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Museer och friluftsmuseer

4 Jamtli

4.1 Museer och friluftsmuseer

Especificamente ao poema do espírito de Junqueiro, é preciso dizer que ele materializa uma peça marcadamente anticatólica. Pela nota biográfica produzida pela Federação sobre esse autor, infere-se que a conversão do poeta no leito de morte compunha uma propaganda pró-catolicismo no período. Sua inserção prévia na revista Reformador, como o segundo poema psicografado por Xavier a ser divulgado, representa uma decisão dos editores para desqualificar o discurso doutrinário dos católicos, seus opositores mais proeminentes, dominantes na cena do campo religioso. Inserimos o texto na integra para não perdermos a noção de conjunto. Ele recebeu o título de O Padre João:

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O PADRE JOÃO Tombava o dia: A luz crepuscular Mansamente descia

Inundando de sombra o céu, a terra, o mar... O meigo padre João,

Um puro coração,

Qual lírio a vicejar em meio a um pantanal, Sonhava ao pé da igreja

— um templo envelhecido Ao lado de um vergel, esplêndido e florido —Sentindo dentro d’alma um frio sepulcral.

O firmamento Tingiase

de luz brilhante e harmoniosa,

A noite era de sonho e névoa luminosa. Padre João meditava, orando ao Deus de amor: Revia em pensamento

Uma luz singular nas dobras do passado; Era um vulto sublime, excelso, imaculado, Que fazia descer o amor às multidões, Inflamado de fé, desatando os grilhões Que prendiam a alma à carne putrescível, Uma réstea de sol sobre a noite do Horrível, Iluminando o mundo, Iluminando a vida, Pensando docemente a pútrida ferida Da imperfeição que rói a torva Humanidade, Oferecendo amor em flores de bondade, Aos pecadores dando amigas esperanças, E aumentando nos bons as bem-aventuranças. Era o meigo Pastor Irradiando a luz,

Era o Anjo do Bem, o imáculo Jesus. O sacerdote, então,

Comparou, meditando, a fúlgida visão Com aquele Cristo nu, de pau, inerte e frio, Imóvel dominando o âmbito vazio;

Notando a diferença enorme, extraordinária, Daquela igreja fria, a ermida solitária, Da igreja de Jesus,

Feita de amor e luz, De paz e de perdão,

O farol da verdade ao humano coração. E viu da sua igreja o erro tão profundo,

Dourando os véus da carne e amortalhando o mundo Em trevas persistentes,

Por anos inclementes Em séculos sem fim.

Conhecendo no padre o gêmeo de Caim, Afastado da luz, fugindo aos irmãos seus, Fugindo desse modo ao próprio amor de Deus, Padre João meditou nas lutas incessantes Sustentadas na Terra em prol da evolução, E viu no mundo inteiro as ânsias delirantes De trabalho, de amor, de eterna perfeição. Sentiu seu coração em dores lacerado, E no sonho da luz fulgente do passado, Penetrou soluçando a ermida então deserta. Teve medo e receio, o espírito gelado, Sentiu-se

no seu templo um pobre emparedado... E fugindo a correr da porta semiaberta,

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Com o coração sangrando em úlceras de dor, Encaminhou-se

ao campo, à natureza em flor. Fitou extasiado a natureza em festa, As árvores, a flor, os mares, a floresta, E como se o animasse uma chama divina, Despiu-se

do negrume espesso da batina, E fitando, a chorar, o céu estrelejado, Encheu a solidão com as vozes do seu brado: “Ó Igreja! não tens a ideia que eu sonhava, A luz radiosa e bela, a luz eterna e rara Que nos vem de Jesus;

