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8-9 Når et k,dlli åpnes, må det av omsyn til ansvarsforholdet tas opp

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Manglende og overtallig gods

8-9 Når et k,dlli åpnes, må det av omsyn til ansvarsforholdet tas opp

Apesar de desde os tempos de Aristóteles até os nossos dias, o prazer constituir-se no objetivo da maioria dos homens, de acordo com Sangalli, “o que parece ser um consenso altamente positivo, na verdade revela uma situação de desvio, de submissão aos meros impulsos e às paixões que são o obstáculo para alcançarmos a verdadeira eudaimonia” (SANGALLI, 1998, p. 60-61). Aristóteles, juntamente com seu mestre Platão, considerava que, apesar da importância atribuída ao prazer, este não poderia constituir o bem maior a ser buscado pelo homem, o que consistiria em um modo de vida capaz de submetê-lo unicamente aos ditames de suas paixões. Nesse sentido, Aristóteles concorda com Calipso quando esta adverte a Ulisses sobre a necessidade de passar “ao largo de tal ressaca e de tal surriada” e, assim, dos extremos para os quais o prazer pode levar o homem que correrá menos risco de errar se não lhe der ouvidos, uma vez que “em todas as

coisas o agradável e o prazer é aquilo de que mais devemos defender-nos, pois não podemos julgá-lo com imparcialidade” (EN, II, 9, 1109a 30-35; 1109b 5-15). Platão, no mesmo sentido, considerava que “os prazeres nos trazem inúmeros impedimentos, perturbam as almas em que habitamos com a sua loucura, e impedem, desde o início, que venhamos a ser, e destroem a maior parte dos nossos filhos, produzindo esquecimento e descuido” (PLATÃO, Filebo, 63e).

Na Grécia antiga se discutia o papel do prazer262 em relação à felicidade e é através de um apanhado do que existia a esse respeito que Aristóteles, seguindo o seu método histórico, revê o papel representado tanto pelos hedonistas (EN, X, 1, 1172a – X, 4, 1174a) como pelos anti-hedonistas (EN, VII, 11, 1152b – VII, 14, 1154b), e desenvolve a sua própria concepção a respeito do assunto263.

Para o Estagirita, o prazer está ligado intrinsecamente ao homem que, por sua vez, naturalmente, “escolhe o que é agradável e evita o que é doloroso” (EN, X, 1, 1172a 20-25); porém, a espécie de prazer que ora nos interessa possui uma natureza diferente daquela encontrada no tipo de prazer “em relação ao qual nos devemos acautelar e afastar”. O tipo de prazer a respeito do qual trataremos nesse momento trata-se do “‘prazer’ de uma atividade própria, seja da ‘virtude ética’, na qual Aristóteles afirma haver um ‘prazer intrínseco’ – e o ‘sentir prazer’ neste ato é indício de excelência - seja, mesmo, da própria ‘felicidade’ que, se as atividades excelentes são prazerosas, deve conter ‘a mais alta forma de prazer’” (PAIXÃO, 2002, p. 100).

Para Aristóteles, o prazer, sendo desejado por si mesmo, ao ligar-se às ações virtuosas as leva a se tornarem ainda mais desejáveis, “pois, qualquer bem é mais digno de escolha quando acompanhado de um outro do que quando sozinho”.

262 Aristóteles via no prazer algo capaz de enriquecer a própria virtude à qual era imanente,

colocando todas as virtudes, fossem práticas ou dianoéticas, sob este princípio que não platônico (Cf. CHAUÍ, 2002, p. 458).

Para não aristotelistas do século XVIII, as virtudes eram determinadas a partir das qualidades que lhes eram imputadas, porém, assim como o prazer ou a utilidade correspondentes a cada virtude, estas mudam no espaço e no tempo, e, já que aquilo que, “em geral achamos agradável ou útil vai depender de quais virtudes possuímos ou cultivamos na nossa comunidade”, somos levados à constatação da impossibilidade de definir ou “identificar as virtudes segundo o prazer ou a utilidade” (Cf. MACINTYRE, 2001, p.272- 273).

263 O prazer era pensado por duas correntes opostas, a primeira, representada por Espêusipo, via o

prazer como algo a ser evitado pelos homens prudentes e temperantes, enquanto a segunda, representada por Eudoxo, considerava que o prazer só poderia ser algo de bom, já que em sua direção corriam tanto os animais irracionais, quanto os racionais, e “em todas as coisas, aquilo que é desejado é bom” (Cf. EN, X, 2, 1172b 7-9).

