Os visitantes são atraídos pela ritualização do passado no presente e, simultaneamente, os naturais não podem ficar indiferentes a um quadro que polariza tantas atenções exteriores: o encontro quotidiano com visitantes, o estatuto jurídico particular do espaço onde vivem e o controlo administrativo que implica lembram quotidianamente aos naturais que vivem num espaço diferente (Fabre, 2000b: 207), carregado de memórias que vão reconstruindo a história.
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Nora considera memória um conceito oposto de história e não sinónimo: “La mémoire est la vie, toujours portée par des groupes vivants et à ce titre, elle est en évolution permanente, ouverte à la dialectique du souvenir et de l’amnésie, inconsciente de ses déformations successives, vulnérable à toutes les utilisations et manipulations, susceptible de longues latences et de soudaines revitalisations. L’histoire est la reconstruction toujours problématique et incomplète de ce qui n’est plus. La mémoire est un phénomène toujours actuel, un lieu vécu au présent éternel; l’histoire, une représentation du passé. (…) La mémoire est un absolu et l’histoire ne connaît que le relatif” (Nora, 1997: 24-25).
David Herbert (1997: 10-12) considerou esta reconstrução da história, que se observou em muitos locais, de que resultou uma distorção ou recriação do património e a consequente perda de autenticidade, um dos aspectos negativos do uso do património para atrair visitantes. O impacto sobre as populações locais e o meio, podendo a exploração do património significar invasão da privacidade ou ameaça ao meio ambiente, bem como a selecção/exclusão que quem explora o património faz ao oferecer os seus «bens» ao público, são outros dos aspectos negativos: não se mostra maus cheiros, sons e marcas de pobreza mesmo que as haja, nem se levanta questões éticas41 pois a história é sempre mostrada como pitoresca e idílica.
Para Bromberger e Chevallier (2004) também as festas- quer celebrem ou não um produto como o vinho, mel ou chouriços- visam restaurar ou mesmo modificar a imagem pública de uma dada colectividade: por isso o poder político encoraja a realização de umas negligenciando outras politicamente menos correctas. De facto, o património é normalmente engalanado, diz Lowenthal (2003): melhora-se, revendo o passado a partir de perspectivas actuais exemplares e dota-se o presente com traços idealizados dos tempos passados, duas atitudes que colocam o património junto dos deuses. Mas é também muitas vezes voluntariamente esquecido42, com o objectivo de perdoar, libertar, imortalizar, punir ou eliminar: longe da vista, longe do coração.
Para quem visita Guimarães, a cidade foi e é, desde há décadas, um local “histórico”, um local com o valor de antiguidade (Alterswert) tal como Riegl o definiu43, cuja apresentação implica que a coisa antiga esteja claramente separada da que não é, isto é, do novo, e sobre o qual o tempo deixou materialmente a sua marca, realizando uma espécie de epifania do passado que provoca nos sujeitos modernos, qualquer que seja a sua origem e formação, uma enorme emoção, fascínio e prazer: o
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A este propósito Herbert (1997: 11) levanta questões tais como: em locais como Auschwitz são respeitadas questões éticas? O sofrimento humano e a pobreza são alguma vez mostrados a turistas?
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“Unlike historical writings, museums are meant to show only sanctified or sometimes scandalous bits of the past. Hence museums in Brazil (unlike Stockolm) celebrate largely an imperial and religious heritage (c. 1700-1920), omitting primitive Indians, slavery, and post-colonial decline hence New York’s Museum of Immigration on Ellis Island makes no reference to the immigrant underworld of Sicilian Mafiosi and Jewish prostitutes. Hence a Vietnam memorial would wrongly hallow the war, argued a veteran: «Let’s not perpetuate the memory of such dishonourable events by erecting monuments to them». Hence animal rightists damned a proposed museum of British hunting as glorifying «part of our heritage we ought to eradicate altogether from our minds». They did not mean to delete hunting from
history; its evils had to be chronicled. But to museumize hunting implied approving it as heritage.
