6. RESULT AND DISCUSSION
6.5 C OMPOSITIONAL DATA ANALYSIS AND BIVARIATE ASSOCIATION OF ELEMENTS IN WATER AND ROCK SAMPLES
6.6.1 Multivariate analysis in water samples analysis data
O objetivo do presente capítulo é situar o Evangelho de Tomé no espaço e no tempo. Procurando as sensibilidades filosóficas e culturais que envolveram a sua palavra. O significado dos seus ditos no contexto histórico do segundo século e o impacto da sua reflexão na audiência que os escutava.
A perspetiva religiosa de Tomé assenta no ambiente da sua composição. A nossa investigação pretende assim definir o evangelho como um trabalho unificado que pode ser interpretado legitimamente como tal36.
A unidade textual notada no razoável grau de semelhanças existentes entre os textos gregos e coptas, e na sua perspetiva religiosa razoavelmente coerente torna possível defender uma abordagem baseada na consistência de Tomé.
Segundo o texto de Pístis Sophia37, Jesus, após ter ressuscitado comissionou Filipe, Mateus e Tomé a registarem as suas palavras por escrito.
No imaginário da tradição cristã, Tomé era considerado o fiador dos ensinos orais de Jesus para poder elaborar um evangelho. Um trabalho literário com o seu nome - “Evangelho de Tomé” - é conhecido na tradição desde o terceiro século.
Hipólito ano duzentos e trinta e dois d.C. no seu relato aos Naassenos menciona o
Evangelho de Tomé e cita várias passagens do texto.
35Log 22
36Cf. Gathercole Simon (2014), 10. 37 Capítulos 42 e 43
37 O seu testemunho foi traduzido depois para o latim por alguns dos célebres autores do cristianismo: Jerónimo, Ambrósio e o Venerável Beda. Na língua grega Eusébio de Cesareia situou o Evangelho de Tomé no grupo dos apócrifos de caráter puramente heterodoxo, entre o Evangelho de Pedro e de Matatias.
Os Manuscritos
O Evangelho de Tomé é uma coleção de ditos atribuídos a Jesus, que existem num manuscrito copta bem preservado e em três fragmentos gregos. O manuscrito copta termina com a expressão “o Evangelho segundo Tomé”. Os manuscritos fragmentados gregos foram descobertos no Egito no dia 21 de Julho de 1897; o London Daily Graphic publicou uma notícia de um rapaz de oito anos, Sabr’ Sair, “o rapaz que encontrou os Logia”. Estes três fragmentos em grego foram descobertos em Oxyrhynchus.
O manuscrito copta foi descoberto em Nag hammadi, Egito em 1945, fazia parte de uma coleção de doze códices. O Evangelho é o segundo texto do Codex 2, onde é precedido por uma cópia do Apócrifo de João e do Evangelho de Filipe.
O papiro grego data do ano duzentos d.C. e o documento copta data da metade do século IV d.C. Existe um consenso que ambas as fontes reunem evidências para um evangelho escrito mais antigo, originalmente em grego ou siríaco, provavelmente proveniente da comunidade judaico-cristã falante de grego na Antioquia siríaca38. Meio século depois um texto copta completo do mesmo evangelho foi descoberto perto de Nag hammadi. O texto copta divide-se em 114 ditos, com um prólogo no início e um título - “o Evangelho segundo Tomé” - no final39.
A Língua Original de Tomé
A linguagem de Tomé começou a ser debatida com o surgimento do texto copta onde alguns académicos consideraram que o copta era a língua original da composição do evangelho40. Esta proposta foi refutada, e as três opções mais viáveis para a maioria dos estudiosos são o aramaico ocidental, o siríaco e o grego41.
38 Cf. Valantasis R. (2007), 3.
39 "Thomas, Gospel of." In The Oxford Encyclopedia of the Books of the Bible. ,edited by
Stevan
Davies. Oxford BiblicalStudies Online, (accessed 13-April-2017).
38 Existem alguns problemas a nível metodológico para identificarmos semitismos nos textos gregos e coptas de Tomé. Primeiro porque muitos semitismos são insignificantes num argumento para a composição de uma linguagem semita. Seria necessário que a frase em questão não fosse meramente escrita no idioma grego ou copta e que reciprocamente fosse aramaica ou siríaca do período da sua composição. Isto é difícil uma vez que existem poucas inscrições siríacas dos primeiros dois séculos42.
O Evangelho de Tomé pode assim ter sido escrito originalmente em grego, existindo alguns pontos que podem sustentar esta afirmação.