Tua mão não conduz As plagas da verdade

Mantendo inutilmente a pobre Humanidade No mal da ignorância, túrbida e falaz,

Crestando a fé, roubando a luz, matando a paz. Torturas a verdade, endeusas a matéria, E transformas o padre em trapo de miséria, Num farrapo de sombra, exótica e execrável, Num fantasma ambulante em treva interminável! É um blasfemo quem crê que em teus nichos e altares Guarda-se

a essência pura e imácula de Deus; Eu vejo-o,

desde a flor às luzes estelares,

Na piedade, no amor, na imensidão dos céus! Ó Igreja! o dogma frio é um calabouço escuro, E eu quero abandonar a noite da prisão; Prefiro a liberdade e a vida no futuro, Guiando-me

o farol da fúlgida Razão. Desprezo-te,

ó torreão de séculos trevosos, Ruínas de maldade estúltica a cair, Eu quero palmilhar caminhos luminosos Que minhalma entrevê na aurora do porvir!” E o padre emudeceu. Submergido em pranto, Achou mais belo o céu e o seu viver mais santo. Pairava na amplidão estranho resplendor. A Natureza inteira em lúcida poesia Repousava, feliz, nas preces da harmonia!... Era o festim do amor,

No firmamento em luz, Que celebrava

A grandeza de uma alma que voltava

Ao redil de Jesus. (XAVIER, 2010, p. 407-410)

Como pode ser observado, os versos narram uma tomada de consciência do Padre João sobre erros profundos da Igreja Católica desde o seu encontro com o próprio Jesus Cristo. O problema não está no sacerdote, mas na instituição. O Padre João é meigo e puro de coração. Ao fitar a Igreja do Cristo, ele cai em si e percebe as “trevas persistentes, por anos inclementes, em séculos sem fim”. O seu retorno ao redil de Jesus se inicia quando João “despiu-se do negrume espesso da batina”. Este poema demonstra que não há apenas na

173 produção literária psicografada por Chico Xavier permanências das mesmas ambiguidades com relação ao Catolicismo, fenômeno comum em diversas gerações de espiritistas. Também aponta para uma marca anticatólica bem característica da literatura espírita nas décadas de 1930 e 1940, período dos enfrentamentos com os católicos. Estes últimos, sob a vigência do modelo da neocristandade, haviam iniciado no Brasil uma cruzada espiritual de manutenção e reconquista dos espaços considerados vitais. Não obstante, há na poesia alguns aspectos que representam certa mudança de eixo. Por exemplo, ele inseriu o reconhecimento de qualidades ou características positivas no sacerdote, bem como sua possibilidade de redenção, mesmo que esta seja por via do abandono da religião professada. Isto indicava uma mudança no tom, um colocar-se no debate de forma sutilmente diferenciada. Se recordarmos a radicalização das posições do período, a escalada de hostilidades mútuas, sem dúvida, perceberemos que Chico Xavier já trazia aqui um anticatolicismo, mas ancorado em outras bases. Esse viés da crítica contundente, porém adocicada por meio de eufemismos ou por concessões ao ideário do outro, será desenvolvido e bastante explorado pelo Medium nas décadas subsequentes. Analisemos, porém, outra ocorrência neste sentido, para constatar que o poema Padre João não representou um caso isolado ou caminhou em um regime de exceção dentro da produção literária inicial de Xavier.

Na edição do Reformador de 16 de fevereiro de 1932, a equipe editorial inseriu uma nota acerca de uma sequência de mensagens psicografadas por Chico Xavier. Esses textos foram assinados pelo Padre Germano, autor espiritual da obra escrita por Amália Domingo Soler e traduzida por Manuel Quintão. A narrativa em prosa, publicada em formato de folhetim antes do lançamento de Parnaso, foi abordada no capítulo destinado a tratar dos romances em circulação na comunidade de leitores espíritas durante os anos de chegada do Medium mineiro. Neste momento, teremos a oportunidade de aprofundar um pouco mais as reflexões em torno dela. As mensagens foram intituladas de Recordações, recebendo na nota referida a seguinte apreciação:

Esta página de recordações da terra, prenhe de emoções vivíssimas e de profundos ensinamentos, páginas de cujo sabido valor dirão os leitores a quem a oferecemos, certos de que eles saberão aprecia-la devidamente, dictou-a o Espírito que foi entre os homens o Padre Germano. Serviu-lhe de instrumento mediumnico o nosso jovem irmão Francisco Candido Xavier, de Pedro Leopoldo, Minas, a cuja mediumnidade devemos a belíssima poesia do Espírito de Guerra Junqueiro –O Padre João – publicada no Reformador de 1 de dezembro do anno passado, e muitas outras, dos maiores poetas, brasileiros e lusitanos, as quaes, reunidas em volume, serão breve entregues à publicidade, pela Livraria da Federação (REFORMADOR, 1932, p. 89).

