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A adição de polietilenoglicol ao surfactante exógeno não modificou a mecânica respiratória nem a troca gasosa dos animais em relação ao tratamento com surfactante tradicional, seja quanto à complacência

dinâmica, com base na pressão necessária para se obter o volume-corrente alvo de 10 ml/kg, seja quanto aos vários parâmetros de oxigenação

estudados. Esta informação sugere que, na concentração em que foi

adicionado o polietilenoglicol (5%, massa/volume), não ocorreu uma redução da inibição do surfactante exógeno pelas proteínas presentes no edema alveolar na SDRA. Analisando-se tanto os valores de mecânica respiratória quanto os parâmetros de oxigenação pré-lavagem e no 5º minuto pós- lavagem, ocorreu piora acentuada da função respiratória que foi corrigida parcialmente pela instilação endotraqueal de surfactante, permanecendo assim abaixo dos valores pré-lavagem e semelhantes nos dois grupos de estudo, no decorrer das 4 horas de ventilação. Este resultado está em desacordo com os dados da literatura obtidos a partir dos estudos in vitro (23,41,43) onde, avaliando-se em balança de tensão superficial

(91,92,93,94) os efeitos da adição de PEG ao surfactante pulmonar,

encontrou-se um efeito protetor em relação à inativação por proteínas e por mecônio ( 23,41,43).

Uma possível explicação para este achado é o tempo de ventilação utilizado neste estudo. Uma vez que a função respiratória e o edema pulmonar se acentuam na SDRA em função do tempo, é possível que uma melhora da função do surfactante através da adição de PEG pudesse ser observada em períodos mais longos de ventilação mecânica (8 a 12 horas). Isto é

reforçado na análise dos resultados gasométricos, onde tanto o índice de oxigenação, quanto a diferença alvéolo-arterial de oxigênio e a relação artério-alveolar de oxigênio, demonstraram uma tendência de piora da função respiratória com o tempo, embora discreta. Desta forma, a diferença

o tratamento com surfactante exógeno, subiu para cerca de 230 mmHg no final do experimento, com valores médios praticamente idênticos em ambos os grupos de estudo. De modo semelhante, a relação artério-alveolar de oxigênio caiu, de um valor médio pré-lavagem de 0,78 (o valor normal na literatura para a espécie humana é de 0,75 a 0,9) (95) para 0,14 no 5º minuto após a instalação da SDRA. Após o tratamento com surfactante ambos os grupos apresentaram boa recuperação, porém com uma queda lenta e gradual, chegando, no final do período de ventilação, a um valor médio, 13% inferior ao observado aos 30 minutos do experimento, e,

novamente apresentando valores médios praticamente idênticos em ambos os grupos de estudo.

Como foi discutido anteriormente, neste modelo animal existe uma limitação de números de horas de manipulação dado a fragilidade da espécie

utilizada, daí não tendo sido possível ampliar o período de estudo. Destacamos a possibilidade de que possam existir resultados favoráveis

para a adição do PEG ao surfactante exógeno em estudos in vitro(96)

porém eles não se confirmam nos estudos in vivo(83), demonstrando que a

dinâmica e a complexidade da interação do surfactante com o

polietilenoglicol e as proteínas inibidoras no interior do alvéolo possam produzir resultados diferentes daqueles observados em uma condição artificial e estática, como na balança de tensão superficial. De fato, em 2002

Campbell et alutilizando um modelo animal para instalação de SDRA,

encontraram resultados semelhantes aos nossos, não demonstrando um efeito protetor da adição de PEG ao surfactante exógeno (83).

As condições ventilatórias não influenciaram os resultados dos parâmetros analisados de mecânica respiratória e de oxigenação; a análise dos dados de volume-corrente mostrou que os animais foram ventilados de modo semelhante, sendo que tanto o índice de eficiência ventilatória quanto os

valores de PaCO2 se mantiveram constantes durante todo o período de

estudo.

Em relação ao equilíbrio ácido base, os valores do pH arterial em ambos os grupos apresentaram recuperação parcial em relação aos valores

observados depois da confirmação da SDRA permanecendo estáveis com valores médios entre 7,12 e 7,20 até o final do período de ventilação, não influenciando em suas evoluções.

A semelhança da função de ambos surfactantes encontrada neste estudo fica bem evidente quando se observa a curva pressão-volume pulmonar. Os dois grupos de estudo, apresentaram semelhante pressão de abertura (15

cmH2O), de volume pulmonar máximo (cerca de 35 ml/kg) e, principalmente,

mesma estabilidade alveolar ao fechamento, mostrando novamente que a adição de PEG ao surfactante exógeno, nas condições em que este

experimento foi realizado, não melhorou a função do surfactante pulmonar. Optamos por fixar os pulmões após aplicar uma pressão traqueal de 30

cmH2O por um minuto, seguido da redução desta pressão para 10 cmH2O e

ligadura da traquéia utilizando um cardarço de algodão. Esta manobra foi utilizada a fim de permitir o estudo da histopatologia pulmonar na fase de colabamento ao final da expiração, o que facilitaria a identificação de

pulmonar durante pelo menos 24 horas visou uma melhor qualidade de fixação das peças estudadas, uma vez que com esta técnica o fixador se distribuiu de maneira homogênea por todo o tecido pulmonar.

Realizamos cortes sagitais logo abaixo do hilo pulmonar no sentido da região não dependente para região dependente, a fim de verificar se a posição do tecido pulmonar analisado influenciava nos resultados obtidos. Uma vez que durante todo o experimento o animal permaneceu em decúbito dorsal, definimos como área “não dependente” (ou seja, não dependente da força de gravidade) a região do pulmão localizada na parte anterior do tórax, junto ao externo, e como área “dependente” (ou seja, dependente da força de gravidade) a região posterior, junto à coluna torácica. A qualidade e a uniformidade da leitura das lâminas foi comprovada em uma fase-piloto, onde foram realizadas leituras de um mesmo campo microscópico em momentos diferentes por dois pesquisadores (nós e uma pesquisadora com experiência na leitura de lâminas), seguido da comparação dos resultados, os quais foram praticamente iguais.

Optamos por estudar o diâmetro alveolar médio (Lm) porque esta medida avalia o tamanho e a distância entre as paredes alveolares. O valor semelhante de Lm encontrado em nossos grupos de estudo reflete que a capacidade do surfactante em manter o alvéolo aberto na fase expiratória do ciclo, não foi influenciada pela adição do PEG, sugerindo que o grau de inativação do surfactante foi semelhante entre eles .

Por outro lado, o encontro de valores semelhantes de índice de distorção indica que esta semelhança nos valores do diâmetro alveolar médio ocorreu

por ação semelhante do surfactante em ambos os grupos de estudo e não pela ocorrência simultânea de áreas de atelectasia e de hiperdistensão em um dos grupos, fato que resultaria em valores elevados do índice de

distorção e seriam indicativos de disfunção do surfactante exógeno utilizado para o tratamento dos animais.

O valor semelhante de proteínas no lavado broncoalveolar revela que o grau de inflamação e edema alveolar foi semelhante em ambos os grupos de estudo.

A análise global dos resultados reforça a idéia de que, nas condições em que foi realizado este estudo, a adição do polietilenoglicol a um surfactante exógeno comercialmente disponível no nosso meio não modificou a sua função, o que nos faz concluir que não houve melhora da sua inativação pelas proteínas presentes no edema alveolar.