Existem 27 palavras gregas nas seções paralelas da versão copta. No manuscrito copta encontramos uma densidade considerável de palavras gregas praticamente por todo o texto.
Podemos ainda considerar o testemunho de Tomé e as evidências materiais dos manuscritos. O facto de termos três fragmentos gregos e um manuscrito copta e sendo a língua grega a língua de origem de muitos trabalhos antigos, preservados em manuscritos coptas, indica que o grego pode ser a língua original do Evangelho de
Tomé.
A maioria dos evangelhos daquele período foi composta em grego; apenas os evangelhos tardios começaram a ser escritos em latim e copta, mas esses não são relevantes para o período histórico de Tomé.
O Evangelho de Marcos, Lucas e João foram redigidos originalmente em grego, e os documentos relacionados com Tomé também são considerados originalmente gregos: o
Evangelho de Judas, o Evangelho de Pedro e o Evangelho de Maria; o Evangelho de Filipe também é atestado como composição grega apesar de ter interesses em temas
siríacos43.
Podemos assim concluir que a existência de manuscritos gregos e a ausência de manuscritos semitas fortalece a ideia de que Tomé originalmente é um texto grego, sem originais siríacos ou aramaicos.
A Data de Tomé
41Cf. Idem, 91. 42 Cf. Idem, 92.
39 Situar o Evangelho de Tomé no espaço temporal tem-se revelado uma tarefa complexa para os académicos44. Os dados papirológicos reunidos até então tendem a ser datados até ao terceiro século. O testemunho histórico mais antigo está em Hipólito, onde “o Evangelho segundo Tomé é mencionado, e uma citação simples é fornecida”, em Refutatio 5.7.20-2145. O Refutatio data de duzentos e vinte e dois a duzentos e trinta e cinco d.C.
Por estes elementos o Evangelho de Tomé situa-se entre duzentos a trezentos d.C. de acordo com vários autores46; o melhor espaço histórico para situar o Evangelho de
Tomé, encontra-se no tempo após centro e trinta e cinco d.C. e antes do ano duzentos
d.C.
Esta linha temporal estabelece-se devido às influências literárias presentes no texto e à confiança na não reconstrução do templo no lg. 71.
O papiro e a menção do Evangelho de Tomé em Hipólito fornecem-nos um terminus
ante quem de duzentos d.C início do terceiro século. As afinidades de certos elementos
de Tomé com outras obras literárias do segundo século são também pontos de segurança para atestarmos esta datação.
A Origem do Evangelho de Tomé
Iremos agora tratar da proveniência do Evangelho de Tomé.
A maioria dos académicos situa Tomé na Síria47 e uma minoria propõe o Egito. Faremos um breve comentário situando o evangelho na Síria, nomeadamente em Edessa.
Quatro argumentos são essenciais para situar o Evangelho de Tomé em Edessa: (1) a origem siríaca do nome ‘Judas Tomé’; (2) a receção siríaca de Tomé; (3) as afinidades de Tomé com as formas textuais siríacas (4) as afinidades de Tomé com a literatura siríaca como as Odes de Salomão e os Atos de Tomé.
O nome Judas Tomé
44Gathercole Simon (2014), 113.
45Citado em Gathercole Simon (2014), 113
46 Idem, 124.
40 Esta forma particular do nome indica uma proveniência siríaca, este nome duplo aparece nos Atos de Tomé e no Livro de Tomé.
Apesar da diferente natureza destas obras, estão relacionadas entre si de uma forma particular. Surgiram na Síria Oriental onde as tradições ligadas ao nome ‘Judas Tomé’ eram amadas e as obras literárias assim como as lendas eram associadas a este irmão gémeo de Jesus48.
Judas Tomé ou Judas o Dídimo era uma figura peculiar do Cristianismo Siríaco Oriental. As versões siríacas do evangelho de João 14:22 leem “Tomé e Judas Tomé” em vez de “Judas não o Iscariotes”. Isso demonstra que os escribas sírios identificaram o outro Judas no Evangelho de João, ‘Judas o filho de Tiago’, em Lc 6:16 e At 1:13 com Tomé, que não tem este nome duplo no Novo Testamento ou na tradição cristã ocidental.
O nome também aparece em fontes de origem siríaca como a lenda de Abgar, a História
da Igreja de Eusébio e a doutrina de Addai 5.
Os Atos de Tomé também originários da Síria Oriental e provavelmente escritos em siríaco relatam a história do apóstolo Judas que é descrito como o ‘gémeo’ de Jesus49. O nome Tomé é a transliteração da palavra aramaica que significa ‘gémeo’. Não encontramos evidências que este nome era usado como nome próprio no grego, aramaico ou hebraico pré-cristão e há claras indicações que foi entendido como um apelido na tradição cristã siríaca50.