174 Para a composição dessa história há a reutilização de um autor espiritual de uma obra já conhecida. Isso implica o uso de procedimentos literários diferentes dos utilizados para compor um autor espiritual “original”. De forma semelhante à psicografia das poesias de

Parnaso, a narrativa em prosa psicografada por Xavier necessariamente precisaria conter as

mesmas características literárias e pertencer ao mesmo gênero textual mimético da matriz. Em síntese, o texto em prosa teria que se apresentar ao leitor como um relato autobiográfico do dito Padre Germano, discorrendo sobre suas experiências vivenciadas na última existência carnal. Só assim o texto poderia representar “páginas de recordações da terra”. Esta narrativa em prosa publicada no Reformador, permaneceu sem uma edição em livro até o ano de 1976, quando Os Fragmentos das Memorias de Padre Germano recebeu um apêndice, ganhando o acréscimo da historieta composta por Xavier por via de sua pena psicográfica. Esta edição tardia do livro de Soler, com o acréscimo do texto de Xavier, apenas se justifica como estratégia editorial que buscava dar mais fôlego ou proporcionar uma sobrevida ao consumo da obra original. Objetivava-se surfar no prestígio que o Medium havia adquirido nos anos 1970, quando se tornou figura pública bastante conhecida no cenário nacional105.

O trecho final da nota do Reformador indica ainda a sua finalidade de divulgação do livro que virá, caracterizando os procedimentos propagandísticos do mundo editorial nos moldes ou de forma semelhante às propagandas dos textos de Xavier anteriormente publicados pela revista. As referências às edições anteriores do Reformador onde foram publicizados textos psicografados pelo jovem médium, servem como balizamento para rememorar no leitor a figura autoral tratada, bem como conferem um sentido de continuidade. Aqui temos mais uma dose ministrada para tornar mais palatável a chegada de Parnaso, para tornar mais reconhecível o sabor que a obra destila.

Quanto ao conteúdo da narrativa em si, cabe-nos breve observação. A história versa não sobre vivências pessoais do Padre, mas acerca de experiência relacionada ao exercício do sacerdócio. Mediante uma Extrema-Unção, ele descobre que a condensa de sua paróquia havia envenenado o marido com a ajuda do médico da localidade, seu amante. O fio da trama se desenrola ao acompanharmos a reencarnação da condessa. O narrador passa a situar o leitor

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A FEB editora procurou assim justificar a inserção do apêndice: “Esta página, aqui colocada em apêndice aos “Fragmentos das Memórias do Padre Germano” – 12ª edição, 1976, FEB, tradução de Manuel Quintão -, foi ditada ao médium Francisco Cândido Xavier, há quase meio século, e estampada em “Reformador”, edições de 16 de fevereiro, 1ª e 16 de março de 1932. Acolhendo sugestão de entregá-la aos leitores de, a notável pioneira do Espiritismo de Espanha, fazemo-lo convictos de que, como bem frisou o redator da revista “Reformador”, esta página de recordações da Terra, prenhe de emoções vivíssimas e de profundos ensinamentos, será devidamente apreciada por quantos se familiarizaram com os escritos do formoso Espírito que foi entre os homens o Padre Germano”.

175 na sequência de sofrimentos enfrentados por ela como decorrência do homicídio. Deformações físicas, privações materiais, desprezo sistemático, chalaça, ridículo, foram algumas das situações descritas. Em um gesto de perdão, o marido assassinado teria reencarnado como seu filho, única pessoa capaz de lhe dar afeto e consideração. Como desfecho, a criança morre em um acidente, fazendo a mãe experienciar um derradeiro suplício. Assim, a reencarnação expiatória da condessa, agora apelidada de “Fera”, tem um final trágico. Terminaria um ciclo de purgação para iniciar a entrada em uma realidade pacificada post mortem. Existem na narrativa trechos com embriões de relato de experiências vividas pelos personagens no plano espiritual, perspectiva consolidada apenas com o romance

Nosso Lar (1944). O final aponta para a existência de aldeia imaginária concebida como um

paraíso, uma realidade esteticamente plena106.

