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“Um lar de Artistas”: foi a sentença com a qual o cronista e jornalista João do Rio48 intitulou a conhecida entrevista que Júlia Lopes concedera-lhe, quando ela já era um nome conhecido no meio literário brasileiro do final do século XIX. Acreditamos que tal frase contemple, impecavelmente, o que, unindo-se ao talento, fez de Júlia Valentina da Silveira Lopes (1862-1934), uma escritora, num período em que “à mulher é negada a autonomia, a subjetividade necessária à criação"49.

Sempre tutelada pela figura masculina, primeiramente o pai - o educador e médico Valentim José da Silveira Lopes - e posteriormente o marido - o escritor, de origem lusófona, Filinto de Almeida - Júlia Lopes passou a vida entre dois “lares de artistas”. O primeiro deles foi o dos pais, o do já mencionado Dr. Valentim, e da mãe Antônia Adelina do Amaral Pereira. No lar dos portugueses seus progenitores, passou os vinte e cinco anos iniciais de sua existência, vivendo em uma atmosfera que convidava à criação, cuja habitação oferecera-lhe as condições imperiosas para lhe lapidar o talento. Era um lugar de acesso à leitura, o qual era morada de pessoas com

48 João do Rio é o pseudônimo de João Paulo Alberto Coelho Barreto (181-1921). Foi um notável

cronista, jornalista e teatrólogo. Informações constantes em: RIZZATTI, Lucas Osório. João do Rio: o escritor da vida real: a apuração jornalística e o texto de reportagem em A alma encantadora das ruas. Porto Alegre, 2009, p.43. (Monografia).

fortes pendores artísticos. Segundo as informações de Sharpe, a família de Júlia era composta por indivíduos que produziam e respiravam arte.50

A despeito deste primeiro “lar de artistas”, em que Júlia passou sua infância, adolescência e início da idade adulta, a pesquisadora Salomoni confere-nos um quadro amplo, em que podemos confirmar o quanto a família de Almeida estava ligada às artes:

Num lar em que se cultivava as artes, as humanidades, filha de um educador e médico, o Dr. Valentim, e de mãe musicista e pedagoga, D. Antônia Adelina, ambos lusitanos emigrados para o Brasil, foi alfabetizada por estes e pela irmã mais velha, Adelina, professora e poeta. Com a mãe também aprendeu francês e, alguns anos mais tarde, iniciou-se na língua inglesa com o professor escocês, John Bryan, quando a família passou a morar em Campinas.51

Além dessas informações sobre os familiares de Lopes de Almeida, em Sharpe (1999) tomamos conhecimento de que ela tinha, ainda, uma irmã pianista, outra cantora lírica e declamadora. Destarte, nesse primeiro lar, percebe-se, então, que Júlia lapidou toda a sua alma de artista.

Ainda jovem, Júlia começou a fazer seus primeiros versos, contudo, temia ser surpreendida ao escrevê-los, como evidencia o seguinte excerto:

Pois eu em moça fazia versos. Ah! Não imaginava com que encanto. Era como um prazer proibido! Sentia ao mesmo tempo a delícia de os compor e o medo de que acabassem por descobri-los. Fechava- me no quarto, bem fechada, abria a secretária, estendia pela alvura do papel uma porção de rimas...

De repente um susto. Alguém batia à porta. E eu, com a voz embargada, dando volta à chave da secretária: já vai! Já vai!

A mim sempre me parecia que se viessem a saber desses versos em casa, viria o mundo abaixo. Um dia, porém, eu estava muito entretida na composição de uma história, uma história em verso, com descrições e diálogos, quando senti por trás de mim uma voz alegre: Peguei-te, menina! Estremeci, pus as duas mãos em cima do papel, num arranco de defesa, mas não me foi possível. Minha irmã, adejando triunfante a folha e rindo a perder, bradava: - Então a menina faz versos? Vou mostrá-los ao papá!52

50 SHARPE. Peggy. O caminho crítico d’A Viúva Simões. In: ALMEIDA, Júlia Lopes de. A Viúva

Simões. Editora Mulheres, EDUNISC, Florianópolis, 1999, p.16.

51 SALOMONNI. Rosane Saint-Denis. A Escritora/ os críticos/ A escritura: o lugar de Júlia Lopes de

Almeida na ficção brasileira. Porto Alegre. 2005, p. 23.

