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3. Metode

3.6 Forskningsetikk

A fotografia abaixo foi produzida em determinado contexto, com determinado objetivo, por certo autor. O objeto da fotografia – aquilo que foi registrado na imagem – traz também uma significação, pretendida por um autor, em dada circunstância, para dado leitor, com um objetivo.

FIGURA 3: Placa de sinalização em ambiente público. Fonte: www.flickr.com. Acessado em 27/04/2008.

O leitor da fotografia, caso não conheça o signo representado na foto, provavelmente irá recorrer a conhecimentos que acredita serem úteis para nortear sua interpretação. Sem referências externas que possam contextualizar as condições de produção dessa fotografia e sem informações a respeito daquilo que foi fotografado, muito provavelmente as primeiras tentativas de interpretação seriam ancoradas na habilidade do leitor em identificar, a partir da própria imagem, elementos familiares que pudessem trazer indícios sobre seu significado.

As formas sugeridas pela foto e a aparência do objeto em destaque podem nos remeter, por exemplo, às placas de sinalização típicas de lugares públicos, como hospitais, aeroportos e supermercados. É provável que essa placa esteja afixada em uma parede ou pilar de concreto, já que o ângulo de onde a foto foi tirada e as texturas dos planos nos permitem arriscar esse palpite. Muito dificilmente diríamos que essa foto foi tirada no interior de uma residência ou em uma floresta de mata fechada. Também fica difícil imaginar um objeto desses dentro de um automóvel ou no quarto de uma criança.

A familiaridade do leitor com o gênero “placas de sinalização” lhe permitiria inferir que nesta imagem estão representadas duas pessoas, mas não é possível afirmar se essas pessoas são adultas, jovens ou idosos, se são dois homens, duas mulheres ou um casal.

A partir dessas impressões e de outras, cada leitor arriscaria um palpite diferente, que poderia estar associado também a uma experiência recente, a uma lembrança qualquer, a preferências e idiossincrasias: “Perigo de assalto?”, “Sala de apoio à segurança pública?”, “Vire à esquerda?”, “Sala para autorização de viagem com menores de idade?”10. Essas são interpretações possíveis, dentro dos limites que esse texto nos permite inferir, a partir de seus elementos próprios e das habilidades dos leitores. Mas não são leituras adequadas. Em uma situação real de confronto com essa placa, o leitor teria problemas caso investisse em uma dessas leituras.

No contexto onde essa placa está situada, as leituras provavelmente seriam processadas de maneira diferente porque seriam somadas informações externas, como as impressões desse leitor sobre a função da placa para o local onde ela foi afixada. Ao leitor da fotografia, talvez a informação de que a captura foi feita em um templo espiritual já auxiliaria na reconstrução da sua leitura e na adequação dela ao sentido que o autor pretendia para a imagem. Nesse caso, novas interpretações poderiam surgir: “Uma sala de bênçãos?”, “Um lugar onde pessoas tomam passes?”. Dependendo das experiências do leitor, de sua vivência e de seu conhecimento a respeito desse gênero ou objeto de comunicação, das suas expectativas de leitura e da sua vivência em ambientes como esses, talvez ele chegasse muito perto do real significado da placa: uma sala de energização. Quanto mais relações o leitor conseguir estabelecer entre o texto, o contexto e o conhecimento que é construído a partir de outras práticas de leitura, mais próximo esse leitor estará do sentido que o autor pretendia para esse texto.

A leitura de placas de sinalização é um bom exemplo da importância dessas relações na negociação dos sentidos. Talvez por essa razão Possenti (1999, p. 176) tenha utilizado um exemplo semelhante para ilustrar sua defesa de que a leitura errada existe e que pode ser realizada. O pesquisador sugere que um leitor menos avisado pode ter problemas, por exemplo, ao se deparar com uma placa que diz “Pare fora da pista”. A interpretação literal dessa placa poderia levar o motorista a parar imediatamente, uma ação resultante de uma leitura possível, mas inadequada naquele contexto.

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Essas leituras foram feitas em um teste informal, com pessoas dos mais variados perfis. Essas pessoas não tinham nenhuma informação além da própria fotografia.

Tanto o leitor da placa da fotografia quanto o leitor da placa citada por Possenti realizaram leituras possíveis a partir de marcas ou instruções presentes no texto, que, de certa forma, “resultam em restrições na construção do significado, ou seja, que dirigem a compreensão, limitando as possibilidades de sentido que o leitor pode construir a partir dele” (COSCARELLI, 1999, p. 47). Independentemente da modalidade, do gênero

ou do suporte no qual o texto é materializado, ele sempre exibirá marcas procedimentais e conceituais que, de certa forma, orientarão a leitura. No caso dos textos literários, essa orientação acontecerá de forma mais aberta e menos restrita, e permitirá ao leitor possibilidades mais amplas. Mas há certos textos, como aqueles citados anteriormente, que exigem uma interpretação muito próxima daquela que o autor programou, para que a interação se efetive.

A leitura da interface gráfica requer, a todo momento, esse tipo de interpretação. A tela do computador é repleta de signos como esse, que exigem uma leitura muito específica, permitindo pouco ou nenhum viés por parte do leitor, esse pode até construir leituras possíveis para os ícones e outros elementos da interface, baseado na sua experiência e na qualidade das imagens ou das palavras com as quais ele se depara ao tentar fazer alguma coisa no computador, mas essas leituras possíveis podem não ser suficientes para que ele consiga de fato realizar o que deseja.

