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Mvabund for all depth layers at Missingene and Elle (Zoo 1 )

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3.3 Multivariate abundance analyses

3.3.1 Mvabund for all depth layers at Missingene and Elle (Zoo 1 )

Pretende-se aqui tratar dos problemas gerados unicamente pela tradução de textos literários. Para tanto, foi seguido um caminho de reflexão que, partindo do estatuto do tradutor como leitor e autor sui generis, leva-nos a penetrar no “bosque” da tradução (metáfora usada por Umberto Eco com relação aos universos literários) percorrendo as pistas deixadas por este tipo de tradutor privilegiado.

Os modernos estudos sobre o processo de tradução mostram que o tradutor não

pertence ao conjunto de receptores naturais de um texto original, mas que deve ser um leitor extraordinário que tenta se aproximar o mais possível da compreensão total do texto, embora ciente de que jamais atingirá seu objetivo.

Para definir a especificidade desse leitor sui generis na tradução literária foram

adaptados os conceitos que Umberto Eco41 desenvolveu em sua obra Leitor in Fabula

sobre a união de um leitor modelo e de um autor modelo.

Umberto Eco não inclui explicitamente os tradutores entre os leitores modelo, entretanto, pensamos que sua definição pode adequar-se ao tipo de leitor representado pelo tradutor. Diz ele:... um leitor-tipo que o texto, não somente prevê como

colaborador, mas que, também, pretende criar (P.16)

Eco contrapõe a esse leitor privilegiado o “leitor empírico” que define como sendo aquele que pode ler o texto de muitas maneiras, sem que haja lei nenhuma que imponha a maneira como deva lê-lo, porque ele o usa freqüentemente como recipiente para suas próprias paixões, que podem estar no interior do texto ou que o mesmo possa despertar nele de forma casual.

Independentemente da sua intencionalidade, presume-se que cada obra tenha,

em princípio, um número indeterminado de leitores empíricos; os autores, porém, têm certamente em vista seu “leitor ideal” que se aproximará do “leitor modelo” de Eco e que seria uma projeção dos próprios autores. Cada autor escreve pensando num leitor idêntico a ele próprio, com suas mesmas exigências, com um mesmo mundo referencial que lhe permita seguir e captar os indícios que ele irá deixando ao longo de sua obra.

Em uma entrevista dada por Julio Cortázar e transmitida pela TVE, o autor afirmou que, quando escreveu seu romance Rayuela (O jogo da amarelinha) tinha em vista leitores de sua própria geração e admirou-se muito ao ver que seu romance interessou, preferencialmente, aos leitores da geração seguinte.

O tradutor, na qualidade de leitor privilegiado, tem que se aproximar muito do autor, ler e reler o texto (Jorge Luis Borges considerava que as traduções literárias eram o resultado de intensas leituras), trabalhar com ele, conhecer sua obra em geral, seus pensamentos, sua ideologia, seu estilo, para que possa ser capaz de perceber todos os indícios que foram semeados ao longo da obra.

O tradutor como leitor deverá aproximar-se ao máximo da intenção do autor e, paralelamente, converter sua leitura/tradução no primeiro passo em direção a uma tradução-criação na língua de chegada, isto porque ele reúne, em sua qualidade de leitor

sui generis, as características de um leitor modelo na medida em que é,

simultaneamente, leitor e autor.

41

ECO, Umberto. Seis pasos por los bosques narrativos. Editorial Lumen. Barcelona. 1996.

Essa dialética entre autor/leitor-modelo e tradutor/autor é o caso extremo descrito por Umberto Eco para que se consiga ser um bom leitor: é necessário converter-se, ao mesmo tempo, em um bom autor. Esse conceito irá refletir-se nos que consideram o ato da tradução como um ato de produção artística, tal Charles

Baudelaire ao traduzir a obra de Edgar Allan Poe ou Julio Cortázar traduzindo Baudelaire. Esses escritores assumem a “voz” do autor, servindo-se de suas leituras,

técnicas e procedimentos de tradução pertinentes, mas também se convertem em autores com voz própria na língua de chegada. Diferentemente, porém, do autor original, que tem todas as liberdades, o tradutor estará limitado pelo universo ficcional estabelecido na língua original.

Um caso extremo da dialética autor/tradutor é o dos autores que traduziram suas

próprias obras literárias, ou seja, os auto-tradutores. Ainda que se possa levar em conta que inúmeros escritores escreveram em duas ou mais línguas, ou que se converteram em tradutores literários como o caso de Paul Celan [considerado um destacado tradutor literário tendo até mesmo obtido o mais prestigiado prêmio de tradução na Alemanha] ou de Fernando Pessoa, em língua portuguesa, são poucos aqueles que se auto traduziram. É provável que os autores antes mencionados sirvam de exemplo a quem separa, claramente, as tarefas de autor e de tradutor. Eles dão a impressão de não estarem dispostos a perder sua condição privilegiada de autores que escrevem para si mesmos e para um leitor ideal, e de se converterem em tradutores a serviço de um autor outro. Recusam-se a entrar no campo da auto-tradução que representaria uma re- escritura de suas obras numa outra língua para novos leitores empíricos dos textos traduzidos.

