição
ocupacional
Infeções • 10 vezes maior risco de hospitalização pelo vírus
Influenza
• 27% reportam história de pneumonia
Das doenças respiratórias mais frequentes nos idosos destacamos a DPOC, Asma, síndrome de sobreposição Asma-DPOC e FPI.
De seguida, descrevem-se alguns indicadores epidemiológicos das principais doenças respiratórias que afetam os idosos.
A DPOC é a quarta causa de morte no mundo e está associada ao envelhecimento106. A DPOC tem uma prevalência estimada entre 5% e 16% na população de idade superior a 40 anos107. Em Portugal, a prevalência estimada desta doença é de 14,2%, dados recolhidos a partir de uma amostra de 710 indivíduos da região de Lisboa com mais de 40 anos108. Um estudo coorte com 8.000 participantes, desenvolvido em Roterdão, encontrou uma incidência de 9,2 casos por cada 1000 indivíduos com mais de 55 anos, com maiores taxas nos homens109. Os dados epidemiológicos relacionados com esta patologia, consideram-se subestimados e uns dos motivos apresentados é a reduzida utilização das provas de função respiratória110-111. A tosse crónica é a queixa mais sugestiva de obstrução das vias aéreas em fumadores após os 60 anos, pelo que a DPOC deve ser considerada em todos os doentes com história de tabagismo e tosse crónica112. As comorbilidades relacionadas com a DPOC incluem doença coronária, diabetes, osteoporose e fraqueza muscular113. O tabaco é o principal fator de risco, independente da idade114. Uma carga tabágica de 20 UMA foi associada fortemente com DPOC109. O
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identificou uma possibilidade acrescida em 2% de ter DPOC por cada aumento de uma unidade maço ano115.
A distribuição da asma apresenta uma curva bimodal em relação à idade, existindo um pico desta doença ao nível da infância e adolescência e depois volta a observar-se um aumento da sua prevalência entre os 50 e os 65 anos116. A prevalência de asma nos indivíduos com mais de 65 anos é estimada em 4% a 8%102. Dados de 2012, indicam uma prevalência de 6,8% da população residente em Portugal117. Os sintomas de asma prevalentes nos idosos são pieira, expetoração matinal, dispneia em repouso, tosse crónica, sendo que os sintomas pioram à noite118. O valor do FEV1 tende a ser inferior nos indivíduos com asma desde a infância em comparação com aqueles que desenvolveram esta doença numa fase mais tardia119.
A Asma e a DPOC são entidades clínicas caracterizadas por inflamação crónica e remodelação das vias aéreas, contudo, distinguem-se entre elas por diferirem nas características da inflamação e nos locais anatómicos onde as alterações patológicas primárias ocorrem. No conjunto de idosos com Asma ou DPOC, 17% terão ambas as condições clínicas, sendo este doentes classificados como tendo sobreposição asma- DPOC (ACO)120. Os doentes com ACO tenderão a apresentar, em comparação com os doentes com Asma ou DPOC, maior número de exacerbações, pior qualidade de vida, uma deterioração mais acentuada da função respiratória ao longo do tempo e um consumo superior de recursos médicos. Comparativamente os doentes com DPOC, apresentam-se com idades inferiores e com menos prevalência de hábitos tabágicos. Em relação às diferenças entre os sexos, não existiam diferenças estatisticamente significativas de prevalência entre os homens e as mulheres121.
A incidência de restrição pulmonar aumenta em indivíduos idosos, decorrente de processos fisiopatológicos relacionados com fibrose pulmonar, insuficiência cardíaca congestiva, neuromusculares ou por deformidades torácicas122. A FPI é relativamente rara e a sua prevalência e incidência aumenta também com a idade, principalmente após os 60 anos. Nos EUA, a prevalência estimada é de 42,7/100.000, mas julga-se estar subestimada. Em relação à incidência, os valores disponíveis indicam 10,7 novos casos por cada 100.000 homens e 7,4 em cada 100.000 mulheres123. A sintomatologia típica é a dispneia e a tosse não produtiva102. Comorbilidades, como a diabetes, doença arterial
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coronária, apneia obstrutiva do sono ou sarcopénia, são tidas como comuns 124.
Em relação ao impacto da exposição ambiental, estão descritas associações com a prevalência de DPOC125–127 e de asma128, em idosos. Na população em geral, têm surgido também alguns estudos que associam o desenvolvimento da FPI com a exposição ambiental129-130. Os trabalhos desenvolvidos nesta temática irão ser descritos adiante no capítulo "Efeitos da poluição na saúde".