Nesse momento, aproximando-se de Platão, em sua obra Filebo264, Aristóteles

constata que apesar de a maior parte dos homens identificarem o bem com o prazer, “o prazer não é o bem; porque o bem não pode tornar-se mais desejável pela adição do que quer que seja” (EN, X, 2, 1172b 25-35).

Aristóteles, no Livro VII de sua Ética a Nicômaco, enumera as principais opiniões sobre o assunto, e constata que, enquanto “para algumas pessoas nenhum prazer é um bem”, para outras “alguns prazeres são bons, mas a maioria deles são maus”. Dessa forma, “mesmo que todos os prazeres sejam bons, a melhor coisa do mundo não pode ser o prazer” (EN, VII, 11, 1152b 5-15).

Para o filósofo, o prazer é compreendido “como inerente às atividades virtuosas, fim em si mesmo” (PICHLER, 2004, p. 138), que consiste em uma atividade capaz de aperfeiçoar a própria existência do homem. Assim, escolher entre “a vida com vistas no prazer ou o prazer com vistas na vida” se torna uma tarefa complexa, pois “os dois parecem estar intimamente ligados entre si e não admitir separação, já que sem atividade não surge o prazer e, e cada atividade é completada pelo prazer que a acompanha”. O prazer não pode ser separado da ação que o promove e buscado em si somente, pois o seu papel é o de complementar e aperfeiçoar tal ação, da mesma maneira “como um fim que sobrevém como o viço da juventude para os que se encontram na flor da idade” (EN, X, 4, 1175a 15-20; 1174b 30), o que, conforme Aristóteles, impossibilita que as faces viçosas possam vir a ser “genuinamente cultivadas como tais à parte da saúde e da boa forma física às quais pertencem” (NUSSBAUM, 2009, p. 257).

O tipo de prazer que devemos submeter à nossa razão está intrinsecamente ligado com a virtude ou excelência humana, pois, no mais das vezes, é por conta da parte irracional da alma que tende para o prazer que praticamos ações más265. Por esse motivo, no momento da ação prática, o homem deve buscar afastar-se dos sentimentos que, caso o dominem, o levarão, naturalmente, a decidir em direção ao que lhe trará maior prazer. Aristóteles adverte que, tanto o louvor, quanto a censura, são impingidos às ações humanas que devem pautar-se na excelência moral, capaz de afastar-se dos extremos e buscar o meio termo, assim considerado pelo homem prudente (EN, II, 4, 1105a 30).

264 Diálogo platônico que trata do prazer e da felicidade.

265“Acresce que o agradável e o doloroso cresceram conosco desde a nossa infância, e por isso é

Conforme Giovanni Reale, os prazeres são hierarquizados de acordo com um critério ontológico que os classifica em superiores, quando ligados às atividades teorético-contemplativas, e, inferiores, quando ligados à vida vegetativo-sensitiva (REALE, 1994, p. 427). Dessa maneira, de acordo com Martha Nussbaum, “os prazeres são, pois, precisamente tão distintos uns dos outros e tão incomensuráveis quanto os diferentes tipos de atividade excelente266” (NUSSBAUM, 2009, p. 257), o que faz com que alguns sejam dignos de serem desejados enquanto outros não, “pois os que provêm de fontes nobres são diferentes daqueles cujas fontes são vis” (EN, X, 3, 1173b 25-30), e o discernimento necessário para que se estabeleça quais são os verdadeiros prazeres nos será oferecido pela vida do homem feliz.

A partir da constatação da importância do prazer na vida do homem, Aristóteles empreende uma discussão que tem por fim compreender a relação existente entre a vida dos prazeres e a eudaimonia, e se os mesmos devem ser evitados ou aceitos como necessários ao homem. Inicialmente o filósofo defende o prazer como se o mesmo consistisse em uma espécie de bem estar referente ao corpo para, mais adiante, adotar uma opinião que busca conciliar a posição hedonista assumida por Eudoxo267 com aquela adotada por Espêusipo268, o primeiro, mais próximo do pensamento dos cirenaicos269, considerava o prazer como

um bem, já que para ele convergiam tanto os homens como os animais irracionais, sendo desejável por si mesmo (EN, X, 2, 1172b 20-25); enquanto o segundo considerava que o prazer e a dor corresponderiam a extremos e, assim, não poderia jamais corresponder ao bem que, como adverte, trata-se sempre de um meio termo relativo ao homem que, assim, não pode ser visto como algo bom por si mesmo. Por fim, no que trata do prazer, Aristóteles concorda com Platão ao considerar que

266 “O prazer que Aristóteles identifica é aquele que normalmente acompanha a aquisição de

excelência nas atividades” e, por sua vez, podem ser provenientes de situações infinitamente diversas umas das outras. (Cf. MACINTYRE, 2001, p. 272).

