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Nessa etapa, analisamos a informação para chegarmos às discrepâncias (entre a situação real e a situação desejada sob o paradigma da Educação do Campo) e para compreender os problemas, as dificuldades e os interesses em termos de suas causas, relações, contradições e mediações. Para isso, comparamos as necessidades expressas pelos diferentes grupos com outras fontes de informação, como documentos do município, dados registrados nas observações feitas durante as visitações pelo pesquisador, dados dos relatórios de observação e regência dos estagiários e os registros das entrevistas com os coordenadores da secretaria municipal de educação e com líderes de movimentos sociais, conforme o quadro a seguir.

Quadro 13 - Elementos complementares da Etapa Analítica.

Fontes de informação Instrumentos de pesquisa

a) Coordenadores educacionais do município

Entrevistas b) Líderes de movimentos sociais

c) Visitações

Observação direta das escolas, salas de aula, condições de trabalho (Diário de Campo e roteiro de observação)

d) Relatórios de Estágio do curso de

Licenciatura em Educação do Campo Análise documental e) Documentos

Fonte: O autor (2018).

Na etapa analítica, as necessidades formativas são apresentadas na ordem em que as categorias surgiram durante a análise dos dados. Entendemos que essas necessidades formativas estão, nessa etapa, em um nível sincrético, isto é, agregando as opiniões de diferentes sujeitos, grupos ou fontes de informação.

Nessa etapa, utilizamos elementos teóricos do Círculo de Bakhtin, dado o seu caráter dialético, para enriquecer o diálogo entre os dados coletados na etapa exploratória, os dados complementares e o referencial teórico, evidenciando o que há em comum entre os sujeitos e as ideologias presentes ou ausentes nos enunciados. Desse modo, usamos os textos de Bakhtin e Volochinov (1981)54, Bakhtin (2003), Castro (2010), Silva (2013) e Fiorin (2016), dentre outros. Foi importante também, como modelo de análise na área de pesquisa em ensino de Ciências da Natureza, o trabalho de El-Hani e Sepúlveda (2011). Esses elementos teóricos foram importantes para relacionarmos os enunciados dos sujeitos pesquisados com as ideologias por trás dos paradigmas da Educação Rural e da Educação do Campo.

O Círculo de Bakhtin refere-se a um grupo de intelectuais formado pelo pensador russo Mikhail Bakhtin (1895-1975). Uma das suas contribuições é a ideia de que o discurso é contextual, isto é, o resultado de condições socio-históricas, embora não tenham produzido uma teoria sistematizada para a análise do discurso (BRAIT, 2006). Dessa forma, o que falamos é um eco daquilo que é dito em meio ao contexto em que nos desenvolvemos (SILVA, 2013). Para esse tipo de análise é importante que se esclareça o significado de alguns conceitos como discurso, enunciado, gênero do discurso, dialogismo e polifonia:

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Usamos o nome ―Volochinov‖ em vez de ―Voloshinov‖ e usamos o nome dos dois autores conforme a indicação da autoria na edição consultada, segundo orientado por Silva (2013, p. 47), dado que ―não há um consenso sobre a autoria da obra‖ entre os especialistas.

a) Enunciado: processo que constitui a ―real unidade da comunicação discursiva‖, verbal ou visual, em seu contexto de produção, circulação e recepção (BAKHTIN, 2003, p. 274). Pode ser uma palavra, um trecho de um texto ou vários volumes inteiros de uma obra, segundo Silva (2013). É delimitado por sua capacidade de corresponder à resposta de alguém, mesmo que este alguém não seja identificado ou endereçado, e por dar condições para uma réplica. Assim, é a ―alternância dos falantes‖ que delimita o enunciado (BAKHTIN, 2003, p. 275). Isso acontece quando o enunciado se constitui em um todo dotado de sentido, através da sua significação (dimensão linguística) e do seu tema (dimensão contextual). O enunciado evidencia o caráter dialético da linguagem entre o individual e o social, entre o social e o ideológico, entre o material e o pensamento (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 1981). Essa compreensão nos levou a considerar na análise os aspectos contextuais do material coletado, isto é, as condições de produção. Também contribuiu para o nosso objetivo de relacionar os diferentes enunciados com as ideologias que circulam na educação do mundo rural;

b) Discurso: é o objeto linguístico da comunicação, como a palavra ou o texto, entre interlocutores que só tem sentido em um enunciado, isto é, como parte de um processo de comunicação contextualizado e dotado de sentido. ―Porque o discurso só pode existir de fato na forma de enunciações concretas de determinados falantes, sujeitos do discurso‖ (BAKHTIN, 2003, p. 274). Assim, o nosso corpus, ou seja, o conjunto de materiais para a análise na forma de textos transcritos e textualizados, oriundos de respostas a questões abertas dos questionários, dos formulários, das entrevistas semiestruturadas e de relatórios e documentos, foi composto por uma série de textos, sem tamanho especificado, que pudessem ser considerados como ―unidades de sentido‖ (SILVA, 2013, p. 50). Dessa forma, enquanto que a delimitação do enunciado, que é um processo, está no seu potencial ou capacidade de permitir a alternância entre interlocutores, a delimitação do discurso, que é um texto, está na sua propriedade de ter sentido;

c) Dialogismo: tem relação com a ideia da língua como interação verbal, ilimitada no tempo e espaço. Portanto, o nosso enunciado é o resultado do diálogo com outros enunciados, passados e futuros. O dialogismo ―se dá pela interação entre interlocutores diretos e pela relação entre vozes (dizemos também discursos)

presentes, de forma explìcita ou não, nos enunciados‖ (SILVA, 2013, p. 54). Assim, a nossa voz ou o nosso discurso não é original, mas o resultado de outros enunciados e será utilizado para compor enunciados. O nosso enunciado, portanto, carrega ―tons‖ e ―ecos‖ de outros enunciados, em maior ou menor grau (BAKHTIN, 2003, p. 293).