Por isso fazia-os escondidas de toda a sua gente. Esse receio ratifica o quanto o silenciamento do talento e das pulsões que movem o humano, era de um barulho interno avassalador para as figuras femininas daquele tempo. Mesmo em uma família como a de nossa publicista, na qual a propensão às artes era notória, o temor, na jovem escritora, era latente. No entanto, tal medo era justificável, uma vez que, consoante as palavras despojadas de Ubiratan Machado (2010):

Ainda vigorava a mentalidade de que letras e tretas só serviam para atrapalhar a mulher. Se fosse analfabeta, ótimo. Para as que aprendiam a ler, muitas delas contrariando a orientação doméstica, bastava a leitura do missal. Se ler era perigoso, escrever já era trama do capeta, interessado em meter seu tridente na santa paz da família patriarcal. Não fosse a moça, mal inspirada – em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém -, corresponder-se com algum pervilho e planejar seu próprio rapto, burlando a escolha do marido determinado pelo pai. Rabiscar bilhetes podia ser uma ameaça à integridade familiar e à autoridade paterna. Mas escrever poemas e publicá-los assinados era sem-vergonhice mesmo. O nome da mulher, tanto sua pessoa, devia se manter dentro do lar.53

Contudo, na casa dos pais de Júlia, podar talentos não era benquisto. Por isso mesmo que o Dr. Valentim, ao ter em mãos os versos escritos por nossa publicista – entregues a ele por Alice, irmã mais nova de Almeida54 - pegou a folha, leu tornou a ler e “entregou os versos, pegou de novo o jornal, sem uma palavra, e a casa voltou a quietude normal”55, como relatou a própria romancista ao jornalista João do Rio.

Desse pai, também veio a primeira oportunidade de ter um escrito seu publicado em um Jornal de ampla circulação no momento. Sem que ela soubesse, após a descoberta de que a jovem escrevia versos, pediu-lhe que tecesse um artigo sobre “Gemma Cuniberti”, ao Gazeta de Campinas, para o qual ele colaborava. A desculpa dada foi a que não poderia fazê-lo em virtude de suas ocupações, porém teria dito ao solicitante: “não faço eu, mas faz a Júlia...”56. Contudo, o referido pedido não havia. O que houve foi uma bela intenção do Dr. Valentim, o qual foi o mentor de Júlia, aquele que “lançou” o seu nome como escritora. Isso se deu quando ela tinha 19 anos.

53 MACHADO, Ubiratan. A vida literária no Brasil durante o romantismo. 2ª Ed. Rio de Janeiro.

Tinta negra Bazar Editorial, 2010, p.311-312.

54 A referência direta ao nome da irmã caçula, consta em LUCA, Leonora de. O feminismo Possível de

Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) Cadernos Pagu (12), 1999, p.09. E em AMED, Jussara Parada. Escrita e experiência na obra de Júlia Lopes de Almeida (1862-1934). São Paulo, 2010.

55 RIO. João do. Op. cit. p. 10 56 Idem.

Aos 25, casou-se com o português Filinto de Almeida, escritor também, que lhe proporcionou viver mútuas parcerias artísticas, como o livro A Casa Verde (1932), que escrevera em colaboração com Filinto. Ademais, a própria literata reconheceu que sua formação enquanto leitora, e as influências de leitura, eram resultantes das indicações tanto de seu pai, quanto de seu marido. “Em solteira, meu pai dava-me livros portugueses – o Camilo, o Júlio Diniz, Garret, Herculano. [...] Por conselho de meu marido, [...] Zola, Flaubert, Maupassant.”57.

Com relação a essa formação enquanto leitora de nossa cronista, Salomoni (2005) acrescenta que ela:

Não dispensou os franceses – Rostand, Chantecler, Michellet, Balzac [...] demonstrando preferência por Colette; dos portugueses – Garret, Herculano e Eça, os mais citados; dos ingleses, foi leitora assídua de Shakespeare, como demonstram várias anotações de suas cadernetinhas particulares e que fazem parte de referências implícitas e explícitas do texto de muitos dos seus romances e citações que aparecem, por exemplo no Livro das donas e donzelas (1906)58

Mediante essa informação, constatamos que as referências literárias que a romancista teve ao longo da vida, influenciou de alguma forma o seu fazer artístico, como não poderia deixar de ser, obviamente. Inclusive de forma explicita, como pontuou Salomoni, no excerto acima.

Com efeito, a escritora se fez entre esses dois “lares de artistas”, fez-se das referências de leituras que foram sua base literária, fez-se na imprensa periódica, fez-se em diversas categorias literárias, pois foi poetisa, romancista, contista, cronista, ensaísta, teatróloga e conferencista. Em cinquenta e três anos de fazer literário, seus escritos circularam as capitais brasileiras, sobretudo nas folhas volantes dos jornais. Não se limitando ao território nacional, foi além; algumas de suas obras extrapolaram as raias brasileiras, chegando a Portugal, à Argentina e à França.59

57 Idem

58 SALOMONI, Rosane Saint-Denis. (op. cit., p. 23.)

59 As afirmações quanto aos países por onde a obra de Júlia Lopes de Almeida circulou, são oriundas da