267 Eudoxo, conceituado astrônomo de Cnido, considerava o prazer como um bem, sendo natural ao

homem buscá-lo e, assim, fugir da dor que poderia prejudicá-lo. De acordo com Reale, “Eudoxo pensava na natureza física do homem”, o que não comportava uma compreensão da “dimensão metafísica” alcançada por Platão, de quem, por algum tempo, haveria sido discípulo (Cf. REALE, 1994, p. 79-80).

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Reale considera que Espêusipo, sobrinho e sucessor de Platão na Academia, “deve ter partilhado algumas idéias platônicas, porém temperando notavelmente o seu ascetismo” (Cf. REALE, 1994, p. 86; p. 93). Para Espêusipo o prazer trata-se de um processo, e, portanto, de um meio e não de um fim, nesse sentido, o prazer e a dor não podem ser vistos como um bem, pois se constitui em excesso e por tanto em vício.

269 A escola cirenaica foi fundada por Aristipo, amigo de Sócrates que, apesar de não haver discutido

sobre o fim último do homem, por levar uma vida voltada para os prazeres, e por haver dito que o prazer poderia fundamentar a possibilidade de alcançar a felicidade, induziu seus seguidores a supor “que o fim da vida consistia em viver aprazivelmente” (Cf. REALE, 1994, p. 48).

mesmo que julguemos todos os prazeres como bons, estes não podem ser considerados como a melhor coisa do mundo (EN, VII, 11, 1152b 10-15), pois, de acordo com o Estagirita, “nem todos os nossos atos trazem prazer ou são acompanhados de prazer e, ainda assim, são escolhidos e praticados270” (SANGALLI, 1998, p. 63), de maneira que é levado a afirmar que “nem o prazer é o bem, nem todo prazer é desejável, e que alguns prazeres são realmente desejáveis por si mesmos, diferindo eles dos outros em espécie ou quanto às suas fontes271” (EN, X, 3, 1174a 5-10). A ação, para ser completa, necessita do prazer que deverá acompanhá-la e, sem ela, o prazer não existirá, o que leva a concluir que, “portanto, a vida e o prazer não podem estar separados” (SANGALLI, 1998, p. 64), bem como, que o prazer, ao acompanhar a ação, assimila as características que a ela se imprimem e que a diferencia das demais.

O prazer consiste em algo em si mesmo completo e perfeito, que acompanha e intensifica a ação à qual corresponde (EN, X, 4, 1175a 10-15), não se constituindo em movimento272. Dessa maneira, de acordo com Sangalli, o próprio viver trata-se

de “uma atividade desejada”, pois desejamos a vida e não o prazer que a acompanha, de modo que as próprias ações são consideradas como boas ou más, e “os seus prazeres só o são, na medida em que as acompanham” (SANGALLI, 1998, p. 64), pois o prazer, por mais gratificante e desejável que se apresente ao homem, não pode ser considerado como o fim da ação, visto que esta pode ser realizada mesmo que não ocasione prazer algum. Nesse sentido, “Aristóteles apresenta argumentos fortes em favor da preservação de nossos compromissos atuais. Eles protegem a possibilidade contínua do sacrifício pessoal, do benefício desinteressado a outros, da busca comprometida e não instrumental de cada valor” (NUSSBAUM,

270 O prazer, apesar de constituir-se em fim em si mesmo, não independe da ação virtuosa que o

comporta, e “só porque o prazer de um tipo bem específico (...) sobrevém a cada tipo de atividade bem-sucedida, o prazer em si não é uma boa razão para se realizar determinado tipo de atividade, e não outro” (Cf. MACINTYRE, 2001, p. 272).

271 A constatação de que nem sempre o homem deverá escolher o prazer, gera profundas discussões

em torno do que pode ser considerado um paradoxo em Aristóteles, o que dá ensejo a aprofundados estudos não pertinentes a esse trabalho.