Ademais, todo falante é por si mesmo um respondente em maior ou menor grau: porque ele não é o primeiro falante, o primeiro a ter violado o eterno silêncio do universo, e pressupõe não só a existência do sistema língua que usa mas também de alguns enunciados antecedentes – dos seus e alheios – com os quais o seu enunciado entra nessas ou naquelas relações (baseia-se neles, polemiza com eles, simplesmente pressupõe os já conhecidos do ouvinte). Cada enunciado é um elo na corrente complexamente organizada de outros enunciados (BAKHTIN, 2003, p. 272).

A partir disso podemos pensar em polifonia, como a característica do enunciado que carrega em si outros enunciados. Nesse sentido, para a análise dos nossos dados procuramos as correspondências entre os enunciados dos diferentes sujeitos investigados com outros enunciados do campo da educação e da formação docente, identificando, por exemplo, aqueles que caracterizam a racionalidade tecnocrática e aqueles que expressam a racionalidade emancipatória sob o paradigma da Educação do Campo;

d) Gênero do discurso: são enunciados produzidos e circulantes em determinadas áreas e situações sociais de interação, formando modos característicos e sociais de comunicação em palavras e ações. Conforme Bakhtin (2003, p. 262): ―cada campo de utilização da língua elabora seus tipos relativamente estáveis de enunciados, os quais denominamos gêneros do discurso‖. Dessa forma, os gêneros discursivos são enunciados com traços que apresentam uma regularidade, que foi construída historicamente nas atividades humanas. Por conseguinte, a análise dos gêneros que identificam grupos e campos do saber deve ir além do texto, considerando do mesmo o seu processo de produção, distribuição e recepção, além das relações dialógicas que o caracterizam. Os gêneros discursivos, formas típicas de enunciados, fazem parte do nosso cotidiano e podem ser determinados a partir dos aspectos textuais comuns, das situações da comunicação discursiva e da composição dos participantes, conforme Bakhtin (2003, p. 282).

Falamos apenas através de determinados gêneros do discurso, isto é, todos os nossos enunciados possuem formas relativamente estáveis e típicas de construção do todo [...] Nós aprendemos a moldar o nosso discurso em formas de gênero e, quando ouvimos o discurso alheio, já adivinhamos o seu gênero pelas primeiras palavras, adivinhamos um determinado volume (isto é, uma extensão aproximada do conjunto do discurso), uma determinada construção compos icional, prevemos o fim, isto é, desde o início temos a sensação do conjunto do discurso que em seguida apenas se diferencia no processo de fala [...] Os gêneros correspondem a situações típicas da comunicação discursiva, a temas típicos, por conseguinte, a alguns contatos típicos dos significados das palavras com a realidade concreta em circunstâncias típicas (BAKHTIN, 2003, p. 282, 283, 293).

Para essa análise, utilizamos algumas questões propostas por Silva (2013, p. 62-63) como ferramentas analíticas, tais como: (1) A que gênero do discurso pertence o enunciado? (2) Que questões constituem os parceiros discursivos dos enunciados, quem são esses parceiros e que lugar ocupam na sociedade? (3) Quais os discursos sobre o tema em estudo circulam no contexto dos enunciados pesquisados e como o pesquisador e os sujeitos se posicionam em relação a eles? (4) Como os enunciados circulam (impresso, manuscrito, digital)? (5) Quais as características linguísticas próprias do estilo do gênero pesquisado?

Com base ainda em Creswell (2008), realizamos a apresentação e interpretação dos resultados. Trata-se da discussão narrativa que apresenta os resultados da pesquisa, ou seja, a resposta da questão pesquisada com o referencial teórico. Pode ser uma discussão cronológica, temática, de figuras, de categorias, da literatura acadêmica relacionada, de questões que ainda precisam de respostas, do ponto de vista dos participantes, do efeito da pesquisa nos participantes, etc. Na interpretação, o pesquisador dá sentido para o objeto estudado, mostrando o seu ponto de vista e articulando o mesmo com outros estudos. o nosso trabalho, optamos por apresentar os resultados da pesquisa através da discussão temática, relacionando as categorias emergentes com o referencial teórico e a prática social, dentro da lógica dialética, isto é, evidenciando as contradições, as mudanças, as mediações e a relação entre os elementos que compõem o todo. Nossa interpretação, nos levou também a comparar o nosso estudo com outros já feitos, a ressaltar as nossas limitações e das nossas respostas, a refletir no significado dos nossos dados, do nosso ponto de vista e a sugerir futuras pesquisas dentro da nossa temática.