Podemos assim concluir que a tradição de Judas o irmão gémeo de Jesus terá nascido provavelmente na Síria.
A nível da receção siríaca de Tomé o uso de Tomé nos Atos de Tomé, nos Atos de João e no Evangelho de Filipe testificam que a influência de Tomé foi forte e até notável nalguma literatura maniqueísta.
Existem vários paralelismos entre Tomé e as versões siríacas dos evangelhos.
As afinidades de Tomé com a literatura siríaca
48 Cf. Uro R. (2003), 9. 49 Atos de Tomé 31 e 39.
41 “Quando vos despirdes e não vos envergonhardes e tomardes os vossos vestidos e os colocardes sob os vossos pés…”
Evangelho de Tomé 37b
As semelhanças teológicas entre a literatura síriaca e Tomé são impressionantes nos trabalhos de cunho místico e ascético. Isto inclui literatura siríaca antiga como as
Odes de Salomão, Oratio de Taciano e os Atos de Tomé assim como depois alguma
literatura tardia, como é o exemplo da literatura de Macarius o Grande.
Alguns dos traços comuns entre o Evangelho de Tomé e os Atos de Tomé encontram-se na figura do apóstolo Tomé. Em ambos os documentos o apóstolo teve “o privilégio de ser o confidente dos ensinamentos mais secretos de Jesus” (Atos Tomé. 10,39, 47 e 78)
O livro de Tomé e o Evangelho de Tomé afirmam apresentar as ‘palavras secretas’ que Jesus disse a Judas Tomé.
Os Conceitos Religiosos do Evangelho de Tomé
Identificar a atmosfera religiosa do Evangelho de Tomé tem sido uma problemática desafiante entre os académicos. Isto por causa da brevidade de Tomé, o seu conteúdo e a sua forma. Tomé tem sido considerado um documento do gnosticismo, do judaísmo cristão encratita, da teologia sapiencial ou até uma expressão de radicalismo social51.
Outros identificam Tomé como um produto do cristianismo siríaco primitivo, um misticismo unitivo ou um produto valentiano.
No geral a tendência académica é encaixar o Evangelho de Tomé numa determinada escola de pensamento. O problema é que Tomé não se enquadra em nenhuma das ‘heresias’ que chegaram até nós. É importante observar o documento nos seus próprios termos, na sua própria mensagem, mesmo que isso implique existirem limitações. O objetivo do nosso estudo é arrumar as crenças e as reflexões de Tomé, apresentando a sua teologia central.
51Cf. Gathercole Simon (2014), 144.
“Não ficarei mais coberto, visto que o manto da vergonha me foi tirado”
42 Ao investigar para este projeto deparei-me com uma obra The Poetics of Ascent:
Theories of Language in a Rabbinic Ascent Text52 que apresentou um contributo significativo à leitura de Tomé.
A teoria da linguagem no contexto místico leva-nos a inquirir o significado da linguagem e da poética da palavra na criação da realidade interior:
“E ele disse: Aquele que encontrar a interpretação destes ditos não saboreará a morte.”53 Existe logo na sua afirmação inicial uma ideologia da linguagem apresentada no texto, pois ao interpretar a palavra escrita o leitor encontrará a imortalidade, o que nos leva a ponderar a natureza do papel da linguagem no Evangelho de Tomé; como mais à frente será mostrado, este evangelho apresenta uma exegese feita a Génesis 1.
Abordando o relato da criação, o evangelho faz alusão à narração mais sagrada do judaísmo rabínico, o relato da criação. Os judeus acreditavam que o nome da divindade tinha poder, acreditavam também que quando a divindade falava, as suas palavras continham um poder especial como aquele que aprenderam na história da criação em
Génesis em que a divindade falou e toda a realidade foi trazida à existência.
Para um escriba familiarizado com estas tradições e estas crenças acerca dos poderes divinos, se Deus criou o mundo através do discurso, que lições poderão tirar os exegetas da história acerca do potencial uso criativo da linguagem?
No lg. 15 Tomé escuta três palavras da boca de Jesus que não pode revelar aos outros discípulos: “se eu vos dissesse uma só palavra que me disse, apanharíeis pedras para lançá-las contra mim e sairia fogo das pedras que vos consumiria”.
A palavra em Tomé transporta o potencial divino que traz a imortalidade e a morte, onde a interpretação proveniente de uma busca íntima e profunda permite ao fiel desvelar novas realidades.