Conversely, a British Peoples Museum is now said to deserve a central London showcase, for «we have a history as proud as the French or the Americans». Pride- tribal, local, or national- is what most museums are for” (Lowenthal, 2003:160).
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“l’Alterswert de Riegl n’est pas l’antico, la valeur d’antiquité reconnue depuis l’aube de la Renaissance italienne comme la source des plus hautes émotions de l’art et du savoir (…). L’Alterswert est la mise en relation, à travers un monument ou un objet, avec le passé en tant que tel” (Fabre, 2000b: 202).
valor de antiguidade de Riegl é exaltado pelo reconhecimento do público e pela reprodução de imagens (Fabre, 2000b).
O reconhecimento público da expressão “Berço da Nacionalidade” (mesmo que racionalmente falando não consiga exprimir a complexidade histórica que rodeia o nascimento de uma nação) compreende-se pois as origens de Portugal estão indissoluvelmente ligadas à vila, depois cidade que foi honor dos Condes de Portucale e dos seus descendentes, os reis de Portugal (Mattoso, 1998: 10). O significado simbólico deste acontecimento histórico foi, no entanto, o que prevaleceu no imaginário colectivo local e nacional: o produto “ Aqui nasceu Portugal” vendeu-se durante décadas, centrando as atenções de visitantes e naturais num conjunto arquitectónico- Colina Sagrada- fabricado com sentido comemorativo pelo Estado Novo, que procurava através dessa monumentalidade exaltar os feitos pátrios, construindo um discurso de grandiosidade nacional a partir de estilizações historicistas (Tostões, 1995).
Em Portugal, como de uma forma geral em toda a Europa, a construção de monumentos públicos memoriais foi uma das formas de afirmação dos poderes políticos (Hobsbawm, 1997).Efectivamente, entre as manifestações importantes ou significativas da memória colectiva encontra-se o aparecimento, no século XIX e no início do século XX, de dois fenómenos: o primeiro, a seguir à Primeira Guerra Mundial, é a construção de monumentos aos mortos- desenvolvendo a construção funerária, em numerosos países é erigido um Túmulo ao Soldado Desconhecido, procurando ultrapassar os limites da memória, associada ao anonimato, proclamando sobre um cadáver sem nome, a coesão da nação em torno da memória comum; o segundo é a fotografia, que, revolucionando a memória, multiplica-a e democratiza-a, dando-lhe uma precisão e uma verdade visuais nunca antes atingidas e permitindo assim guardar a memória do tempo e da evolução cronológica (Le Goff, 1984).
Décadas mais tarde, é novamente a época medieval que é exaltada e invocada para legitimar a excelência do centro histórico de Guimarães. A importância histórica da cidade volta a ter visibilidade depois de alguns anos de dúvidas- surgidas com o regime democrático pós-25 de Abril- em relação à forma sobrevalorizada como monumentos e acontecimentos históricos de Guimarães encaixavam no passado nacional. Quem decidiu, entretanto, do seu “valor histórico”? Foram os historiadores e arqueólogos ou quem procurou, uma vez mais, usar o património com outros objectivos para além do âmbito cultural, educação formal, pesquisa ou conservação? Se nos anos 40, a invenção de uma tradição (Hobsbawm, 1997) foi uma clara forma de o poder central se afirmar
política e ideologicamente, nos nossos dias a requalificação urbana e posterior classificação de Património da Humanidade do centro histórico de Guimarães, proporcionou, sem dúvida, agora a nível local, protagonismo político, prestígio social e cultural, benefícios económicos. Saber qual ou quais pesaram mais em termos de decisões técnicas e institucionais é uma das questões para a qual não obtive resposta ao longo deste trabalho. Bem como não obtive resposta para a questão de saber se o centro histórico de Guimarães teria ou não sido classificado pela UNESCO44 se não se tivesse criado esta tradição anteriormente: uma cidade ser berço de toda uma nação.