Como importantes auto-tradutores, podemos citar dois exemplos: o de Vladimir Nabokov que se auto traduziu tendo, provavelmente, por objetivo divulgar sua obra para uma comunidade lingüística distante do universo de sua língua original, o russo, e o de Milan Kundera que teve evidente vontade de diferenciar as duas competências, pois firmou sua tradução com pseudônimo, deixando bem marcada a distância entre seu papel de autor e de tradutor.

O auto tradutor será visto mais como autor na língua alvo do que como tradutor, pois na sua qualidade de autor se encontra numa situação privilegiada pelo acesso que tem à sua, digamos, “verdadeira intenção”.

Georges Mounin42 faz uma distinção essencial da tradução em sua fórmula

lapidar: Tous les arguments contre la traduction se résument en un seul: elle n’est pas

l’original

Apropriar-se de um texto significa outorgar-se prerrogativas de autor sobre o texto de outrem e permitir-se continuar o trabalho da escritura na língua alvo. O aspecto paradoxal da auto-tradução se deve ao fato de que atributos diametralmente opostos: “o embelezamento” e o “aperfeiçoamento” não são mais da órbita do tradutor; isto porque, por definição, tais operações transformam o original em um outro texto diferente daquele que foi escrito pelo autor. Uma vez um texto publicado, somente o autor teria autoridade para modificá-lo, já que essas transformações seriam consideradas como alterações do texto original.

Tendo o autor todos os direitos, a auto-tradução seria plural por sua própria natureza: ela seria livre de se conformar a tal ou qual doxa, até mesmo a várias, no sentido em que seria mesmo transdoxal. Ele é livre para realizar na obra todas as mudanças que desejar, podendo até mesmo chegar a uma verdadeira re-criação. Assim, uma tradução feita pelo próprio autor, já que ela faz texto, seria considerada como uma versão integral da obra original.

Sendo as relações entre as línguas extremamente complexas seria impossível definir a linha divisória de um domínio cujos contornos são tão flutuantes. O título dado

por Julien Green43 a seu livro Le langage et son double foi traduzido por ele ao inglês

como The language and its Shadow. O autor julgou por bem traduzir duplo (double) do francês por sombra (shadow) do inglês, isto, por que, a sensibilidade do bilingüe e, em particular do escritor, vê uma diferença de percepção entre as duas palavras. Traduzir

double (francês) por double (inglês) não corresponderia exatamente à mesma coisa.

Julien Green afirma haver, igualmente, uma diferença do modo de sentir entre a palavra inglesa sky (céu) e a palavra francesa ciel (céu).

Comete-se um grande erro ao atualizar-se a língua da obra original sob o pretexto de facilitar a leitura da obra por um leitor contemporâneo. Se um leitor nativo pode compreender a obra de um autor que escreveu no século XVII, por exemplo, não há razão para que a tradução seja “atualizada”. Entretanto, caso essa seja a intenção da editora ou do tradutor tal procedimento deverá constar de forma clara e nítida na apresentação da obra.

42 MOUNIN, George. Les belles infidèles. Paris. Cahiers du Sud. 1955. 43

GREEM. Julien. Le langage et son double. Editions du Seuil. Paris. 1987.

Haroldo de Campos44 cita o seguinte texto de Rudolf Pannwitz, criticando o

sistema tradutório alemão:

Nossas versões, mesmo as melhores, partem de um princípio falso. Pretendem germanizar o sânscrito, o grego, o inglês, em lugar de sanscritizar o alemão, grecizá-lo, anglizá-lo. Têm muito mais respeito pelos usos de sua própria língua do que pelo espírito da obra estrangeira... O erro fundamental do tradutor é fixar-se no estágio em que, por acaso, se encontra sua língua, em lugar de submetê-la ao impulso violento que vem da língua estrangeira.

Uma tradução recriada pelo tradutor, deveria ter em sua capa a menção clara de

que era uma obra do autor X na versão do tradutor Y. Isso evitaria que lêssemos um romance de Dostoievsky pensando ser dele quando, na realidade estaríamos lendo um texto de, por exemplo, Os irmãos Karamázov, na versão do tradutor Y.

7.2 Nossa língua – como se aprende a falar

O jornal La Nación45, de Buenos Aires menciona um seminário do Instituto de

Neurologia Cognitiva (INECO), no qual vários investigadores, dentre os quais o Doutor Lambon Ralph, professor de neurologia cognitiva da Universidade de Cambridge e a Dra. Karalyn Patternson investigadora do Medical Research Council reuniram-se em grupos para investigar os problemas da afasia, dos transtornos cognitivos da linguagem e de como o ser humano aprende a falar.

Patterson e Lambon que lideram, presentemente, importantes grupos de

investigação britânicos cuja finalidade é elucidar como se adquire, desenvolve e produz a linguagem, confessam não terem chegado ainda a nenhuma conclusão.

Cito:

El tema es apasionante. “Los chicos – explica Patterson – nacen con un conjunto de herramientas perceptivas que se desarrollan mui rápido: pueden ver, oír, sentir, y todo eso se inscribe en un conjunto de patrones coherentes y repetibles. Se sabe que aprenden a comprender el lenguaje asociando

44 CAMPOS, Haroldo. A arte no horizonte do provável. Perspectiva. São Paulo. 4a. ed. 1977. 45

La Nación, de 28.02.2006, in : www.lanacion.com.ar