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O prazer, portanto, mesmo não transitando entre a potência e o ato, “é ato em si mesmo e por si mesmo”, constituindo-se em “um ‘algo a mais’ que aumenta a atividade e o desejo de viver”, assim, “sem atividade não há prazer e sem prazer a atividade diminui, tendendo mesmo a desaparecer”, o que leva a constatação de que “o laço que une virtude e prazer explica, enfim, por que as virtudes intelectuais são superiores às morais, pois nelas o prazer é mais intenso, mais vivo, mais longo e duradouro” (Cf. CHAUÍ, 2002, p. 459).De acordo com MacIntyre, “o prazer que Aristóteles identifica é aquele que normalmente acompanha a aquisição de excelência nas atividades”, que por sua vez podem ser provenientes de situações infinitamente diversas umas das outras. (Cf. MACINTYRE, 2001, p. 272).

2009, p. 257), o que pode ser visto como fruto da vontade livre do homem em harmonia com os ditames de sua alma.

CONCLUSÃO

Tomando por base as nossas reflexões acerca da trajetória ética de Aristóteles, consideramos lícito afirmar que, fundamentalmente, o nosso autor busca fornecer os dados capazes de levar-nos a compreender o raciocínio prático, com seus defeitos e qualidades, através de uma explicação causal do surgimento da ação racional inerente ao homem.

A atenção renovada que se tem dedicado à ética aristotélica instancia um debate profícuo, pois sua busca fundamenta-se na tentativa de nesse sistema se encontrar a possibilidade de o homem - “essa coisa estranha entre todas”, que, em última instância, é o que deve ser “preservado e para começar contra si mesmo” (AUBENQUE, 2003, p. 13) – conquistar a sua eudaimonia, esta alcançável através de uma maneira de viver capaz de suavizar os ortodoxos elementos que a ética contemporânea herdou da modernidade, e cujo paradigma pode ser encontrado no formalismo kantiano273.

Dessa maneira, acredita-se que Aristóteles poderia oferecer um modelo ético mais adaptável para as possíveis respostas necessárias às indagações da filosofia moral contemporânea, pois, o nosso filósofo, apesar de ressaltar a condição inexata da ética que, apesar de lidar com objetos variáveis, não esquece a responsabilidade que a ela subjaz.

O percurso desenvolvido neste trabalho inicia-se com uma retrospectiva que busca situar o nosso Filósofo em um contexto tal, capaz de justificar suas preocupações e seu anseio em verter uma nova luz ao estudo da Filosofia de sua época. Iniciamos com a tentativa de compreender o mundo grego que a ele antecedera, o seu distanciamento dos mitos para, em seguida, trazer à tona os ensinamentos dos filósofos da physis que, através de um pensamento racionalizado, buscavam responder às questões que lhes eram postas, originando uma nova categoria de homens, cônscios do papel que representam na sociedade em que estão inseridos. Dando seguimento ao desenvolver-se de uma nova consciência,

273 “A ética kantiana já foi caracterizada não sem razão como a ética que fornece uma expressão

filosófica à aspiração, de origem religiosa, de um mundo regrado por mandamentos. Sobre seus pilares, o princípio da autonomia e o fato da razão, os deveres estabelecem-se sob forma de imperativos categóricos que regem o mundo moral como se ele seguisse leis da natureza.” (Cf. ZINGANO, Eudaimonia e auto-suficiência em Aristóteles. Coleção Dissertatio. Pelotas: EGUFPel, 2002, p. 9).

surgem os sofistas que, criticados ou valorizados, trazem a possibilidade de uma maior democratização do conhecimento insurgente. É nesse momento de efervescência cultural que surgem Sócrates, Platão e, com eles, uma nova visão da alma humana. Para culminar o brilhantismo desses pensadores, sobrevém Aristóteles que, além de promover a sistematização do saber que o antecedera, suscita a abertura de novos caminhos para o homem que, no seu pensamento, é o próprio objetivo do conhecimento.

Dando seguimento ao pensamento socrático-platônico e sofístico, com Aristóteles o próprio homem torna-se objeto de conhecimento. O filósofo busca compreender os desdobramentos da alma humana, o intelecto capaz de fazê-lo conhecer, bem como o seu próprio fim: a eudaimonia. Convicto que a cada coisa é dada a sua excelência, Aristóteles, seguindo o pensamento socrático-platônico, promove uma ética das virtudes capaz de tornar o homem excelente na busca de sua realização. Como vimos, tais virtudes podem ser éticas ou dianoéticas, conforme a parte da alma a que correspondam, sensitiva ou racional. Nesse sentido, elaboramos um pequeno estudo sobre as virtudes éticas cardeais professadas pelo autor, e sobre a importância da deliberação e da vontade na aquisição das mesmas. Tais virtudes (de acordo com o discípulo de Platão, a quem de alguma forma se opõe ao procurar distanciar-se do intelectualismo que caracterizava seu antigo mestre) são fruto de uma decisão baseada na prudência.