Como pode ser observado, a primeira narrativa em prosa composta por Chico Xavier traz o esquema narrativo dominante entre os romances espíritas do período de sua chegada como autor empírico. Quando da sua consolidação, esse viés não será mais explorado nestes termos. Permanecerá nos livros da coleção André Luiz, porém será diluído ao longo da história central, responsável por estruturar a trama principal.

Cabe-nos ainda, nas análises acerca desse retorno do Padre Germano por via da psicografia de Xavier, uma última questão. Em qualquer texto produzido dentro da configuração reinante no Espiritismo brasileiro nas décadas de 1920 e 1930, seriam esperados elementos anticatólicos. Não obstante, grande parte das investigações acadêmicas – dentre outros Lewgoy (2000) e Stoll (2003) - vêm apontando a conciliação com os princípios católicos como marca da literatura mediúnica de Xavier, responsabilizando o que para estes autores seria uma influência do catolicismo na sua produção. Nesta tese, escolhemos outra entrada na problemática, outra forma de alcançarmos inteligibilidade e compreensão. Como já discutimos desde a introdução, o próprio uso da noção de influência não nos parece adequado, sendo mais interessante o conceito de apropriação, como proposto por Chartier (1990; 1994). Desde sua criação, uma marca epistemológica do corpo doutrinário formulado por Allan Kardec são justamente os elementos conceituais advindos dos campos mais diversos, tais como o liberalismo, o socialismo, o catolicismo, o protestantismo, a Física, a Química, a Biologia. Enfim, ele buscou conciliar princípios dos campos científico e religioso.

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O texto foi concluído com a seguinte descrição:“Rompeu-se, afinal, o último grilhão que a retinha na Terra,

è a alma da ex-Condessa, redimida pela dor, partiu, amparada por uns braços de névoa esplendorosa, em demanda da aldeia formosíssima, onde existem pássaros brilhantes, árvores encantadas, anjos que sorriem, mães que amam e anciãos que abençoam! (REFORMADOR, 1932, p. 139).”

176 Desde o ângulo que se observa, pode-se falar em influências de cada um destes elementos. Consideramos, assim, que essa configuração híbrida da teia conceitual da Doutrina Espírita representa sua especificidade, engendrando uma relação ambígua com os mais variados saberes oriundos, tanto das religiões como das ciências. Em meados da década de 1930 a literatura doutrinária dos espíritas havia adquirido coloração mais viva quanto aos aspectos anticlericais, mas de forma alguma superado sua ambiguidade com o Catolicismo. Quando Xavier realiza apropriações aos princípios católicos, ele caminha na matriz consolidada no Espiritismo desde sua fundação. É como espírita que ele navega socialmente para realizar incursões aos mais diversos territórios, inclusive os do inimigo, para trazer elementos e conciliar o inconciliável. Apenas um olhar muito distante enxergaria na produção literária de Chico Xavier uma mera influência do Catolicismo ou até mesmo uma postura pró-católica. Analisemos, por exemplo, o que nos narra Padre Germano:

Formosas recordações das noites de minha aldeia longínqua!... Ainda hoje, revolvo a cinza dos séculos, para buscar as tuas lembranças, que me enchem a alma de encantamento e poesia! Noites de primavera, de luar alvíssimo, em que eu rociava com o meu pranto as flores do jardim modesto do presbitério, quando confiava a Deus as minhas orações de sacerdote católico, alma exilada dentro da vida, ramo fenecido nos vergéis ditosos dos homens da Terra. Dolorosas meditações, em que meu coração, ávido de carinho e de afeto, interrogava a abóbada celeste sobre os porquês do seu magoado destino. Por que o sacerdote não poderia amar como as outras criaturas? Por que todos possuiriam a ventura de um lar ridente, onde brilhassem os sorrisos da esposa e o amor dos filhos, e o homem que se consagrasse ao labores da igreja haveria de viver isolado, quando o seu coração desejava viver ? Chorava então, copiosamente, ouvindo, no silêncio das flores e das estrelas, vozes apagadas que apenas ecoavam no íntimo do meu ser: - “Ingrato! ao sacerdote foi confiada a mais sublime missão de amor. Não tens esposa? Ama à pobreza desvalida, ao teu irmão sofredor da Humanidade. Não tens filhos? Consagra-te aos infelizes! Sê-lhes o pai amoroso e compassivo, lenindo-lhes os padecimentos, confortando-os na desgraça. Tens sede de amor e existe uma infinidade de seres que se sentem abrasados nessa sede devoradora: orfãozinhos abandonados, mendigos sem pão e sem lar, olhos sem luz, multidões de desprezados que imploram, com a alma toda nos lábios, uma esmola de amor! Procura-os e reparte com eles o teu coração. Amar é plantar a felicidade na Terra! Ama e seguirás fielmente os luminosos passos de Jesus. (REFORMADOR, 1932, p.89).