Um usuário com pouca experiência pode se confundir, por exemplo, quando buscar na tela do computador uma forma de desligá-lo. Sem a ajuda de alguém mais experiente, muito dificilmente seria possível a esse usuário inferir que o acesso à instrução de “Desligar” o micro estaria disponível apenas se ele acessasse o botão “Iniciar”, justamente porque a palavra “iniciar” não remete o leitor à idéia de finalizar o uso do computador, ou seja, de desligá-lo. Qualquer outra tentativa de ativação de ícones na tela, em busca da instrução para desligar o computador, seria resultado de uma leitura possível, mas inadequada para essa situação específica.

Da mesma forma, o leitor também estaria fazendo uma leitura equivocada se, ao buscar uma instrução para aumentar a espessura da borda em uma imagem ( ), acessasse o ícone de aumento de recuo ( ). Essa seria uma leitura possível, já que a segunda imagem remete a diferentes espessuras de linha, mas seria inadequada porque esse ícone não daria ao leitor acesso à instrução pretendida.

São essas as questões que irão nortear a nossa reflexão a respeito da construção de sentidos na leitura das interfaces gráficas dos computadores. Para que essa interação possa acontecer satisfatoriamente, é necessário que os autores (os designers e programadores) facilitem a ação dos leitores (os usuários), a partir das informações e marcas que utiliza nos textos. Os leitores, por sua vez, precisam buscar na tela e fora dela elementos que lhes permitam interagir com o computador através das instruções deixadas pelo autor na interface. Acreditamos, portanto, na importância desses três agentes: designer, interface e usuário (autor, texto e leitor), para o sucesso no desenvolvimento de atividades nos computadores pessoais.

De natureza semelhante aos sistemas pictográficos11, os elementos da tela precisam ser construídos a partir de mensagens com linguagem simples e direta. Segundo Frutinger, essas imagens, típicas de sistemas de sinalização,

possuem uma função de comunicação menos passiva ou informativa. Representando uma indicação, uma ordem, uma advertência, uma proibição ou uma instrução, seu objetivo não é apenas comunicar, mas sobretudo produzir uma reação imediata no observador. (1999, p. 315)

Os pictogramas modernos surgiram a partir do desenvolvimento urbano, com as redes ferroviárias, o surgimento do automóvel e das rodovias, o crescimento do fluxo aéreo e a crescente movimentação de pessoas procedentes de regiões geográfica e culturalmente diferentes. A necessidade de limitação do tamanho das placas de sinalização motivou a criação de mensagens que precisavam sintetizar idéias de forma simplificada e eficiente, e a diminuição das fronteiras culturais determinavam que essas mensagens deveriam ser construídas a partir de conceitos os mais universais possíveis (FRUTINGER, 1999, p. 318).

A imagem pictórica tem a função de sinalizar ambientes nos quais o uso da linguagem verbal poderia se tornar excessiva (FRUTINGER, 1999, p. 194) e, na tela do

computador, que reproduz a partir de uma metáfora espacial uma mesa de trabalho, a utilização desse tipo de representação foi a saída encontrada pelos designers de interface.

As instruções que os designers utilizam para permitir a interação nos ambientes digitais, justamente por se materializarem a partir de imagens simplificadas e esquemáticas, exigem dos leitores a ativação de conhecimentos e informações

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Sistemas pictográficos são, de acordo com Neves, “elementos de sinalética interrelacionados, que recorram ao uso de signos figurativos simplificados que representam coisas e objectos do meio envolvente (pictogramas)”. (2007, p. 13)

visualmente não disponíveis na tela. Esses conhecimentos devem ser compartilhados entre designers e usuários, e devem levar em consideração questões típicas do contexto no qual ocorre a interação: o ambiente digital. Conhecimento partilhado, segundo Coscarelli, é “aquela porção de informação que deve ser necessária para que a comunicação seja bem-sucedida” (1999, p. 76).

No campo do design, os autores da interface trabalham com um conceito semelhante, o de modelo mental ou modelo conceitual (NORMAN, 2006). Um objeto de design deve ser construído a partir desses modelos, que são, como já foi dito anteriormente, as idéias que as pessoas constroem de si mesmas e das relações com seu contexto de experiência e de atuação. Faz sentido, portanto, considerar a interface um produto histórico e cultural, que necessita, além de outras coisas, de determinados modelos culturais compartilhados entre usuários e programadores (leitores e escritores) para ser compreendido. Mas, segundo Coscarelli, “é importante notar que o conhecimento do leitor não é exatamente idêntico ao do autor, mas que eles possuem representações semelhantes de vários conceitos e relações” (1999, p. 76).

Ainda segundo Coscarelli,

há entre os falantes um contrato tácito sobre o uso de informação dada e nova entre a informação que o falante presume que esteja no foco do ouvinte no momento da comunicação e a informação que o falante acredita estar introduzindo na ‘consciência’ do ouvinte através do que diz. Entendem-se como dadas as informações que o leitor já tem ou é capaz de inferir e, como novas, aquelas que ele não tem ou não é capaz de inferir. (2003b, p.7)

O que pretendemos destacar nesta discussão é que os modelos culturais ou conhecimentos partilhados habilitam os sujeitos na construção de inferências, na tomada de decisões e no entendimento das situações comunicativas nas quais se encontram. As informações que o leitor utiliza para compreender um texto têm origem em diversas fontes diferentes, o que significa que “nenhum texto traz todas as informações de que o leitor precisa para compreendê-lo” (COSCARELLI, 2003a, p. 31).