Assim a teologia do Evangelho de Tomé é fundamentalmente uma soteriologia54 assente na interpretação dos ditos de Jesus. Não se trata apenas da sabedoria comum; os eleitos têm a sua origem no reino da luz, o Reino do Pai (lg 49-50) e Tomé fornece as
instruções necessárias para cada um retornar ao reino desse Pai.
A figura do Pai é uma figura proeminente no Evangelho de Tomé sendo mencionada 21 vezes. Não é caraterizado como um agente em contraste com Jesus, o texto carateriza-o como “um movimento e um repouso” como o eleito (lg 50).
52Cf. Janowitz Naomi (1989).
53Ev Tm lg 2.
43 O Pai tem uma “imagem de luz” (lg 83), ele tem uma “vontade” (lg 99) e um Reino (lg 57; 76; 96-99; 133).
Nos evangelhos sinóticos o Reino foi “preparado” por Jesus (Mc 10:40; Mt 25:34; Mc10:40; Mt 20:23). Tomé fala de um Reino paradisíaco de luz pré-existente, ausente de localizações geográficas no cosmos. Este reino é associado com a “luz” (lg 49-50), estando dentro e fora dos eleitos (lg 3); eles vieram e voltarão para lá (lg 49).
Este reino pode ser achado (lg 27a; 49), é possível entrar nele (lg 22; 99; 114; cf. 39; 64;75), e é possível estar longe dele (lg 82).
Quando os discípulos falam sobre a vinda do reino (lg 113), Jesus respondeu-lhes que o reino se encontra espalhado por todos os lugares (lg 113).
Em Tomé o Reino é o paraíso primordial sempre presente (lg 18-19), que não pertence aos ricos nem aos poderosos, mas aos pobres (lg 54) e àqueles que são como as crianças (lg 22; 46)55.
Sendo um lugar de unidade primordial (lg 22) é uma realidade visível embora se encontre obscurecido pela cegueira das pessoas (lg 113).
A criação do mundo em Tomé está apresentada numa elaborada exegese às narrativas da criação no livro de Génesis56.
Nesta primeira abordagem mais literal vamos considerar apenas os fragmentos elusivos no texto, sem considerar os simbolismos e as especulações filosóficas da exegese a Gn 1. Nalgumas ocasiões o criador é referido em termos femininos: “Adão chegou a ser por um grande poder e uma grande riqueza”57, “a minha mãe verdadeira deu-me a vida”58. Esta mãe é aqui apresentada como a verdadeira mãe de Jesus; este termo assim como ‘a mãe’ no lg 105 podem sugerir a figura do Espírito59, envolvida na criação.
O tratamento da queda no Evangelho de Tomé expressa-se em duas esferas: queda desintegrada e queda para baixo60. Em relação à primeira Jesus afirma, “no dia em que éreis um chegastes a ser dois”61. Jesus veio do lugar indivisível (lg 61), e não é um divisor (lg 72). 55Cf. Idem, 146. 56 Cf. Pagels H. E (1999). 57Ev Tm lg 85. 58Ev Tm lg 101. 59Cf. Gathercole Simon (2014), 146. 60 Idem, 147. 61Ev de Tm lg 11.
44 A conceção da queda como uma separação encontra-se presente no mito da criação valentino e nas exegeses filosóficas helenistas ao mito da criação do Génesis.
Para Tomé a recuperação da unidade primordial é a tarefa chave para o discipulado do eleito.
Quanto à segunda esfera da queda para baixo, esta relaciona-se com o espírito descer ao corpo humano, como Jesus afirma: “Eu, no entanto, maravilho-me com isto: como esta grande riqueza ficou nesta pobreza”62.
Isto relaciona-se de forma explícita com a queda de Adão e a sua morte (lg 85). Encontramos aqui uma conceção da queda humana com implicações mundanas para o ser humano. Contudo importa dizer que nada disto está explicitamente associado ao conceito de pecado, um tópico pouco presente neste evangelho. A causa da queda é um mistério, sem qualquer explicação.
No ambiente intelectual de Tomé existiam um número de opiniões sobre o assunto e várias correntes de pensamento tentaram explicar porque é que as almas desciam aos corpos.
Eram várias interpretações a duas obras da altura Timeu e Fedro. Alcino listou quatro motivos: as almas seguiam o seu turno numa sequência numerada, ou pela vontade dos deuses, pela intemperança, ou pelo amor do corpo; o corpo e a alma têm uma afinidade entre si, como o fogo e asfalto63. Outro documento da mesma época Lamblichus’s De
Anima 2364 discute vários relatos das atividades que induzem a alma a descer apresentando as seguintes: uma espécie de desejo por independência (Plotino), voo de Deus (Empédocles), e o resto consiste na mudança (Heráclito), desarranjo e desvio (gnósticos), e julgamento errado do livre arbítrio (Albinus).