No texto, o narrador discorre em tom autobiográfico dilemas internos do sacerdote relacionados à sua condição de celibatário. Novamente na representação sobre religiosos católicos não há uma demonização, nem criminalização. O postulado da religião, no entanto, é posto em xeque sem um confronto direto. É uma estratégia argumentativa eficaz porque mobiliza elemento da dimensão axiológica e afetiva. O drama íntimo do padre serve de elemento de sensibilização do leitor, apesar do celibato encontrar uma justificação na atuação do sacerdote para com os sofredores. Essa passagem revela ainda que, apesar de Xavier não

177 defender do ponto de vista doutrinário o celibato como uma necessidade para o crescimento espiritual, já muito cedo anunciará sua opção pessoal pelo voto celibatário, “vocação” que seguirá por toda a vida. Em outro trecho há uma crítica mais ostensiva, desta vez ao Sacramento da Confissão:

Se houve na minha vida de padre católico algo que me repugnasse, era por certo o trabalho penosíssima de ocupar o tribunal da confissão, devassando as consciências alheias, o que sempre considerava um crime. Apavoravam-me os segredos que todos guardavam avaramente e que não se vexavam de trazer-me, quando somente a Deus deveriam confiá-los. (REFORMADOR,1932, p. 89).

No fragmento, o discurso se aproxima da criminalização doutrinária, comum aos espíritas no período. Vemos assim que a estrutura argumentativa elaborada por Xavier segue um ciclo sistemático de aparente ambiguidade; sem dúvida, uma estratégia qualitativamente diferente das que vinham sendo utilizadas pelos principais intelectuais febianos. Estes estavam entrincheirados em um confronto aberto, com suas táticas de arrasa-quarteirão.

É justamente na perspectiva apontada, que logo após a “branda criminalização” ao sacramento católico, no texto psicografado por Xavier, há uma descrição do cotidiano respeitável do sacerdote:

Uma boa porção de tempo ainda vivi na minha aldeia querida, em meio das crianças que eu adorava, a quem amava como pai adornando de flores uma campa no cemitério, enfeitando os altares modestos do meu templo carcomido e quase em ruínas, com os primores da Natureza, cercado pelo respeito dos meus paroquianos afetuosos, amado mais particularmente por alguns seres que me eram profundamente queridos ao coração, desde as épocas remotas de outras existências, já transcorridas, elevando hosanas ao Senhor, que se dignava bondosamente conceder tantas alegrias ao seu servo imperfeito. (REFORMADOR, 1932, p. 91).

Esse trecho conclui no texto a caracterização do personagem narrador, uma descrição bucólica, trazendo o Padre no centro da comunidade, próximo da natureza, da simplicidade, e mantendo uma relação bastante afetiva com seus paroquianos. Passagens como esta, pinçadas sem uma visão de conjunto, sem a inteligibilidade do cenário em que foram produzidas, podem levar a uma compreensão de que a produção literária de Xavier era alimentada por uma influência do Catolicismo ou mesmo possuía uma posição simpática, conciliatória, com relação aos princípios da religião dominante. Uma análise histórica partindo das fontes para estabelecer um diálogo entre teoria e empiria nos faz caminhar em sentido oposto. Ao contrário do que se pensa, Chico Xavier não recebe passivamente influências, mas realiza uma série de operações de apropriações ao Catolicismo. E, talvez, o mais importante seja perceber que o sentido das apropriações não é o de buscar um consenso ou estabelecer uma

178 conciliação, mas sim de defender a sua fé. Evidentemente, neste processo ele insere elementos de suas convicções pessoais, mas apenas partes destas advinham do ideário católico. Se