Aristóteles acredita na possibilidade de a eudaimonia, vista como bem supremo que anima o homem em seu percurso, ser alcançável através da prática reiterada das virtudes. Para tanto, enfatiza a importância da educação na criação dos hábitos que, posteriormente, virão a formar o caráter do homem. Esse homem, ao aprender a gostar do que deve, e a valorizar o que realmente é digno de valor, se realizará na prática das ações mais caras à sociedade que o acolhe e, com isso, sentirá o prazer relativo a tais práticas capazes de contribuir com a obtenção do seu fim último, ou seja, a felicidade.

Nesse sentido, podemos afirmar a compreensão de que a ética aristotélica, independente de ser perfeita ou não, mas sim por ser perfectível, tem um valor inesgotável em virtude de ser boa o suficiente para, em concordância com o senso comum, ser compreendida pelos cidadãos da pólis, como capaz de realizar a vontade, já entrevista por Aristóteles, de cada um e do conjunto de seus cidadãos. Isso porque a ética aristotélica teria por fim elaborar uma maneira de se viver em

coletividade capaz de possibilitar ao homem se adaptar ao particular e buscar atingir a correção do todo274. Dessa forma, essa ética, necessariamente, se submeteria à

política, em virtude de a cidade se constituir no lócus excepcional onde as virtudes éticas dos cidadãos e a própria prudência se manifestariam. Dessa maneira, tal ética se constituiria no elemento decisivo da harmonia na pólis, consistindo em um elemento fulcral da vida boa para toda a comunidade buscada pela política.

Essa dinâmica ocorreria pois, levando-se em conta o caráter natural da cidade professado por Aristóteles (1253a 3), o homem estaria inserido na pólis capaz de realizá-lo como tal. Nela, a confluência entre o bem individual e o bem comum faz-se necessária, sendo ambos objetos da política, cuja pretensão é sempre a de viabilizar a felicidade do todo ou de cada um.

Dessa maneira, o papel da política é o de dirigir a pólis, através daqueles que conquistaram essa função graças ao bom uso dos conhecimentos adquiridos, tanto pela teoria, como pela prática. Tais conhecimentos, frutos do estudo e da experiência, possibilitariam aos legisladores criar as leis necessárias capazes de contemplar, na medida do possível, às particularidades do todo que pretendem atingir.

Para tanto, ao político, com a prerrogativa de legislar que lhe é inerente, cabe sempre buscar harmonizar as exigências que lhes são feitas através do exercício da virtude da justiça que, perseguida pelos legisladores, em geral, buscará sempre o aperfeiçoamento da pólis. Isso porque, procurar o melhor possível, se aproximar de um ideal que, apesar de utópico, deverá servir de parâmetro para a realidade que se lhe apresenta, com as imperfeições que a caracterizam, é sempre função daquele que, além de criar leis, deverá zelar pelo seu cumprimento.

Dessa forma, ao tentarmos compreender a ética aristotélica, somos levados a uma apreensão maior das nossas próprias ações, pois o tratado ético que nos foi legado por esse Filósofo se impõe diante de nós e nos leva a elaborar questionamentos sobre nossa maneira de agir e sobre nossas certezas, bem como a respeito de uma maneira mais harmônica de convivência dentro da pólis, onde as ações efetivadas devem ser responsáveis e excelentes.

274 O agente deve ser movido por algo que acredite ser o bem a ser efetivado naquele momento e

naquela situação específica. Na sua obra Metafísica, Aristóteles estabelece a dupla visão de que: “[...] em assuntos práticos, o procedimento consiste em ir daqueles que são os bens para cada pessoa a como aqueles que são bens em geral podem ser o bem para cada um” (Cf. MET, 1029b 5-7, apud MACINTYRE, 1991, p. 140).

Essa advertência aristotélica sobre a necessidade de cada um cumprir com a sua função própria culmina em uma teoria das virtudes que, com o meio termo que a caracteriza, está associada às circunstâncias em que o agente está inserido e que

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