Nesta riqueza de pensamentos torna-se difícil relacionar o pensamento de Tomé; é necessário aludir estes dois pontos: “o todo proveio de mim” de Jesus (lg 77) que indica que deu uma queda da luz ou do elemento pneumático e não foi um ato positivo da criação65.
O segundo ponto atribuído por Lamblichus a Heráclito que as “almas viajam estrada acima e estrada abaixo e para eles, permanecer num lugar é trabalho, mas mudar é repouso” pode ser associado com a noção de “repouso e descanso” de Tomé.
62Ev de Tm lg 29.
63Cf. Gathercole Simon (2014), 147. 64 Dilon. (2002), 49
45 O “sinal do Pai” nos eleitos (lg 50) e como já foi referido o lg 77 fala de ambos “os que proveem” de Jesus (cf. a “estrada abaixo”) e “estendem-se” para ele (cf. a “estrada para cima”).
O mundo é retratado no Evangelho de Tomé como um cadáver (lg 56), implicando uma ideia de morte. Jesus ridiculariza a ideia de o reino ser parte deste mundo, no ar ou no mar (lg 3). Jesus lançou fogo sobre o mundo (lg 10) e no log 16 repete esta ideia, acrescentando “espada e guerra”.
Podemos afirmar na sua essência que o mundo é entendido como o objeto sobre o qual os eleitos estão de passagem (lg 42); é um cadáver (lg 56) que deve ser renunciado (lg 110). Todos estes elementos atribuem uma conotação negativa ao conceito de mundo. O “todo” proveio de Jesus e foi identificado com Jesus, e a “terra” é o lugar onde o reino se expande (lg 113).
O pensamento que Tomé tem do corpo reflete a sua visão do mundo. Existe um certo contraste entre a alma e o espírito por um lado e o corpo ou carne por outro.
Como já foi referido na discussão acerca da queda, Jesus expressa o seu maravilhamento em relação ao facto da grande riqueza do espírito vir a ocupar uma posição de pobreza na carne (lg 29.c).
Tomé sugere que esta habitação é uma doença, afirmando, no entanto, a múltipla dependência da carne e da alma (lg 112). Existe um contraste entre o exterior a imagem física de um lado, e a imagem espiritual pré-existente por outro lado (lg 84).
É importante sublinhar que estas duas realidades são apresentadas não como uma oposição, mas como estados do ser66, o corpo é neutro na mundividência de Tomé. A revelação de Jesus é apresentada em Tomé com caraterísticas únicas. Jesus é encarnado: ele é fundamentalmente “luz” (lg 77), mas também entrou no mundo como “carne” (lg 28).
Existe a noção de que o discípulo pode identificar-se com Jesus (lg 108) e o discípulo nunca deve chamá-lo “mestre” (lg 13), no entanto Jesus retém em si a transcendência. Ele é o agente da eleição (lg 23) e do juízo (lg 10; 16), os eleitos são seus discípulos (lg 55) e estão debaixo da sua liderança (lg 90) e todos devem dar-lhe o seu devido respeito (lg 100). De forma suprema ele é a luz acima de tudo e em tudo (lg 77).
Relaciona-se com o ser supremo divino como filho (lg 99) e recebe vida de outro ser espiritual feminino (lg 105).
46 Central para a cristologia de Tomé é a sua identidade como revelador, Jesus é a única fonte de revelação no evangelho (lg 38).
O formato do evangelho (Jesus disse…, Jesus disse…, Jesus disse…) chama a atenção para este ponto67, as primeiras linhas do evangelho estabelecem o significado desta revelação confiada a Tomé, que deve ser entendida corretamente como sendo um meio para escapar da morte.
O conhecimento é o tema central no trabalho interpretativo de Tomé. Aparecem várias variantes da palavra conhecimento no evangelho, sendo que das 25 vezes ocorrencias, 20 possuem um significado teológico68.
Há um forte foco nas palavras de Jesus como fonte deste conhecimento (lg 38). As referências em especial ao autoconhecimento são discutidas pelos autores; por um lado defendem a experiência profunda do autoconhecimento nas suas dimensões psicológicas69 e aqueles que relegam este autoconhecimento para a auto compreensão do ser no grande esquema teológico das coisas70.
A salvação depende deste conhecimento acerca de si próprio que Jesus revela no
Evangelho de Tomé. O estado de salvação tem sido retratado de várias formas, tais